A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



JOÃO DE AZEVEDO COUTINHO



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  Séculos fora, as únicas autoridades, a bem dizer, a quem esteve cometido o honroso mas pesado encargo de levar sertões adentro, de manter hasteada a bandeira de Portugal, e de representar a nossa soberania na África Oriental foram entidades que podiam ser militares ou civis, e que se denominavam capitãis-móres ou sargentos-móres e cujas especiais atribuições se não destrinçavam por uma forma bem definida.
  Foram geralmente civis, pois que a ocupação militar regular era, mercê dos reduzidos efectivos das tropas, adstrita a uma dúzia de praças fortes, fortalezas ou povoações, mormente ao longo da costa, ou das margens do Zambeze.
  Efectivamente, eram os postos de ocupação militar, além de raros quási sempre mal dotados de forças, e comandados por oficiais algumas vezes de 2.a linha, lutando com graves dificuldades que nem sempre eram de vencer, frequentemente sem energia, apoquentados muitas vezes pelas doenças e pela falta de recursos de toda a ordem, com péssimas e difíceis comunicações, sem soldados dignos desse nome, sem estímulo, sem preparação ou amparo e ignorando quási sempre os dialectos das populações com quem haviam de lidar.
  Se geralmente pouco faziam, justo é dizer-se que pouco podiam fazer.
  As funções de capitãis-móres e sargentos-móres foram, certamente, a quando da sua instituïção, exercidas por pessoas idóneas, e com a conveniente categoria, e indispensáveis requisitos: militares e sertanejos, ou negociantes brancos.
Competia-lhes a complicada resolução dos milandos, peculiares questões cafreais entre indígenas, a concessão de licenças, a vigilância do • exercício da caça, manutenção- da ordem na jurisdição- das suas capitanias, a protecção às caravanas e cáfilas, o levantamento e comando de cipais e irregulares, etc. Da caça e licenças de vária espécie auferiam sem dúvida em dadas regiões rendosos proventos.
  Dispondo dos negros e dos cipais efectivos ou adventícios, pois a seu talante mobilizavam os homens das regiões em que exerciam, tantas vezes! despótica autoridade e verdadeiro domínio, tinham em suas mãos a força de que se se serviriam para bem ou mal sem controle ou fiscalização possível. A sua autoridade, quando civis, era por assim dizer exclusivamente adstrita aos negócios da população indígena, e só era exercida proveitosa e decorosamente quando as pessoas nela investidas tinham consciência e prestígio, de que alguns usaram e outros muito abusaram, sobretudo depois dos princípios do século XIX.
Sucessivamente foram, em geral, substituindo esses homens, muitos deles patriotas e prestimosos no exercício dos seus cargos, filhos seus nascidos na terra, frequentes vezes mestiços, que se amparavam mal nas tradições da família, e que mal mantinham o decoro da sua posição. Vivendo em contacto permanente com inhacuauas e colonos cafrealizavam-se e perdiam toda a noção de dignidade seguindo até, por vezes, os ritos secretos e hediondos de sociedades misteriosas indígenas; arvorando-se outros por vezes em pequenos potentados, déspotas e cruéis, sobretudo se as funções se tornavam hereditárias, como sucedeu em algumas famílias.
  Alguns só curavam de enriquecer, abusando da força e prestígio (que se permitia fosse conservada em mãos impróprias) ocupavam as populações em seu serviço quási gratuito, na caça ao elefante, no negócio do ouro em pó, em pastas mati-cais e penas, em longínquas regiões, na compra da cera, na constituição das cáfilas mercantes, e no penoso e odiado serviço de carregar mitôros e cargas.
  Estavam fora do alcance das verdadeiras e tão raras autoridades, que ignoravam essas violências ou eram impotentes para as reprimir.
 Se as famílias que usufruíam o privilégio de conservar esses cargos tão cubicados se extinguiam eram então por vezes nomeados brancos escolhidos entre a reduzidíssima e geralmente ignorante colónia europeia, constituída por mercantes ou antigos soldados residentes na região.
  Conhecemos assim como capitão-mór de Quelimane o antigo soldado António Lopes, como capitão-mór de Cheringoma o antigo soldado comendador Barata, como capitão-mór no Mahindo o negociante N. de Carvalho, como capitão-mór de Sena o analfabeto Anselmo Ferrão, como capitão-mór de Tete o bom e valente mas ignaro João Martins, como capitão-mór de Manica e Quiteve o indiano inteligente mas bem pouco culto Manuel António de Sousa, o boçal negro Inácio Xavier na Chicôa, e o Araújo Lobo no Zumbo.
  Durante quási todo o século XIX o exercício efectivo e real dos nossos direitos de soberania e domínio em Moçambique foi assim por vezes bem acidentado e precário; ocasiões houve em que bem fracamente se fez sentir...
      Ë evidente que não pretendemos insinuar que não houve capitãis-móres em tudo dignos da confiança que os governos neles haviam depositado: alguns cheios de benemerências e de valor, honraram os seus cargos através de muitos riscos e can-ceiras... mas a afirmação da nossa posse, e a ocupação metódica e efectiva de toda a província de Moçambique só teve possível realização depois de 1891, mercê dos cuidados que daí em diante houve que dedicar à administração da província, de que resultou o desaparecimento gradual dos capitais e sargentos-móres, muzungos ou velhos sertanejos, mais ou menos cafrealizados, sendo substituídos por autoridades militares e depois por civis, conservando ainda alguns as velhas designações, mas geralmente dotados de aptidões e com as qualidades indispensáveis.
  Muito poucos brancos, e raros negros, recordarão agora o que hajam sido alguns capitãis-móres de outrora: devemos confessar que seria hoje impossível fazer reviver alguns desses tipos que, embora tivessem certo pitoresco, envergonhavam muitas vezes a nossa administração, e causaram dissabores, fornecendo pretextos para os doestos, críticas e censuras, que algumas vezes nos foram dirigidas.
  Castilho no seu relatório sobre a campanha de 1888 contra os Bongas diz: ((Acabar gradualmente com as entidades denominadas capitãis-móres; esses cargos, recaindo geralmente em indivíduos do país, — já de si poderosos pelo número de pretos armados seus dependentes, quási escravizados, que põem em movimento, e que não recebem estipêndio, pois contam com a pilhagem, aumentam ainda consideravelmente a sua importância individual com a influência oficial de que os investem sem remuneração, e instigam-nos a praticar à sombra dessa autoridade toda a espécie de abusos.
((Neste sentido já eu dei o primeiro passo, demitindo e não substituindo os antigos capitãis-móres do Cachomba e de Inhacôe, contra quem, recebi em Tete queixas de toda a ordem.»
  Não há que negar-se contudo que alguns, a-pesar-da sua nula instrução e dentro das suas fracas possibilidades de civilização, patentearam verdadeira dedicação pelo serviço público e até acrisolado patriotismo em situações críticas, em que o seu denodo e fidelidade foram postos à prova.
  Estava neste caso o capitão-mór de Manica e Quitêve, o indiano Manuel António de Sousa, que teve honras de coronel do exército ultramarino, e foi comendador da ordem de S. Bento de Aviz: dele diz o ilustre general Teixeira Botelho na sua monumental História Militar e política dos portugueses em Moçambique— ((...não houve talvez personagem em Moçambique mais discutida do que ele».

