FUNDAÇÃO DO HOSPITAL MILITAR DE S.JOÃO DE DEUS, EM MOÇAMBIQUE As naus voltavam
à índia no tempo próprio, seguindo a rota do costume, com a mesma finalidade de tanta vez: levar gente
de socorro às Praças do Oriente, artigos de comércio, funcionários e Ministros de Deus, que iam espalhar
a Fé de Cristo entre gentes adversas. Na monção desse ano de 1681 uma novidade levava o novo Vice-Rei
da índia, D. Francisco de Távora, agraciado a 4 de Fevereiro do ano seguinte com o título de Conde de
Alvor. Oito Religiosos Hospitalários de São João de Deus juntavam-se à população das naus, deixando,
como eles, a vida muito mais cómoda da Metrópole, e com eles partilhando das mesmas incertezas de uma
viagem dura, sem garantias de êxito lucrativo (1). Haviam partido voluntariamente, em serviço
de Deus e do Rei, com a grave obrigação que à consciência impõe um voto religioso. Um vínculo especial
distinguia estes dos demais Frades. Por dever de ofício e em virtude da promessa feita a Deus, por força
do voto, os Hospitalários tinham-se obrigado a tratar convenientemente dos doentes. Martírio lento, o
destes homens heróicos que escolhiam semelhante modo de vida. É muito importante na história simples
dos freires de São João de Deus, o lugar que na sua vida ocupa o voto da caridade. O ideal que
os fazia deslocarem-se a regiões distantes nada tinha de aventureiro. Clima e demais condições de vida
tornavam aquela região «a mais inimiga dos Europeus que está do Cabo da Boa Esperança para dentro», segundo
a frase de um desses mártires da caridade. O clima realmente «agazalhava» tão mal os portugueses
que, por exemplo, da gente embarcada na monção de 1681, «em quatro mezes de assistência constava serem
mortos no Hospital, e fora delle, cento e trinta e seis soldados» (2). Não é difícil determinar
o motivo do embarque dos Hos-pitalários para o Ultramar, Haviam sido os enfermeiros solícitos das guerras
da Restauração, continuando depois a exercer esse múnus com igual dedicação e desinteresse. Por outro
lado, o instituto dos Jesuítas, que nalgumas regiões do Ultramar se haviam encarregado da cura dos doentes,
mandava-os antes para a pregação e catequização dos povos e para o ensino da mocidade dos Colégios.
Data de 1507 o hospital de Moçambique, «üa casa grande em modo de esprital pêra agasalhar os doentes,
que ordinariamente havia no tempo que as naus ali invernavam» (3); «huma casa grande com grande varanda
de trás, e casa apartada pêra o enfermeiro, e outra pêra botica, e aposento do mestre, em que metterão
os doentes em cateres que se fizerão» (4). Cem anos depois, Fr. João dos Santos informava que, junto
da fortaleza velha, havia «um hospital, onde se curam todos oa enfermos que adoecem na terra, e os que
vem de fora a este porto, assim da índia como de Portugal. O que se faz com muita caridade e deligencia.
D'este hospital tem cuidado o provedor e irmãos da Misericórdia, mas o gasto d'elle é à custa d'El Rei»
(5). Em 1625 andava o Conde da Vidigueira, Vice-Rei da índia, em negociações com o Provincial
da Companhia de Jesus, a respeito de um novo Hospital que desejava abrir em Moçambique. D. Francisco
da Gama propunha-se fornecer as roupas necessárias e «pagar pontualmente as ordinárias de mil cruzados
da despesa do dito hospital». O Monarca aprovou sem restrições as diligências do Conde-Almirante, recomendando-lhe
«particular cuidado de saber como nisso se procede» (6). Os Jesuítas, porém, segundo o Vice-Rei
comunicava ao Soberano em 1627, não queriam aceitar o encargo, sem o hospital estar pronto a funcionar.
