A BIBLIOTECA DO MACUA

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii



LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



PEDRO MUIAMBO



Image of enfermeira_capa.jpg


Image of pedromuiambo.jpg
BREVE BIOGRAFIA

    Nasceu a 22 de Dezembro de 1972 em Maputo, sendo finalista de Economia da UEM.
    Desde cedo teve inclinação para as letras, tendo frequentado em 1991 o Curso de História da Literatura Portuguesa, promovido pela Faculdade de Letras da UEM e pelos Serviços Culturais da Embaixada Portuguesa em Maputo; no mesmo ano, frequentou o 1º Curso das Literaturas Africanas (Centro Cultural Franco-Moçambicano) e, em 1998,  o curso de «Giornalismo e Narrativa» da Itália; além de outras valências de índole económica e fiscalidade.


    Actualmente, é Coordenador Editorial na Moçambique Editora e colaborador do Semanário “O PAĺS”. Já colaborou com vários jornais e revistas de Moçambique e do exterior (Itália e Brasil).
    Em 1999, publica o seu primeiro livro intitulado “Bestiário” – uma colectânea de escritos de humor e sátira - pela Editora Ndjira; em 2000, a sua colectânea de contos “A ÚLTIMA CÔDEA”, juntamente com obras poéticas do Eduardo White e Guita Júnior, foi seleccionada para representar Moçambique na fase final do Prémio PALOP do Livro em Língua Portuguesa; em 2002, a Editora Ndjira publica a obra infanto-juvenil “HAWU-HAWU, uma aventura na selva”; já em 2003, a editora portuguesa Campo das Letras edita o seu primeiro romance “A ENFERMEIRA DE BATA NEGRA”; No prelo está o livro infanto-juvenil “O CONSELHO DOS ANCIÃOS” a ser editado brevemente pela Moçambique Editora e já premiado com a aquisição de 5500 exemplares por uma ONG local, a Associação Progresso, para posterior distribuição gratuita nas escolas primárias do norte do país.


Caro Pedro,


  Acendo uma vela azul (cor para relaxar a alma e os dedos) e venho escrever-te usando palavras de encantamento - restos da beleza que encontrei no teu texto.
  Isso de aprender a falar da vida com as crianças é um ciclo, e tu foste falar com esse menino Isayana para ele te falar dos seus - a mãe, os pais, o avô, os tios, mas também de uma revolução caducada e de uma guerra que o tempo e os guerrilheiros exterminaram. Nisso da guerra - e das crueldades da guerra - o teu país é primo-como-irmão do meu, e as estórias que relatas aparecem com cheiro de drama e veracidade, porque a guerra é real. Para mim é normal que ela apareça constantemente na boca das crianças, como Isayana conversava com o tio:
  - Quantos mataste até agora?
  - Não sei. Mas pelo cansaço que sinto há-de ter sido o suficiente.
  - É por isso que estás sempre a descansar?
   -É.
 O teu livro está cheio de uma História feita estória e por isso foi moldado no barro das memórias afectivas. É por isso, julgo eu, que além das pessoas também as formigas te invadiram o texto (elas foram primeiro acariciadas e depois odiadas, mas voltaram sempre...), também o mistério se fez sentir (a lógica das crianças descende dos eucaliptos), falaste de uma mãe que lia e escrevia estórias das oito às nove da noite, de um homem que chicoteava uma árvore (um mês, todas as noites, zurzindo o eucalipto) e de um outro a quem roubaram a cama enquanto dormia.
  Na leveza das palavras crias um ritmo poético onde é possível parar - fosse a beira de um rio - e beber frescura para repousar o corpo. Aí onde a noite ajusta magia à medida dos sonhos é possível ver as tuas balas incendiárias que sibilam e riscam os céus como num desfile entrecruzado de vaidosos pirilampos.
  O nosso continente está cheio de estórias ansiosas por serem contadas. E elas estão a chegar -já se lê. Falaste de uma gente que melhor conhecia as águas do rio que as do mar, retrataste bem a família Magaço usando cuidadosamente símbolos afectivos e metáforas suculentas, deste erotismo à seriedade da vida e revelaste falas dos nossos mais-velhos: a velhice não se lamenta, saboreia-se.
  A realidade dos nossos países agora é outra, tu sabes disso, as pessoas do teu livro também. Elas falam dos efeitos trágicos da revolução, e a realidade fala dos efeitos trágicos do mercado livre:
  De facto, já se tinham extinguido as bichas intermináveis dos tempos de racionamento dos produtos. Agora, como que por magia, as mercadorias, grande parte das quais importadas do estrangeiro, começavam a encher os escaparates. O que escasseava agora era o dinheiro. (...) Nunca as igrejas tinham andado tão repletas de almas à procura de salvação, sobretudo a material (...).
  No livro como na vida, a infância dá lugar à guerra, a guerra dá lugar ao reencontro. Entre estes episódios, estão as vidas dos vivos e as visitas dos espíritos. Sabes, em Napoli dizem que "os espíritos gostam de brincar com o sal dos corpos, lambem-no, saboreiam o sumo da vida que se agita, que bate"' Parece que em Moçambique passa-se o mesmo, seres encantatórios vão e voltam conforme a música dos vivos lhes toca e atrai:
  É a cobra. Vi o rastro. É uma cobra que vive connosco há muito tempo. Ela perdeu aqui a sua família.
  É tempo de as crianças dos nossos países olharem a guerra como uma coisa já distante. O teu personagem Isayana (nome bem escolhido e bonito) conta a estória com uma magia densa, deixando jorrar sangue limpo da ferida da sua infância. É uma magia triste, mas é uma magia embebida numa tristeza já sarada - isso faz do teu livro uma canoa enfeitada, pronta para ir buscar pessoas diferentes na outra margem da guerra. Conforme a canoa avança, liberta uma rede invisível onde a poesia é palpável. E, para o coração das pessoas, o importante é que a poesia seja palpável...
  Pedro, eu vou indo. Sinto um rumor de novas estórias iluminado pela lua nova. Ha que aproveitar. Guardo em mim os dizeres dos teus personagens, vou com mais vidas. Continua assim à busca do que for 'maior', como fez a enfermeira Maceda em busca do seu amor, como fazemos todos em busca da vida.
  Conheces a escritora brasileira Adélia Prado? Ela diz assim num poema: "cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é(...)."2
    E o essencial está, muitas vezes, em toda a parte. Êsh!

    Um kandandu3,
                                                                                                                                                                    Ondjaki.
    1 Erri De Luca, Montedidio.
    2 Adélia Prado, Bagagem.
    3 Abraço.


A ENFERMEIRA DE BATA NEGRA

OS PRIMEIROS CAPITULOS

Capitulo 1
Image of ball2_red.gif



Capitulo 2
Image of ball2_red.gif



Capitulo 3
Image of ball2_red.gif



Capitulo 4
Image of ball2_red.gif




Edição de 2003

TOP

Image of eth-bk.gif