* *
 Para se poder ajuïzar com justiça e imparcialidade, e apreciar o que nos últimos quartéis do século passado ocorria pelo Ultramar; para se avaliar da acção, do modo de vida e proceder dos que exerciam então determinados cargos de relativa importância, é forçoso não abstrair do conhecimento do estado de desenvolvimento, ocupação e grau de submissão em que se encontravam essas províncias ultramarinas, e do grau de civilização atingido pêlos povos que nelas viviam. Só assim se poderá julgar convenientemente a acção dos homens, e o decorrer dos acontecimentos, no ambiente em que eles se desenrolaram.
Nunca deixaremos de considerar absurdo que se aplique ao julgamento de ocorrências sucedidas então em Moçambique, o Parece que estudou em Salsete, no seminário de Rachol... não completou os estudos, mas embora carecendo de instrução ficou contudo habilitado a discorrer e conversar regularmente. Aos 18 anos, como sucedia a tantos rapazes da índia portuguesa, abandonava os palmares nativos e seguia para Moçambique onde havia falecido um seu tio residente em Sena, e que possuía, ao que se diz, alguns bens em Manica.
  Casou em Moçambique com a filha órfã desse seu tio, e começou então com 30.000 rupias que herdara, negociando pelo sertão, levando caravanas pêlos prazos de Sena e Chi-ramba, e seguindo depois com as cáfilas até aos Fungue. Demorou-se pelo Quitêve caçando e comerciando, e por volta de 1854 ou ^55 fazendo progressos o seu negócio instalou-se na serra da Gorongoza, que o atraiu pela sua soberba situação, e domínio dos tandos vizinhos, férteis e abundantes de toda a espécie de caça. Foi numa planura desta serra denominada Massara, em Inhangou, que ele fixou residência a que se chamou Gouveia, de alcunha pela qual os pretos o conheciam.
  «Construiu aí uma aringa que era fortaleza natural e inexpugnável: rochas enormes cortadas a pique sobre despenhadeiros formavam as muralhas, e o único caminho que lhe dá acesso é também entre dois precipícios.
  «Foi aí que Manuel António oom poucas dúzias de homens que poucos cartuchos gastavam, pois se limitavam quási só a largar de cima grossas pedras, resistiu a 3.000 landins que foram atacá-lo armados até aos dentes, mas que tiveram de retirar com perdas enormes, sendo depois perseguidos por ele até bem longe. Desde essa ocasião respeitam a propriedade dele como deve ser, e como eles respeitam, talvez, mais nenhuma.» (Manuel Caetano da Silva Lima, à Sociedade de Geografia).
  Na importância deste episódio da vida de Manuel António há que insistir, e fazê-lo notar.
 Dessa posição partiu depois a linha de aringas que se estendeu quási até ao Mazóe, e duplicada por outras linhas de aringas mais próximas ao Zambeze constituíram a rede impenetrável de fortificações, à moda indígena mas eficaz, que impediu a marcha sobre o grande rio, das mangas do Muzila através do Barué, e dos chamados prazos de Sena, e depois das hostes do Gungunhana, na mesma direcção.
 Foi a convicção de que o acesso aos ricos prazos que vão ao Zambeze lhe estava definitivamente vedado que, ao que consta, contribuiu bastante para firmar o filho do grande régulo vátua nos seus propósitos já esboçados, de abandonar os campos do Mossurise pêlos plainos do Bilene e do Manjacaze.
 A fama do seu feito chegou ao conhecimento do governador de Quelimane, que em 1856, quando foi preciso dominar os Massingires e povos do Chire revoltados, pediu o seu concurso e dos seus cipais. Dominados que foram esses revoltosos, foi instalado como capitão-mór do Massingire o Muzungo de Sena, Mariano Vaz dos Anjos, o «Mataquenha», que se havia de tornar célebre pelas suas crueldades e pela construção da enorme aringa do Massingire, onde construiu uma capela (!) em que embriagado dizia missa (!) forçando os seus grandes a ouvi-la...
Depois da campanha no Massingire Manuel António recolheu à Vila Gouveia. A influência e prestígio que foi ganhando por Manica e pelo Quitêve fizeram que o governador geral José Tavares de Almeida o chamasse a Quelimane para prestar juramento como capitão-mór de Manica e Quitêve em 1863 (portaria de 20 de Maio). Na sua ausência durante muitas semanas que então se gastavam nessa viagem, foi o capitão de cipais, que ele tinha junto ao Fungue, para os lados da que é hoje Vila Pery, e os negros da aringa, atacados por mangas do Muzila, roubando-lhe fazendas e géneros no valor de cerca de 30 contos, que Gouveia ali tinha reunido, sendo trucidados muitos desses cipais e habitantes das povoações próximas.
