BIOGRAFIAS

Encontrará aqui biografias, não só de artistas, como dos principais grupos musicais portugueses, ordenados pela primeira letra porque são conhecidos.

Para aqueles que têm páginas próprias, ficará também o link para elas.


AUGUSTO CAMACHO VIEIRA

Quais são as origens do fado de Coimbra?
O fado de Coimbra, o fado, a toada, a balada, a canção de Coimbra, como lhe quiserem chamar, ainda não houve ninguém que conseguisse com toda a certeza definir as suas origens. Há quem, como António de Sousa que, na sua obra Saudades de Coimbra, comenta a vida cultural da cidade, refira os valores que estão na essência desse tipo de música.
Se remontamos à criação da Universidade, desde o tempo do D. Dinis, o rei poeta e lavrador, que escreveu as Cantigas de Amigo, talvez encontremos uma ligação entre esse manancial musical e o espírito da música que mais tarde se veio a fazer. Mas, sendo mais concretos, e afastando-nos desses tempos medievais dos cancioneiros, dos trovadores, do alaúde, parece que os alicerces foram criados através de um nome que é conhecido, o Hilário, estudante de Coimbra que era de Viseu e a quem é atribuído o Fado Hilário. Ele foi uma figura carismática que tocava guitarra e que se acompanhava, e de quem João de Deus foi grande amigo, de tal modo que, quando vem para Lisboa, o Hilário veio de propósito fazer-lhe uma homenagem num sarau no Teatro D. Maria I. E fizeram-Ihe uma serenata em que ele, tão emocionado que ficou, veio à varanda e só disse "Ó Mocidade!". Bem, isto está documentado.
Mas o Hilário morreu novo, não foi?
Bem, o Hilário ficou em Coimbra e morreu pouco depois, muito novo, ainda não era quintanista de Medicina. Mas ficou uma lenda ligada a essa figura, que seria um bom cantor e um compositor emérito. Houve nessa época figuras brilhantes, mas entre eles destacarei um violista dessa época, Santos Dória, que dizem ter sido uma figura ilustre que tocava muito bem viola e cantava admiravelmente, com uma bela voz de barítono, com uma amplitude admirável.
Depois destas duas figuras, posso falar daquilo que conheci. E é de se falar do génio criativo de um homem que emprestou a todas as gerações depois dele composições maravilhosas, que era o Francisco Menano, irmão do António Menano, o cantor das composições do Francisco e que se fazia acompanhar por Paulo de Sá, violista prestigiado. Ele compunha coisas que ainda hoje se cantam e que foram aproveitadas pela chamada geração de ouro que veio a seguir, que era composta por nomes extraordinários como o Edmundo Bettencourt, o Armando Góes (tio desse nome que mais tarde veio a ser uma grande revelação, o Luiz Góes), o Lucas Junot, que tinha uma grande voz de tenorino e que deixou fados muito bem musicados e bem cantados; havia ainda nomes como o Paradela de Oliveira.
Mas vou destacar um pouco o nome de Francisco Menano, com quem convivi em Lisboa, e que me convidava a visitar à noite a sua casa na Avenida da República, por haver amizade entre nós (eu tinha-o conhecido em Coimbra numa reunião de curso) e, da minha parte um respeito muito grande por aquele homem que, além de grande compositor, era um musicólogo e possuía uma cultura fora do comum. E tinha frases invulgares, algumas das quais eu decorei, como esta: "Camacho, eu tenho aqui sete guitarras que é como se fossem minhas filhas". E recomendava-me leituras. Nas conversas que tínhamos, e que eram autênticos saraus em que ele cantava ao piano coisas magníficas que tinha composto. E com ele aprendi muitos fados. Era uma figura com uma dimensão humana fora do vulgar, sobretudo pela sua cultura e pelo modo como a exprimia.
Com o Francisco Menano eu alicercei os conhecimentos que tinha da música da Coimbra dos anos quarenta, quando lá estudei. Havia um cantor excelente nessa época, o Julião, que cantou inclusivamente aqui no Coliseu uma canção que para mim é um hino à cidade de Coimbra, que é o Coimbra Menina e Moça. Ora ele tinha uma voz muito bem colocada, muito bem timbrada e cantou aquele tema de tal maneira que levantou a plateia. Era uma voz que ia para os céus. Havia também uma voz notável, o Nani, Frutuoso Veiga, comparado muito ao Tito Gobi, era uma espécie de voz de veludo. Também ele cantava coisas do Francisco Menano.
Como é que Artur Paredes fez evoluir a guitarra portuguesa?
