16.º Estudo
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O folclore Tonga, como se sabe, refere-se
simplesmente à parte do Sul do Save, sul da Colónia de Moçambique, única parte
que visitei. Mas a África é um grande Continente, onde os costumes variam muito
de província para província; por isso, todo este estudo e estas considerações
acerca do negro não podem ser interpretadas de uma forma geral e nem mesmo
estas canções e a sua análise
servirão para, de uma forma segura, chegarmos a conclusões definitivas. Há
muito que estudar, muito que ver e analisar por todo esse Continente africano.
Esta obra é apenas o início de uma jornada que eu encetei, correndo de terra
em terra como modesto estudante sem «sebenta».
Se eu não puder continuar esta carreira, entregarei,
de bom grado, esse estudo às mãos de outro músico que, como eu, sinta a ânsia
de desvendar o desconhecido e a necessidade de enriquecer a sua arte, correndo
à conquista de novas etapas. Prouvera a Deus que eu tivesse força ou meios para
segui-la sem parar até ao fim. Decerto, não hesitaria a meio da jornada!
Ao estudante de valor, costumam os Estados, e muito bem, fornecer
bolsas de estudo para países estrangeiros. Essas bolsas, infelizmente, quási
sempre magras, não têm trazido grandes resultados, a meu ver, no que respeita
a novas composições musicais. Esse facto julgo ser de
fácil explicação. Nos grandes centros civilizados, tais como Paris, Berlim,
Roma, etc., qualquer aluno dos Conservatórios encontra relativa facilidade em
ouvir grandes concertos e grandes orquestras. Pondo-se em contacto com novas
obras, novos conceitos musicais e novas formas pode, é certo, adquirir vastos
conhecimentos, e daí sair grande crítico, bom musicólogo e sobretudo grande
executante e director de orquestra, mas duvido que saia grande compositor.
(Calma, senhor leitor, que ainda não cheguei ao fim da minha
exposição).
Quando o aluno dos cursos superiores do
Conservatório completa os seus exames, com mais ou menos distinção, é porque
sabe. Se sabe, e conhece técnica e praticamente todos os segredos da harmonia,
toda a riqueza sonora dos instrumentos músicos e analisou profundamente as
partituras imortais de insignes mestres, o que lhe falta para produzir? A
inspiração. Mas, a inspiração vem de Deus; e, para lá chegarmos, não basta um
bilhete de primeira classe no expresso de Paris ou Londres... A questão de se
poderem ouvir belas obras e belas orquestras, é uma grande riqueza para o
recreio dos ouvidos e da alma; mas para o compositor mais alguma coisa, além
disso, será preciso, porque, para este obter qualquer revelação, são
necessárias, por vezes, impressões mais fortes, por ventura menos suaves e
menos belas e algumas vezes brutais.
Entrar
numa sala de concertos, munido de urna partitura, acompanhar a execução da obra
com os olhos nas pautas da música, é distinto... mas não foi para isso que o
director da orquestra subiu ao estrado nem que os executantes queimaram
muito da sua vida.
A música é uma oração que não se lê, mas que se sente. Quando se
aspira o perfume de uma flor, elevam-se os sentidos e não se acarvam na terra
a estudar o fenómeno da sua criação. Acompanhar uma bela sinfonia lendo a partitura,
é desprezar o que ela tem de divino, o que ela tem que não se pode ler, visto
que não está escrito no papel. Pode isto ser de grande utilidade para o
estudante, mas não demonstra grande sentimento musical. Terá esse ouvinte o
poder de desdobrar os sentidos, pondo-os à distância incomensurável que vai do
material ao espiritual? E mesmo que isso fosse possível, qual a vantagem, se no
silêncio do seu gabinete de trabalho, melhor pode analisar o mundo fantástico
de uma partitura ?
Para
se adquirirem conhecimentos, devem aproveitar-se todos os momentos da nossa
vida, bem o sei. Mas, em boa verdade, quando ouvimos uma bela obra, precisamos
pelo contrário, fechar todos os nossos sentidos numa ignorância absoluta e
deixar voar a alma em plena liberdade.
Que o músico necessita recrear o
espírito1 e por ventura a imaginação, ouvindo belas obras, não tem
discussão. Porém, é preciso conservar uma certa independência sem a qual não
se criam individualidades. — Ë um parecer muito discutível, dirá o leitor. —
Claro que é; e pode até acontecer que, com essas impressões fortes, e depois de
ter recebido todas as revelações que vêm, quási sempre, do fundo da alma
humana, o compositor nada consiga produzir. É porque ele, como eu e muitos, não
descobrimos ainda em qual expresso se embarca para q' país dos iluminados...
Por
esse motivo, é de aconselhar, aos compositores, um embarque até à nossa África.
Talvez, quem sabe?... É uma tentativa. O músico negro não fez da sua arte uma
profissão; a sua música, as suas melodias nasceram de um rasgo de sinceridade.
Tudo ali se encontra: desde o sonho doce de uma alma infantil, até ao grito
sólido da brutalidade.
Abrir o coração e sentir lá dentro toda essa melodia calma da
floresta; abrir o peito e deixar entrar o forte odor de uma natureza virgem...
Talvez... Quem sabe?
Não sentir este baralhar constante dos nossos sentimentos entre a
pureza e vaidade, nesta luta onde se mistura tudo, numa ânsia de superioridade.
O compositor, sobretudo, necessita fugir ao trabalho por encomenda e a prazo.
Se encomendarmos a um compositor pagão um «Sanctus» ou um «Kyrie»,
é o mesmo que dispor uma planta de grandes raízes num pequeno vaso; definha e,
por fim, seca. Até a mais ligeira canção só pode nascer de um estado de
espírito especial e, como um tremor de terra, nunca se sabe quando esse momento
surge.
Mozart
trabalhou muito por encomenda.
Bem o sei.
O próprio Sebastião Bach, também, trabalhou por encomenda.
Bem o sei.
E outros compositores de génio trabalharam por encomenda.
Deixavam-lhes, todavia, a maior parte das vezes, o assunto à
escolha; e aquelas obras que eram submetidas à vontade de outrém, o que têm de
bom, é terem sido escritas pela pena do mesmo génio.
As grandes obras imortais não foram
escritas decerto por encomenda. Quando esses formidáveis intérpretes as
escreveram, estavam submetidos à vontade de Deus e não à vontade de qualquer
príncipe ou endinheirado que as pagava, impando de orgulho.
No
século XX, este século em que tudo se produz em série, eu prefiro, em vez de me
embrenhar nessas partituras cheias de perturbações cerebrais, estudar a música
do negro e a sua harmonia. Mas afinal a harmonia negra não existe. Não há
harmonia negra nem branca. A harmonia é toda da mesma cor, de minuto a minuto,
rejuvenescida. E, para esse rejuvenescimento, creia o leitor, que muito há-de
contribuir, para o futuro, a música negra.
Abstenho-me
de mais considerações. Aí deixo este pequeno trabalho muito modesto mas onde
empreguei todo o meu esforço de boa vontade. Deve ter muitos defeitos e,
talvez, um mesmo assunto muitas vezes repisado, o que é um defeito literário
mas não um erro.
Ele não foi escrito para fazer literatura: e nunca é demais
repetir palavras que nos pareçam justas.