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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO
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Do autor
Amar sobre o Indico, Associação de Escritores Moçambicanos, 1984
O País de Mim, Associação de Escritores Moçambicanos, 1989 Prémio Gazeta de Artes e
Letras da Revista Tempo
Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave, Editorial Caminho,
Lisboa, 1992 Prémio Nacional de Poesia Moçambicana, 1995
Os Materiais do Amor seguido
de O Desafio à Tristeza, Editorial Caminho, Lisboa, 1996; Editorial Ndjira, 1996
Janela
para Oriente, Editorial Caminho, 1999
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JANELA PARA ORIENTE Tenho uma janela amarela virada para Oriente. Docemente
e sem assombro. Todos os dias me sento defronte dela para a olhar. E o vento que a bate faz-me um incêndio
para escrever, desce devagar a rampa por onde a vou saltar. Minha e sem fim esta natureza fresca dos
seus vidros, a luz que por ela é uma magia tão puríssima. Tenho a janela num quarto que amo, unido como
o sangue verde do vale que dela eu vejo, dos livros fechados em seus destinos, dos jornais aos montes
e sem notícias. O ar deste quarto está de sorrisos e de surpresas, de desgostos que irão viver, cheio
de lugares que ainda não sou. Oiço músicas dentro dele, caladas e brancas de repente, oiço cores incessantes
e um poeta que pressinto esteja a morrer. Leio as palavras que o são. Frias. Concretas. Óbvias e desertas.
E a morte é um murmúrio por detrás de tudo o que gritam sem dizer. Um sibilar envenenado e arrepiante,
um voar rasante e precipitante. A morte desenha-lhe as mãos que daqui posso ver a tremerem. E, por isso,
fica o quarto mais cinzento, mais frio, severo como a pedra num deus. É directo e dói o poeta,
dói como um peregrino que amanhece sem dormir. «Caminho com os braços levantados, e com a ponta/
dos dedos acendo o firmamento da alma./ Espero que o vento passe... escuro, lento./ então,/ entrarei
nele, cintilante, leve... e desapareço.» Sinto o medo que é sentir tudo isto, o medo de algum
dia vir a ganhar esta consciência. Paro, agora, para secar um pouco as mãos. Para dar descanso
à caneta. Um cigarro solta-se-me por entre os lábios. Acendo-o. Quero que o fumo e a nicotina enganem
a angústia e o pânico com que convoco o poeta. Deus nos valha o facto de sermos tão pequenos, de nunca
vermos nada, mais claramente do que Ele. Por que se haverá de morrer assim com esta evidência? Para dar
lugar a quê? Olho o cigarro a esvair-se pelo seu incêndio. Como se me desencantam as mãos, como
me dançam os dedos. Levanto-me. Vou supor-me a resistir. Lentamente até fugir. Descubro
corridas as cortinas das janelas deste quarto virado para Oriente. Afasto-as, e os olhos navegam pêlos
telhados das casas lá em baixo. São inúmeras e quadradas. Unidas como se quisessem cuidados umas das
outras. Talvez por dentro nem transpirem assim tanta solidariedade. Mas eu penso nas presenças que as
tornam vivas e humanas, nas conversas que esconderão, nas crianças debruçadas para o beijo ou para a
música, as refeições acesas pêlos fogões. Afinal, hoje é domingo e toda a gente é um horizonte de si.
Estão felizes com certeza, e se não estão tentam, por decerto terem pouco do que rir noutros dias. O
domingo é quase tétrico de nos vermos tão nitidamente. É, no fundo, como a morte onde se prevê aquele
poeta. Reparo que mesmo as almas das crianças nem o vento aprisionam já, e são os restaurantes
mais silenciosos, impessoais as ruas que respiram das sombras, as sombras que só vivem quando não são.
E as igrejas. As igrejas tão cheias. Tão cheias de quem procura algum perdão. Que dia estranho o domingo.
Invisível. Indeterminado. Misterioso e interior como um inimigo. Vou voltar a sentar-me.
Matei-me um pouco mais com a sede do cigarro. Sinto-lhe as sementes a crescer-me pela boca, baixas e
verdes, quão explosivas como o Sol. A um passo de mim reparo em alguém que é um nome no começo e quase
gente lá para o fim. Não lhe distingo o rosto. Serei eu? Não! É uma visão turva, misteriosa como são
todas as minhas visões. Disto pressinto algum pavor, alguma forma de inquietação. No entanto, a erva
cresce, já acesa pela boca e dança iluminada por uma timidíssima chama, crepitante e solar. Fumo-a no
mais lento de mim, até às tripas da tosse. Até, por que não, à própria neurose. Uma erva, fique claro,
não pode crescer pela boca só porque lhe apetece. Há que se lhe descobrir a sua função. Qualquer dignidade
que a possa justificar tão longe do chão. Viro-me para dentro. Vou procurar-lhe as raízes, chegar, creio
eu, ao silêncio, ao baú que é onde se guardam todas as coisas, ao Vesúvio com que se as sente.
. Percorro-te como a gema de um diamante tão ofuscado já com a extrema
luminosidade e sinto o alho pêlos mercados, as papas de centeio, a cebola fechada para o condimento,
o carneiro assado. És tão azul noutros estuários, nas árvores ressequidas, no frio nocturno de Bagdade,
Salimijah, Shiraz, Latakia e Aleppo, e, ao ocaso, num incêndio preto de uma refinaria em Burgan, tão
azul, dizia eu, que já me relampejas dentro um edifício solar, os corais da gravidez de um oásis. Num
balouço de Dubai estou parado e bebo, com as mãos vertidas para a sede, as alucinações que tive no Deserto
de Nafoud. Ai, meu grande e belo Médio Oriente de onde vejo África das suas janelas e oiço rugir
uma fera nas savanas de Moçambique. Ali que é para onde devo ir. Definitivamente regressar.
Nada nos é belo se for demasiadamente claro. Nada interessará. Portanto, arrumo, aqui, as
ferramentas deste trabalho, desta paixão que tenho pelas visões que encerro, pelo motor que as leva à
minuciosa observação dos espaços. E ainda assim sinto que me pesa tanto inconhecimento, tanta denotada
fragilidade. Eu nada sabia desta remota possibilidade, deste lírico fervor que guardo pela imaginação.
Gostaria imenso de falar-me disto, destas alegrias pacientes de que sou um exímio fazedor. Como sucedo
que olho para o que a pensar direi melhor. Vou fechar a janela amarela que tenho virada para Oriente.
Vou restabelecer outro milagre de sonhar. Em Istambul fica acesa uma vela, fica a saudade do olhar.
FIM
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