

|
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
|


|
LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO
|








 |
DADOS BIOGRÁFICOS (RESUMO) DE BENTO ELĺSIO AZEVEVO:
Nasceu em Angola, a 6 de. Novembro
de 1926. Filho de ELĺSIO GUILHERME DE AZEVEDO e de JOAQU1NA FILOMENA PEREIRA LEITE, ambos naturais de
Cabeceiras de Basto, concelho minhoto. Seu Pai tomou parte na. 1ª Grande Guerra nas campanhas do sul
de Angola (1916) contra forças sob comando alemão e, mais tarde fez diversas comissões de serviço em
Angola e Moçambique, desempenhando vários cargos, tais como Director da Imprensa de Angola, Comandante,
da guarda fiscal daquela colónia e Director do Material de Guerra (Moçambique1943/46} em Lourenço Marques.
Amigo e partidário do General Norton de Mattos e do Coronel Bento Roma [herói de La Lys, Governador da
província da Lunda e Governador Geral de Angola) ,passou à reserva em 1946 e regressou à Metrópole.
Já em Lourenço Marques apoiou a candidatura a Presidência da República de Norton de Mattos, e em Portugal
fez parte da oposição à ditadura, tendo sido candidato a deputado pelo distrito de Braga e apoiou o General
Humberto Delgado. Poeta e assíduo colaborador do Jornal República. A sua obra literária está publicada
num livro póstumo intitulado "O SONHO E A VIDA", onde consta poesia também sobre temas africanos de Angola
e Moçambique… Bento Elísio de Azevedo estudou em Luanda, Braga e Lourenço Marques, onde concluiu
o seu curso liceal. Não querendo regressar com seus Pais a Portugal e não existindo, na altura Universidade
na capital de Moçambique, especializou-se mais tarde, em 1953, data do seu regresso à Metrópole, em Gestão
e marketing. Em Lourenço Marques, trabalhou no Departamento Marítimo e foi jornalista do jornal
"Tribuna de Lourenço Marques". Já em Portugal, foi director no Porto das Edições J. Corte Real, sócio-gerente
dos Laboratórios de Estudo de Marketing e Administrador da Empresa do Jornal de Noticias. Colaborou com
artigos de opinião em diversos jornais nacionais. Tomou igualmente parte da oposição à ditadura. Após
o 25 de Abril foi Deputado Constituinte e da Assembleia da República (1976 a 1983). Reformou-se ao atingir
o limite de idade. Vive na cidade do Porto e em Arco de Baúlhe, onde tem uma casa herdada de seus avós
maternos. É casado e tem três filhas, uma doutorada em psicologia e duas licenciadas pela Faculdade,
de Direito de Coimbra.
|
|


DEDICATÓRIA
A minha mulher e às minhas filhas, pelos carinhosos incentivos na conclusão e
publicação deste livro. — Ao Prof. Raul Ferrão, pela sua simpatia e disponibilidade em facultar-me
documentos essenciais ao estudo mais aprofundado sobre terras africanas, onde viveu e amou. — Aos
povos do Niassa, Moçambique, como preito de homenagem à sua bela terra.
|


PREFACIO
Este romance foi escrito em Moçambique, em 1948/50. Jazeu em pastas, malas,
caixotes e gavetas durante décadas. Nunca pensei em publicá-lo, até porque a sua gestação foi efectuada
durante a ditadura, altura em que temas como o racismo e o colonialismo não poderiam ser referidos com
a realidade então existente. O lápis dos censores mutilariam o texto e o autor seria possivelmente enclausurado,
mesmo a coberto do pseudónimo então optado e ainda mantido. Passaram os anos. E só muito recentemente,
retirado o pó às páginas amareladas pelo tempo e pelo sótão do esquecimento, me dei ao trabalho de relê-lo
e refazê-lo. Não alterei em nada a estrutura original do romance, o qual procura descrever a realidade
daquela época, quer no que se refere à vida social vivida em Lourenço Marques, hoje Maputo, quer aos
colonos que labutavam na linda província do Niassa e aos povos indígenas que a povoavam. As personagens,
como é óbvio, são ficcionadas e não têm nenhuma relação com personagens reais; mas, mesmo assim, procuram
retratar algumas figuras típicas moçambicanas daquela década. Não se trata dum livro saudosista
dum passado de domínio colonial, mas sim crítico às influências nefastas sobre civilizações milenárias,
as quais, com todos os seus defeitos e virtudes, deveriam ter sido melhor compreendidas e preservadas,
não fora a miopia política, o egoísmo e a ganância de homens sem escrúpulos.
O Autor
|


HUMANISMO
Não interessa a minha cor, irmãos, Somos do mesmo mundo, e para o mundo Não
somos nada sem o amor profundo Dum sincero desejo a dar as mãos.
Vinde falar comigo, amigos
meus, Venha do mundo inteiro a humana gente, Vinde e dizei-me se essa cor diferente Não ama
o sol, a vida, ou não tem Deus.
Se não viveis a lei da humanidade, Uma lei de bondade e de
beleza, A lei da origem humana - a natureza.
E nós não temos culpa, na verdade, Porque
da vida, a própria cor da gente, Tudo se gera, em trevas, inocente
Do opúsculo"Sonetos" de Elísio Guilherme de Azevedo
|