E até essa data, o dinheiro não aparecia, apesar de todos os esforços envidados pelo Conde. Um dia destinou
para esse fim determinada quantia de uma condenação feita em Moçambique. Mas a verba era insuficiente
e ninguém sabia o modo de a granjear em outra parte. A 15 de Março de 1628 o Monarca informava o novo
Vice-Rei D. Francisco de Mascarenhas, Duque de Vila Viçosa e Conde de Ficalho, acerca dos esforços levados
a efeito pelo seu antecessor e recomendava-lhe «que de qualquer dinheiro que aja em Moçambique se faça
a obra do hospital com todo o cuidado possivel». A administração seria entregue aos religiosos da Companhia
de Jesus, como já antes ficara determinado (7). Foi D. Miguel de Noronha, Conde de Linhares,
«Conde sobrinho Viso Rey da índia amigo», quem levou a efeito a tão almejada obra do hospital, passando
provisão a favor dos Jesuítas, em fins de 1629. A 19 de Dezembro enviava ele ao Rei, cópia da provisão,
que o Soberano aprovou por carta datada de Madrid, a 27 de Março de 1631 (8). Pelo menos em 1676
já lhes não competia a administração do hospital de Moçambique. O Vice-Rei opinava então que morriam
muitos doentes e que andavam mal aplicados os mil cruzados despendidos pela Fazenda. Propunha a entrega
do hospital aos Religiosos de São João de Deus, «porque só elles sabem ter cuidado dos enfermos e tratar
da saúde delles». Em Lisboa, porém, mais de um ano depois, pensava-se que a administração do hospital
se devia entregar «aos Padres da Companhia do Colégio de Mossambique», «como fazem no hospital de Goa,
a que assistem com caridade e cuidado» (9). Os Jesuítas aceitaram de novo a incumbência, mas a
breve trecho deram provas de a não terem tomado de boa vontade. Quando o Vedor-Geral, Manuel Ferreira,
se apresentou como enviado da Corte para tomar contas das despesas e receitas, o Reitor do Colégio resolveu
desistir da administração do hospital (10). Desde então, o Príncipe decidiu seguir o conselho
de Luís de Mendonça Furtado de Albuquerque, e dirigiu-se aos Irmãos de São João de Deus. A leva
dos Hospitalários deve ter começado a preparar-se em 1680, visto que o decreto que manda fundar o hospital
de Moçambique foi assinado por D. Pedro II, a 26 de Fevereiro de 1681. Realmente, de data anterior,
existe um documento do Príncipe D. Pedro TL, dirigido ao Vice-Rei D. Pedro de Almeida, que se deve relacionar
com a leva de 1681 que ficou em Moçambique 11). Começa D. Pedro por acentuar a necessidade indicada
pelo Vedor-Geral, de fundar um hospital «nessa Praça», «em que se curem não só os soldados da fortaleza
e moradores, mas todos os soldados que ahy aportarem, assim das nãos de arribada como de viagem» (12).
O Hospital que havia, destinava-se, portanto, somente aos soldados permanentes e aos moradores da
terra. Com o incidente já apontado de os jesuítas terem desistido da sua administração quando o Vedor
lhes transmitiu a ordem real da fiscalização das contas, mais se agravara a situação dos doentes.
O Príncipe julgou resolver o caso «com pouco custo», mandando comprar umas casas que andavam em leilão,
até mil cruzados, por sinal, «muito capazes para se recolherem nellas, com pouco gasto, mais de quatrocentas
pessoas». Ficavam «em hüa ponta delia» (povoação), «em sitio muito lauado dos ares, com vista, hum poço
de agoa natiua na cosinha, hüa sistema bastante para delia se beber, hum jardim, e fora delia hüa serca
que chega ao mar». Sem demoras se devia pôr o novo hospital a funcionar, entregando o Vice-Rei
a sua administração a quem lhe parecesse, até seguirem de Lisboa os Religiosos de São João de Deus.
Já se estava tratando desse assunto — informa D. Pedro II a 22 de Março de 1680 — «para que na monsão
que há-de vir possão partir os mais que for possível». O Príncipe dava-lhes o privilégio de aceitarem
noviços e a incumbência de abrirem o hospital, não só aos soldados e moradores «que ahy me servirem»
— diz na carta ao Vice-Rei — «mas a mais gente que aí aportar» (13). Veremos, porém, que entretanto nem
se compraram as casas aos Hospitalários quando partiram, nem se lhes concedeu a faculdade de abrir noviciado.
Os preparativos da viagem (14) transparecem ainda de um documento do Conselho Ultramarino, de 14
de Março de 1681. O Provincial de São João de Deus fez a sua exposição que o Rei mandou ao Conselho.
