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15° Estudo
Apesar-de, em toda a
Província do Sul do Save, já hoje ser difícil destrinçar concretamente as várias
raças que a povoam, devido às muitas divisões e subdivisões provocadas por
guerras passadas, há ainda três raças que não perderam de todo a forma de ser
primitiva. São estas: a Landin, a Machangane e a Mochope. Esta última, que é a
mais artista das três, foi a que mais me interessou. Todo esse povo que se
agita desde Zandamela até Quelimane, povo forte e bem constituído, a despeito
da influência do povo Landim pela qual foi alguns anos dominado, sob a égide
de Gungunhana, é ainda hoje um povo forte, alegre, elegante e atraente. O preto
Mochope é, pelo que observei, um santo, e mais: um anjo. Um santo,
porque ingénuo; um anjo, porque tem voos de artista. Dá-se, porém,
este facto incompreensível: em redor das Missões estrangeiras, que têm sido lamentavelmente
muitas, já o preto é falso e traiçoeiro.
O preto tem uma
alma muito estranha. E para conseguirmos trazê-la à altura dos nossos hábitos,
necessário se torna muita bondade e profundos conhecimentos da natureza humana.
Às vezes, depois de apanharem um valente castigo, em nosso entender merecido,
ficam-se muito sucumbidos, com os olhos muito brilhantes, olhos de criança
ignorante, como que perguntando a causa do nosso desagrado. Entre a alma do
branco e a alma do preto há muito ainda por explicar. Uma grande noite entre
dois polos...
Ë interessante notar que, enquanto as
nossas lendas enaltecem, sempre, a beleza física e a virtude de coração dos
seus heróis, nas lendas do povo negro, os milagres e os prodígios surgem quási
sempre pela arte de cantar e pela virtude da dança.
Há uma certa raça, para o Sul de Chibuto,
de hábitos tradicionais muito singulares. Quando um filho de Régulo nasce com
um dente, terá de ser morto pelo próprio pai antes de completar treze anos de
idade. Quando o pai se recuse, terá que ser expulso da tribo. O filho só
poderá ficar se cantar ou dançar bem. Conta-se por lá a lenda seguinte:
Aconteceu um dia que um certo Régulo,
porque não queria que o seu filho mais velho fosse o herdeiro, fez constar que
o seu filho Mazalane nascera com um dente. O povo, porém, que amava o mufana
pelo seu desenvolto cantar, não quis acreditar no pai. Mas, uma noite, o
Régulo queimou o filho numa fogueira, dizendo ao povo que seu filho tinha
fugido. Mais tarde, este homem teve a fatalidade de lhe caírem, um a um, todos
os dentes da boca e morreu sequinho como uma perna de galinha.
Nesse
Regulado, existem hoje algumas árvores cuja sombra é muito fria e dizem que
percursora de muitos males. A semente, segundo afirmam os kokuanas, foram os
dentes deste rei. Por isso, hoje, os pretos chamam a essas árvores as árvores
dos dentes. Desta lenda, como não podia deixar de ser, nasceu uma canção cuja
letra tem o sentido seguinte: o Humbi (gafanhoto) comeu tanto que ficou
do tamanho de um boi.
Eis a música:

Nas terras de Manavane, da tríbu Macambane, assisti a um
bailado de guerra dos mais buliçosos que vi. Eram talvez uns cem bailarinos e
uns cinquenta timbaleiros. Os guerreiros, de peito ao léu, com os seus
orgulhosos Tschivangos nos tornozelos, enfiadas de barulhentos bugalhos,
e Sevandos nas pernas vivas e fortes. Um coro de umas mil vozes, entre
mulheres, homens e crianças, cantava hinos dedicados à valentia, num ritmo
surpreendente. A percussão irrequieta, rufava com a
raiva de um cataclismo que a presença de alguns garrafões de vinho fazia
crescer mais. O Régulo ao meu lado. As suas vinte e cinco mulheres, submissas e
acocoradas a seus pés, olhando estranhas para o marido que chorava: o que é
um caso raro no preto.
Comoveu-me aquela atitude, e
perguntei-lhe:
— Porque choras Macavane?
— Estou velho, não posso
cantar.
— Tu gostas de cantar?
—
Quando o preto canta, Chicuembo repousa... (Deus descansa).
Nas várias canções que ouvi
nesta festa, descobri um solo, cantado por uma rapariga, que como tema, é dos
mais belos que colhi.


Letra:
Morreu o meu marido
E eu estou agarrada aos
meus filhos,
Como uma pipa cheia de vinho
Que se não pode mudar.