 Achava-se pois Manuel António investido num cargo que lhe dava importância e predomínio em regiões onde não exercíamos qualquer autoridade que não fosse justamente por intermédio >âo capitão-mór. Onde cessava a influência já reduzida do Ferrão capitão-mór de Sena, começava a do capitão-mór de Manica, que também alguma tinha nos prazos de Sena. Arrendatário do prazo Chemba esteve algum tempo estabelecido na Sansa Manga e por aí andou uns anos, até que apareceram na vila de Sena e prazos adjacentes grupos de landins do Muzila que ali vieram com o pretexto de chorar o brigadeiro de milícias Ferrão, que havia falecido: arrazavam todas as regiões que atravessavam, roubando e levando consigo um grande número de mulheres.
  Gouveia que tinha estendido a sua influência e ampliado o campo da sua acção comercial pela margem do grande rio, resolveu voltar para o Fungue, em vista dos prejuízos que novamente sofrera.
Manuel António que era dotado de rija têmpera, com o mesmo vigor de sempre, sem se deixar abater pêlos revezes, recomeçou a vida, tratando de reparar a fortuna e restabelecer a sua influência. Lançou mão de todos os elementos que se lhe ofereceram, e quando voltou para Manica levava uma grande partida de fazendas. Escarmentando todos os landins que lhe apareciam ocupou gradualmente todos os pontos estratégicos dentre Zambeze e Fungue, espalhando assim a famosa rede de aringas com que havia ide cobrir a região toda e com que havia de cortar cerce a marcha e raias da gente dos régulos vátuas nas ambicionadas terras do Zambeze acabando com os seus saques e morticínios.
  É de lembrar que antes de Manuel António fechar os caminhos de Sena aos landins, estes iam ali cobrar imposto (!) que era pago pelas autoridades (!) e pêlos negociantes...
  A ele se deve pois o inegável serviço de ter acabado com essa vergonha trágica...
 A história das revoltas dos bongas, e dos ominosos desastres que as expedições, geralmente mal organizadas e, infelizmente, (é forçoso confessá-lo) mal comandadas, sofreram em anos vários, no ataque à célebre aringa de Massangano não a faremos aqui: dão assunto para ser tratados em especial: essas operações de guerra não constituíram infelizmente actos militares gloriosos, ou de que haja de orgulhar-se o nosso brio e a nossa acção de soberania, bem ao contrário; mas referimo-nos a elas, para se atentar nos erros cometidos, e ver como poderiam ter sido evitados, como depois se reconheceu e verificou, nas seguintes e vitoriosas campanhas africanas.
Devemos notar aqui apenas que Manuel António com os seus homens, os cipais da capitania-mór de Manica, prestou sempre o seu auxílio com incontestável arrojo pessoal às operações que tão ingloriamente foram tentadas: nos revezes de 1867, em 1868 e no terrível desastre de 1869. Nunca o capitão-mór vacilou em oferecer o seu concurso, e prestado ele nunca teve responsabilidade nos revezes sofridos, antes pelo contrário, quando depois do desastre e desaire da expedição Portugal se deu no ano seguinte a inexplicável retirada das forças comandadas pela major G. de Oliveira Queiroz, do Bandar para Quelimane, Manuel António que se achava mais avançado não foi prevenido dessa retirada, e foi ele com as suas ensacas quem conseguiu sustar os de Massangano, e evitar que eles massacrassem oficiais e soldados que numa lancha com munições haviam encalhado numas pedras à entrada da Lupata: só com a sua gente bateu-se, inflingindo perdas ao inimigo, até se encontrar em segurança em uma aringa sua.
 O governador geral Correia de Lacerda elogia-o em uma portaria de 3 de Fevereiro de 1869, reconhecendo que no triste lance de 1868 se portou com denodo e valentia, tanto mais para louvar quanto as demais forças todas retiraram sem cumprir a missão a que iam, de destruir a aringa do Bonga. Em várias outras ocasiões serviu Manuel António com dedicação e provado valor.
  Dá-se em 1884 a chamada revolta da Maganja e Massingire, assinalada por dois sucessos dignos de nota e de menção.
  O primeiro foi o crudelíssimo suplício inflingido pêlos revoltosos do Massingire ao comandante militar da região, o capitão do exército do ultramar Almeida Queiroz, natural da índia, e que tinha junto de si na sede do comando dois filhos ainda menores. (')
  Amarrado pelos revoltosos a uma árvore foram as pobres criancinhas assadas numa fogueira diante do pobre pai, a quem os cruéis algozes preguntavam, no meio de grande algazarra e motejos, se gostava de leitão assado! Ele próprio foi depois morto barbaramente, cortando-lhe a cabeça à machadinha...
