A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



CARLOS G. COSTA



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CARLOS G. COSTA


    Irmão de D. Ernesto Costa, nasceu em S. Romão da Ucha, do concelho de Barcelos e distrito de Braga, a 8 de Dezembro de 1926.
    De 1950 a 1964 esteve em Moçambique onde, como funcionário do quadro técnico aduaneiro, exerceu as funções de chefe da Alfândega do Caminho de Ferro e doAeroporto da Beira.

    Foi repórter, redactor e correspondente do "Diário de Moçambique" que viu nascer. Colaborou na Rádio Pax, da Beira, desde a primeira hora,  como autor e director de programas, director de recursos humanos e de conteúdos.

    Regressado à Metrópole em 1964, enveredou pela    actividade empresarial e, esporadicamente, colaborou no "Diário do Minho", "Correio do Minho" e "Jornal de Notícias". Estruturou a rádio local "Antena Minho", de Braga, de que foi director de programas, antes da legalização. É ex-aluno dos colégios franciscanos.
    Reside em Braga desde 1965.
cgcosta@mail.telepac.pt


Introdução


  A ideia de publicar um livro sobre D. Ernesto Costa surgiu logo após o seu falecimento, aliada à intenção de lhe prestar uma homenagem através da divulgação da sua vida e obra, a partir de escritos da sua autoria, e de apresentá-lo como modelo de vivência evangélica. Depressa se concluiu ser indispensável imbuir a biografia com o perfil da personalidade, estilo de vida, carácter, modo de agir, de ser e de estar, cuja definição, apenas de forma incompleta e parcelar, se infere daqueles textos. O processo mais conveniente para atingir este objectivo não deveria passar pelo autor mas, antes, por colher e transmitir aos leitores as impressões a seu respeito de outras pessoas que com ele conviveram. Com este intuito, foram recolhidos vários testemunhos dos quais são de salientar aqueles que ilustram a descrição com o exemplo, aqui a funcionar como a imagem para as palavras: uma para mil. De igual modo se transcrevem passagens de livros e de publicações periódicas, referentes à pessoa e à acção de D. Ernesto. Assim, à conjugação dos verbos dizer e fazer juntou-se a do verbo ser.
  Sendo o familiar que mais de perto privou com o biografado nas várias fases da sua vida, subscreveria, na generalidade, as afirmações contidas nos depoimentos.
  Estes, além de complementarem os dados autobiográficos, desvanecem qualquer dúvida quanto à genuinidade e verdade de alguns passos dos escritos que, sem o conhecimento da personalidade do seu autor, poderiam correr o risco de virem a ser tomadas pêlos vindouros como clichés ou discursos de circunstância. Os testemunhos dão sustentabilidade à ideia de que pela obra e pela palavra falada e escrita de D. Ernesto perpassa o Divino.
  Porque quase toda a vida de D. Ernesto decorreu fora das raízes de que nasceu, entendeu-se ser de algum interesse divulgar a sua aldeia e os reencontros com ela havidos, extensivos ao concelho onde a sua figura não é conhecida a corpo inteiro - motivo suficiente para que a evocação do público barcelense também tivesse partilhado a génese deste trabalho.
  Pareceu propositado fazer uma descrição, tanto quanto possível fiel e sucinta, da terra natal, de modo a situar o leitor e o biografado num meio e num tempo que se estendem dos anos vinte do século passado até aos nossos dias. A imagem conseguida será muito semelhante à de inúmeras aldeias de Entre Douro e Minho que porventura nelas se verão espelhadas.
  O primeiro capítulo deste livro - salvo raras excepções - provém da mesma fonte que serviu para a elaboração de algumas páginas do livro "D. Ernesto Gonçalves Costa - Bispo e Irmão", publicado pela Província Portuguesa da Ordem Franciscana. O mesmo se passa com as imagens cujas origens são quase todas comuns. Inevitável a repetição porque, omitidos os dados biográficos (no caso, autobiográficos), os restantes capítulos ficariam desarticulados. Aliás, o factor repetição não se colocará se levarmos em linha de conta sectores diferenciados de público leitor para os quais os livros são direccionados.
  Estava na intenção do coordenador deste trabalho resumir ao mínimo indispensável todo o texto da sua lavra, sobretudo aquele que de algum modo resultasse na exaltação do biografado. Confessa que tal intento foi confrontado com os impulsos irrompidos de torvelinhos emocionais e acabou por não ser cumprido integralmente. Pela falta, de que não se penitencia, sujeita-se ao julgamento do leitor.
Em vários testemunhos, D. Ernesto, implícita ou explicitamente é considerado santo. Ele próprio, num dos seus escritos, dá conta da existência de uma "vox populi" com esse sentido contrapondo-lhe a confissão de grande pecador, com a finalidade de se libertar do incómodo atributo e de retirar ao vocábulo o seu significado genuíno. Evitar que as pessoas se tivessem expressado livremente seria desvirtuar as suas opiniões. Fique, porém, esclarecido que, à transcrição, de modo algum esteve associada a ideia da pré-santificação. O discernimento do leitor dará à palavra a interpretação que entender mais apropriada.
 Regista-se aqui um agradecimento especial à Ordem Franciscana que pôs à disposição do autor os testemunhos de Suas Excias. Revmas. Dom Manuel Madureira Dias, bispo do Algarve, e de Dom Alberto Setele, bispo de Inhambane, e do Exmo. Sr. Dr. Joaquim Mendes Marques, aos quais expressa também a sua gratidão. O agradecimento é extensivo à Editorial Franciscana, na pessoa de Fr. José António Correia Pereira, que autorizou a transcrição de várias passagens dos livros da autoria de D. Ernesto Gonçalves Costa "A Obra Missionária em Moçambique e o Poder Político" e "Chamados à Missão e Desenvolvimento Integral do Homem" em que o autor deste trabalho foi chamado a colaborar. Não contabilizando as fotografias que foram postas à disposição da Editorial e as que a Editorial lhe disponibilizou, os agradecimentos vão em geral para a valiosa colaboração que, neste campo, foi prestada. Por fim, o profundo reconhecimento para todos os subscritores dos testemunhos, aos quais este livro deve a sua razão de ser.
                                                                                              O Autor


