11° ESTUDO

 

 

       O Régulo Filipe Madumane, na região de Zavala, vive numa casa de pedra e cal. Possue um escritório com uma máquina de escrever, uma secretária mo­derna, reposteiros e quadros pintados por ele. Homem de uns quarenta anos de idade, com alguns conhecimentos lite­rários, tem vinte e cinco esposas, das quais a mais nova deve ter doze anos de idade, e uma enfiada de filhos a quem ensina a ler, a escrever e a cantar. A cinco filhos já mufanas (rapazes crescidos) ordenou o Régulo que cantassem para eu ouvir, uma canção que inventaram em minha honra.

        Não tem esta canção novidade alguma, pois se lhe nota já uns laivos de civilização e é pouco original. Porém, a letra, feita pelo filho mais velho, não deixa de ter graça, pelo fundo moral e pela construção pretenciosa.

        Eis a música cantada a 4 vozes:

 

Letra.

 

Eu garanto. Eu garanto.

Perante o Senhor. Garanto.

Quando sou mandado, obedeço

Tenho respeito pelos grandes,

Pelos portugueses.

Amo a minha terra.

Amo a República Portuguesa.

Tenho respeito pelos grandes;

Tenho   respeito   pelos   professores.

A tudo quanto é superior a mim,

Obedeço.

E como isto é verdade,

Eu garanto. Eu garanto.

Numa manhã, o Régulo organizou um grande Batuque em minha honra, composto por muitos timbaleiros, muitos coros e quatro desenvolvidas bailarinas, uma das quais, mulher dele.

Eis as canções tal como as ouvi:

 





 

Letra:

 


A Dudumaiane não pára com um marido;

Anda sempre a mudar de homem e de amigo.

Por isso já ninguém a quere comprar;

Ninguém dá um boi por ela, nem um corno..

                                  (ESTUDO   N.°   11 — 3 —)

                                 OUTRO   CHÓPO





     Letra:

A minha madrasta está queimada.

Quando chove temos que tapar o cesto

Para fazer papa.

Os chópos é uma dança muito parecida com a macessa landim. São geralmente dançados por tombasanas (rapari­gas novas). Formam uma roda grande dentro de outra maior, constituída por mufanas, que marcam com palmas frenéticas os vários ritmos desta dança-canção.

Elas, as tombasanas. de saiote curtinho, a que chamam tschuaca, feito de uma giesta naturalmente doirada, vão duas a duas ao centro da roda, movendo as ancas e agitando os seios, desafiando e provocando os mufanas.

A canção que segue é do Regulado de Mana (fica a quarenta e cinco quilómetros da vila para o interior do mato), foi cantada por kocuanas. Ë de um sabor melancólico, mas de uma cadência muito graciosa.


 



 

Letra:

Sou a única que vive de toda a minha família.

Já não tenho ninguém.

Já não tenho um amigo.

E ando, pelo mundo, a varrer

As cinzas dos mortos...

Segue uma outra canção a duas vozes, cantada por um enorme grupo de raparigas.

 



 

Letra:

Meu irmão tocava melhor m´bila que os outros tocadores.

Eles de inveja, mataram-no.

Uma outra, cantada e dançada pelo mesmo grupo, au­mentado por velhas e rapazes.





        Sentido da letra.

 

Elas: O meu marido morreu.

Agora os filhos dos outros são meus.

              Eles: Às armas, às armas...

Não somos só carregadores de mandioca.

     Esta canção foi acompanhada, com muito espírito, por um Chequitze, instrumento de pele, de pequenas di­mensões e muito sonoro. É tocado com quatro baquetas, duas em cada mão do tocador. Estas baquetas são de diferentes grossuras, para assim adquirirem vários efeitos de ritmo.

É de bastante dificuldade conseguir um gráfico exacto para esta música. Eu bem sei que o indivíduo, que se propõe estudar folclore, não precisa gravar fielmente, como uma máquina fotográfica, o que ouviu, mas sim observar, com todos os sentidos, o fundo geral da questão. Melhor, se houver possibilidade de reunirmos todos estes elementos, o mais exactos possível; mais fácil se torna, por eles, uma análise verdadeira, aproveitando alguma coisa de novo que possa por ventura vir ampliar os nossos conceitos sinfónicos e as nossas partituras.

Ao negro da América do Norte deve esse país uma transformação profunda na sua música. Já António Dvo­rak dizia que a música negra viria a dar a base a uma nova escola musical. Também Arvey e Grant Still dizem que a música negra, quando ganha os corações, não os larga mais.

Se a maior parte dos compositores americanos não tives­sem, ou por uma questão comercial ou por uma forma de sentir, sujeitado toda a toada negra ao ritmo metronómico da dança, já hoje a música negra teria conquistado o mundo inteiro.

O «swing», que nós ouvimos no «Jazz», em que se revela a alma sonhadora do negro, não é de forma alguma gros­seiro ou banal.

Os compositores portugueses têm ali, na nossa África, uma fonte inesgotável de inspiração; e todos esses cantares bárbaros, esses temas exóticos mas puros, podem abrir as portas a elevadas sinfonias, podendo ser enaltecidos pela ri­queza dos nossos instrumentos e a nossa civilização.

Se o compositor, nas horas do seu trabalho, der à sua obra todo o coração, despido de vaidades, alguma coisa de Portugal lá ficará impressa. Ser original: é ser verdadeiro e sincero.

VOLTAR