  O outro facto bem digno de menção foi a gloriosa defesa de Caldas Xavier em Mopêa, numa pequena casa de zinco contra os revoltosos que ali o investiram, episódio a que fizemos referência no «Combate de Macequece», e que constitui um brilhante feito da nossa epopeia em Moçambique.
  Ë Manuel António principalmente encarregado de debelar a revolta, o que faz com o seu denodo habitual e em poucos dias.
  Daí se agravou a rivalidade que havia entre o capitão-mór de Sena, Anselmo Ferrão, e Manuel António. Ferrão não interveio na repressão da revolta, e rumorejava-se até que entre os revoltosos mortos se reconheceram alguns dos seus cipais e landins, que haviam ficado por Sena, e que com ele sempre se haviam entendido.
  Em 1886 com o governador do distrito de Manica fez Manuel António a campanha contra os régulos do Rupire e do Bine, o Massaua.
 Essa campanha foi mandada realizar por instruções dadas em 15 de Novembro de 1885, pelo governador geral de Moçambique, capitão-tenente da Armada Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha, ao primeiro governador do distrito de Manica, o major de cavalaria Francisco Isidoro Gorjão de Moura.
Devia este entender-se com o capitão-mór de Manica para que este, em vista dos seus especiais conhecimentos e da falta de força regular, mobilizasse os seus cipais da Gorongoza e Barué, que deveriam constituir as forças da coluna de operações.
  O governador fêz-se acompanhar por duas peças Hotchkiss e seis praças brancas comandadas pelo alferes Ludovice da Gama.
  Manuel António que se obrigara a mobilizar i.ooo cipais que deveriam ser retribuídos pelo Estado, mobilizou cerca de 2.000 não querendo receber retribuição senão por aqueles que se obrigara a apresentar no campo.
 Essa gente, alguma da qual do Barué, que ele batera P ocupara em 1882, era comandada pelo célebre capitão negro Macaningomba, que havia de morrer em 1888 na campanha contra os bongas e pelo Magaço, que depois serviria com o capitão-mór em várias campanhas, e assistira à sua derrota e cruel morte em 1892, diante de Inhachirondo, quando o capitão-mór depois do meu desastre na aringa do Muira, a Mafunda, resolveu num acto de verdadeiro desespero, atacar aquela célebre e formidável aringa. Depois de terem batido os régulos que possuíam muitas aringas, e submetido a região dizia o governador no seu relatório. «Cumpre-me significar o meu reconhecimento ao benemérito Manuel António de Sousa pela dedicação, 'desinteresse e valor de que sempre deu prova...»
Este governador, ao que se diz, mudou depois de opinião...
Em 1887 estava na butuca (trono) dos bongas, o Chatara, cujo nome cristão era António Vicente da Cruz. Diz Castilho: <(O Chatara julgando-se já, e com razão, potentado independente e soberano, chegou a escrever ao governador de Téte significando a simpatia que tinha pela nação portuguesa com a qual desejava viver em paz, e pedindo-lhe que a-fim-de se estreitarem mais as relações nomeássemos um cônsul para Mas-sangano»!!! a isto acrescentamos nós, que o inspirador do Chatara era o ex-alferes mulato de Angola, Alfredo de Aguiar, que vivia amancebado com a irmã do Chatara, D. (?!) Mariana e que pretendia ser ele o cônsul! Este figurão mais tarde intitulava-se jornalista, em Quelimane (1892).
  Castilho encarregou o ilustre colonial e então brilhante tenente-ooronel de Artelharia, Paiva de Andrade (2) de acabar com a vergonha bonga, em, 1887. Nessa campanha teve parte importante, como era de prever, o inseparável amigo de Paiva, Manuel António, com a sua gente. Dispunha este, de há muito, de elementos para isso, inimigo como era dos bongas, envolvendo os domínios destes com uma cintura de aringas que os cingia, preparando assim um inapreciável apoio para quaisquer operações que, por ventura, viessem a realizar-se contra Massangano. Foi o capitão-mór, como Paiva diz no seu relatório, o mais eficaz dos seus auxiliares.
  Firme, dominando eompletamente os seus homens pela energia e pela inteligência, tinha -disciplinado quanto possível os seus cipais que lhe obedeciam cegamente.
  Deu nesta ocasião um exemplo de lealdade e singular dedicação. Esta campanha, contudo, a-pesar-de alguns feitos de armas brilhantes, como foi a tomada da aringa do célebre capitão Fukisa não surtiu o efeito esperado; o Chatara fugiu, e a aringa de Massangano foi encontrada abandonada.
  O procedimento cheio de benevolência de Paiva, com que Manuel António de resto não concordava, deu ensejo a que, quando se anunciava que o poderio bonga fora de vez esmagado, em Junho de 1888 o irmão do Chatara, Mutontora, se rebelava novamente.
 
