4° ESTUDO
Z A V A L A
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Vamos pedir desculpa ao
leitor, porque somos obrigados
a fazer uma paragem aqui por algum tempo, armando
a barraca desta campanha musical e desenrolando a película
impressionável do nosso sentir, para a revelarmos no banho da Natureza.
Há-de haver, por certo, quadros desfocados e outros com falta de luz, mas a culpa não é nossa; há
impressões tão fortes que perturbam a
objectiva, quando esta não está regulada ao infinito e, para lá
chegarmos, é curta a pena e pobríssimo o
verbo.
Zavala é uma linda povoação
situada num pequeno planalto. Foi daqui que gozámos a melhor paisagem africana
que ainda tínhamos visto. Uma forte vegetação florida, num matiz berrante e
doce. Lá muito em baixo, uma lagoa de enormes contornos caprichosos dorme, azul
e mansa, como um pedaço de céu visto ao contrário. Mais longe ainda, a floresta
misteriosa e austera cujos segredos nem o sol conhece. E, ainda lá mais ao
longe, o oceano... Depois disto tudo, fecham-se os olhos para ver o mundo...
A alma do
preto de Zavala é um pedaço desta natureza, que se agita, murmura e canta a
canção eterna à eterna transformação da vida.
O preto de Zavala
não aprendeu música; apreendeu-a. Não teve o trabalho1 de estudar as
mil e uma combinações de sons, com cifras, pontos,
intervalos convencionais que por vezes tanto prejudicam o1 génio. A
música do preto de Zavala veio-lhe das suas árvores, do seu solo, dos seus
rios, das suas fontes, e ele, sem mais trabalho que interpretá-la, nasceu a
cantar. Por isso a alma desta gente é boa, canta e canta sempre. O preto é
dócil como uma criança, mas uma criança a que se não devem ensinar muitas
coisas, porque acaba por raciocinar demais; e, fora do seu âmbito, a alma vacila e
faz-se má.
No
regulado de Mindú que fica a 70 kls. para o interior do mato, tivemos ocasião
de assistir a uma festa que durou das 20 horas às 2 da madrugada. Eram aproximadamente
mil indígenas entre homens, mulheres e crianças, e apenas um branco para
testemunha. É bom notar que, apesar da grande seca que destruiu completamente
todas as sementeiras, apesar da fome que transparecia nalguns rostos, esta
gente cantou e dançou sem descanço. E, com o en-tusiasmo1 dos grande
artistas que não marcam horas para serem
felizes, os homens marcavam, numa cadência rítmica, os seus bailados de
guerra, acompanhados pela doce e nostálgica
Timbila, composta por cerca de 50 timbaleiros, dirigidos
por um chefe que, cèguinho e poeta, entregava toda a sua alma às 15
barras de mangue. Naquelas órbitas vazias, a lua punha rubros lampejos
de génio... Tudo isto feito naturalmente, sem vaidade
ou desvanecimento, apenas porque são artistas.
O régulo, velhinho e muito doente,
movia-se na sua cadeira de palha e marcava com os seus pés descarnados, o alegre compasso.
Não sofria...
A
MBILA
A Mbila é um instrumento muito engenhoso; uma espécie do nosso xilofone, mas com diferente disposição
das barras e também com diferente
sonoridade. Tem a Mbila um som menos agreste e os seus graves são duma doçura
encantadora. As barras da Mbila são
construídas da madeira da muengue
e são colocadas sobre duas
cordas, feitas da casca da mesma árvore.
Esta fibra foi escolhida pelo negro, devido às suas propriedades elásticas que permitem à barra uma expansão sem quebra de vibrações.
Por baixo das mesmas barras são colocadas umas caixas harmónicas; uma
espécie de cabaças, que vão diminuindo de volume para os agudos e emprestam ao
instrumento uma sonoridade doce e melancólica.
Dentro da família da Mbila, algumas com três e quatro oitavas,
encontra-se a Chilanzane (Soprano). A seguir temos a Mbila Tsangue (Contralto).
Depois a Debinda (Barítono) e por fim a Chicoulo (Baixo).
A este conjunto de Mbilas chamam os indígenas Timbila que é também o nome
dado a qualquer trecho tocado pelos mesmos instrumentos. A sua afinação, por
ordem, é a seguinte:

Por este pequeno mapa
já, se poderá fazer uma ideia das surpreendentes
combinações harmónicas da Timbila. Observemos: Temos em primeiro» lugar
uma marcha ascendente de terceiras e sextas menores. Ora, partindo da primeira
barra de todas as Mbilas, numa combinação melódica igual, já nós vamos
encontrar alguma coisa de novo e de estranho. Mas não é tudo. O mais curioso é
que o solista, que é geralmente o tocador da Mbila Chilanzane, ataca quási sempre
os seus solos duma forma, que nos dá a impressão de que tomou como tónica a
quinta barra, visto que a partir desse som, ou seja, do Si-bemol, obtemos uma
escala diatónica do modo maior ascendente. Porém, a uma determinada altura,
rompe duma forma vigorosa o resto da Timbila, fazendo ouvir o acorde construído
pelas barras número l,
numa marcha harmònicamente paralela, ao mesmo
tempo que a Mbila Chkoulo faz ouvir duma forma constante, nos tempos fortes, a
terceira barra, ou seja o Lá natural. Tudo isto, e ainda com a percussão
dominadora e irrequieta, é dum efeito maravilhosamente desconcertante.
Quem pela
primeira vez ouvir a Timbila, fica decerto indeciso e pensará se tudo aquilo
não teria sido feito ao acaso, mas apesar de tudo não lhe é desagradável.
Sentimos
que há, na música negra, uma grande beleza e muito que observar, porque toda
ela tem um princípio e uma base natural. Há em toda a música indígena um mando
único; uma forma única que eles sentem mas não podem explicar por palavras.
A música
negra é como uma bela pintura sobre a tela da natureza. Por isso se deve também
ouvir a certa distância; e então, sentimos que toda a sua harmonia está certa
e tem razão de ser. Nota-se no fundo dessa harmonia, uma grande beleza para a
qual não chega o acanhado alfabeto musical.
Pelo pequeno
apanhado que se segue, pode fazer-se uma ideia do que seja a entrada duma
Timbila. Este trecho foi apanhado no regulado de Mindú. Cremos não ter cometido
qualquer falta, no que respeita à veracidade da música, e nela nada existe da
nossa fantasia.

