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5-° ESTUDO
Para se avaliar a grande intuição do povo Muchope, vamos procurar
fazer um pequeno relato sobre um instrumento a que os indígenas dão o nome de Tchzveco. Este instrumento
é um pequeno tubo cortado duma cana especial que os indígenas afinam com
o auxílio da água, isto é: deitam-na, gota a gota, dentro do tubo, encurtando
assim a sua capacidade e, por isso, agudando o som até ao ponto desejado. Este
instrumento é tocado geralmente por Sfanhanas (garotos) que, duma forma
alegre, conseguem imprimir a esta combinação musical um certo espírito.
Perguntando nós a um deles se não
gostaria de afinar o Tchiveco com aguardente, respondeu-nos o brejeiro,
que nesse caso os Tchivecos seriam todos baixos.
Assistimos, nas
terras do cabo Binda, região de Zavala, a um concerto de Tchivecos. Ficámos
maravilhados, não pela beleza da música que, devemos dizer, não encanta, mas
sim pela facilidade alarmante com que estes rapazes conseguem, apenas com uma
nota cada um, combinar melodias sem interrupção. É curioso notar que, tendo*
cada um apenas um som como já disse, acontece que é forçosamente indispensável
muito ritmo e pronta decisão ao executante, para emitir a sua nota, muitas
vezes no tempo fraco, e até mesmo como partícula dum grupo de semicolcheias. Ë isto duma dificuldade tremenda que só o negro com a sua
paciência e a sua arte, pode conseguir. É também surpreendente a facilidade e
rapidez com que eles, com o auxílio duma garrafa que colocam no meio da roda,
conseguem afinar para os vários trechos musicais o seu enfeitado Tchiveco.
Pela melodia que a seguir apresentamos,
podem os leitores apreciar a dificuldade de tal execução:

Como se vê, os Baixos
caminham quási sempre em ritmo diverso, assim como o Chuço, que é um instrumento que faz
lembrar a roca das crianças, construído da casca dum fruto, bastante seca, e
onde deitam umas sementes quaisquer, que o
Sfanhana agita numa cadência perfeitamente metronómica.
Queremos ainda tratar, neste estudo, dum
outro instrumento a que dão o nome de Nstende, ao qual os europeus se
habituaram a chamar harpa indígena.
Tem este instrumento a forma do arco da flecha, e este arco
é tirado duma árvore que se chama Badlha. Foi escolhida esta por ser de
natureza maleável e ainda porque resiste,
sem empenar, às intempéries africanas. Esta vara é forçada a arquear
pela pressão dum fio metálico que se liga de ponta a ponta da mesma, e a que
nós podemos chamar corda ou barra harmónica.
A mesma corda, como os leitores poderão
observar pelo desenho apresentado, é interceptada, pelo meio, por uma
perpendicular igualmente metálica que se vai ligar a uma espécie de pequeno
púcaro que, preso à lombada do arco, exerce a função
de caixa acústica.
Os indígenas
tocadores deste instrumento, que são geralmente velhos, colocam-no duma forma elegante e em sentido
diagonal. Fazem passar a corda da Nstende próximo dos lábios e,
tomando-a peto centro com a mão esquerda, regulam o som com os dedos, tendo o polegar o mais importante
trabalho porque se desloca frequentemente da parte superior para a inferior da
corda, divididas pela pestana. Isto é feito com uma rapidez surpreendente.
A doçura dos sons da Nstende resulta
da delicadeza com que O' executante bate com um pequeno ferro em determinada
parte da corda. Quando o tocador precisa, por exigência da composição, obter
um grave, solta por um processo muito engenhoso a pestana, deixando vibrar a
corda em toda a sua extensão.
Tivemos ocasião de ouvir um virtuoso da Nstende,
que com uma posição fixa dos dedos fazia ouvir, pela virtude da pancada e
também com o auxílio dum ténue bafejo sobre a corda, toda a ordem dos
harmónicos.


São geralmente dolentes as melodias
acompanhadas pela Nstende; porém, muito graciosos os ritmos do acompanhamento,
que produzem um contraste bastante espirituoso.
Na região de Inharrime no regulado de
Gamba-Pequeno, que fica a 45 quilómetros da vila, ouvimos um grupo de
simpáticos velhinhos tocando a Nstende num conjunto enternecedor e
comovente. E, desde então, ficámos respeitando ainda mais a música, porque nos
parece ser o único elemento no mundo que tem o poder de aproximar as
almas e abater o orgulho injusto das raças.
Temos a impressão de que o artista músico
modela a sua alma pelos sons do seu instrumento. A alma do músico tocador de
pratos deve ser uma alma metálica, áspera e de acanhado volume.
A alma do violinista deve ser branda e
doce apenas com hesitações nos seus voos. A alma do tocador de bumbo deve
ser assustadoramente fechada.
Estamos certos de que, por esta análise,
chegaríamos a conclusões, vagas bem o sei, mas um pouco interessantes, acerca
do mistério da criatura humana. O espírito está sujeito como a matéria, aos
aleijões do hábito.
Veio isto a
propósito de que, no meio de grupos de velhinhos tocando Nstende, nós sentimos qualquer coisa de
mais puro, um não sei quê de mais doce no olhar desses indígenas. Ë que aquele
instrumento tem uma sonoridade muito linda, meiga e
consoladora.