ADVERTÊNCIA Este livrinho não tem mais pretensões que a de proporcionar a quem disso haja interesse
uma compilação, analisada e comentada, dos dados que actualmente possuímos sobre a história antiga de
Lourenço Marques. Não é uma história do descobrimento e da fundação de Lourenço Marques, mas tão somente
uma revista dos materiais de que dispomos para ela. São poucos esses materiais, poucos e fragmentàrios,
de modo que muitas vezes não se ajustam — incompletos e descontínuos, largamente dispersos pelo tempo.
Daí, e da fraqueza do autor, a insuficiência deste trabalho. Quando dizemos que são poucos os materiais,
referimo-nos aos que nos oferecem as bibliotecas e arquivos da Colónia — ou mais precisamente: o Arquivo
Histórico de Moçambique. Se no Arquivo encontramos a bibliografia fundamental para estes estudos, já
assim não sucede quanto a manuscritos. Os documentos mais velhos que existem na Colónia não vão além
da segunda metade do século XVIII e esses, mesmo, não se contam por mais de escassas dezenas, com a particular
circunstância de que nenhum respeita a Lourenço Marques. O grande volume dos arquivos da Colónia
até 1840 foi remetido para Portugal, em 1891-1892, à ordem do conselheiro comissário régio. Foi uma infeliz
boa-intenção de António Enes — que não previu esta paráfrase do seu famoso conceito: em Moçambique é
que se há-de estudar a história de Moçambique... A documentação foi para Portugal e por lá jaz,
nas bibliotecas e arquivos, esquecida ou desdenhada dos estudiosos. Os nossos historiadores na Metrópole
não descobriram ainda a África. Talvez por saudosismo da glória e da riqueza, ainda hoje estudam e escrevem
muito sobre as perdidas grandezas da índia e do Brasil — mas não sobre a discreta, embora, mas real grandeza
da nossa África. Já os cronistas da índia, deslumbrados pelo brilho do ouro e da pedraria, o capitoso
das especiarias e o fausto dos nomes heráldicos, raro se ocupavam das coisas da costa de África. Para
eles, a Capitania de Sofala e Moçambique era a gata borralheira na esplendorosa Conquista da índia. Os
cronistas poderiam ter-se lembrado de que, se essa, Conquista calçava sapatinhos de ouro, era de Sofala
que os recebia. Os seus ilustres sucessores de hoje deveriam lembrar-se de que vale mais ocuparmo-nos
da modesta casa que nos abriga, que do irreconstruível palácio de outrora, caído em ruínas. Isto se
diz por lamentação, que não por censura. E quem ler este livro me perdoe pelo que nele fiz e pelo
que nele não fiz. CAETANO MONTEZ P. S. - - Este trabalho achava-se concluído e entregue aos
editores em Junho. Eles viram-se forçados, todavia, a protelar a composição e impressão — e, no entretanto,
Alexandre Lobato publicou, em Lisboa, uma «História da fundação de Lourenço Marques», abrangendo desde
o estabelecimento da feitoria austríaca até à fundação do presídio por Joaquim de Araújo. Nesse livro
publica Alexandre Lobato documentos inéditos, existentes nos arquivos metropolitanos (foi, ainda, um
moçambicano que os desencantou), e dele nos chegou às mãos um exemplar, em meados de Agosto. O conhecimento
desses novos documentos permitiu-nos esclarecer alguns pontos do nosso primitivo trabalho, corrigir e
ampliar outros. Como a reelaboração do texto inicial teve de ser feita apressadamente, sobre o joelho,
é provável que o leitor encontre repetições, descoordenação e, mesmo, alguma contradição entre partes
que primeiramente, na carência de documentação, eram conjecturais e outras que foi, depois, possível
reajustar. 20 de Agosto de 1948. C. MONTEZ
|