1.° ESTUDO

 

 

REGIÃO DOS MUCHOPES (MANJACAZE)

 

ESTA região, que se apresenta rica de cor, é talvez urna das mais bonitas do sul da Província de Moçambi­que. A Natureza depara-se-nos mais exuberante de vegetação e talvez menos bárbara. Os crepúsculos duma cor nostálgica, tornam os naturais um pouco melancólicos e sonhadores, a julgar pelas palavras das suas canções que são duma suavidade e duma ternura surpreendentes.

Tivemos ocasião de ouvir algumas por vários grupos indígenas, numa pequena festa organizada para nosso es­tudo. Vamos citar e explicar o melhor que pudermos as que colhemos, com aquela atenção1 e cuidado que merece tal trabalho.

Começaremos pela mais alegre, que é uma canção de mulher, ou por outra, da  mulher, isto é: quando a menina passou a ser senhora e, radiante, procura o noivo desejado.

nota. — Todos os termos em landim, empregados nesta obra, foram escritos dentro da forma portuguesa.

                                                                                

Esta canção, pelo que nos foi dito por uma velha e traduzido por um cipaio, é de muitos anos anterior à invasão landim sob a égide do Gungunhana.

Abre este trecho, um solo por voz feminina, que é logo seguido por um coro muito ritmado e bem definido. A tra­dução que à letra pouco dá, tem o seguinte sentido:

Cantemos muito contentes. Vem, ó meu companheiro, que já estou feita para o amor.



Estas nossas palavras, a que procurei imprimir o sentido verdadeiro, encobrem é claro, aquela verdade nua e crua com que os poetas indígenas constróem os seus versos, for­temente bárbaros mas não faltos de beleza.

O povo muchope ainda hoje faz sentir nas suas can­ções uma certa tristeza pela perda do seu domínio. A canção que vamos apresentar, tem aproximadamente 50 anos. Sente--se nela uma espécie de revolta e ao mesmo tempo decisão.

Aí vai a tradução segundo o sentido:

Segura bem o Landim. Não o deixes vencer as nossas famílias. Segura bem o Landim, coragem.

 

 

Porém, logo outra surge com o desalento e a renúncia.

Não posso lutar com Mungon,  Mandsite é mais fraco

Não posso lutar com Mungoni, Mungoni tem muita força.

 

Há uma grande dificuldade em escrever com precisão esta música porque a maior parte da toada negra é cheia de imprevistos e a muito custe se conseguem sinais e orna­mentos musicais para boa compreensão e fácil leitura. Fo­mos por esse motivo obrigados a arranjar para nosso uso, muitas, abreviaturas, gráficos, pontos, de referência, assim como por exemplo, para o quarto de tom, que se nota geralmente a seguir da tónica quando esta cai em tempo forte e é precedida da mediante e também da quarta au­mentada.

Esta canção é uma das muitas que nos tem feito hesitar, porque os milhares de sinais que se usam na música civilizada, não chegam para as exigências da música negra.

Há uma infinidade de canções da despedida do negro quando vai para o Rand. Mereceu-nos particular atenção uma destas, já pela letra que é duma forte vibração, como pela música cheia de cor.

Eis o sentido do verso:

SOLISTA               Vamos lá para cima

                             Que é grande terra e dá muito pão

 

CÔRO                    A nossa terra é tão boa como as outras.

                             Toda a terra é boa quando dá trabalho.

 

SOLISTA                Vamos, vamos, adeus.

 

CÔRO                    A terra lá de cima é boa.

                              Mas a nossa também o é.

 

 

Temos aqui uma outra canção muchope, que não sabemos de há quanto tempo data, mas deve ser muito antiga, visto que os velhos pretos dizem que quando eram pequenos a ouviam à sua Mamã, e esta à Mamã Kokuana (avó).

Esta canção, a que podemos dar o nome de Canção dos Mortos, é cantada quando morre alguém, pelos amigos que em visita à casa do morto choram com a família do defunto. Tem também um solo, geralmente cantado pela mãe ou pai do morto, logo seguido dum corro dolente e aflitivo.

A letra, em forma de balada, tem um grande sabor e uma filosofia digna de atenção:

                                                       Não sei que te matou

                                                       Nós não sabemos quem o matou

                                                       Não sei quem te matou

                                                       Se eu soubesse quem foi

                                                       Também o mataria

                                                        Nós não sabemos quem o matou.

 

 

Há uma cantiga landim e muchope que se vem ouvindo aproximadamente há 30 anos e é cantada geralmente quando o preto vem do trabalho. Consiste esta em dizer mal das autoridades civis, pela violência das suas leis.

Esta canção desperta muita hilariedade nos ranchos e é dum sabor musical muito gracioso.

 

Ainda outra canção, que nos parece das mais curiosas que ouvimos. É uma criação puramente muchope e data de há 54 anos. De feição alegre e de regosijo, motivado pela morte dum régulo chamado Cambane, que segundo dizem os indígenas velhos, era muito mau, déspota e traidor.

Vamos observar a ideia do verso:

 

Foi bom morreres, porque agora

Somos todos uma família.

Quando eras vivo, nós viamo-nos afastados

E em abandono...

 


 

Esta raça é duma psicologia muito estranha e por vezes dum sentir tão diverso da do europeu, que escapa à aná­lise do observador mais experimentado. O negro tem uma forma absolutamente diversa de exprimir alegria ou tris­teza. Inúmeras vezes esbarramos com os seus paradoxos altamente desconcertantes. Ou seja numa canção, numa frase ou num gesto, tudo nele é vago e incompreensível como a noite. Eles têm canções alegres que nós só sabe­mos que o são, pelo sentido do verso. Ao contrário, ex­primem muitas vezes a tristeza, numa música que à nossa sensibilidade se nos afigura risonha. Que grande religião é a música...

O ritmo das canções negras é outro problema de igual importância, devido aos seus compassos, que irritam quási sempre a noção simétrica que nós temos do tempo.

Não há frase musical alguma para a qual se não possa estabelecer um compasso: Bem o sei. Porém, há tanta difi­culdade em achar ou marcar o tal compasso dentro do ritmo negro, que o artista europeu terá que sustentar uma enorme luta contra a sua raça, contra a sua própria essência e o seu poderoso princípio: a natureza.

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