ESTUDO

       ENTRE os vários defeitos do povo indígena, não se en­contra por certo o defeito da inveja ou o da avareza. Tem o povo negro uma acentuada noção do auxílio mútuo e uma grande atenção pela dor alheia. O preto olha com admiração e um certo assombro para a grandeza, mas nunca no seu espírito entrou qualquer parcela de cobiçoso despeito.

       No campo do amor, é o indígena pouco propenso ao ciúme mas muito zeloso dos seus direitos. Vulgarmente a mulher é quem trabalha, e chega a ser, por vezes, duma sub­missão confrangedora. Um dia, no mato, aconteceu que um homem repreendeu sua mulher por esta não ter feito a comida a tempo: e, embora não tivesse sido áspero, ela, sem procurar defender-se, dirigiu-se a uma árvore e enforcou-se! Os pretos que vão contratados para o Transval, traba­lham, como se sabe, seis meses consecutivos. Quando de volta, pagam o imposto da palhota, compram mais uma mulher se podem, e ficam os outros seis meses em descanso, passando o tempo a cantar e a ensaiar os seus bailados. São felizes porque de nada mais necessitam.

O indígena trabalha a cantar. Este facto, só por si, en­cerra um mundo de filosofia. É claro que, se o trabalho é pesado, as suas cantigas são naturalmente dolentes mas num ritmo sempre igual, o que dá um resultado apreciável. Por isso há sempre, seja para que qualidade de trabalho for, uma canção.

Uma outra característica do negro, é o amor pêlos filhos, notavelmente mais acentuado, da parte do pai. Se, por qualquer divergência a mulher abandona o marido, este nunca abandona os filhos tendo, é claro, o cuidado de exigir o dinheiro que pagou por ela aos pais.

Outra particularidade estranha: quando a mulher é com­prada, torna-se propriedade do marido até este morrer, fi­cando por esse motivo pertença do irmão mais velho, ou seja do cunhado. Caso este não exista, ficará propriedade do sogro se ainda vive, e, não havendo herdeiros, pode a mulher considerar-se livre (l).

Confessemos, porém, que, a-pesar-de poder comprar quantas mulheres estejam ao alcance da sua bolsa, o negro tem sempre uma preferida pela qual se sacrifica. O cora­ção humano é igual em toda a parte do mundo.

O amor, esse fenómeno que tanto tem feito pensar os poetas e os filósofos, não é mais do que a atracção por simpatia de dois seres cuja sensibilidade afina pelo mesmo diapasão, ou seja o mesmo número de vibrações. Isto é fatal em todos os seres animados. Por isso, o amor mais puro é aquele em que a natureza opera em toda a sua força sublime, não dando tempo ao cálculo nem aos conceitos puramente convencionais que a tanto crime conduzem a criatura hu­mana.

Quem observar o idílio amoroso entre dois namorados indígenas, ficará, por certo, surpreendido pela simplicidade das suas falas e também das suas combinações. Não se en­contra ali, nada de contrafeito, nem aqueles gestos estudados que nós costumamos usar para com aquela que desejamos, encobrindo assim alguns dos nossos defeitos que, mais tarde, podem ferir de morte a nossa vida conjugal.

O negro não procura ser original, nem nos seus actos, nem mesmo na sua música, porque isso, como sucede entre nós, dá sempre um resultado contra-producente. A música do negro é espontânea como ele. Eis por que o preto tem sempre alguma coisa de novo na sua arte, visto que a cria­tura humana é já por si uma originalidade.

O facto do preto comprar a mulher nada significa, nem o deve deminuir no conceito que se forme a seu respeito.

Os contos populares da gente negra são outro assunto que merece a nossa atenção, pela beleza surpreendente e pelo conceito muito moral, repleto de ternura. Um destes contos, que deu motivo a um poema musical tocado por uma Timbila, nas terras do cabo Ganda, região de Zavala, é o seguinte: — Chimbutana (cabritinho) foi acender o lume para fazer o jantar para o pai, mas depois foi brincar e entreteve-se por entre o mato descuidosamente. Por isso, o lume começou a apagar-se pondo em risco o tal jantar que o comilão do pai nunca perdoava ao filho. Uma Lhanlhalaty (aranha de mil pés) que passava por acaso, vendo a fogueira do cabritinho a perder a vida, comoveu-se e ateou-a com um grande sopro, indo em seguida à sua vida e dizendo: — <Deus queira que o Chimbutana não seja castigado pela sua falta de cuidado e a sua brincadeira». E esteve quási a sê-lo, porque um Ngonhama (leão) ao ver o cabritinho, deu um salto, abrindo a boca para o filho; mas enganou-se. Conseguiu apenas apanhar um mergulho, e sabem porquê? Porque o Ngonhama julgando ver o Chimbutana, apenas via a sua imagem no fundo duma lagoa. O cabritinho, cheio de susto, recebeu este jacto como um aviso, e voltou a correr para jazer o jantar ao pai.

Outro conto: — Nkazimo Nhadenguele era um feiti­ceiro que tinha o condão de se tornar desconhecido quando  queria, o que o fazia bastante temido por toda a gente da aldeia. Um dia, encontrou o seu filho Penhana (pastor) que sentado à beira dum lago, cantava descuidadamente. Nhazímo Nhadenguele que tinha também o condão de atrair a si os animais, devido ao seu canto estranho, sem que o filho o reconhecesse, comeu-lhe os bois todos e desa­pareceu. O Penhana, chorando, dirigiu-se a casa e contou ao pai o que lhe tinha acontecido. Nhadenguele, não se dando por achado, ralhou muito ao filho chamando-lhe medroso, e como não queria cobardes na família, resolveu queimá-lo numa fogueira. E assim fez. Quando o Penhana estava já em cinzas, o pai, para que ninguém o soubesse, levou-as num ntzava (açafate) e deitou-as ao lago. No outro dia Nhazime Nhadenguele foi para beber água e encontrou o lago todo negro. Por este motivo, procurou um vaso com o qual retirou dali as cinzas do filho, indo deitá-las a vinte léguas de distância. Quando voltou, viu que o lago estava como se nada tivesse tirado dali. Ficou muito pensativo e por fim disse: —«Não faz mal, vou beber esta água porque o que se come com a boca não nos mata, mas sim o que .se come com os olhos...» — e bebeu-a. Porém, quando chegou a casa, sentiu que alguém cantava dentro de si mesmo, e escutou estas palavras: — «Cala-te que os meus bois hão-de vir cobertos de pele de Igugué (tigre)» — Esta voz era tão forte e vibrante que toda a aldeia a ouvia, vindo todos a saber quem cantava. — «Diz-nos lá, Nhazimo Nhadenguele, quem é que está a cantar?)) «Ninguém», respondeu este; «isso é ilusão vossa». «Não é ilusão. Alguém canta na tua barriga e por isso vamos abri-la». —- E assim fizeram. Logo que findou a operação, Penhana apareceu cantando, e os bois vieram do bosque, dentro de peles de tigres. Nhazimo Nhadenguele perdeu o feitiço e Penhana foi elevado a régulo.

 

   (1) Todos estes costumes indígenas estão, por mor da missionação católica, a ser modificados, pois o sentido civilizador português não pára.

 

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