3º ESTUDO

 

 

 

      DISSEMOS no estudo anterior, que a história do povo negro está toda dentro das suas canções. Cremos estar na verdade, porquanto não se passa um sim­ples facto que não seja imediatamente posto em música e em verso pelo negro. E, seja uma simples demanda entre dois régulos; uma guerra de tríbus; um ano mau de semen­teira; uma cheia ou uma seca; um crime ou um escândalo; nada fica esquecido para a sua história.

Enquanto os povos, a que chamamos civilizados, marca­vam antigamente a sua história em pedra, o preto marcava ao mesmo tempo a sua, duma forma mais poética e não menos verdadeira. Há apenas uma falta na história do ne­gro: são1 as datas, visto que o indígena não> tem a noção do tempo. E será isto uma falta?... Os factos passados, e mar­cados dentro do tempo, obrigam-nos muitas vezes a olhar para trás. Não será isto um atrazo na caminhada da vida?

 

A história negra tende a perder-se nos dias futuros, de­vido à intervenção do branco. O observador que viva algum tempo no interior da selva, ainda pode descortinar qual­quer coisa da sua música e da sua vida. Porém, vai sentindo um certo esbatido na verdade, à proporção1 que se vai afas­tando do mato e aproximando da civilização. Este facto, no que respeita à música, é duma sensaboria flagrante. Procurá­mos por esse motivo afastar-nos o mais possível das Missões estrangeiras, sobretudo das americanas, onde nos parece que se devia incutir no preto o gosto pela sua arte e pela sua toada, e não ensinar-lhe uma música que não se sabe de que raça é, sem vigor e sem beleza, que o preto canta com o mesmo sacrifício com que um doente toma uma receita. A música negra é alguma coisa mais que a Timbila ou a Ngomba. Há nesta música e no seu fundo, qualquer coisa de belo e de menos banal. Tem havido compositores que, sem nunca terem estudado este assunto, se permitem escre­ver batuques e canções negras, que satisfazem o grande público porque este o que entende desta música é o que se resume apenas num maço batendo sobre uma pele esticada.

Estudar a alma negra, observar com cuidado as suas ten­dências, os seus intervalos musicais preferidos, não é tarefa para curtos prazos. Uma simples melodia negra, nada re­presenta e nada vale, quando não vem amparada pela pró­pria harmonia. A melodia apenas, é uma vida sem alma.

A música que segue apelida-se em landim Guinha e quere dizer rapsódia. E geralmente acompanhada por um pequeno tamboril, em forma de urna, tirado da casca duma abóbora que existe no mato, chamada pinda. Este instrumento, de nome Chidequele, é colocado sobre uma forquilha tirada de qualquer árvore, convenientemente fixada no solo. É dum som característico e tem ainda a propriedade de ir agudando o som, do centro para os ex­tremos, o que dá um resultado surpreendente quando é to­cado por um daqueles virtuoses que, usando não só a ponta como também o cabo da baqueta, quási que consegue uma combinação melódica.

Este trecho a que podemos chamar «Dança do Ventre» é geralmente dançado por mulheres casadas. O sentido da letra é o seguinte:

Morreu o meu marido

Caiu a palhota.

 




Temos aqui uma outra canção do régulo de Manavane, da tríbu Macambane (região do Chai-Chai). É uma canção alusiva ao casamento, mas o que tem graça é a letra ser absolutamente estranha ao assunto:

As autoridades estão chamando Landim

                  E ele não quere apresentar-se.

Esta dança, de mulheres, tem uma marcação de pés muito rítmica mas o compasso é absolutamente diverso do da música.

Vamos observar um outro trecho da mesma região. É dançado com muita elegância por duas «Tombazanas» e dum efeito e graça cheios de imprevisto. Ë uma canção Machangane já com um pouco de influência Muchope.

O sentido da sua letra é muito maldoso e aconselha as pequenas a que se casem, antes que percam a cabeça e se entreguem a qualquer. É também, pelo que me foi dito, muito antiga.

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