9.° Estudo
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QUEM ouvir falar o preto, ou seja em
Landim ou em Muchope, e depois escuta as suas melodias, tem desde logo a
impressão de que a sua música surgiu da própria palavra. O preto, quando fala,
dá-nos por vezes a sugestão de que canta, e, embora o seu dialecto não seja
duma doçura bastante agradável, nota-se na sua articulação uma certa graça.
Tem a
língua negra umas sílabas graciosas que eles alongam como numa suspensão
musical. Os intervalos melódicos das suas canções acompanham precisamente a
palavra, tanto ria forma ascendente como descendente; isto é, nunca se encontra
um tempo forte musical sem a sílaba dominante da palavra.
Quem
procurar adaptar qualquer outra língua à música negra terá grande dificuldade e
nunca conseguirá imprimir-lhe a graça que ela na verdade tem em sua essência.
De resto, isto dá-se em todas as línguas e em toda a música.
Se qualquer tradução literária perde
muito da sua origem, na palavra musicada atinge essa adaptação deficiências
muito mais graves. A música tem uma grande filosofia, para a qual muito
contribui a palavra; não contando1 ainda com as múltiplas
deficiências da forma.
Um belo verso é já
por si uma composição musical. O compósito nada mais tem a fazer que contornar
um caminho previamente indicado pelo poeta.
Observemos este
pequeno trecho: vamos acentuar, para melhor compreensão do leitor, as sílabas
predominantes destes simples versos, e assim já podemos fazer uma ideia, entoando
o respectivo trecho musical, da forma como o negro constrói as suas canções.
O Chimbutana cbielé tsha
amba
A Chakuta ataíana ua cbone
A Ihanlhallaty jorreéta arttzilo...

Dissemos no estudo precedente, que o
Génio surge duma reunião de vontades que, subjugadas por um interesse novo,
foram criando ambiente para o ressurgimento. E tanto assim é que, se nós
observarmos o movimento intelectual, ou seja na mecânica, nas artes, e ainda em
todas as manifestações do trabalho, nada encontraremos de positivamente
original.
Até a própria
máquina, para a qual dedicaram, desde o camarteleiro ao cavador, uma partícula
do seu pensamento, não é um invento, mas sim uma realização. Igualmente nas artes,
qualquer forma ou ideia nova, nasceram de resultados obtidos até esse momento.
Por este facto chegamos à conclusão de que o criador foi apenas um belo intérprete
ou mesmo> digamos: o descobridor de novos caminhos.
Muitas vezes,
artistas de grandes conhecimentos e saber se quedam abismados pelas várias
manifestações intelectuais de gente simples. Estas não foram mais do que um
aglomerado de pensamentos até aí em marcha.
A arte... é um
assunto tão complexo que não nos chegariam muitas centenas de páginas para, em
simples palavras, fixarmos a nossa opinião.
Nas nossas
viagens pelo mato, observámos bailados que, desde a colocação dos braços ao
movimento do corpo, nos deixaram bastante admirados, porquanto cada gesto, cada
ondulação musical, quer entoando, quer em movimentos rítmicos, foi sempre uma
novidade para o que estamos habituados a ver. Ora, sendo como é sabido, que o
artista, a que chamamos criador, não passa dum maravilhoso intérprete, não será
possível que o que se atribui a este, seja o pensamento
de outrém?
Acontece muitas vezes que,
depois duma noite de extenuante trabalho, o artista, ao acordar dum sono
reparador, encontra uma beleza surpreendente na obra que realizou. Isto quere
dizer que é muito provável que não tenha trabalhado só, mas e talvez — quem
sabe? — com a ajuda daqueles que, por falta de
faculdades de exteriorização, se quedaram mudos, impelindo para o mesmo fim os
seus simples pensamentos. Isto é um pouco nebuloso. Faltam-nos mesmo
conhecimentos bastantes para o expormos em frases claras. No entanto, ninguém
poderá afirmar que, para a maravilhosa concepção da 9." Sinfonia, não
contribuísse por qualquer forma o padeiro que fornecia o pão a Beethoven.
Porque todo o homem que surge ao cimo da terra é um trabalhador. E, embora
inconscientemente, dá para toda a actividade humana tudo quanto tem.