
Adorei
o seu site. Gostei tanto de rever o amor pela ilha que não pude deixar
de escrever-lhe este
rascunho em anexo.
Eduardo
White
Com a emoção de amores iguais aqui publico o escrito
Fernando Gil
Ao site www.macua.org/index.html
Eduardo
White
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Meu pardo mestiço Eduardo White
Pequena
cartinha a alguns menos esclarecidos.
Por haver um pássaro incendiado dentro do
seu grito, do meu pardo mestiço eu não me demito. Tenho um país levantado por
sobre a sua pele e esse ninguém mo deu, herdei da plena vida e é-me um direito
amá-lo e respeitá-lo. Eu nasci livre desde o primeiro dia, desde que se viu
apodrecida a única algema a que me liguei e que me prendeu dentro do ameniótico
líquido em que respirei. Podem dizer-me ou insultar-me a cor que visto e, no
entanto, eu amo-a, desde a origem da mistura com que me pensou e talhou até a
estas inacabadas, sempre, múltiplas cores com as quais vou estando aqui. Sou um
arco íris por vocação e não me cinjo nem à ardósia e nem ao giz, e são minhas
as geografias dos lugares que desconheço mas que pelas veias respiro. Sento ao
peito um negro comendo à mão e um branco que dança com a fome entre os
talheres. Do respeitado tempero do que ambos comem, a Índia, em mim, vende, a
quilo, o colorau e o gengibre pelas mãos especuladoras de um cigano. De carvão
na mão, meu pai tosse uma mina em Moatize enquanto em Angónia a fruta rareia na
preguiça do suor com que se não lavra a terra. Eu não me importo de ser o que
sou, porque há beleza em tudo isto e posso tocá-la com estes dedos compridos e
brancos e também tão orgulhosamente escurecidos pelas pontas. Como sou belo
neste tom castanho claro e como a alma me canta o tanto que assimilei dos abraços deitados de meus pais, puros
e fundos, amantes com a grandeza primaveril das nações em que nasceram beijando
os únicos lábios que o amor tem: a saliva apetecível e descolorida do prazer.
Todos os dias me deito mestiço e pardo e
acordo pardo e mestiço, feliz porque me sinto bem a sonhar e a viver com isso,
sem estigma que me incomode ou revolte, porque jamais me concebi de outra
maneira que não fosse esta e nem de outra forma vi o Mundo. Não me importa nem invejo
outras cores, porque as tenho, e isso é uma festa para mim, uma alegria dual e
volátil sempre que as respiro e vivo a partir delas e, assim mesmo, para o
diabo as bandeiras de que não preciso porque tenho as da vida e da poesia que é
mestiça, por sinal. Portanto, ninguém me magoa ao dizer-me que não as possuo,
magoa-me o facto de não as verem e nem sequer se aperceberem que mesmo nas
bandeiras não há cores únicas. Que bom ser vários e
múltiplo e infinito. Que bom esse milagre genético que a vida me deu. Minha
bisavó negra, majestosa e analfabeta na língua que falo, amou em nyandja o
soldado “pacificador” do meu avô e ainda hoje ela se senta, por dentro dos seus
ouros, no meus sonhos e fala-me pedindo-me missas e para que lhe estenda o
arroz, a carne e o rapé por uma esteira limpa e os proteja com um alvíssimo
pano branco, enquanto, diurno, o meu bisavô se ri num copo de vinho português,
tinto, a amelar-lhe os bigodes e canta um fado. E dos calções de gangas, das
meias altas da cor do caqui, anafadamente sisudo, arrota a mesma ordinarice
original que é branca nele e negra em minha bisavó. Meu pai sabe-o há 69 anos e
minha mãe há 62 e eu, há 40, vou percebendo o que o meu filho ainda nem reparou
aos 20. Mestiços, todos, cozinhados no desenvergonhado amor de nossos
ancestrais, lá fazemos, a cores, a nossa própria