Através do parecer deste, apenas se colhe que o Provincial pediu que fossem dadas certas ordens, as quais
— «todas necessárias» — não demoraram efectivamente a serem-lhes passadas. Ao Vice-Rei devia ordenar
Sua Majestade que assistisse aos Religiosos com tudo necessário, logo que chegassem à índia, durante
o tempo que aí esperassem por monção para passarem a Moçambique. À partida, os Hospitalários iriam bem
providos de «sobrescedentes, botica e o mais de que necessitar aquelle Hospital». O Provincial
lembrara a necessidade de se nomearem médico e cirurgião que assistissem aos doentes. O Conselho Ultramarino
tratou de resolver a questão, sem acréscimo de despesa. «Com a ocazião do primeiro socorro» que Sua Alteza
mandara para os Rios, partira do Reino Paulo da Silva, que agora se encontrava na índia. Como já fizera
parte dos quadros de Moçambique, podia voltar de novo a prestar aí os seus serviços (15). O cirurgião
já residia em Moçambique — Ambrósio Martins da Ponte, que recebera do Príncipe a graça da «carta de sirurgião
mor». «No mais que aponta o papel destes Relligiosos — conclui o Conselho Ultramarino — se disporá
tudo na forma que Vossa Alteza o tem disposto». Três dias depois, a 17 de Março desse ano
de 1681, o Príncipe homologava o parecer do Conselho, determinando que «o Hospital se ha-de faser em
Moçambique na forma que tenho resoluto». «Aos Religiosos que agora vão — prosseguia o despacho — se darão
setenta mil reis de viatico a cada num» (16). A 22 desse mês, D. Pedro II expunha ao Vice-Rei
as mesmas questões com as resoluções do Conselho, que fizera suas e expedia o Alvará em que encarregava
o Hospital de Moçambique aos Religiosos de São João de Deus, «por fundação para sua Relligião» (17).
Desta forma tudo ficou pronto em Lisboa. O Provincial escolhera oito Religiosos (18), dos quais apenas
conhecemos o nome de três: o Superior, Frei João de Deus, Frei Luís de Jesus Maria José e Frei José da
Assunção. Chegada a monção, os Hospitalários embarcaram em companhia de D. Francisco de Távora,
que aportou em Moçambique, com as três embarcações que levava, no dia 31 de Julho. Os Religiosos instalaram-se
no hospital velho e começaram logo a trabalhar. A 19 do mês seguinte, Frei João de Deus escrevia
ao Príncipe, solicitando autorização para admitir noviços que prestariam serviço no Hospital (19). A
petição correu os trâmites burocráticos. A 14 de Novembro de 1682 o Príncipe enviava-a para o Conselho
Ultramarino. Em Janeiro e Fevereiro de 83 duas consultas lançadas à margem, pronunciam-se contra a instituição
do Noviciado. A última sustentava com convicção que «para a cura dos enfermos he só necessário
hospital e enfermeiros, e não noviços nem fundaçoens que podem trazer damnozas concequencias à utilidade
ciuil» (20). Esquecia-se de que a melhor aprendizagem de enfermeiro se faz nas próprias enfermarias,
e ignorava, decerto, que o Noviciado nunca significa vida regalada. Anos mais tarde, o Cronista da Ordem
informa que realmente funcionava noviciado em Moçambique (21). O próprio comissário geral da índia Fr.
Ant. da Encarnação, em Dezembro de 1704 afirma igualmente que aí funcionava o Noviciado da Província
da índia nesse ano com 3 noviços. (A. H. U. Exposição de Fr. Ant. da Ene. e Goa, 1-12-1704 — Maço da
índia 1701-803). Na sua carta, Fr. João de Deus sublinha, de início, o grande número de enfermos
e a falta de tudo, desde medicamentos até médicos, que assistissem aos doentes. «Com os gastos delles
(enfermos) está corendo o Feitor de V. A., por ordem do Vizo Rey e nos lhe aministramos o que he necessário»
— acrescenta o Hospitalário em 19 de Agosto (22). Como o Vice-Rei «não podia mandar dar às ordens
de V. Alteza a enzecucão athe que não estivece em Goa», diz ainda Frei João de Deus ao Príncipe, este
estado de cousas manteve-se forçosamente por mais uns meses. No entanto, «os enfermos se fiquao curando».