 Castilho assumiu então pessoalmente o comando das forças que levaram a cabo a campanha.
 Manuel António forneceu os seus cipais ao governador do distrito de Manica e activamente tomou parte na luta havendo-se por tal forma que no dia do ataque definitivo à serra Bemcampembsue em 27 de Novembro, se não fosse a sua presença e firmeza junto dos cipais, como diz Castilho, «talvez tudo se perdesse. Ferido o mozungo Gregório que dirigia no assalto a gente de Téte, a gente que ele comandava confundiu-se, houve um pânico que se ia comunicando à gente de Manica, a qual teria certamente debandado se não tivesse por detrás de si e muito perto, Manuel António e Inácio, que os contiveram e fizeram voltar para a frente. Estivemos para perder o dia»...
 Em portaria de Janeiro de 1889 era Manuel António louvado pelo governador geral conjuntamente com algumas outras autoridades e cidadãos que haviam tomado parte na campanha.
  Depois da campanha de 1887 conseguira Paiva de Andrade que o capitão-mór fosse até Lisboa, onde foi recebido festivamente pelo governo e pela benemérita Sociedade de Geografia: foi feito coronel honorário do exército ultramarino, comendador de Aviz, recebendo a medalha de bons serviços, e até a de bom comportamento.
  Recebido pelos Reis no Paço foi obsequiado pelo ministro Barros Gomes e pelo Conde de Penha Longa, então presidente do conselho de administração da Companhia de Moçambique.
  Na Sociedade de Geografia, na sessão que lhe foi dedicada teve ocasião de falar sobre os filões de ouro de Manica, que viriam a ser a causa indirecta da sua morte desgraçada...
No seu regresso a África em Julho de 1888 foi surpreendido em Quelimane pela notícia de nova revolta dos bongas.
  Dali mesmo, sem ir sequer à Gorongoza onde era a sua casa, seguiu para a aringa Castilho a apresentar-se ao governador geral, e tomar, como disse, parte activa e talvez decisiva, no castigo inflingido ao Mutontora.
  Tinha então Manuel António atingido realmente uma situação invejável e de destaque nos meios coloniais portugueses, e era inquestionavelmente a figura preponderante e representativa nos sertões da Zambézia.
  Sobrevieram as expedições aos Muzeruros e Mocarangas, de Paiva de Andrada que para ali fora nomeado comissário régio e que avassalou, ou antes, restabeleceu a nossa soberania nas regiões do Sanhate e Mazoe, coadjuvado pelo capitão-mór de Manica e pêlos seus cipais, e pela gente do capitão-mór da Chicôa, Inácio de Jesus Xavier.
  Veio o ultimaíum surpreender o ilustre artelheiro que foi forçado a retirar por ordem de Lisboa. Narrámos no opúsculo O Combate de Macequece mais detalhadamente os sucessos de então e a atitude bifronte e refalsada deste régulo vassalo de Portugal, que perante as forças da British South África Com-pany nos atraiçoou, e não obstou à prisão de Paiva de Andrada, João de Rezende e de Manuel António.
  A prisão repentina e o desaparecimento do capitão-mór de Manica, do Barué, foram razão para que entrp ^s negros se propalasse que havia sido morto, e por tal moao que os seus capitais e a gente do Macombe se revoltaram tornando-se independentes.