história familiar. Imperturbavelmente moçambicanos por direito e originalidade, a cheirar na terra a terras e a gentes e a culturas. Como
é belo tudo isto que não cabe descrito ou documentado nem num bilhete de
identidade nem num passaporte. Vale assim mesmo, connosco abacalhoados e cheios
de azeite de oliveira, aos sábados, e agalinhadamente cafres a transbordar de
leite de côco e a rirmo-nos amucuanados aos domingos. E as mãos brancas da
minha mãe, sem racismos, a preparar-nos devotadamente tudo isto. Tudo, mas tudo
mesmo, com o sabor inconfundível da mágica cozinheira mulata da Sr.ª Dª Amélia,
minha avó. Grande em peso e nas receitas maravilhosas dos doces de maçanica
seca, da nipa a gelar em alumínio verde na geleira, do caril de carne com a cor
de aurora, do irrebatível arroz de côco, dos cigarros FV generosamente doados
aos netos adolescentes depois dos almoços e, pela tarde, após a sagrada sesta,
na companhia de meu avô, o amendoim melado para adoçar-nos as brincadeiras. É
de tudo isto que não me demito. Deste meu passado orgulhoso de que me levanto e
deste algum do meu presente em que sonha e cresce o meu pardo mestiço Eduardo
White, moçambicano sem o favor de ninguém, a ser na vida a grande palhota dos
palácios das suas cores.
Eduardo White
MANIFESTO REITERÁRIO E QUASE ANTI DÂNTICO AOS SUB-REALISTAS E AOS VULGOS
PAIS DA MODERNIDADE.
Porque para bom entendedor, meia palavra basta.
Por Eduardo White
Tu, ainda de pirolito na mão e as unhas
sujas do pus adolescente das borbulhas, tu que ladras o quadrúpede canino na
pulga parasitária e piolhenta da braguilha, tu cowboy de coldres ao
joelho, definitivamente morto nos
quadradinhos de alguma banda desenhada que a vida envelheceu a ler-te enquanto
crescias, tu ó embirrenta cria em que perdura, por teimosia biológica, o sangue
escurecido do parto em que doeste e apodreces, tu minhoca mirrada com os olhos
reformados no traseiro, tripa minúscula que nem para isca serve, tu toupeira
subcutânea, fungo enrijecido a comer pelos dedos, caracol deformado com a
ignorância às costas, tu analfabeto endoutorado armado em modernista e
computadorizado numa máquina de escrever, tu diarreico malabarista a limpar a
desidratação nas páginas culturais, tu carteiro altruísta da insana vaidade e
leitor assíduo da sua própria correspondência, tu que te dizes azul e nem o
ilimite sabes distinguir, tu pedaço de esterco a feder e a enjoar o nojo do teu
próprio escaravelho, tu mosca enverdecida, iletrado insecto a mobilar com
livros a bosta em que te aqueces, tu que limpas o recto à poesia e que por isso
a cagas com o que escreves, tu ó cineclubista a pontuar, masturbativamente aos
aplausos, os teus ícones do cinema, tu que sonhas com o Rambo, com os músculos
tonificados do Shwazneger e andas aos tiros e à pancadaria pelos mictórios da
vida, tu que namoras ensorvetado nos linguados das telenovelas e fazes amor com
as cuecas emprestadas à pornografia dos teus sonhados orgasmos, tu que dizes
que lês e apenas citas a última parte dos livros que folheias: a bibliografia,
tu que te sentes e te reclamas um intelectual porque achas que por identidade e
nacionalidade e naturalidade, esse facto, esse factozinho sem relevo nenhum
para a vida, o tens herdado, por legitimidade, nos direitos constitucionais da
tua descidadania, tu cópula barulhenta entre o ridículo e a patifaria, entre a
injúria e a incúria, tu ó bagre embigodado a chafurdar na lama a criatividade,
tu ó juiz cuja sentença é a viuvez do critério e do senso, hiena a lamber-se no
gosto a podre e a fezes, tu ó mendigo envaidecido com a concha da mão que
estende e que és surdo no teu próprio espectáculo e que és um mau decalque da
