PARA
NÃO ESQUECER DA ESCRAVIDÃO
Livro
de brasilianista norte-americano reafirma que, ao invés de "virar a
página" referente à escravidão no Brasil, é necessário aprofundar os
estudos sobre diversos aspectos do triste regime que durou quatro de nossos
cinco séculos de História.
por
Sergio Amaral Silva
Nos últimos anos, aumentou sensivelmente o
número de estudos e pesquisas de brasileiros e brasilianistas sobre a
escravidão. Isso é conseqüência direta do maior interesse desencadeado, em
1988, pelo centenário da Abolição. Somente naquele ano, foram publicados mais
de cem livros sobre o assunto, além de periódicos acadêmicos, congressos e da
discussão na mídia em geral.
Vários líderes de movimentos de consciência
negra consideraram a data "vazia" de conteúdo, preferindo enfatizar a
situação social ainda precária dos descendentes de escravos no Brasil. Apesar
disso, é inegável que o aniversário da Lei Áurea serviu para incentivar a
reflexão sobre esse importante fato histórico, que não pode ser esquecido. Afinal,
o Brasil foi o maior país escravista das Américas e o maior importador: em três
séculos e meio, até a extinção do tráfico, compramos na África cerca de quatro
milhões de nossos antepassados. O 13 de maio de 1888 marcou o fim da escravidão
no Ocidente, já que fomos o último pais ocidental a abolí-la.
Acaba de sair um livro que, através da
reunião de cinco textos escritos em épocas diferentes, trata das dificuldades
dos escravos para assumirem o papel de agentes de seu destino: Escravos,
Roceiros e Rebeldes, do brasilianista Stuart Schwartz, professor da
Universidade de Yale, sintetizando mais de vinte e cinco anos de magistério e
pesquisa da História do Brasil.
Schwartz começa com uma avaliação bastante
abrangente da evolução e tendências da historiografia recente, que divide em
antes e depois do centenário. Atribui a Casa Grande e Senzala, de 1933,
a importância de marco fundamental para a análise da escravidão no país, apesar
de uma visão idealizada de "democracia racial" na sociedade
brasileira que decorre da obra de Gilberto Freyre.
Em seguida, refere-se às relações de
trabalho como fator que define o próprio regime de escravidão, a partir de um
exame das condições de vida nos engenhos de açúcar, com sua característica
peculiar de atividade agrícola e industrial. Segundo o autor, para obter dos
escravos a colaboração e qualidade necessárias aos serviços das
"fábricas", os senhores, ao contrário do que faziam com os negros das
plantações, não recorriam a castigos físicos. Havia um sistema de incentivos,
como a concessão de um "tempo livre" para que os escravos pudessem
trabalhar nas próprias lavouras de subsistência.
Conta-se inclusive o extraordinário caso,
ocorrido em fins do século 18, de um grupo de negros que fogem de um engenho
baiano, e depois negociam com seu proprietário uma pauta de reinvindicações
para voltar ao trabalho, tais como: semana de quatro dias, aprovar a nomeação
de feitores ou "brincar, cantar e folgar" sem necessidade de prévia
licença.
Diferentemente de muitos autores, Schwartz
considera a agricultura de exportação (à qual está associada a economia
escravocrata) e a de subsistência (exercida pelos "roceiros"), como
"as duas faces da mesma moeda". Mostra como a agricultura dos
"roceiros" se desenvolve paralelamente à exportadora, sendo essencial
ao abastecimento do mercado interno, e acaba por incorporar mão-de-obra
escrava.
Muitos documentos relativos à escravidão
desapareceram. Consta que o próprio Rui Barbosa, em 1889, queimou todos os que
encontrou, a pretexto de "acabar com o nosso passado negro". O mesmo
desejo aparece na letra do Hino à República, escrito apenas um ano depois, que
afirma: "Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre
país". Todavia, fontes importantes permaneceram, como as cartas de alforria,
registradas em cartório, de que Schwartz analisa uma amostra de mil, oriundas
da Bahia. Afirma que o fenômeno das emancipações alia razões humanitárias e
econômicas, como no caso emblemático de uma senhora que liberta um escravo
"por causa dos bons serviços da mãe, porque ele nascera na casa-grande e
ela o criara, e devido aos 100 mil réis que ele me deu para isto".
A alternativa dos escravos para a
reconquista da liberdade eram as rebeliões e fugas, originando os quilombos,
focos de resistência em que podem ser identificadas formas de organização de
origem africana.
Discutindo, igualmente a partir de
documentos, os laços de família e a escolha ou aceitação de padrinhos, o autor
conclui que raramente os filhos de escravos eram apadrinhados pelos senhores,
contrariando o suposto paternalismo que em geral se atribui a estes.
Apesar da escassez de fontes primárias,
principalmente no que se refere à perspectiva dos escravos sobre sua própria
condição, Schwartz traça um painel competente que se articula em dois eixos
básicos: a amplitude do sistema escravocrata, que perdurou por quase
quatrocentos anos no Brasil, e as ações dos escravos em busca de afirmação,
mesmo num contexto desfavorável. Destaca questões a serem pesquisadas com maior
profundidade e relaciona uma vasta bibliografia, de cerca de duzentos e
cinqüenta títulos. Dessa forma, estimula novos estudos sobre aspectos tão
relevantes quanto ainda mal compreendidos dessa fase marcante de nossa
História, essencial para que possamos avaliar as desigualdades do Brasil
contemporâneo.
ESCRAVOS, ROCEIROS E REBELDES, de Stuart
Schwartz, tradução de Jussara Simões. EDUSC, 300 págs.
Sergio Amaral Silva (samaralsp@uol.com.br) é jornalista, economista e escritor, no Brasil.