                  *         *
Podemos ter como ponto assente que o Barué fez parte do  império do Monomotapa, e pela conservação da designação de Macombe, dada aos seus reis era o resto daquele grande império africano: e ainda o facto de ser de Monomotapa que vinha o ouro para as permutas, justifica esta afirmação há muito tempo feita.
  Está hoje mais que provada a existência do precioso metal nas minas de Manica e da Machona, e nos aluviais do Luenha, do Mazoe, do Mudzi e do Caurezi, ficando assim estabelecida a identidade do Barué com o Monomotapa.
 Foram os vátuas os últimos invasores do Barué, quando nas suas excursões para o norte, onde se cruzaram com os magan-jas maravis, e para os lados do Zambeze onde iam cobrar tributos até mesmo a Sena, atravessavam e raziavam periodicamente aquele país. Contava Magaço o antigo capitão de Manuel António de Sousa, no Barué, que seu pai lhe dissera ter sido a última travessia feita por Chicusse e seu filho Caionga.
  Os habitantes da zona devastada refugiaram-se com mulheres e gados nas montanhas, indo os do vale do Muira para o monte Zumbuo e jusante de Inhachirondo.
  Estas invasões acabaram, como dissemos, no tempo de Manuel António, que conseguiu, como atrás dissemos, opor-se à passagem dos destemidos guerreiros do sul, facto este que muito contribuiu para o prestígio do seu nome, e para lhe dar a extraordinária força de que chegou a dispor na alta Zambézia.
Livres pois dos invasores, absolutamente independentes, e seguros dessa independência porque, estabelecidos no interior se achavam separados da principal via de penetração, o Zambeze, pêlos prazos bongas e tongas que se encostam ao grande rio, os baruistas não se aperceberam que ao sul, na Gorongoza, o capitão-mór de Manica e Quitêve lhes ia contrariando os intentos.
  Manuel António de Sousa, que além de ser de uma coragem indiscutível era um ambicioso extraordinário e um distinto político, estudou e aproveitou as discórdias que então se esboçavam na família dos Macombes, para ser o tertius gaudet naquela luta de selvagens. (3)
Segundo informações que pude colher do Magaço, Luiz Santiago e Cambuemba, antigos capitais de Manuel António, do Chipitura; do Chavunda, e de mais alguns grandes do Barué, Xipapata (4) que depois da morte de seu pai conseguiu bater seu irmão Xibudo, e entrar na butaca, tinha a sua aringa em Pompona, aringa notável pelo seu tamanho, pelo profundo fosso que a cercava, e pelas suas muralhas de madeira e alvenaria.
  Destronado o ramo Xibudo, e expulso para além das fronteiras, o seu poder em todo o Barué tornou-se aparentemente indiscutível.
 Por essa ocasião Manuel António de Sousa absolutamente senhor da Gorongoza e da região que por leste limita o Barué, começou a mandar gente sua negociar e intrigar nos domínios do Macombe. Xipapata resolveu opor-se a uma tal influência, tendo porém sido batido na Gorongoza, onde por sua ordem as suas forças tinham ido atacar Manuel António.
  O inteligente e ambicioso capitão-mór começou então a desenvolver o seu plano de absorção do Barué.
 Casou cafrealmente com uma filha de Xipapata, a n'hanha Adriana, e conseguiu comprar um grupo de grandes do Macombe, para que de perto e junto ao rei, fossem advogando a sua causa.
  Não tardou a ocasião oportuna que Manuel António aproveitou habilmente.
Tendo uma comitiva do capitão-mór sido assaltada e roubada no caminho, os grandes do Barué vendidos ao senhor da Gorongoza, convenceram facilmente Xipapata, já então avelhentado e doente, que se tornava necessário e urgente dar plena satisfação a Manuel António. E como Samacande era mal visto pelo seu génio cruel e sanguinário, e o velho Macombe acabrunhado receava a luta dos Xibudos, convenceram-no de que devia mandar a Manuel António uma ponta de marfim cheia de terra, sinal de submissão do doador, e de posse da terra reconhecida ao doado.
  Morto pouco depois o Xipapata mandou Manuel António gente sua tomar conta imediata da butaca.
  E como o Mucaka se revoltasse partiu sem demora para o Barué onde bateu as forças do pretendente, que ficou morto no combate.
  Para mais solidamente firmar a situação tratou ainda de vigiar os outros descendentes de Xibudo, bem como os filhos do Xipapata que se encontravam desterrados, começando então o trabalho de ocupação seguido, com a persistência, método e sistema usado sempre pelo muzungo Gouveia.
  Construiu a sua primeira aringa em Pangara, sobre o mo-curro de Inhamaricombe, tendo por capitão o Macanigomba, e onde estava a ríhanha Muanga. A segundo foi feita em Inhangone, tendo por capitão o Magaço, e vigiada pela n'hanha Maria.
  A terceira era em Massanga, sobre o Luenha, com o capitão Capôvo e para onde foi mudada a Muanga.
  A quarta era em Masseguire, também sobre o Luenha, com o capitão T'chicore e n'hanha Madriamanga.
  A quinta em Inhacatchanga, ainda sobre o mesmo rio, com o capitão Urire e a ríhanha Paciência.
  A sexta em Inhacatoe, com o capitão T'chicarengo e a ríhanha D'zango.
  Finalmente a sétima em Inhachirondo, tendo como a segunda o Magaço e a Maria.
  Esta disposição não obedecia simplesmente a princípios estratégicos.
  Inhacatoe garantia-lhe o caminho da Musseca (actual posto da Sança), Inhangone, Missongue e Pangara, dominavam a região da cera, e as restantes sobre o Luenha, facilitavam as lavagens das areias auríferas deste afluente do Zambeze. A distribuição das ríhanhas pelas aringas, esta dispersão espantosa do serralho, era-lhe cómoda como homem e instrutiva como político. De facto eram as ríhanhas que realmente mandavam no grande número de aringas (7) e luanes de Manuel António.
  O facto é que o capitão-mór dominou completamente o Barué onde a sua actividade se manifestou espantosamente, como aliás, em toda a parte.
  Assim continuaram as ooisas até que em 1890 o capitão-mór foi preso em Mutassa. Os seus capitais julgando que ele nunca mais voltaria, apoderaram-se dos seus haveres e mulheres e descuidaram por completo os seus encargos. Os Xipapatas destronados, saíram pressurosos do desterro e começaram a juntar a si os descontentes, para se apoderarem da butaca. O mu-zungo Luiz da Gorongoza, manhoso, esperto e previdente, não foi mais fiel que os seus colegas, mas soube disfarçar como sempre.
