13-° Estudo

 

 

 

 

      O Chichavanho, ou Tschivango, é o escudo com que os guerreiros negros se defendiam das  lanças inimigas.

Ë geralmente feito de pele de cudo, curtida ao sol de muitos meses, o que a torna muito rija e quási imperfurável. Tem uma forma oval e é preso por um varão de aço pelo qual o negro o segura.

No Regulado de Cande, terras do Cabo Guni, região de Zavala, assisti a um bailado por dois velhos guerreiros, que se bateram ao lado do antigo Régulo Chiavane, contra Gungunhana. Estes homens, a meu pedido, cantaram e dança­ram a mais velha dança que a sua memória lhes permitiu. E, a-pesar-de velhos e dos seus movimentos serem um pouco pesados, ainda pude descortinar a graça, a vivacidade e a elegância rítmica dos seus gestos.

As duas lanças, os dois Tschivangos, por vezes desapa­reciam por detraz dos troncos das árvores, reaparecendo em saltos bruscos no meio da clareira. Quatro olhos brilhantes como lanças pulidas, numa mobilidade de fera ferida, fita­vam-se atentos, prevendo o ataque e pensando1 na defesa. Reflectiam-se no seu olhar, agora já da cor de sangue, mil sonhos de grandeza e de domínio. E aqueles homens canta­vam; cantavam imprimindo a essa toada toda a tragédia da sua raça.

Tiniam os Tschivangos nas suas coxas de bronze, mar­cando assim o ritmo certo, sem o qual o preto não pensa. Espectáculo estranho e impressionante. A par do «baque» seco das lanças, batiam dois corações de ferro, saudades irreprimíveis de tempos idos; duas almas rudes, sufocadas pela poeira dos tempos.

Fui obrigado a intervir, prevendo um final desastroso neste combate, e mandei parar a dança, pondo assim um dique àquele entusiasmo selvagem, que jamais se me apa­gará da memória.

Eis a música.

A história. O Régulo Guelane, pai do Régulo Canda, foi sentenciado à fogueira por Gungunhana.

Verso:

O Régulo foi morto por Gungunhana.

Nós acabaremos ao lado dos Vátuas.

Chian-ao chinhamasane, meus irmãos;

Choremos pelos kokuanas (velhos) de Encanda,

Morreram na guerra de Manjacase.

Tu Zandamela (vila) inhautembe (Deus) .

Mataste o Guelane porque era rei novo,

Que ainda não tinha idade para morrer às tuas mãos.

Oh! Desventura! somos vencidos por outros!

 

 

Ouvi, no mesmo Regulado, a um grupo de mamas kokuanas (avós), numa roda muito divertida, esta interessante canção:





 


O sentido da letra:

       Vieram os portugueses e o Gungunhana fugiu.

       Estamos fartos, estamos contentes porque já temos muita comida.

       Dantes, a miséria entrava em nossas casas e passávamos fome.

       Agora não, somos felizes.

       O feijão quando pila, canta:

       Chó — chó — chó — chó — chó...

 

Antes de partir para o mato, onde permaneci muito pouco tempo em relação ao que seria preciso para mais com­pleto estudo, procurei consultar, nas bibliotecas, quaisquer obras que porventura existissem sobre o assunto. Infeliz­mente nada encontrei digno de nota, porquanto, o pouco que há, resume-se apenas numas áridas melodias que, por falta de amparo harmónico, nada significam e nada dizem.

Percorrer terras em busca de cantigas, escrevê-las e divul­gá-las: é alguma coisa, mas é muito pouco. Ao compositor compete um trabalho mais subido e mais profundo; a não ser que se satisfaça com o ser apenas um coleccionador.

É pela afinação dos instrumentos populares; é pela forma como se canta e sobretudo pelo seu fundo harmónico, que se pode ajuizar do espírito, do temperamento e da alma de um povo.

Esse ceguinho do Regulado de Mindú, de quem falei, construiu um poema da sua imaginação a que chamou LhanIhalatty (Aranha de mil pés). Perguntei-lhe, alarmado, por­que dera esse nome à Timbila, ao que ele respondeu:

«Pelos troncos (dessas plantas curtas, cujas folhas são secas como papel, brincam as Lhanlhalatty, fazendo ouvir no silêncio da noite sem lua, um canto de formigueiro em guerra. São as pernas da aranha que roçam pelas folhas sonoras dos arbustos; e Chicuembo escuta... e Chicuembo gosta» (Chicuembo = Deus).

Este ceguinho nunca saiu do seu Regulado. Não sabe que nós, gente civilizada, escrevemos o que cantamos. Não sabe que temos escalas e leis de harmonia. Quando lhe disse que estava escrevendo o que ele cantava, ficou cheio de pas­mo! E mal sabia ele que mais pasmado estava eu, pelo grande milagre da sua alma que eu julgava cercada de trevas.

 

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