Receando que da índia lhe não viesse mais que o primeiro fornecimento para a inauguração do Hospital,
Frei João de Deus faz a sua reclamação directamente ao Príncipe: «V. A. deue mandarme todas as
moncois que uierem butica separada pêra este ospital pella muita falta que ha de medicamentos e de quem
lhos saiba ademnistrar com o que nececita muito de medico pêra aos enfermos asestir» (23). D. Francisco
de Távora partiu de Moçambique a 12 de Agosto, levando consigo dois hospitalários, Frei Luís de Jesus
Maria José e Frei José da Assunção, que viajaram na embarcação Nossa Senhora dos Milagres (24). Chegaram
a Goa a 11 de Setembro, com quase toda a gente viva, segundo ele próprio informa. Dois meses depois,
a 26 de Novembro, reuniu o Conselho da. Fazenda, com todos os seus ministros e deputados, para propor
a compra de umas casas de Vicente Dourado, que se adaptariam para o «novo hospital». A 3 de Janeiro do
ano seguinte assinava uma provisão, ordenando a compra daquelas moradias. Os herdeiros deviam requerer
o pagamento ao Conselho da Fazenda de Goa (25). Seguindo estritamente as ordens da Corte, resolveu
encarregar os feitores da cidade de Chaul, de «logo fazer hüa botica», cem camas «para a enfermaria e
mais fabrica». Na monção da índia, juntamente com a nau do Reino, seguiria o barco do capitão
de Moçambique — «hüa fragata» — que devia levar tudo, debitado na conta do feitor dessa Praça, o qual,
por sua vez, faria a devida entrega ao tesoureiro do Hospital (26). Com a data de 25 de Janeiro de 1682
o Vice-Rei comunicava ao Príncipe as providências que tomara, enviando cópia do assento do Conselho de
Fazenda e uma lista do que seguira para o Hospital. Só o médico Paulo de Lima não pôde embarcar, por
já ser falecido, devendo, por isso, Sua Alteza «mandar prover de outro aquella Praça» (27). Para Moçambique
remeteu um alvará, datado de 2 de Janeiro, ordenando a criação do Hospital no Convento de São João de
Deus (28). A data da sua fundação tem, no entanto, de se fixar em fins de Janeiro ou princípios
de Fevereiro de 1682, visto os Hospitalários só nessa ocasião disporem de meios necessários. Segundo
Santana da Cunha, o Hospital abriu as portas no dia 30 de Janeiro, sendo Governador de Moçambique Caetano
de Melo e Castro (29). Sobre o edifício pronunciar-se-á 77 anos mais tarde o Prior e Administrador
do Convento, Frei Vicente da Encarnação. «Eram ellas já então velhas, além de pequeno cómodo». Ficavam
junto ao cemitério e à capela da Senhora da Saúde, «no meio desta Ilha». Segundo Frei Vicente, um dos
inconvenientes deste hospital consistia no facto de as enfermarias não estarem próximas do mar. Mas conforme
já vimos, levantavam-se dentro de uma cerca que se estendia até ao oceano. A Rellação ao Cathalogo, que
talvez tenha sido escrita por Frei Amaro da Anunciada num dos anos da terceira década do século xvm,
diz que a «fundação e sítio» «he fora da Praça e pouuoação (sic) no sitio que se conciderou mais apto,
não só para a fabrica da Igreja, senão tãobem a respeito de serem os ares mais puros para o beneficio
dos doentes do hospital» (30). O Convento dos Frades foi começado em 1682 por um devoto filho
da ilha, homem rico de negócios, chamado João Dias Ribeiro. Foi o primeiro Convento que os Hospitalários
fundaram em terras do mar Indico. Construiu-se a igreja e haviam-se iniciado as obras do primeiro lanço
do Convento, quando faleceu o benfeitor. Os Hospitalários aceitaram o golpe com a mais perfeita resignação
com a vontade de Deus, e resolveram acabar oito celas nesse primeiro lanço, com esmolas que pediram na
ilha. Por baixo ficava um claustro com arcos ao poente. O mesmo piedoso morador da Praça, João Dias
Ribeiro, ergueu à sua custa uma pequena igreja de três altares, que pôs debaixo da invocação de São João
de Deus. Um desses altares era «capela» instituída por Isabel de Pais, «em dous palmares com duas moradas
de cazas», com obrigação de algumas missas e um ofício por ano. A doadora contentara-se com essas graças
espirituais e não exigiu sepultura com campa, «armas nem epitáfio». Um terremoto ocorrido ainda
