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Encontrará aqui biografias, não só de artistas, como dos principais grupos musicais portugueses, ordenados
pela primeira letra porque são conhecidos.
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Para aqueles que têm páginas próprias, ficará também o link para elas.
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"Sou um instrumentista popular. Tudo o que tenho da música erudita é apenas aquilo que me é exigido por
uma cultura geral tão bem fundamentada quanto possível. (...) Se alguma coisa está por dentro da música,
da poesia, da ciência, enfim, é a realidade. Se sinto a música de um lado e a realidade do outro, não
tenho dúvidas: estou a viver uma ilusão, uma falsa música ou uma falsa realidade." É assim que, no início
dos anos 80, se define aquele que foi, e é, um dos escassos vultos da música portuguesa que recolhe a
unanimidade de opiniões e é reconhecido como um génio - o guitarrista Carlos Paredes. Homem de enorme
modéstia, tímido, Carlos Paredes nunca se despegou deste olhar sobre a realidade e a História, como a
fonte de todo o seu trajecto pessoal: "Só consigo ver alguma coisa quando ela me é revelada pela Arte,
pela Ciência, pela Política. Não pode esquecer-se que cada uma das obras que sobrevive para além do seu
tempo pode transformar-se, nas nossas mãos, num instrumento de descoberta da realidade, em qualquer lugar
e em qualquer época". Estudioso dedicado e sério da história da evolução da guitarra portuguesa, para
a qual contribuiu com uma personalidade e um estilo próprios que o distanciaram de quel-quer escola,
Paredes nasceu num meio particularmente fecundo para o desenvolvimento das suas capacidades natas de
instrumentista. O bisavô já tocava guitarra. O avô Gonçalo também. E o pai, Artur Paredes, foi um dos
mais importantes renovadores da guitarra portuguesa em Coimbra na primeira metade do século. "Quando
apareceram as primeiras edições discográficas, o meu pai começou a comprar, especialmente, discos de
cantores da época. Eu, ainda miúdo, ouvia muita música, através dos discos e comecei a identificar os
cantores. Então, a minha mãe achava que eu tinha bom ouvido e sugeriu ao meu pai que eu fosse aprender
violino. O meu pai- homem de bom gosto - disse: Não vai nada. Só valeria a pena estudar violino se ele
fosse como o Heifetz." O facto é que o jovem Carlos ainda estudou violino, por volta dos dez anos de
idade, mas tinha a escola da guitarra em casa e o mestre no seu próprio pai. Esta tradição familiar com
quase dois séculos levou Carlos Paredes a aprofundar os seus estudos sobre um instrumento que durante
toda a sua vida considerou "menor", limitado, e ao qual procurou acrescentar inovações que o tornassem
completo, mas com pouco sucesso. "A guitarra apareceu em toda a Europa Ocidental, com características
muito semelhantes às que ainda hoje tem, no século XVI. Nessa altura chamava-se "cistro" e tinha como
antepassado a "cítola". Mas veio a ser abandonada em fins do século XVIII, subsistindo apenas entre nós,
por razões que apenas os sociólogos poderão explicar. Antes disso, compositores muito importantes para
a época, como dois italianos, Geminiani e Giordani, ambos residentes em Inglaterra, escreveram peças
para a guitarra. E foi ainda no século XVIII, numa época muito importante sob o ponto de vista cultural,
que a guitarra foi recuperada. Mas não me parece que tenha tido origem popular", salienta Paredes, em
entrevista concedida em 1980 à revista Mundo da Canção. Nos anos 60, já depois do grande sucesso que
foi o seu tema Verdes Anos, que ilustrou musicalmente uma das obras pioneiras da nova vaga do cinema
português, Paredes defendia que a guitarra portuguesa é um instrumento que não está estudado, que se
toca bastante ao sabor da improvisação. A propósito desta mesma improvisação, afirma, quase 20 anos depois,
que, para ele, tocar é improvisar sempre um pouco. "É como falar com alguém. É possível que a guitarra
também fale... O improviso é o momento em que se cria qualquer coisa". O guitarrista procurou, ao
longo de uma carreira apenas interrompida até hoje pela doença neurológica que o afectou no princípio
da década de 90, dar á guitarra portuguesa a grandiosidade dos instrumentos nobres. Tentou acrescentar
mais uma corda à guitarra: "Fiz tentativas nesse sentido - comecei-as há 5 anos e, de vez em quando,
ainda me entretenho com elas. Para conseguir uma afinação idêntica à do alaúde bastaria acrescentar à
guitarra portuguesa mais uma corda grave porque é um instrumento com muitas deficiências de baixo. Fiz
uma experiência acrescentando-lhe um Mi grave. Simplesmente, acontece que essa corda desequilibra o instrumento,
que parece já ter atingido a sua forma definitiva". A guitarra portuguesa é, na opinião do seu mais
aclamado intérprete, um instrumento impossível de ser fabricado em série. As várias tentativas feitas
nesse sentido, não apenas em Portugal mas, também, no estrangeiro, revelaram-se de tal forma desastrosas
que levaram os músicos a classificarem os objectos saídos das linhas de produção como "guitarras de bazar".
