2

 

O casal regressou ao Sajá - a propriedade onde residia e que se situava a cerca de 40 quilómetros - pouco depois das dezasseis horas. Recusaram ali pernoitar, apesar da insistência do amigo. Maria Raquel tinha pressa em regressar a casa, ao seu conforto e às suas coisas. Além disso, não teria que estar atenta às frin­chas do tecto, com receio da bicharada. Ela não se esqueceria tão cedo da conversa que pouco antes tivera com Pedro. Carlos Alberto queria também certificar-se do trabalho efectuado pêlos seus empregados, na apanha e no descasque do coco para ser secado ao sol, na pré-preparação da copra para a extracção do óleo.

Após a habitual conferência das vendas efectuadas ao balcão e da entrega do dinheiro apurado, Abakar fechou a porta do estabe­lecimento. Os poucos negros que ainda lá se encontravam, aguar­davam-no, conversando no terreiro. Pedro recebeu as chaves das mãos do empregado da loja, que se despediu com o habitual e humilde "Té manhã, patrão". Pedro seguiu a silhueta do negro até desaparecer, com os demais companheiros, entre o capim e as árvores que ladeavam os carreiros calcorreados diariamente pêlos indígenas. Todos eles agarravam firmemente a sua inseparável zagaia ou a catana, suas armas de defesa contra as feras ou os seus espíritos, que temiam. Essencialmente temiam os leões e os leopardos velhos, já incapacitados de caçarem outros animais sel­vagens e que constituíam a sua alimentação predilecta. Por aque­les sítios a fauna era muito abundante e diversificada. Mas havia outros perigos mortais escondidos no capim, nos arbustos e nas árvores.

Pedro ficou só. Um pouco aturdido pela solidão repentina que sentiu à sua volta. O sol ia, paulatinamente, aproximando-se da linha do horizonte, encoberto pela copa das árvores. Era nos fins de tarde e ao cair da noite que ele mais sofria o peso do sertão afri­cano, que rasga as almas e fustiga a saudade daqueles que vêm de outras paragens. Então, a memória busca o passado, os entes que são ou foram queridos, os locais e raízes da infância. Nos olhos bailam, por vezes, prenúncios de lágrimas inexplicáveis. Para não esmorecer, decidiu-se por ir tomar um banho. A humi­dade higrométrica deveria rondar os setenta ou oitenta por cento e o ar, quase saturado, provocava nos corpos uma permanente transpiração, incómoda, viscosa.

A água estava morna, mas, mesmo assim, era um óptimo leni­tivo contra o calor. As pingas grossas escorriam deliciosamente sobre o seu corpo nu, caídas dum rudimentar chuveiro artesanal, constituído por um balde de zinco, preso a uma roldana fixada a uma das traves de madeira que suportavam o telhado. Uma corda de sisal regulava a altura pretendida através da roldana e um arame comandava a válvula que permitia a saída da água do balde para o pequeno cano, onde encaixava a boca larga com pequenos orifícios, abertos por um prego e um martelo. Era rústico, mas prático. O depósito não levaria mais do que dez ou doze litros de água. Quantidade suficiente para um eficaz e rápido banho, três ou quatro vezes por dia. A água era transportada do Pitamacanha, afluente do Mutomodo, pêlos serviçais às primeiras horas da manhã, em vazilhames de barro, em grandes cabaças e em latas de gasolina, de 20 litros, e utilizadas, como reserva, para os longos percursos automóveis. O precioso líquido era então arma­zenado num velho bidão de óleo, metálico, com uma tampa de madeira para o resguardar do pó, e colocado na varanda, junto à escada de acesso. Aquela água do rio servia também para as limpezas do chão de cimento da casa e da varanda, dos sanitários, da cozinha, das panelas e das louças. A cozinha situava-se num pequeno anexo, a cerca de dez metros da varanda da rectaguarda. Junto à cozinha, o pequeno forno onde diariamente se cozia o saboroso pão de trigo para as refeições.

O Pitamacanha, de reduzido caudal, atravessava os baixios da propriedade e da savana. Nascido lá para as bandas de Impiriquize e ladeado pêlos arbustos e canaviais, o rio passava um pouco mais adiante, sob um tabuleiro de cimento, suportado por quatro pilares e a quatro ou cinco metros acima do nível das águas. Sem anteparos ou guardas laterais, este pontão permitia o trânsito através da picada, pomposamente chamada de estrada. Por esta via circulavam pessoas e alguns raros veículos a motor, como os camiões de 5 ou 6 toneladas de carga, as camionetas mistas de 1.500 quilos e os automóveis ligeiros, predominantemente da marca Ford ou Chevrolet, permitindo assim a ligação entre a vila - pequeno porto situado nas margens do Indico - e a capital do distrito - urbe escalonada e geométrica, de muitos talhões e algumas dezenas de construções - situada a cerca de duzentos quilómetros, bem lá para o interior do sertão. Entre aquelas duas referidas povoações, de características, história e época diferentes, existiam dois pequenos aglomerados, onde se destacava o edifício do posto administrativo e, simultaneamente, residência do representante do governo provincial, distanciados por algumas dezenas de quilómetros. Mas existiam outros mais pelo interior, a centenas de quilómetros e completamente isola­dos. Os aglomerados dos indígenas preferiam o recato do mato ou da selva. Por vezes dispersos em palhotas e grupos familia­res.

Dizia-se que lá para o oriente, próximo da vila, existia uma missão católica. Pedro ainda não a conhecia, mas tinham-lhe refe­rido a existência.

A ligação rodoviária só era interrompida por altura das chuvas tropicais que então caíam, sem modo nem jeito, na época estival. Então, o rio Pitamacanha enchia-se de basófias e de raivas e arrastava tudo que encontrasse pela frente. No seu leito de águas tumultuosas e transbordantes flutuavam, em grande velocidade, ramos e troncos de árvores e até cadáveres de animais e pessoas.

……………………………………………………………….

 

VOLTAR