ESTUDO

Z A V A L A

 

       Vamos pedir desculpa ao leitor, porque somos obriga­dos a fazer uma paragem aqui por algum tempo, armando a barraca desta campanha musical e desen­rolando a película impressionável do nosso sentir, para a revelarmos no banho da Natureza.

Há-de haver, por certo, quadros desfocados e outros com falta de luz, mas a culpa não é nossa; há impressões tão fortes que perturbam a objectiva, quando esta não está regu­lada ao infinito e, para lá chegarmos, é curta a pena e po­bríssimo o verbo.

Zavala é uma linda povoação situada num pequeno pla­nalto. Foi daqui que gozámos a melhor paisagem africana que ainda tínhamos visto. Uma forte vegetação florida, num matiz berrante e doce. Lá muito em baixo, uma lagoa de enormes contornos caprichosos dorme, azul e mansa, como um pedaço de céu visto ao contrário. Mais longe ainda, a floresta misteriosa e austera cujos segredos nem o sol conhece. E, ainda lá mais ao longe, o oceano... Depois disto tudo, fecham-se os olhos para ver o mundo...

A alma do preto de Zavala é um pedaço desta natu­reza, que se agita, murmura e canta a canção eterna à eterna transformação da vida.

O preto de Zavala não aprendeu música; apreendeu-a. Não teve o trabalho1 de estudar as mil e uma combinações de sons, com cifras, pontos, intervalos convencionais que por vezes tanto prejudicam o1 génio. A música do preto de Zavala veio-lhe das suas árvores, do seu solo, dos seus rios, das suas fontes, e ele, sem mais trabalho que interpretá-la, nasceu a cantar. Por isso a alma desta gente é boa, canta e canta sempre. O preto é dócil como uma criança, mas uma criança a que se não devem ensinar muitas coisas, porque acaba por raciocinar demais; e, fora do seu âmbito, a alma vacila e faz-se má.

No regulado de Mindú que fica a 70 kls. para o inte­rior do mato, tivemos ocasião de assistir a uma festa que durou das 20 horas às 2 da madrugada. Eram aproximada­mente mil indígenas entre homens, mulheres e crianças, e apenas um branco para testemunha. É bom notar que, apesar da grande seca que destruiu completamente todas as sementeiras, apesar da fome que transparecia nalguns ros­tos, esta gente cantou e dançou sem descanço. E, com o en-tusiasmo1 dos grande artistas que não marcam horas para serem felizes, os homens marcavam, numa cadência rítmica, os seus bailados de guerra, acompanhados pela doce e nos­tálgica Timbila, composta por cerca de 50 timbaleiros, diri­gidos por um chefe que, cèguinho e poeta, entregava toda a sua alma às 15 barras de mangue. Naquelas órbitas vazias, a lua punha rubros lampejos de génio... Tudo isto feito naturalmente, sem vaidade ou desvanecimento, apenas por­que são artistas.

O régulo, velhinho e muito doente, movia-se na sua cadeira de palha e marcava com os seus pés descarnados, o alegre compasso.

Não sofria...

 

A  MBILA

A Mbila é um instrumento muito engenhoso; uma espé­cie do nosso xilofone, mas com diferente disposição das barras e também com diferente sonoridade. Tem a Mbila um som menos agreste e os seus graves são duma doçura encan­tadora. As barras da Mbila são construídas da madeira da muengue e são colocadas sobre duas cordas, feitas da casca da mesma árvore. Esta fibra foi escolhida pelo negro, devido às suas propriedades elásticas que permitem à barra uma expansão sem quebra de vibrações.

Por baixo das mesmas barras são colocadas umas caixas harmónicas; uma espécie de cabaças, que vão diminuindo de volume para os agudos e emprestam ao instrumento uma sonoridade doce e melancólica.

Dentro da família da Mbila, algumas com três e quatro oitavas, encontra-se a Chilanzane (Soprano). A seguir temos a Mbila Tsangue (Contralto). Depois a Debinda (Barítono) e por fim a Chicoulo (Baixo).

A este conjunto de Mbilas chamam os indígenas Timbila que é também o nome dado a qualquer trecho tocado pelos mesmos instrumentos. A sua afinação, por ordem, é a se­guinte:

Por este pequeno mapa já, se poderá fazer uma ideia das surpreendentes combinações harmónicas da Timbila. Obser­vemos: Temos em primeiro» lugar uma marcha ascendente de terceiras e sextas menores. Ora, partindo da primeira barra de todas as Mbilas, numa combinação melódica igual, já nós vamos encontrar alguma coisa de novo e de estranho. Mas não é tudo. O mais curioso é que o solista, que é geral­mente o tocador da Mbila Chilanzane, ataca quási sem­pre os seus solos duma forma, que nos dá a impressão de que tomou como tónica a quinta barra, visto que a partir desse som, ou seja, do Si-bemol, obtemos uma escala dia­tónica do modo maior ascendente. Porém, a uma determi­nada altura, rompe duma forma vigorosa o resto da Timbila, fazendo ouvir o acorde construído pelas barras número l,

numa marcha harmònicamente paralela, ao mesmo tempo que a Mbila Chkoulo faz ouvir duma forma constante, nos tempos fortes, a terceira barra, ou seja o Lá natural. Tudo isto, e ainda com a percussão dominadora e irrequieta, é dum efeito maravilhosamente desconcertante.

Quem pela primeira vez ouvir a Timbila, fica decerto indeciso e pensará se tudo aquilo não teria sido feito ao acaso, mas apesar de tudo não lhe é desagradável.

Sentimos que há, na música negra, uma grande beleza e muito que observar, porque toda ela tem um princípio e uma base natural. Há em toda a música indígena um mando único; uma forma única que eles sentem mas não podem explicar por palavras.

A música negra é como uma bela pintura sobre a tela da natureza. Por isso se deve também ouvir a certa distân­cia; e então, sentimos que toda a sua harmonia está certa e tem razão de ser. Nota-se no fundo dessa harmonia, uma grande beleza para a qual não chega o acanhado alfabeto musical.

Pelo pequeno apanhado que se segue, pode fazer-se uma ideia do que seja a entrada duma Timbila. Este trecho foi apanhado no regulado de Mindú. Cremos não ter cometido qualquer falta, no que respeita à veracidade da música, e nela nada existe da nossa fantasia.

 

 

 

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