Um Bispo para a Eternidade D. Ernesto Gonçalves Costa


 Esta é a breve história de um homem simples e humilde, imune a todas as solicitações temporais do protagonismo e da vanglória, remetido à condição de servir sem retorno, de vida austera, desapegado dos bens terrenos, cujas preocupações se concentraram em dar-se ao seu semelhante perseguindo o preceito evangélico amai-vos uns aos outros, "ut omnes unum sint" (para que todos sejam um), que adoptou como lema. Um homem incomodado e inconformado perante a maledicência e a mesquinhez, a intriga e a injustiça, a quezília e o ódio, a discórdia e a guerra, a desgraça e o sofrimento alheios, a fome do corpo e a do espírito. Tinha uma alma impoluta, trasbordante de paz, generosidade, bondade e amor. E uma nobreza de espírito superior a todos os brasões e títulos nobiliárquicos.
  Certo dia ouviu no seu íntimo a chamada de Deus para a vida religiosa e sacerdotal. Correspondeu-lhe seguindo-a com dignidade e conduta exemplar. Depois, alguém descobriu, através do resguardo da simplicidade, algo para alguns custosamente imaginável - que este frade menor, avesso à honraria e à fama, reunia as condições requeridas para ser indigitado como o bispo certo, para o lugar certo, no tempo certo que era o das convulsões sociais e políticas que à distância se adivinhavam.
Investido por esse alguém - que mais não era senão a Providência Divina - nas funções prelatícias que, aliás, lhe estavam destinadas desde toda a eternidade, sentiu-se espartilhado nas vestes episcopais e dificilmente se avezou às respectivas insígnias. Contudo, à semelhança de São Francisco de Assis, soube compaginar a simplicidade evangélica com a complexa instituição eclesial e conseguiu arcar com a responsabilidade do governo simultâneo e modelar passagem de testemunho, não de uma, mas de três dioceses. Sereno e ponderado, acalmou procelas, pacífico e conciliador, sobrepôs o diálogo ao confronto, tolerante e prudente, conviveu com a diferença, dinâmico mas discreto, os seus passos deixaram marcas indeléveis nos caminhos que percorreu.
 Porque a mão esquerda nunca sabia o que fazia a direita e porque não alardeou obras nem virtudes, passou despercebido e ignorado para quem só abria os olhos à luz deslumbrante dos holofotes mediáticos. Consciente e intencionalmente, D. Ernesto, abstraído do seu ego, preferia ofuscar-se para dispensar maior atenção aos outros, na esteira da mensagem evangélica que havia interiorizado, a fim de poder transmiti-la com o incentivo do exemplo.
Os elogios dirigidos às suas virtudes e acções, reencaminhava-os para Deus no momento em que percutiam na esfera da paz e da felicidade interiores, tidas como recompensa suficientemente gratificante para todo o bem por ele praticado. O peculiar sorriso de D. Ernesto desfazia-se perante a exaltação da sua pessoa porque sinceramente acreditava nada fazer para além do dever exigido pelo espírito de missão de que estava possuído. Mantinha-se indiferente tanto em relação aos encómios como a algumas avaliações injustas sobre a sua obra e personalidade. Instado a comentar estas, não emitia um juízo, mas esboçava um vago trejeito, a traduzir menos uma natural e compreensível ponta de amargura e mais o respeito pela opinião dos outros e, ainda, a entrega do julgamento a Deus. Não só perdoava a desconsideração e a ofensa, se ofensa havia, como as esquecia. Tal postura não significava eximir-se à reposição da verdade quando estava em causa matéria factual. O grau da indiferença apenas era comparável à atenção dedicada à sociedade em contínua mudança, à interpretação dos sinais dos tempos e à dinâmica a imprimir à acção apostólica, inseparável das obras de carácter espiritual e social conducentes à dignificação e santificação do povo confiado à sua guarda. E aqui está por que só a ignorância ou a irreflexão podem equiparar prudência, modéstia e humildade com imobilismo, frouxidão ou ingenuidade no sentido negativo do termo. A perspicácia, a argúcia, a inteligência, e a personalidade de D. Ernesto de forma alguma se compadecem com juízos e equiparações deste género.