O Canga, que primeiramente estivera com os Bongas e depois se refugiara em Manica, veio pela Massanga onde, pela traição do Capôvo e Cambuemba, lhe foi fácil apoderar-se das armas e munições que o capitão-mór ali tinha em depósito. Seguido Barué fora foi juntando dia a dia mais adeptos, e já com seus irmãos atacou em Inhangone o Magaço que, ou' por falta de pólvora, segundo se diz, ou porque a fidelidade não era muita, retirou de noite para a Musseca, ao fim do sétimo dia de cerco, sem ter ao menos avisado a n'hanha Maria.
  E >por esta forma o Barué há tempo submetido e ocupado reconquistou rapidamente a liberdade.
  Solto Manuel António e voltando pressuroso para a Zam-bézia, poucos dos seus antigos capitais foram junto a ele pe-gar-pé, (8) com, protestos de fingido arrependimento. Da Musseca onde estava com o Magaço, lhe 'mandou que seguissem para Inhangone aonde ele mais tarde chegaria, depois de ir a Chetin-dire. Aí juntou gente da Gorongoza, aliou-se ao ramo dos Xibudos, e com duas peças Hotchkiss de 42 milímetros, comandadas pelo almoxarife Freire, que previamente foi à Macossa, sobre o Zambeze, ter comigo para que lhe cedesse espoletas de que careciam, seguiu rapidamente para Inhangone onde bateu e ocupou a aringa dos revoltosos. Era a aringa construída na margem do mocurro Inhamgone, oposto àquela em que se encontrava a última.
  Só depois da vitória do capitão-mór é que o Magaço chegou a Inhangone, demora esta explicável unicamente por medo, ou por cálculo. Manuel António, como castigo não o deixou entrar na aringa sem que primeiro desalojasse o inimigo de uns pequenos montes que a dominavam e que estavam agora compreendidos dentro da nova guta (9).
  Os rebeldes retiraram para Inhachirondo (Missongue) sem que lhes fosse feita a menor perseguição.
É que Manuel António nunca descuidava nas suas campanhas a parte comercial, e aproveitou a ocasião para ir permutando cera, no que levou três meses, pretendendo também, segundo dizem, chamar a si mais partidários, para o que esperava armas de Quelimane. Ia já muito adiantada a estação das chuvas quando o capitão-mór resolveu ir atacar Missongue, o que teve lugar em Janeiro de 1892, depois de dois dias de marcha a corta-mato, debaixo de contínuos aguaceiros, e sem comida para a sua gente.
  Chegando próximo da aringa, investiu-a de madrugada pelo lado oposto ao rio, sem estabelecer o cerco completo, ou vigiar todas as saídas, o que permitiu ao inimigo, conduzido, segundo dizem, por um branco a que os indígenas davam o nome de M'jojo, e outros aventureiros, sair da paliçada e vir estabelecer-se fora dela, atacando-o de frente e pelo flanco.
  As peças, a cerca de 100 metros, batidas pelo fogo dos baruistas, depressa se acharam desguarnecidas, morrendo o comandante (almoxarife Freire) dois soldados brancos, e fugindo ferido o terceiro. O assalto, que nessa ocasião se pronunciava corn muitas probabilidades de êxito, fraquejou não só por esse facto, mas também porque a gente do Magaço se ficou, e as ensacas (10) do Pôfo, grande da aringa de Inhacas-songosa e que a Inhangone fora pegar-pé e pedir distintivos, se passou ao inimigo.
  Por essa ocasião foi ferido o capitão-mór, o que determinou a fuga da gente ida Gorongoza, cujas ensacas o acompanharam até então e a derrota absoluta e completa declarou-se com todo o seu cortejo de atrocidades e selvajarias.
Manuel António de Sousa conseguiu ainda fugir encobrindo-se com o capim, sendo morto por um rapazinho que o não quiz levar vivo para a aringa, a-pesar-das recomendações feitas nesse sentido pelo chefe dos revoltosos, com receio segundo disse, de que lhe fizesse feitiço, ou fosse perdoado, matando-os depois a todos.
  Esta enorme derrota e o desastre que sofri na Mafunda para onde me dirigia para seguir o vale do Muira em auxílio do capitão-mór, foram o golpe mortal no nosso domínio nas terras do Barué, foram o triste epílogo da curta ocupação portuguesa naquela região. (11)
  Novamente independente e sem receio de mais ataques pois que toda a enorme região que da Gorongoza se estende para o norte, ao longo do Zambeze, estava insubmissa e revoltada, começaram mais uma vez as lutas dos ambiciosos pretendentes.
  Assim teve seu fim este corajoso e intrépido capitão-mór, figura notável do seu tempo na Província de Moçambique. Como temos relatado não houve acontecimento de vulto na Zambézia durante a sua vida em que não interviesse sempre à frente 'dos seus cipais e ao lado da autoridade portuguesa.
De certo que jamais houve em Moçambique quem suscitasse tantas críticas e invejas, ou tantas dedicações e respeito. Acusaram-no muitos dos seus inimigos, de se considerar senhor independente, de não pagar renda do Barué, mas a verdade é que nos prazos da margem do Zambeze, de que era arrendatário (do Mussôco) pagava a renda que pelo governo lhe estava estipulada, menos nos frequentes casos de guerra, em que se viu envolvido, ao serviço do Estado, e em que as despesas que fazia ultrapassavam sempre o que devia pagar ao Estado.
 No Barué nunca se lhe estipulou qualquer renda, mas a despesa permanente que fazia defendendo-se à mão armada, sustentando as guarnições das aringas, e as exigências da manutenção da soberania com os seus cipais, representava por certo sempre encargo muito mais pesado do que a importância de qualquer imposto que lhe pudesse ser exigido.
  O seu auxílio foi sempre lealmente prestado às autoridades, nunca o mercanceou, ao contrário do que tantos outros fizeram.
  Diremos com o ilustre general e insigne historiador militar de Moçambique, Teixeira Botelho:
  «Manuel António de Sousa foi, pensamos nós, na sua reputação e no julgamento das suas intenções, vítima do preconceito da cor, que em África, alfobre de intrigas, invejas e malquerenças, desde tempos remotos, avassala muitos corações. Para nós, que julgamos com imparcialidade homens e acontecimentos, a memória do falecido capitão-mór de Manica e Qui-teve, que na Gorongoza conteve a onda invasora dos vátuas, que em Massangano combateu sempre ao lado das nossas tropas, prestando-lhe, por vezes, inolvidáveis serviços, e que dominou o Barué, impedindo que ali se firmassem régulos poderosos, merece-nos o mesmo apreço que consagramos a todos os grandes lidadores da África Oriental Portuguesa.»

