A BIBLIOTECA DO MACUA

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii



LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



BELO MARQUES



Image of mnegracapa.jpg


BIOGRAFIA


     Texto integral, com pautas musicais, seguido de algumas ilustrações musicais com intervenção de instrumentos citados pelo autor. De realçar ter sido esta obra editada em 1934 e dela constarem ainda músicas anteriores à época de Gungunhana e histórias interessantissimas.


     INTRODUÇÃO



       NA música, como em todas as modalidades da arte, quando traça no papel, no bano ou na tela os primeiros sintomas de uma obra, o artista deve ir animado de uma idéia forte e real. É uma luz, síntese de todo o caminho a percorrer. É dessa primeira impressão que hão-de surgir as várias modulações para a devida animação de tal trabalho.
  Ao lançar a primeira frase, — e digo frase porque, toda a arte tem a sua linguagem, — o artista é um rei. Mas, logo que o esboço toma forma, o rei passa imediatamente à condição de escravo, obedecendo a um oculto dono. Essa entidade porém, pode ser perturbada e desobedecida porque outro factor se lhe opõe: a parte material. E, quando esta consegue, ainda que por momentos, exercer qualquer influência sobre o artista, a obra ficou irremediavelmente mutilada e, por isso, de fraca beleza e curta preponderância.
     O músico que queira construir um trabalho de qual quer tema folclórico, não deve abandonar nunca a sua harmonia natural e verdadeira; é esta a parte melindrosa da questão.
*
 A paisagem africana é rude, forte e grandiosa. Terra quente e febril. Respiram-se, de quando em quando, emanações estranhas duma flora vigorosa e berrante. Ali, um penhasco; além, um arbusto doentio que atira para o céu as suas braças sequiosas, espreguiçando-se em sonolenta febre. Uma ave que se levanta por entre a barulhenta ramagem; o salto de um animal espantadiço; o rastejar de um réptil misterioso. E, esta música natural e vibrante, entra-nos na alma e amortece--nos os sentidos. Passam por nós os sonhos nostálgicos das coisas; avassala-nos uma ânsia da vida que não vivemos. Saudades de um mundo que já foi... ou nunca será...
  É preciso sentir a África. É preciso mergulhar a alma nesta natureza estranha e forte, para compreender a música negra, que é a música da selva. Esta paisagem que parece, a todo o instante, rir da dor humana, atira-nos à cara o grito irreverente e vibrante duma alegria infantil, enquanto a nossa alma parece querer esconder-se envergonhada nas brumas da incerteza.
  Se o homem não fosse um arbusto que se desprende temporariamente da terra para fazer maldades: como se ouviria sem custo e sem o auxílio de instrumentos músicos a grande sinfonia das coisas da natureza!
  A arte, que é entre nós — criaturas perturbadas pela ideia egoísta — uma manifestação de dor, deveria ser mais alguma coisa do que as lágrimas que correm muitas vezes por exagerado amor de nós mesmos.
  Para o artista ser feliz é preciso que o mundo lhe reserve um quinhão tanto na vida material como no campo do amor. Não, esse amor contrariado pelo cálculo. Não, esse amor fugidio e infeliz que se nota, repugnante e imbecil, na maior parte das manifestações a que chamamos artísticas, cheias de desditosos lamentos e mórbidos suspiros. Mas aquele amor natural e fecundante, única força da alegria e da vida.
  Sim... a tristeza é um sentimento. A alegria é outro. É no meio destes dois polos que se acendem as ilusões.
  Da tristeza, é preciso cantar o que ela tem de justo e de puro. Da alegria, o que ela tem de Deus. A tristeza é uma impressão. A alegria um fluido.
  O mundo é belo. O mundo é bom. O mundo é qualquer coisa que nos assombra e onde a música desempenha o melhor papel. Sons produzidos pela deslocação de moléculas; vibrações mais ou menos combinadas, porque na vida tudo se combina neste concerto formidável que vai do átomo ao universo.
  Foi preciso ao homem o trabalho de milhões de anos, para arrumar no cérebro a incomensurável engenharia do tempo e do simpático.
     Alinhar, conjugar, descobrir, resolver milhões de problemas dentro de si mesmo, pondo em acção todos os seus maravilhosos sentidos para poder vincar em papel ou em pedra as suas impressões. Por fim, os instrumentos sonoros, desde a percussão ao tubo, depois à barra harmónica ou corda esticada. Tudo enfim lhe serviu e serve para trazer a nós a harmonia divina da grande mestra: a natureza.
  Fabricou instrumentos de música, melhorando constantemente a doçura dos seus sons; instrumentos arrancados ao coração das árvores.
  Alegrai-vos artistas: há-de chegar o dia duma vida melhor, numa combinação mais harmónica, quando o homem santificado por luta constante, na ânsia da ascensão, puder dizer: — Já não vejo no meu vizinho um inimigo. Os meus filhos cantam hinos à luz do sol porque acordaram dum sono sem pesadelos. Os meus ouvidos são como duas portas de cristal por onde entra francamente a harmonia do perfume das flores.
  Nesse dia, os músicos poderão pôr de parte os seus instrumentos, como os engenheiros põem de parte as peças duma máquina que se simplificou; e ouvirão, sem esse auxílio, a grande música dos astros, essa música que há-de servir eternamente de fundo à imensa mágica do milagre da vida.
  Este trabalho, princípio de um estudo sobre o folclore negro, foi realizado por iniciativa do «Rádio Clube de Moçambique».
  Aqui deixo patenteada toda a minha gratidão pelo valioso auxílio que desse admirável organismo recebi.


1º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
2º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
3º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
4º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
5º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
6º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
7º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
8º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
9º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
10º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
11º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
12º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
13º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
14º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
15º ESTUDO
Image of ball2_red.gif
16º ESTUDO
Image of ball2_red.gif



IMAGENS DE INSTRUMENTOS



ILUSTRACÇÕES MUSICAIS


Edição de 1934

TOP

Image of eth-bk.gif