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7-° ESTUDO
Canta-se na região do Chai-Chai, uma Motimba
(rapsódia), cheia de
espírito, da qual apresentamos o gráfico musical. Consiste este em seis motivos
históricos: o primeiro fala-nos de quando o negro é chamado pelas autoridades landins a enfileirar nas,
hostes do Gungunhana. O segundo fala de quando da partida dos guerreiros
de suas casas para o campo de concentração. O terceiro, refere-se à entrada nos respectivos quartéis. O
quarto, ao combate propriamente dito. O quinto, quando da volta aos
lares: uns cantando as suas dores, outros, os seus, feitos de armas.
Finalmente, o sexto fala de quando em festas familiares se reúnem nas recintos das suas machambas, e contam
as várias histórias e feitos levados a cabo por eles, exagerando, em vaidade desmedida as suas aventuras. Isto produz
uma certa hilariedade entre os grupos que os escutam, e protestam,
cantando e rindo, contra os vaidosos.




Alguns trechos, expostos nesta obra, são
muito curiosos e., à primeira vista, incompreensíveis.
A primeira voz, ou seja o motivo, é dado pelo solista, percorrendo-se assim um apreciável espaço de tempo em procura duma tonalidade pela qual o compositor possa guiar-se. Surge a segunda voz, emitida por outro grupo; põe-nos esta quási ao corrente da estrutura musical do trecho, mas ainda com indecisões sobre a cor tonal a tomar por base. Vem por fim a terceira voz, que tem a virtude de desnortear ainda mais qualquer compositor que, amparado pêlos métodos europeus, tem regido a sua maneira de escrever.
Estes trechos não nos deixam adivinhar uma tónica concreta e decisiva. Os intervalos em cada voz são sempre uma surpreza, deixando-nos indecisos em busca dum ponto de apoio.
Verdade seja que não há acorde algum inclassificável, mas estes estão expostos duma forma, que podem ter para nós, centenas de interpretações.
O TÊTEULEMBO
Aquela lagoa estendia-se pela floresta, docemente, como uma faixa cromada e divinamente bela.
Em noites de lua grande, quando o Penhana, poeta, abandonava naquela quadra de sonho, o seu airoso pangaio, à imperceptível corrente, cantando melopeias virgens como o segredo das flores, era quási sempre surpreendido pelas estranhas palavras das margens sombrias e magestosas daquele campo sem fim.
«Que buscas tu, Mufana?» «O amor desconhecido que ciranda nas vagas e que se há-de esconder, lá longe, por entre o bailado das sombras?» «Acautela-te, Mufana; lá no fundo, quási ao pé do céu, canta o Têteulembo- a infinita canção das almas destemidas e mata os homens dentro das suas asas de ferro. Não queiras escutar o Têteulembo que encanta muito mas adormece os sentidos. Nunca ninguém viu voltar aqueles que para lá partiram. Cautela, Mufana, que os sonhos são como os frutos que se desfazem na boca». Têteulembo... Têteulembo...

Mas um dia houve um Sfanhana, garoto destemido e filho de régulo, que resolveu, pela força do seu canto, dominar esse abutre rubicundo. E partiu...
Partiu, confiado na vitória e na virtude da sua arte. Viram-no partir as duas margens floridas da lagoa que, assombradas pela audácia, impunham silêncio ao coração da selva. Pararam lentamente ao longe as falas nostálgicas das Ngombas num intermitente soluçar de um estertor profundo.
«Têteulembo... Têteulembo... Escuta como eu canto; quero ver se as tuas asas voam mais do que as minhas. Não tenho medo de ti, Têteulembo... Têteulembo...».
E o Sfanhana lá ia com uma estrela em cada olhar que iluminava o rasto dorido daquelas submissas águas. A alma do Sfanhana, redonda como um mundo, rolou para as solidões da lagoa.
Ao outro dia, toda a gente da aldeia acordou mais cedo, ao canto cristalino do Sfanhana, que vinha radiante pela lagoa, com as penas do Têteulembo na cabeça, e no fundo do pangaio o Têteulembo vencido.
Desde então, não mais a noiva ficou sem noivo e as penas douradas do abutre assistem trémulas à consumação do amor...
Em noites de lua grande, quem viaja pelo interior da floresta africana, há-de ouvir, com frequência, o canto dum abutre muito parecido com a coruja, mas de dimensões enormes, que canta na sombra: Têteulembo... Têteulembo... Os seus olhos amarelos e redondos, olham desconfiados quem passa e, levantando voo para poiso mais distante e sombrio, vai cantando lugubremente: “Têteulembo... Têteulembo... Têtê… Tê…”