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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO
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José Cavalheiro Homem, nome recriado de Adelino José Cavalheiro Gonçalves, controlador de tráfego aéreo
e piloto, nasceu e viveu a sua juventude em Luena, Angola As constantes passagens por terras africanas,
fontes de Inspiração, aguçam-lhe a criatividade e alimentam-lhe a imaginação.
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Na contra-capa Este livro fala sobre um artista, pintor, modelador de sonhos. Neste texto em
que se esculpe a palavra e a ideia obtém-se o gozo da Viagem - pelo adjectivo a exalar aromas dos trópicos,
pelo verbo que ensaia misturas lúdicas, pelo substantivo que leveda sentimentos. Regenerar a Crença,
que passa também por acordar o pueril que há no humano, exige passagem obrigatória pelo croché dos contos
de fadas, dos mágicos ou xamãs, aqui fabrica-se esse fenómeno que eleva a tolerância ao sofrimento e
sacode a descrença. Recriação de histórias, Moçambique e Angola em cenário de fundo, também metaforização
do Grande Continente, o texto conjuga a lusofonia com vocábulos da Terra, num propósito explícito de
preservação/ enriquecimento linguístico, na procura de eficácia expressiva, decantando-se palavras que
além da musicalidade carregam fortes significados. Marcha para a fruição do que é realmente simples,
é assim ler Cavalheiro, que também é Homem.
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Do beijo da vida
Desprendia-se a madrugada em sussurro no tempo, com barulhos abafados
no escuro nocturno. Naquela parte do mundo, estrelas no céu pertenciam-lhe. Um gato macio saltou
para a calçada, estacando de rabo espetado no ar, no escuro procurou perigo. O silêncio acalmou-lhe o
pêlo e ele avançou para o asfalto da avenida deserta onde o chão quente confortava as suas patas já livres
de preocupação deambulando sem destino, em vagarosa compassada. No meio daquele escuro e de avenidas
com candeeiros adormecidos parou, sentou-se e enroscou a cauda com delicadeza à volta das suas patas
como cachecol em pescoço de avó. Olhou para um lado, depois para outro, onde o silêncio lhe sorriu e
calmamente deu início à sua higiene instintiva. Primeiro o pêlo do pescoço, os ombros lenta e insistentemente
lambidos, uma e outra vez até que apontando com a sua pata traseira para a estrela mais luminosa da via
láctea, o gato macio, continuou o seu elaborado trabalho lambendo e relambendo o seu pêlo polido. Ao
longe, uma luz acordou parte do quadro, uma criança chorava, um vulto doce a acalmara. O gato paralisou
olhando com a sua curiosidade que secou depressa. Mais ao além, um rádio dessin-tonizado ruídava pela
noite furando o escuro, logo se calando, quase! O gato, ruivo, não providenciou atenções e levantou-se
calmamente deixando a preocupação por lá. Aquele silêncio voltou a cobrir novamente a cidade, era
saboroso, tranquilo na noite desabrida. Agora, ao longe, apenas o rasgar fraco das ondas batucadas, docemente,
aconchegava a escurecida negridão em terra de negralhada. Com o estalar de interruptor uma janela
acaba de acordar. Lá dentro, um roupão olhou em redor, percorreu o espaço numa longa viagem até à sua
mesa. Fixou-se então, alguns minutos, em papéis almuscritos, e sentou-se. Agora, na sua manga uma
caneta de tinta corrida e já sem marca continuou... O Bernardo Lago e a Maria de Sousa eram dois
portugueses que decidiram ir até África. Procuravam melhor vida para si e para os seus. Em Portugal vivia-se
mal, as dificuldades provocadas pela Segunda Guerra Mundial, a fome e a miséria pastavam de mão dada
por entre o povo nesse rectângulo da Europa. De África vinham notícias boas, falava-se e mandava-se em
português, brotava trabalho colorido de esperança a desbravar, por isso escolheram terras de Moçambique.
Terra boa para purificação de almas, por lá, essas ficavam lavadas, limpas da tristeza e do cinzento
tingidas, antes, em Portugal. O coração não resistiu à cola de alma que havia por essas terras.
Foi então que a continuidade aconteceu, uma menina a que deram o nome de Maria por parte da mãe e José
por parte dos avós da metrópole. A mãe ficou novamente grávida. Queria um filho e o pai queria outra
filha, então nasceu um filho e esse filho era o filho daquela mãe. Pedro, Pedro Lago foi o nome que já
tinham em mente se ele nascesse rapaz. Assim foi chamado e todos no bairro conheciam o Pedrinho irreverente,
um rapazinho vivo, de cabelo bem preto. Aquele casal de brancos deu à luz dois rebentos que por
nascidos em África eram de segunda. Sorte a deles... Havia uma força intensa no interior do rapaz
que o próprio não sabia de onde vinha e que o atirava para desenhar e pintar. Estava dentro do seu aquário,
era-lhe agradável e natural, ele sentia-se bem desenhando e pintando. Pedro fez o seu primeiro quadro
muito novo ainda. Um mar e um céu, um barco à vela e um sol de raios laranja. Estava ali tudo! A vida,
a natureza, a harmonia e a felicidade. Esse desenho, em lápis de cor, feito apenas por amor, deu-lhe
um enorme prazer, e por isso, Pedro resolveu oferecê-lo à sua querida mãe Maria. Ainda era muito pequeno
para escolher profissão, não tinha essa preocupação pois sempre soube para que tinha nascido e nunca
sequer pensou nisso de escolher profissão!... Para ele estava tudo bem claro, tão claro, que não entendia
que profissão fosse escolher! — O que queres ser quando fores grande? - perguntava-lhe o tio Chico.
— Ainda não sei, deixa-me crescer - respondia ele, sempre da mesma forma. Aprendeu a respirar
cada dia de uma vez e a gostar do beijo da vida. A mãe, sempre preocupada com o sol a mais, que o seu
corpo poderia apanhar e lhe queimasse a pele branca, mas ele esquecia-se de se importar com isso e foi
ficando moreno, foi ficando nativo no seu bairro onde os seus amigos negros brincavam também de pés descalços.
Os carrinhos feitos de arame, com o guiador à altura dos seus braços, faziam palmilhar quilómetros
de caminhos gostosos por entre verdes e cheiros que só aqueles conheciam. O pai Bernardo gostava de
o levar a pescar. Dizia muitas vezes: — Deixem-me ensinar o Pedro a pescar, pois é melhor do
que dar-lhe o peixe. E Pedrito lá ia, gostosamente, pescar com o seu pai. Uma cana de bambu e um
cordel, na ponta, o isco no anzol, e lá estava ele todo contente, a pescar felicidades, sempre antes
do seu próprio pai. O peixe picou mais forte, e Pedrito segurou forte, também. Lutou para se manter
fora de água e o peixe lutava para se manter dentro de água, os seus braços, já cansados, decidiram nunca
largar aquela cana de bambu que decididamente era sua e por ela lutaria até ao fim. Foi então que o peixe
se zangou e como era mais forte, arrastou-o para dentro de água. O pai teve que mergulhar para, desta
vez, pescar o filho que molhado nunca conseguiu que a cana o largasse. A Corvina tinha dois quilos e
Pedro nunca mais pescou sem que entre ele e o mar estivesse um poste bem forte. — Este meu filho
tem sorte na pesca! Um dia vou vê-lo pescar até na banheira lá de casa... — dizia o pai Bernardo aos
amigos na esplanada, refrescando-se com uma cervejinha.
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