MEMÓRIA Um romance do Niassa
Adelto Gonçalves Se algum dia um pesquisador se dispuser a escrever em Portugal
uma História da Literatura do Retornado, na hipótese de que ninguém não se tenha ainda preocupado com
isso, não poderá deixar de fora A Paixão de Muamina, de Élio Bélaze, pseudônimo de Bento Elísio de Azevedo.
Escrito em Moçambique, entre 1948 e 1950, este romance jazeu em pastas, malas, caixotes e gavetas durante
décadas, até que o seu autor, hoje morador no Porto, encheu-se de coragem para mandar fazê-lo editar.
Desde logo é preciso que se diga que este não é um livro saudosista de um passado colonial nem
reúne as diatribes de um emigrante que, a determinada altura da vida, decidiu colocar no papel o que
vivenciou, antes de construir um sólido patrimônio e fundar extensa família. No Brasil, há alguns poucos
desses livros de memórias que não deixam de ter o seu valor. E que, de certa maneira, também mereceriam
figurar numa hipotética História da Literatura do Emigrante, ao lado de alguns outros escritos nos Estados
Unidos, no Canadá e em outras terras em que se tenham radicado os integrantes da chamada diáspora portuguesa.
A Paixão de Muamina conta a história de Pedro, filho de emigrantes nascido e criado em Lourenço
Marques, morador na Polana, um dos bairros mais elegantes da cidade das acácias, ao final da década de
1940. Depois de viver uma juventude fútil, freqüentando os bailes de clubes privados ou recreativos,
as boates do Avis, do Polana ou do Girassol, hotéis onde se hospedavam os turistas e viajantes, em vez
de acompanhar os pais em seu retorno a Portugal ou optar pela África do Sul para cursar estudos universitários,
Pedro prefere deixar-se levar pelo convite de um camarada de noitadas para se embrenhar no mato. Larga
o seu primeiro emprego no Departamento Marítimo para viver sozinho em meio aos macuas e macondes, no
Norte do país, nas redondezas da ilha de Moçambique, a primeira capital colonial da contracosta.
É a época do pós-guerra no mundo e da ditadura fascista em Portugal em que os esbirros da Pide e
da Censura tratam de silenciar as críticas ao regime salazarista também nas colônias. Os jovens bem educados,
geralmente filhos de emigrantes, discutem as perspectivas da África e temem por seu próprio futuro de
brancos na terra dos negros. Descobrem que, no mundo empresarial de Moçambique, não terão
muitas oportunidades porque os grandes negócios – de arroz, algodão, copra, sisal, chá e café – são
controlados por grupos financeiros de Lisboa ou Londres. E que no país a escravidão dos negros só acabou
na retórica oficial porque homens são transacionados no dia-a-dia como mercadorias para irem trabalhar
nas minas de ouro da África do Sul. Tudo feito entre as autoridades administrativas da colônia e os angariadores
das empresas mineiras. A política ainda é a do saque, como há tantos anos: os homens do governo
roubam a não mais poder. E à boca pequena correm os escândalos: um ministro baixava o preço do milho
por decreto e telegrafava em código a um cunhado para comprar todo o milho que pudesse e, três meses
depois, aumentava de novo por decreto. Pilhado na corrupção, em vez de castigado pelo ditador, ganhava
o alto cargo de um banco emissor, prêmio pelos “bons serviços prestados”. Enquanto isso, àqueles que
desafiavam o regime estavam reservadas celas nas prisões do Tarrafal ou de Caxias ou o desaparecimento.
A Paixão de Muamina começa mesmo quando Pedro decide aceitar o convite para dirigir um empório
comercial no Niassa, muda de vida, compra armas, botas para caça e um facão, equipamentos imprescindíveis
para quem vai viver no mato. Mal chegado, depois de procurar se adaptar à nova vida, vai com o capataz
e os trabalhadores acompanhar a colheita do caju. É quando desperta o interesse de Muamina, moça mestiça,
de grandes olhos negros e pele de cobre-bronzeado, resultado das muitas migrações que passaram pela costa
oriental da África. Muamina atrai Pedro para o sexo e começa a grande aventura do moço da cidade em meio
à magia da África. Narrado de maneira irônica, saudavelmente obcecado em evitar preconceitos,
o romance de Élio Bélaze é um esforço sério de recopilação de dados e descrição do mundo do Niassa. O
autor, através de seu romance, traça um quadro animado do que era a vida entre os colonos de origem portuguesa
no interior do Moçambique da metade do século XX em que se percebe o seu fatalismo diante do dia em que
os negros haveriam de se revoltar e exigir o direito de se auto-governar em sua própria terra.
São estóicos, sonham com o dia de retornar à metrópole, depois de descobrir que a vida no ultramar
não era o mundo que imaginavam quando decidiram largar tudo em busca do sonho do eldorado. Descobrem
um país imenso, de terras incultas, mas ubérrimas, e não entendem a política de Lisboa que prefere desviar
a emigração para o Brasil, em vez de apoiar a colonização da África portuguesa. Imaginam que os homens
do governo receiam que a população branca aumente e possa, mais tarde, desencadear gritos de rebeldia
e aspirações à independência. O romance de Pedro com a nativa, como seria de esperar, não vai
além de encontros furtivos, interrompido por um desastre natural, comum na selva, mas serve para que
o autor, privilegiado espectador desse mundo, aponte as influências nefastas do europeu depredador sobre
civilizações milenárias. Para ele, mesmo com seus defeitos e virtudes, essas civilizações deveriam ter
sido mais bem compreendidas e preservadas, não fosse a miopia política, o egoísmo e a ganância de homens
sem escrúpulos. Se assim não fosse, talvez a África de língua portuguesa não se debatesse hoje com tantos
problemas. (Artigo publicado no Primeiro de Janeiro da cidade do Porto)
____________________________ A PAIXÃO DE MUAMINA, de Élio Bélaze. Gueifães, Maia, Litovisão Sociedade
Gráfica, 2002, 319 págs., 14,70 euros. E-mail: bentoelisio@msn.com _________________________________
Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, autor de Gonzaga,
um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada,
1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail:
marilizadelto@uol.com.br
|










|