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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO
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BREVE BIOGRAFIA
Eduardo Roseira, nasceu na cidade do Porto, em 2 de Fevereiro de 1951,
tendo ido para Moçambique em 1962, onde viveu até 1974. Os dois primeiros anos foram passados em Lourenço
Marques e os restantes na cidade da Beira, onde estudou e trabalhou na Polícia Judiciária. Em
cumprimento do serviço militar passou por Boane, Chioco, Sabandar, Doa, e Changara. Actualmente
é jornalista, exercendo as funções de responsável pelo Gabinete de Comunicação da Junta de Freguesia
de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia. Para além destas funções, dirige uma publicação de poesia,
denominada “lavra… - Boletim de Poesia”, de que é proprietário. Mais de metade de “A colheita
íntima”, tem como inspiração a sua vivência em Moçambique, com alguns poemas já escritos na Beira, mas
em que tentou espelhar o melhor que gravou daquela terra que o marcou para todo o sempre. É um
livro de saudade, sem saudosismo.
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MEU CORPO ÁFRICA
a minha cabeça é uma verde papaia.
os meus olhos são duas
ágatas.
o meu tronco um grande cajueiro. os meus membros são ramos de micaia.1
no lugar de veias tenho raízes de palmeira em vez de sangue nelas corre água do zambeze.
o meu coração é uma marimba de zavala.2 minha mente é uma imensa gorongosa.
tudo isto
sou e sinto como verdadeiramente meu.
no entanto porque tenho pele branca, chamam-me
europeu.
cegos. não conseguem ver que este corpo sou eu. este corpo é o meu corpo
áfrica.
1 micaia - árvore africana de pequeno porte, cujos ramos tem muitos e fortes espinhos.
2 zavala - pequena localidade do sul de Moçambique, conhecida pelos tocadores de marimba (instrumento
musical), onde uma vez por ano se realiza uma festa em que os tocadores e dançarinos de zavala actuam
ao longo de 24 horas, ininterruptamente.
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PROSA
ecos repetidos do rufar de tambores rasgam o silêncio nocturno.
ao
longe uma hiena larga um gargalhar cinicamente selvagem.
sentados junto da cubata pai
joão e mamana1 rosa gozam a fresca aragem ao som de uma amena prosa.
nem os ecos repetidos
do rufar dos tambores que rasgam o silêncio nocturno conseguem interromper a doce prosa de pai
joão e da sorridente mamana rosa.
1) mamana - mãe, mulher
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BEIRA
recordo com saudade o teu corpo rectilíneo à beira-mar estendido.
recordo
o odor do teu corpo acácia em flor.
recordo como tu com teus braços afagavas como
se fosse um menino... o macúti... matacuene... ponta gèa... o maquinino..
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ATÉ CHEGARMOS AO MAR
casta em covas do douro plantada.
colheita de 51 no
porto encubada.
qual torna viagem o atlântico ao ĺndico me levou.
desembarquei
num mar com sabor a oriente.
douro de nascença. chiveve1 de maturação. luia2
de passagem.
nuns deixei presença noutros o coração e fui forçada coragem.
o oriente
ao atlântico mar me devolveu e fui ao encontro de um tua que me fez seu com a magia do
olhar.
eu e os rios, somos só um.
unidos no correr temos um percurso comum nas
marés do nosso viver.
é sempre em mim que os rios vem desaguar, assim será até ao fim,
até chegarmos ao mar
1 rio da cidade da beira. 2 afluente do zambeze (tete).
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LÁ LONGE (ao meu amigo muana i'nhama)
lá longe nas terras de muana e malangatana1,
onde o longe fica logo ao virar do mais próximo dos imbondeiros.
lá longe em
terras cor malangatana. onde o tudo e o nada se cruzam no além.
lá longe por terras
de muana passou um ingénuo rapaz que nunca quis ser homem.
lá longe guerra a guerra
sem o saber ele fabricou a paz.
hoje aqui bem perto navega nas marés do destino
bem incerto o rapaz que continua a ser muana-menino.
1 malangatana - pintor moçambicano
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