Como sabe o Artur Paredes foi o homem que dinamizou a guitarra de Coimbra. Ele mandava fazer as suas guitarras no Grado, um homem que já morreu e que tem um sobrinho que está no Cacem a quem eu comprei uma guitarra que tenho em minha casa. Ora bem, antes do Paredes as guitarras tinham uma caixa estreita, com pouco altura. Eram guitarras muito musicais, sem dúvida (eu ouvia o Toscano ou o Francisco Menano e ficava pregado na cadeira a ouvi-los). Mas tinham pouca amplitude. Ora o Paredes idealizou a guitarra com uma caixa mais ampla e, com a arte do Grácio para fazer guitarras, chegou ao instrumento que se toca até hoje. O Grácio era um artista nato. Tinha uma oficina ao pé do Penedo da Saudade, com o chão de terra. Metia as madeiras em água e resinas e secava-as e das suas mãos saiam guitarras e violas fabulosos. Foi para a América convidado e contratado por uma fábrica de instrumentos musicais. Eu conheci-o, levado por um grande guitarrista, o João Bagão, e gostei muito de falar com essa figura ilustre.
Essas guitarras construídas por orientação do Artur Paredes passaram, portanto, a ter a caixa mais alta e a serem feitas em mogno, em ébano e pau-santo. O tampo era de pau-santo, o braço era em ébano. Os pontos da guitarra, onde se colocavam os dedos, passaram a ter também uma altura maior, para que a vibração das cordas conseguisse dar aquela sonoridade que hoje também se encontra nas guitarras em Lisboa, porque foram buscar essa construção. A partir daí os grandes artistas nacionais, a começar pela Amália, devem muito ao Artur Paredes.
Parece não dar grande importância às designações e às classificações musicais.
O fado de Coimbra, ou balada, ou toada, ou canção, é-me irrelevante o nome que lhe é dado. Tem é de ter expressão". É uma forma musical em que são exteriorizados sentimentos e ideias de uma forma poderosa, abordando temas como o amor, a paz, a justiça, a amizade, o bem e o mal. E as belezas da natureza. Tudo isto são temas do fado e da balada.
Porque é que houve um hiato tão grande entre os anos vinte e os anos cinquenta?
Repare, os meios de gravação eram muitíssimo rudimentares e os grandes cantores dessa época, o Julião, o Nani e outros, não tiveram os meios de gravação necessários. Só havia a Valentim de Carvalho em Lisboa e depois a Odeon. Nesses tempos, à volta de 1945, eu já era semi-puto (aluno do segundo ano) e sou abordado por um rapaz, o António Guimarães, que era estudante e também Locutor do emissor regional de Coimbra. E fomos fazer uma serenata na Sé Velha que seria radiodifundida. Ora aquilo era uma estreia, nunca se tinha radiodifundido uma serenata. Foi gravada num daqueles gravadores de bobines e, depois, enviado para a Emissora Nacional. A serenata correu muito bem e foi radiodifundida. E choveram cartas para repetir e foi repetida uma série de vezes. E assim se criou o hábito de fazer uma serenata uma vez por mês. Portanto havia bons cantores. Não havia era meios para uma maior divulgação dos artistas.
Nos anos sessenta a canção de Coimbra conhece um renovado impulso, não é?
Nos anos sessenta o fado de Coimbra toma uma dimensão extraordinária no que respeita ao poema. Foi uma forma contestatária que surge com os poemas do Manuel Alegre musicados pelo António Portugal que, com o António Brojo, acompanharam as figuras destacadas da época que cantavam aqueles poemas maravilhosos. E é aí que surge o Zeca Afonso, uma figura extraordinária, que foi meu colega e com quem cantei em grupos de Coimbra com o Zé Amaral, o Gabriel de Castro, entre outros. Surgiu com as suas baladas contestatárias, que eram admiráveis obras de arte. Ele fez todo esse trabalho artístico com uma raiz coimbrã. Foi no fado de Coimbra que ele alicerçou a sua essência e o seu génio criativo. Esse grupo fabuloso que foi o Brojo e o Portugal, mais tarde com o Zé Niza, o Durval Moreirinhas, o Rui Pato, são figuras grandes da música de Coimbra que deram uma continuidade mas, ao mesmo tempo, uma força maior precisamente por causa da importância das letras. E refiro ainda o Bernardino e a figura muito marcante de Luiz Góes, que deu uma forma pessoal ao canto que mereceu uma grande apreciação de todos (e ele tem sido felizmente bastante homenageado). E não me esqueço de uma grande figura, que cantou lindíssimas baladas de contestação e que foi o Adriano Correia de Oliveira. Um cantor que soube criar a sua voz e a força criativa de transmitir a sua arte ao público.
Por mim, eu não diferencio o fado, a balada, a canção de Coimbra. Todos tiveram a mesma raiz, criada por grandes nomes de Coimbra: Francisco Menano, Paradela de Oliveira, Armando Góes que eu ainda ouvi cantar e me subjugou pela beleza do canto e pela harmonia da guitarra do Artur Paredes.


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