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O casal regressou ao Sajá - a propriedade onde residia e que se situava a cerca de 40 quilómetros - pouco depois das dezasseis horas. Recusaram ali pernoitar, apesar da insistência do amigo. Maria Raquel tinha pressa em regressar a casa, ao seu conforto e às suas coisas. Além disso, não teria que estar atenta às frinchas do tecto, com receio da bicharada. Ela não se esqueceria tão cedo da conversa que pouco antes tivera com Pedro. Carlos Alberto queria também certificar-se do trabalho efectuado pêlos seus empregados, na apanha e no descasque do coco para ser secado ao sol, na pré-preparação da copra para a extracção do óleo.
Após a habitual conferência das vendas efectuadas ao balcão e da entrega do dinheiro apurado, Abakar fechou a porta do estabelecimento. Os poucos negros que ainda lá se encontravam, aguardavam-no, conversando no terreiro. Pedro recebeu as chaves das mãos do empregado da loja, que se despediu com o habitual e humilde "Té manhã, patrão". Pedro seguiu a silhueta do negro até desaparecer, com os demais companheiros, entre o capim e as árvores que ladeavam os carreiros calcorreados diariamente pêlos indígenas. Todos eles agarravam firmemente a sua inseparável zagaia ou a catana, suas armas de defesa contra as feras ou os seus espíritos, que temiam. Essencialmente temiam os leões e os leopardos velhos, já incapacitados de caçarem outros animais selvagens e que constituíam a sua alimentação predilecta. Por aqueles sítios a fauna era muito abundante e diversificada. Mas havia outros perigos mortais escondidos no capim, nos arbustos e nas árvores.
Pedro ficou só. Um pouco aturdido pela solidão repentina que sentiu à sua volta. O sol ia, paulatinamente, aproximando-se da linha do horizonte, encoberto pela copa das árvores. Era nos fins de tarde e ao cair da noite que ele mais sofria o peso do sertão africano, que rasga as almas e fustiga a saudade daqueles que vêm de outras paragens. Então, a memória busca o passado, os entes que são ou foram queridos, os locais e raízes da infância. Nos olhos bailam, por vezes, prenúncios de lágrimas inexplicáveis. Para não esmorecer, decidiu-se por ir tomar um banho. A humidade higrométrica deveria rondar os setenta ou oitenta por cento e o ar, quase saturado, provocava nos corpos uma permanente transpiração, incómoda, viscosa.
A água estava morna, mas, mesmo assim, era um óptimo lenitivo contra o calor. As pingas grossas escorriam deliciosamente sobre o seu corpo nu, caídas dum rudimentar chuveiro artesanal, constituído por um balde de zinco, preso a uma roldana fixada a uma das traves de madeira que suportavam o telhado. Uma corda de sisal regulava a altura pretendida através da roldana e um arame comandava a válvula que permitia a saída da água do balde para o pequeno cano, onde encaixava a boca larga com pequenos orifícios, abertos por um prego e um martelo. Era rústico, mas prático. O depósito não levaria mais do que dez ou doze litros de água. Quantidade suficiente para um eficaz e rápido banho, três ou quatro vezes por dia. A água era transportada do Pitamacanha, afluente do Mutomodo, pêlos serviçais às primeiras horas da manhã, em vazilhames de barro, em grandes cabaças e em latas de gasolina, de 20 litros, e utilizadas, como reserva, para os longos percursos automóveis. O precioso líquido era então armazenado num velho bidão de óleo, metálico, com uma tampa de madeira para o resguardar do pó, e colocado na varanda, junto à escada de acesso. Aquela água do rio servia também para as limpezas do chão de cimento da casa e da varanda, dos sanitários, da cozinha, das panelas e das louças. A cozinha situava-se num pequeno anexo, a cerca de dez metros da varanda da rectaguarda. Junto à cozinha, o pequeno forno onde diariamente se cozia o saboroso pão de trigo para as refeições.
O Pitamacanha, de reduzido caudal, atravessava os baixios da propriedade e da savana. Nascido lá para as bandas de Impiriquize e ladeado pêlos arbustos e canaviais, o rio passava um pouco mais adiante, sob um tabuleiro de cimento, suportado por quatro pilares e a quatro ou cinco metros acima do nível das águas. Sem anteparos ou guardas laterais, este pontão permitia o trânsito através da picada, pomposamente chamada de estrada. Por esta via circulavam pessoas e alguns raros veículos a motor, como os camiões de 5 ou 6 toneladas de carga, as camionetas mistas de 1.500 quilos e os automóveis ligeiros, predominantemente da marca Ford ou Chevrolet, permitindo assim a ligação entre a vila - pequeno porto situado nas margens do Indico - e a capital do distrito - urbe escalonada e geométrica, de muitos talhões e algumas dezenas de construções - situada a cerca de duzentos quilómetros, bem lá para o interior do sertão. Entre aquelas duas referidas povoações, de características, história e época diferentes, existiam dois pequenos aglomerados, onde se destacava o edifício do posto administrativo e, simultaneamente, residência do representante do governo provincial, distanciados por algumas dezenas de quilómetros. Mas existiam outros mais pelo interior, a centenas de quilómetros e completamente isolados. Os aglomerados dos indígenas preferiam o recato do mato ou da selva. Por vezes dispersos em palhotas e grupos familiares.
Dizia-se que lá para o oriente, próximo da vila, existia uma missão católica. Pedro ainda não a conhecia, mas tinham-lhe referido a existência.
A ligação rodoviária só era interrompida por altura das chuvas tropicais que então caíam, sem modo nem jeito, na época estival. Então, o rio Pitamacanha enchia-se de basófias e de raivas e arrastava tudo que encontrasse pela frente. No seu leito de águas tumultuosas e transbordantes flutuavam, em grande velocidade, ramos e troncos de árvores e até cadáveres de animais e pessoas.
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