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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO
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PREFÁCIO
Não nos parece que seja frequente reunir numa só obra a variedade de temas e
de episódios contidos em "OS SINOS DE S. BENTO". Nela, com efeito, partilhamos o fervor com que o autor
cumpriu a sua vocação de piloto comercial; vemos uma bela terra despertar para a riqueza, para a harmonia
e para o progresso e assistimos, finalmente, à tragédia do destino nacional traído. Moçambique - penosa
e crepuscular personagem central deste livro - é a substância fulcral em torno da qual se movimentam
os personagens, que ao exílio, à prisão e à morte pagaram o preço da alegria da audácia, da elevação
do ideal, da devoção do trabalho, porque o futuro se cumpriu no triunfo de um Portugal que debandou,
sobre a alma dilacerada do Portugal que soube resistir até à inacção, até ao mais genuíno e puro martírio.
Este livro fascinante participa da amplitude existencial do sino mais humilde e do carrilhão mais pomposo
- essas entonações, ao mesmo tempo contemporâneas e remotas, perdidas e redescobertas, que ao longo de
uma caminhada de quarenta anos vibram em solos ou em tumultos sinfónicos, que transcrevem, amplificam
e reproduzem as dimensões elementares do homem: a dor, a solidariedade e a exaltação. O Comandante
Faria Peixoto, ao decidir o título do livro, enriqueceu-o de uma intencionalidade plena de ressonâncias
simbólicas: o piloto-pioneiro sentia o ascender da profundidade da infância reencontrada, como uma música
dolorosa e doce, dilacerante e apaziguadora, aterradora e festiva. Esses sinos, que em seu coração ecoavam
nos lances alegres e trágicos da longa caminhada aventurosa, um dia, mudaram de tom, tocaram a dobre,
porque ele os ouvia - e nós os ouvimos - carregados das vozes inconformadas dos mortos, do suplício das
crianças, dos atrozes sofrimentos dos torturados: fúnebre e inconsolados, choravam, e choram, o vil futuro
de um país que foi digno. Todo ele repassado de uma simplicidade patética e deslumbrada, poderá dizer-se
que encerra a pureza, as lágrimas, a fecunda angústia que recriam e esgotam a vida, e que, como ela mesma,
se dissemina entre a colorida transparência do sonho e a imprevista brutalidade do destino. Aquilo
que Faria Peixoto nos propõe é, afinal, uma viagem, para o que nos alicia é para tomarmos lugar em dois
aviões distintos: “Tiger”, o primórdio, “Islander”, o remate. No primeiro vamos sentir o salutar sobressalto
do risco e descobrir a palpitante emoção do orgulho, pois que nele voamos sobre os “tandos”, as montanhas
e os rios ungidos pelo trabalho dos homens. No segundo, largamos da terra cativa, acenamos aos cadáveres
insepultos, aos dramas ignorados, itinerário para o refluxo inaudito. A melhor forma de explicar,
de o definir, seria dizer que todo ele, esse livro empolgante e trágico, mas igualmente tónico e sombrio,
rompeu a prisão da elipse, de um arabesco aéreo, no ponto exacto em que a vida recomeça, em que entreabre
a porta para a multiplicação das rotas que incessantemente recomeçam. Alegramo-nos, por isso, de convocar
os portugueses para a audição desta narrativa que, num transcurso quase oral fluindo para a calma
espera dos serões a que fomos condenados, para a pequenez a que confluímos, abre uma janela para a esperança,
e rasga uma perspectiva para a fé. Dificilmente, como em "OS SINOS DE S. BENTO”, os motivos de interesse
se multiplicam num registo singularmente rico de espontaneidade e emoção, porque nestas memórias de um
aviador, que foi dos mais celebrados e audazes de Moçambique, aqueles que não recriam os seus próprios
recursos, em cujos corações não retine o eco dos seus próprios dramas, se unirão aos projectos interrompidos
dos mortos e à inconformada tenacidade dos vivos, na comunhão da confiança que triunfou dos despenhamentos
e da miséria, da fuga e das lágrimas, da dor e da saudade. Mas para aqueles que não contabilizaram
as perdas, não se solidarizaram com os espoliados, não deploraram os mortos, não projectaram no mistério
da comunicação fraterna, uma luz no infortúnio dos cativos, este livro abre uma janela inesperada e apela
para uma reparação urgente, embora, flagrantemente, não seja essa, de forma explícita, a sua intenção.
Voar! Voar! Voar! foi inicialmente, o apelo que Faria Peixoto quis que chegasse, como uma intimação jovial,
ao mundo baço e desencantado de uma geração esgotada na marginalidade, molemente confinada à opressão
do desespero. Inicialmente, porém, a existência para os portugueses decorria bem diferente: nos antípodas
do rebaixamente, no reverso da penúria. No leito de um hospital, convalescendo do mais aparatoso desastre
de que também pôde triunfar, debatendo-se na dúvida de conseguir, com a vida que regressava, poder reiniciar
a sua carreira de piloto, começou a imaginar o projecto de confiar as suas memórias à generosidade aventureira
de uma juventude que se consumia em deleites mortais. As primeiras páginas, constituem, justamente, o
que então não constituía mais que o seu testamento de veterano. Neles se entoam hinos à liberdade do
espaço, se canta a beleza do mundo, mesmo quando esse mundo é o leito em que repousa uma irmã tísica,
mesmo quando esse mundo encerra, na densa crosta amassada pelo tempo, os amigos perdidos, sepultados
com os seus sonhos e as suas perplexidade s. Entretanto, enquanto voava entre serras, aterrava de
emergência, recusava tributo ao medo, o mundo, subtilmente, perfidamente, modificava-se, escoava-se entre
os dedos, perdia-se na fluidez sorridente de uma tenebrosa conjura. Teria sido, pois, desejável que o
testamento do autor fosse confiado aos portugueses com a graciosa puerilidade de uma história que encontra
o seu desfecho feliz. Já se sabe que desgraçadamente, Faria Peixoto não foi dado como inapto por uma
junta médica e que porventura não voltará a olhar, da florida casa de Vila Junqueiro, a frota, poisando
e levantando, como abelhas atarefadas, para sugar e elaborar o néctar da terra e do vento. Naquele
projecto inclui-se um drama, uma tempestade cósmica, fusilando coriscos, ribombando ódios, pulverizando
vidas. O leitor vai percorrer esse mundo fascinante e mortal, assumir a sua maravilhada ternura e
conhecer o seu nocturno epílogo.
ABEL TAVARES DE ALMEIDA
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OS CAPITULOS COM ALGUNS EXCERTOS
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Quando começa o grande entusiamo pelo "ar"
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A perda de um grande companheiro e a vida a prosseguir
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A miragem de ser piloto comercial da D.E.T.A.
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O grande desatre e mais alguns
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A aviação séria e a aventura
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E era a época dos pilotos aventureiros
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O grande surto de desenvolvimento em Moçambique
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Como acontece um desastre
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A terrível caminhada de um rapaz que quis ser "aviador"
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O fim! Moçambique atirada, precipitadamente, para o "abismo"
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A época de uma propaganda mentirosa para dar cabo de uma "nação"
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Acreditem: Moçambique ainda virá a ser um grande "País"
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Apêndice(Legislação não copiada)
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Edição de Outubro de 2001
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