em vida de João Dias Ribeiro derrubou a igreja, que logo foi reedificada pelo seu piedoso instituidor
(31). A igreja fora dotada, desde a fundação, com alguns objectos de prata — uma cruz, dois cálices,
um turíbulo e naveta, uma píxide, umas galhetas, uma caldeirinha e uma custódia (32). O hospital
dispunha de cem camas, que custaram 142 xerafins ao Feitor da Fazenda de Goa. Desta cidade vieram também
573 xerafins de unguentos, óleos, pós, emplastros, xaropes e outros medicamentos; dois tamboretes, um
bufete, um almofariz de latão, uma campainha para a portaria, louças de Portugal e da China, roupas,
cem travesseiros e cem almofadas, mantimentos (peixe seco, enchidos, etc.), incenso, «dous livros de
quatro mãos cada hum e feitio do livreiro», num total de 15.000 xerafins, chávenas da China para sangrias,
etc. (33). A dotação do Convento-Hospital fora fixada pelo alvará de D. Pedro H, em 3.500 cruzados
(210.000$00 actuais) por ano (34). Não tardou, porém, a ser considerada diminuta, não só pêlos Religiosos,
mas até pelo próprio Conselho da Fazenda de Goa. Os Hospitalários preferiam que se atribuísse «côngrua
certa» a cada um, «na forma que se fazia nos hospitais das fronteiras do Reino». Mas a ordem viera de
Lisboa, e o que se pôde conseguir foi uma situação intermédia. O Feitor de Moçambique entregaria ao Tesoureiro
do Hospital os 3.500 cruzados em moeda provincial, «pagos aos quartéis», para todos os gastos delle,
assim da cura dos enfermos como do seu sustento, e mais fabrica necessária». A cada um dos oito Religiosos
que haviam de assistir no hospital daria mais 250 réis por dia «para sua côngrua, e sustentação, dos
quais se lhe não pederia conta». Os medicamentos não entrarão no Alvará da fundação, explicará
mais tarde um Governador de Moçambique e por isso, conforme o mesmo informador, «sahião as receitas do
hospital asinadas pello Cirurgião e Administrador e hião a hüa botica que havia fora, e com ellas se
pagarão os remédios na Feytoria» (35). As funções de tesoureiro do hospital ficaram sempre adstritas
ao cargo de Prelado do Convento, embora se pudesse supor que mesmo pessoa de fora tomasse conta dessa
ocupação. Um jesuíta que a caminho da índia passou por Moçambique, escreveu em 1688 que vira,
entre outros edifícios, o do hospital real com o rendimento de 5.000 cruzados anuais. Cada Religioso
recebia 250 reis por dia e o cirurgião-mor, um cruzado também diariamente (36). A mesma quantia
é assinalada pelo Comissário-Geral da Ordem, Frei Amaro da Anunciada, nas Notícias que mandou à volta
de 1724, à Academia Real da História Portuguesa (3T). A Rellação do Cathálogo dos Conventos e Hospitais,
que se nos afigura complemento das Notícias de Frei Amaro, assinala 5 500 cruzados, para cura dos enfermos
e sustento dos Religiosos, pela Fazenda Real, referindo-se, evidentemente, a data posterior à da fundação,
talvez aos últimos anos de século XVII. Elevara-se, pois, a quantia inicial da dotação, porque neste
tempo ainda prevalecia o fervor da primeira hora, em que a necessidade e utilidade da obra se costumam
sobrepor à consideração dos dinheiros gastos. Essa inversão de valores, também nesta obra se há-de dar
a menos de um século da fundação. Tais foram os princípios do Hospital de S. João de Deus, de
Moçambique, cuja história esboçámos noutro lugar (38). (1) Contra toda a documentação
conhecida e que citamos adiante, João Rodrigues da Costa, Fidalgo da Casa Real, Professo da Ordem de
Cristo e Governador da Praça de Moçambique, afirma que «na era de mil e seis centos e setenta e oito
passarão os primeyros em esta Fortaleza:», a caminho da índia, os quais se instalaram na casa que ainda
servia de Hospital no princípio do século XVIII (Arquivo Histórico Ultramarino— Moçambique, caixa 3).
(2) Carta do Vice-Rei, D. Francisco de Távora, de 25 de Janeiro de 1682 (A. H. U. — índia, caixa
32). A este respeito é interessante o depoimento do cirurgião-mor da Praça de Moçambique, Simão
da Costa Ferreira, que pretendeu mostrar cientificamente que o clima moçambicano é prejudicial aos europeus.