  Importa referir que, durante toda a vida activa de bispo, D. Ernesto se distinguiu por ter dedicado com invulgar empenho grande parte do seu labor à instrução. A preocupação de combater por todos os meios disponíveis a ignorância e o analfabetismo através da instrução como meio de promoção humana e social, entranhou-se-lhe desde o tempo de novel sacerdote, na Escola de Artes e Ofícios, da Beira, quando professor de quatro classes do ensino primário ministrado a oitenta alunos, tão sedentos do alimento material como do espiritual.
 Assumido o múnus episcopal, logo no Concílio Vaticano II, numa das suas intervenções, coloca à consideração dos padres conciliares o tema "A escola como meio de evangelização". A ilustrar esta faceta relevante do seu episcopado estão os vários estabelecimentos de ensino inaugurados em Inhambane durante os doze anos em que esteve à frente da diocese como bispo e administrador apostólico. Fechou com chave de ouro a missão de ensinar na recuperação e reactivação do seminário de São José de Faro.
Mas, para quem privava com D. Ernesto, a sua imagem de marca, visível na vida diária, era uma caridade omnímoda que ele sobrepunha a tudo e a todos, por vezes à custa de sacrifícios pessoais, pondo à prova a virtude do desprendimento e, se necessário, recorrendo à prerrogativa referente à dispensa do cumprimento de alguns preceitos religiosos sem prejuízo da sua normal observância. Quando estava em causa o amor ao próximo, D. Ernesto atingia o limite mesmo correndo o risco de se expor ao juízo de alguns, menos familiarizados com a prática evangélica, de considerá-lo, eventualmente, a ultrapassar a fronteira da conveniência e do bom senso. A todos respondia com as palavras da "Homilia para as minhas exéquias": Creio que fui criado para amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo. Tive sempre presentes as palavras de Jesus Cristo, que são o grande mandamento do amor: "amai-vos uns aos outros como eu vos amei".
  Ele era um homem de fé inabalável, de oração e um devoto fervoroso de Nossa Senhora, embora não seja conhecido por passar longo tempo em reflexão, a rezar o terço ou de mãos erguidas em prece, num estado contemplativo. Vivia permanentemente o Evangelho em intimidade com Deus porque Deus era o princípio e o fim de todas as suas acções quer a nível pessoal, quer numa perspectiva pastoral.
  Alguém disse, referindo-se ao múnus sacerdotal, que o fazer só tem valor quando revestido com o valor do ser.
  Incontornavelmente o amor ao próximo é a pedra-de-toque de toda a mensagem evangélica e a marca inconfundível do cristianismo.
  Da mesma mensagem se colhe o conceito de que a humildade é denominador comum de todas as virtudes.
  A autorizada palavra de João Paulo II enfaticamente vem lembrar que qualquer acção pastoral deve ter como alvo a santidade.
  Se um bispo chamado D. Ernesto Gonçalves Costa pautou a sua vida terrena por estes princípios, condicionado a uma moldura de que ressaltaram: - adoptar como bandeira o amor ao próximo por palavras e por obras, agregar ao valor do fazer o do ser, sublinhar as virtudes com a humildade, desenvolver uma acção pastoral activa e fecunda tendo como norte a santificação dos outros e a sua própria, - então, ele merece ser lembrado por toda a eternidade.


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Edição de 2003

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