Carlos Paredes foi cuidadoso na escolha da sua até porque, em criança, fabricava já os seus próprios
instrumentos. Para ele, é importante recordar a família Grácio. "João Grácio foi um grande construtor.
O meu pai deu-lhe uma ajuda e esse trabalho dos dois serviu para encontrar a guitarra definitiva. Ele
fez várias ao meu pai, com base nas suas sugestões." A guitarra com que tocou até ao final da sua carreira
foi construída por João Grácio. Sempre num registo de humildade, o guitarrista considera que as próprias
limita- coes da guitarra portuguesa o levam a compor e executar uma "música menor", por comparação
com a "música maior" que diz ser a música clássica ou erudita. "A guitarra não é de modo nenhum essencial
na música portuguesa. Como já disse, não é, na sua origem, portuguesa. O que com ela se interpreta de
mais característico é o fado. Hoje, é essencialmente um instrumento de amadores, que o tocam por instinto.
Nos fins do século XVin houve preocupações de tocar a guitarra com rigor (António da Silva Leite, por
exemplo). Os seus continuadores, embora já distanciados, chegaram aos nossos dias, e posso citar o nome
de Júlio Silva. Mas a guitarra não é, de forma nenhuma, um instrumento essencial na música portuguesa."
A modéstia de Carlos Paredes esbarra, como sempre esbarrou, num muro de opiniões absolutamente contrárias,
de críticos, especialistas e admiradores. Um qualificativo muito comum para a música de Paredes, e para
a forma como abordava o intrumento, é "genial". A maior parte das opiniões não faz por menos. Houve quem
fosse verificar de perto se Paredes teria mais de cinco dedos, tal a agilidade com que dedilhava a guitarra.
Houve quem dissesse que as suas notas eram o melhor espelho do país, as que melhor o retratavam, as que
exprimiam sentimentos mais próximos da alma portuguesa. António Duarte, numa extensa entrevista que
lhe faz em 1981 para o Jornal de Letras, escreve que Paredes estava "pouco convencido da sua importância
- subestimando-a mesmo." Já Luís Almeida Martins rejubilava, nas páginas da Flama, no ano de 1968: "(Paredes)
começa a implantar a sua guitarra mágica bem no centro da música portuguesa, dando ao instrumento em
questão uma autonomia imprescindível, criando e recriando, libertando-o, enfim, daqueles cordelinhos
invisíveis e tirânicos que o ligavam ao fado lisboeta, escravo que era daqueles dois acordes mil e uma
vezes repetidos". Opinião esclarecedora veio do maestro António Vitorino de Almeida, por ocasião da
gravação conjunta do disco Invenções Livres, um diálogo de improvisos entre a guitarra e o piano. Quando
Paredes diz que o maestro é um músico com formação erudita, enquanto ele é um músico popular, Victorino
de Almeida riposta: "Você sabe como eu gosto e admiro a música popular. Mas não estou totalmente de acordo
que o Paredes seja um músico popular. Isto não é um elogio nem deixa de ser. É uma constatação. (...)
A música, quando é mais primitiva, é o chamado Sol e Dó, vai de Dó para Sol, de Sol para Dó e não passa
disso. Mas o Carlos Paredes criou uma coisa nova na sua música: nunca sai do mesmo tom. Isto é uma coisa
notável! Não existe na sua música aquela coisa característica da música popular que é o relacionamento
entre a "dominante" e a "tónica". O Paredes não tem, obviamente, nada que ver com a atonalidade de Schoenberg,
mas cria um mundo semelhante. É nesse sentido que eu digo que você não é um músico popular. É uma figura
popular". Filho do Choupal de Coimbra, também filho de Lisboa e do Tejo, Carlos Paredes viverá o essencial
da sua carreira nesta segunda cidade que descreveu: "Lisboa era uma cidade minha; apesar de não ter nascido
cá, considerava-a a minha cidade. Ela servia a minha imaginação, o meu sentido de poesia." À medida que
viajou por quase todo o Mundo, as cidades foram-lhe parecendo quase todas semelhantes: "cheguei à conclusão
de que as cidades estão muito próximas umas das outras. O que as distingue é menos do que aquilo que
as aproxima. Para mim, as cidades constituem o grande abraço universal dos povos. Muito mais do que as
aldeias. Sou um citadino de nascimento e de vivência. Acho absurda a ideia de se querer impor uma cultura
rural, a pretexto de que é mais pura. São dois tipos completamente diferentes de cultura", afirmou em
entrevista ao jornal Expresso, em 1983. Paredes, o mais notável guitarrista da história da música
portuguesa, disse um dia: "Quando eu morrer, morre a guitarra também. O meu pai dizia que, quando morresse,
queria que lhe partissem a guitarra e a enterrassem com ele. Eu desejaria fazer o mesmo. Se eu tiver
de morrer, morrerá comigo a minha guitarra".
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