O conselho ultramarino procurou desfazer os argumentos do cirurgião mor (A. H. U. — caixa 3 de Moçambique).
(3) João de Barros — Ásia, 2." Década. Lisboa, 1945, pág. 41. (4) Gaspar Correia — Lendas
da índia, livro l, tomo l, parte II. Coimbra, 1921, pág. 785. (5) Frei João dos Santos — Ethiopia
Oriental, Biblioteca de Clássicos Portugueses. Lisboa, 1891, 1.° vol., pág. 270. (6) Carta de
M Rei ao Conde da Vidigueira, Vice-Rei da índia, de Lisboa, 15 de Abril de 1626. — T. T. Documentos
remetidos da índia, Uvro 23, pág. 125. (7) Carta de El Rei ao Vice-Rei, D. Francisco Mascarenhas,
de Lisboa, 15-3-628. T. T. Doe. remet. da índia, livro 25, pág. 52. (8) Carta ãe El Rei ao Vice-Rei,
Conde de Linhares, de Madrid, 27-3-631 —T. T. Doe. remet. da índia, livro 226, n.° 112. (9) Carta
do Príncipe D. Pedro II, de 14-3-675. A. H. U. — Moçambique, caixa 2. Ibd. o parecer do Vice-Rei, datado
de 21-1-676 e o parecer do Conselho, de 11-3-677. (10) Carta do Príncipe ao Vice-Rei D. Pedro
de Almeida, de 20-3-680. A. H. U.— índia, caixa 31. (11) Conserva se junto ao parecer do Conselho
Ultramarino, de 14-3-681, que trata do novo Hospital de Moçambique. (12) T. T. — Alvará
de 24 de Março de 1681. Chancelaria de D. Pedro II, liv. 39 ,fol. ; A. H. U. — caixa 2 de Moçambique
— Publicado pelo P. A. Brásio. O esforço missionário dos Irmãos de S. João de Deus, Jn Portugal em África
— 1° se vê, ano VII, N.» 42 (1950) II 348. (13) Carta do Príncipe, ao Vice-Rei, D. Pedro de Almeida,
de Lisboa, 20-3-680.— A. H. U. índia. Caixa 31. (14) A carta que o Príncipe dirige ao Vice-Rei,
dando instruções sobre a viagem tem a data de 7-3-1681. D. Francisco de Távora respondeu a 25 d? Janeiro
do ano seguinte. Ver consulta no Conselho Ultramarino de 5-11-682. — A. H. U. índia. Caixa 32.
(15) Paulo da Silva tinha falecido. Por isso, o Príncipe, no despacho de 14-11-682 diz que manda fazer
as diligências para que hajam de ir médicos na monção seguinte. — Consulta do Conselho Ultramarino,
7-11-682. A. H. U. —índia, caixa 32. (16) Parecer do Conselho Ultramarino, de 14-S-681. A.
H. U. — índia, caixa 31. (17) Alvará por que há por bem de encarregar o Hospital de Mossam-bique
aos Relligiosos de S. João de Deos por fundação para a sua Relli-gião, como neste declara. Lisboa, 22-3-681.
A. H. U. — Moçambique, caixa 2. (18) Na petição de Frei João de Deus lê-se nitidamente, apesar
da mancha que inutiliza parte do documento: «nella fiquo e me acho só com coatro religiosos e hü (...)
dous donatos>. O Vice-Rei, porém, diz que deixou seis em Moçambique e levou dois que depois voltaram
com o Fornecimento dos remédios e mantimentos. (19) Petição de Frei Jofio de Deus para admitir
noviços. — A. H. U. — Moçambique, caixa 2. (20) Citada petição de Frei João de Deus.
(21) Frei Juan dos Santos — CJvronologia Hospitalaria, 2." parte, pág. 526. (22) Petição
de Frei João de Deus, 1. c. (23) Petição citada, A. H. U. — Moçambique, caixa 2. (24)
Ofício do Vice-Rei, de Goa, S5-ĺ-682. A. H. U.—índia, caJxa 31. (25) Provisão do Vice-Rei, de
S-l-682. A. H. U.—Moçambique, caixa 2. (26) Assento do Vedor da Fasenda Geral de Goa, 26-11-681.