pobreza nacional, tu que és mísero por patriotismo e por nacionalismo
empobreces, tu que sonhas descalço umas sapatilhas e as culpas por sonhares
calçadas num Mercedes Benz, tu que és contra a língua que te expressas por
conspirar contra aquela com que foste
concebido e te curvas, até o cu olhar as estrelas, à língua de sua Majestade,
mãe e padroeira de Mr. Bond aos tiros com os cidadãos do País em que te
deformaste, tu ó imbecil a passar de classe sem nunca teres saído da barulhenta
sala da tua creche, tu piu-piu doentio do teu tenor desesperado entre o zumbido
e o mugido, tu que és um escândalo metafísico onde a física nunca teve meta,
cala-te autómato da vulgaridade, robô da senilidade, não tornes a tua
ignorância numa indústria de verdades, não te dês ao trabalho de não saberes
tornar o trabalho numa mercadoria a favor desse teu princípio capital que é a
preguiça, não desvalorizes essa classe do operariado, não sujes papel com o que
te é pressuposto ser uma dinâmica racional e mais não é que uma mecânica
intestinal, não labores fora de ti, fá-lo dentro de ti, não sejas um voluntário
constrangido onde a voluntariedade não pode ter causas nem ideais, não estejas
preocupado com a sabedoria das tuas posições, vela para que descubras a
sapiência das tuas próprias aposições, não andes caninamente a ladrar respostas
quando ainda nem coragem ganhaste para deixares de fazer perguntas quadrúpedes,
percebe ó sistema reprodutor do sistema irreprodutivo que és, tem necessidades
quando pensares, não faças necessidades sobre o pensamento, faz do que sonhas
um empreendimento, não faças empreendimentos para sonhar, ó triste batráquio à
espera de chover, sua rã sem determinação, ó lagartixa sem cauda por querer
vê-la dançar, ó cultura adestrada a pegar fogo no adestrador, ó tartaruga
espantada com a velocidade da formiga, tira a roupa e programa nu o teu próprio
suicídio e vai ler de forma menos agrária o que andas por aí a tentar lavrar, ó
rebelde da magreza e órfão da historiografia, não andes a sonhar revoluções
burguesas da tua calamitosa desburguesia, não insultes como um parasita, sê, porra,
com coragem, o parasita que te alicia, não vandalizes tudo aquilo de que és
partidário: o lixo, porque só nele te reconhecerão o lixo, a burrice e o
descaramento, ó apardalado paradigma com a peste e a cólera de não saber piar,
ó acordo agonizante e colectivo da tolice, sê louco, que é bonito, e não tornes
bela a estupidez nem reveles em ti a esfera onde ela brilha, ó foca adequada à
moral imperial de vender por mercadoria o que não tem força para o trabalho, ó
crise expandida da borrucracia, tu nasceste foi para a secretaria dos
sindicatos e das confederações e das confrarias e és um fetiche inventado para
as derivações das categorias do “valor, da mercadoria do dinheiro, do Estado da
forma jurídica, da nação, da democracia “ e etc e etc, tu, ó tainha descamada,
vê se consegues integrar dentro de ti e dentro dessa estratégia negadora que
és, sendo a pretensa estratégia da categoria dos dominantes, um pouco de
consciência para que te auto retrates. E faz um favor, que é obviamente um a
favor a ti mesmo, escreve o teu nacionalismo moderado de cunho social democrata
e não chateies o resto, porque, irra, ainda vais com a procissão no adro e já
és o teu próprio féretro, a excreção da tua velocidade. De modo que assim
sendo, vai ó mosquito despaludizado, pela lei da tua concorrência, vai tomar,
na tua ciência, o teu quinino estraquinizado. E morre, vil zumbidor, morre com
a única dignidade que te resta: ESMAGADO pelas palmas que tanto reivindicaste.