Lisboa — Novembro de 1935.

 
  (1) Havia quatro irmãos oficias no exército de África, os capitais Francisco, Agostinho e João de Almeida Queiroz, que já reformado serviu às minhas ordens no Barué em 1902. O quarto irmão era o que foi trucidado em 1884 no Massingire.
 
  (2)    Depois  da morte do malogrado e valente governador de Manica major de cavalaria Simões.
 
  (3)    Relatório   oficial   da   campanha   do   Barué,   de joão de Azevedo Coutinho.

 (4)    A tábua genealógica dos últimos macombes é a seguinte:



                                              a) Mucaka
 Xibudo                               b) Chipitura                                   1)Chavunda
                                              c)  Cassiche

                                              d)  Samacande
                                              e) Canga
Xipapata                              f) Inhamecinga                      2)Cabebendere
                                              g) lnhongue-n'hongue
                                              h) T'chinhenha


  a)  Mucoíca, morto por Manuel António em um ataque a Pampona depois da morte de Xipapata.
  b) Chipitura, fundador,  depois  da morte  de Manuel António, da butaca "Chipitura" em Mungari.
  c)   Cassiche,  enviou   a  Lisboa  dois   grandes  para pagarem-pé, em seu nome a El-Rei, pelo que foi deposto.
  d)   Samacande,   primeiro   macombe   depois   da morte de Manuel António. Destronado pelo Canga, seu irmão, e refugiado na Rodésia.  
  e)   Canga,   sucessor   de   Samacande   a   quem   tirou a butaca, e último macombe do Barué.  
  f) Inhacinga ou Inhamecinga, grande do Barué, morto por uma cobra, em Inhangone.

 g) Inhongue-n'hongue,  grande  do  Barué,  que vivia para os lados de Zamula-m'gombe, donde fugiu ao aproximar-se a coluna auxiliar de Macequece.

  (5) Chavunda, o último Chipitura. Preso em Inhangone a 28 de Setembro de 1902.
 
  (6)  Cabendere, morto no combate de Missongue, comandante em chefe das forças do Barué durante a guerra.

  (7)    Mais de 90.

  (8) Pegar-pé, prestar vassalagem, pedir perdão.

  (9)    Guta,  aringa.
 
  (10)    Ensacas,   agrupamento   de   cipais comandados por um cazembe, correspondente a companhia  

 
  (11) Em 19 de Novembro de 1891 ataquei, depois de arrazada a aringa de M´tondo, a aringa da Mafunda. Tinha 2.8500 cipais e 2 bocas de fogo. Depois de 10 horas de um combate sangrento, uma terrível explosão de pólvora queimou-me e aos tenente Andrade, guarda-marinha Barba de Menezes e Carlos de Paiva, morrendo os dois últimos. Depois da explosão fui forçado a retirar quasi à noite, e em tão graves circuntâncias, conservando contudo o comando. As nossas baixas foram 367 mortos, feridos ou desaparecidos. O inimigo sofreu muito, e não se atreveu a perseguir-nos.



Edição de 1936

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