A. H. U. — índia, caixa 31. (27) Carta do Vice-Rei D. Francisco de Távora, 25-1-688. A. H. U.—
índia, caixa 31. — Aí se guarda o assento do Conselho da Fazenda de Goa e a lista das drogas e mobiliário
enviado. (28) Desconhecemos este documento de que dá notícia Francisco da Costa Mendes, que
em 1849 o viu na Secretaria do Governo de Moçambique. (Costa Mendes)—Catalogo Chronologico e Histórico
dos Capitães, Generaes e Governadores da Província de Moçambique. Imprensa Nacional de Moçambique, 1892,
pág. 2. (29) P. Santana Sebastião da Cunha — Antiguidades Históricas da Ilha de Moçambique e
do Litoral Fronteiro, desde os tempos da ocupação. 1939, pág. 120. (30) Rellação do Cathalogo
dos Conventos e Hospitais que tem na índia Oriental a Relligião de S. João de Deos; quem, forão seus
fundadores, e o anno em que foy fundado cada hum dos ditos Conventos. Bibl, Nac. de Lisboa, F.
G. 177. (31) Ibid.. (32) Representação de Frei Vicente da Encarnação, de Moçambique,
23-12-758. A. H. U. — Moçambique, caixa 8. (33) Lista das cousas enviadas de Goa para o novo
hospital de Moçambique. A. H. U. — índia, caixa 31. (34) O Padre Farinha parece dizer que no
hospital dos jesuítas já havia cem camas à chegada dos Hospitalários e que El-Rei já pagava 3.500 cruzados
para despesas e mais 250 réis por dia para sustentação do cada religioso. Ora estes números encontrámo-los
nós em documentação referente aos filhos de São João de Deus. Se Farinha nos indicasse os documentos
do que escreveu, concluir-se-ia que o Príncipe D .Pedro II se limitou a conceder aos Hospitalários
o mesmo que estava dando aos Jesuítas. Assim, receamos uma possível equivocação, sobretudo se reflectirmos
que as cem camas para o novo hospital vieram em 1681. (P.e António Lourenço Farinha — A Expansão da Fé
na África e no Brasil, vol. 1. Lisboa, 1942, pág. 329). (35) A. H. U. — Carta de José
Barbosa Leal ao Conde de Sandomïl, de Moçambique, 9-8-1733. (36) Documento do Museu Britânico
n.° 20.934, foi. 23, transcrito em Records. Apud T. Botelho, História Militar e Política dos Portugueses
em Moçambique. 1." vol. Lisboa, 1934, pág. 381. — O Comissário-Geral Frei Amaro da Anunciada, cerca de
1724 informava a Academia Real da História Portuguesa de que D. Pedro II lhe assinalara «rendas de sinco
mil cruzados para o sustento de oito relligiosos que effectivamente nelle asistem, e para a cura
dos soldados enifermos que nelle se curão» (Noticias que manda o Padre Comissário Geral da Ordem de
São João de Deus da Provinda da índia Oriental à Academia Real da Hystoria Portuguesa. Bibl. Pub. de
Évora, C V Parece-nos informação pouco exacta, quando temos presente o que atrás fica dito a
este respeito. (37) Noticias que manda o Padre Comissário Geral da Ordem de São João
de Deos da Provinda da índia Oriental à Academia Real da Hystoria Portuguesa. — Na «distribuição dos
empregos académicos» indicava-se em Dezembro de 1720 para escreverem a «Historia Ecclesiastica Ultramarina>
na língua latina, António Rodrigues da Costa, do Conselho Ultramarino, e em português, o P.e D.
António Caetano de Sousa, Clérigo Regular. Em princípios de 1721 pedia-se aos Prelados maiores das Religiões
que mandassem «num catalogo dos Conventos que tem, assim de Relligiosos, como de Religiosas, em que lugares
estão, que invocações tem, quem foram os seus Fundadores, e em que anno foy fundado cada num delles».
(Collecçam dos Documentos, Estatutos e Memórias da Academia Real da Historia Portuguesa. Lisboa, 1721,
1." vol., págs. 22 v. e 29. Numeração a lápis). Por outro lado, a data mais recuada que conhecemos de
que Frei Amaro exercia o cargo de Comissário-Geral, é de 18 de Janeiro de 1724. Por isso, parece-nos
seguro datar o documento de cerca de 1724. (38) Os Hospitaleiros de São João de Deus no Ultramar.
Lisboa, 1957. Separata da revista Portugal em África, vols. XIII e XIV.
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