Tráfico de Órgãos em
Moçambique (5)
Conheça aqui as principais etapas deste
assunto
Savana - 02/04/04
A ASA DA LETRA (Mia Couto)
Desastres
— Então aquilo em Moçambique é que está um desastre!?
O meu coração congela, empalidecido pelo susto. Estou em Lisboa,
numa manhã fria de Março. Amanhã vai ser lançado o meu livro de contos.
Acordei tarde, o homem do táxi tira proveito do meu cansaço. Mal
digo que sou fora, ele dispara a observação sobre o estado desastroso do meu
país. Agito-me no banco de trás enquanto as perguntas se atropelam na minha
cabeça: Um desastre? Que tragédia abalou o meu
país? Novas cheias?
— Desculpe, estou fora há alguns dias, não tenho acesso ao
noticiário. Que desastre é que se está a referir?
— Andam por lá a cortar tudo o que é órgão e a vender miúdos.
Que barbaridade, no nosso século, ainda acontecerem coisas dessas!
Entendi, então. O homem falava de Nampula, do caso do alegado
tráfico de órgãos humanos. Ou por outra: ele não falava de Nampula. Mas de
Moçambique. Esse mundo que ele ignorava mas que imaginava como um universo onde
todas as atrocidades são possíveis. As notícias que ele
não entendia bem eram prova desse palco natural de selvajaria.
— Não acredita, meu senhor? Está em tudo que é jornal!
Quando me retirei da viatura fui, de imediato, comprar jornais
para beber da fonte onde o taxista poderia ter bebido. E lá estavam, de facto,
os cabeçalhos, as grandes reportagens, as chamadas de primeira página. Li
as principais reportagens. E fiquei surpreso. Nenhuma
delas era conclusiva sobre fosse o que fosse. Sem factos, sem
provas.
Mas cada um dos artigos alimentando esse doentio desejo do escândalo.
Equipas inteiras de repórteres exportadas para Nampula com o
pomposo título de "enviados especiais" remexendo em neblina, poeira
e em ecos de rumores. Era como se, de repente, as mais elementares normas
daquilo que é o bom jornalismo tivessem sido esquecidas. Falei, nesse instante,
com outros jornalistas portugueses que confirmaram a minha impressão sobre
esse empolamento.
No regresso, apanhei o mesmo taxista. O homem quis saber se eu
tinha lido os jornais. Respondi que sim, que os tinha lido. Não disse mas
apeteceu--me perguntar-lhe:
— Então, em Portugal, isto é que vai um desastre!?
E poderia falar da pedofilia que atingiria tudo e todos,
envolvendo até os mais altos dirigentes da nação. Fazendo tábua rasa de tudo
aquilo que as autoridades de justiça portuguesa pudessem ou não ter
comprovado. Porque a lógica do escândalo não se destina a comprovar factos, mas
a alimentar um.
Não defendo que não existam problemas a serem esclarecidos em
Nampula. Como existirão em outras províncias de Moçambique. E em outros países.
Mas o assunto não é esse. O assunto é a capacidade que é reconhecida a um país
para ser o produtor da sua própria informação. O direito soberano das suas
legítimas instituições de produzirem confirmações ou desmentidos. Senão o que
fica desta campanha histérica é a sedimentação do mito da gente diabólica, a
desacreditação das autoridades moçambicanas, a promoção da
instabilidade e da xenofobia. Um investidor, menos avisado, acredita que algo
de nebuloso pode sempre ocorrer num país tão vulnerável. Um turista, menos
informado, risca da sua agenda a ideia de escolher
Moçambique como destino.
Talvez alguns dos jornalistas portugueses possam repensar
este assunto à luz da sua própria experiência doméstica. De tanto elegerem o
lado escabroso da história da pedofilia, algum do jornalismo em Portugal
agrediu profundamente o seu próprio prestígio dentro e fora do país. Se
tomássemos por certo o tratamento que fizeram do assunto da pedofilia
acreditaríamos, nós em Moçambique, que Portugal fosse um país de abusadores de
crianças. Mas Portugal não é a Casa Pia. Nem Moçambique é um território de
selvagens traficantes.
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Moçambique
PUBLICO
Domingo, 04 de Abril de 2004
Ana Cristina Pereira
Carlos Lupanheque estica o braço, estende a mão, recebe uma
catana da mão do ajudante. Um olhar rápido e abana a cabeça. O rapaz que lha
passou não precisa de ouvir uma palavra. Agarra no instrumento cortante e vai
afiá-lo atrás da palhota. O assunto é sério, mas
Lupanheque é todo sorrisos. Sorri para a câmara. Como se fosse
um artista. Todo ele é teatralidade.
Lupanheque está junto à palhota-consultório, rodeada de
cajueiros.
Fixa o olhar no homem que está à sua frente, como se estudasse
cada filamento do seu rosto, com uma lâmina de barbear presa entre os dentes.
De súbito, pega na lâmina e começa a desenhar pequenos cortes no corpo do velho
e "minguado" Abudo. No peito, nas pernas, nos
braços. Impossível olhar para a lâmina de Lupanheque sem pensar
na propagação da sida. Abudo aguenta-se, firme, nem sequer pestaneja.
Ao aperceber-se do espanto na cara dos "estrangeiros",
o guia diverte-se: "Não tem perigo! É para vacinar". Quantas pessoas
já foram "vacinadas" com essa lâmina? Risos. E vai
"vacinar" com quê? A pergunta soa mal depois de se ter assistido a
todo o ritual de preparação do "remédio": a galinha degolada, o
círculo desenhado em volta, a cobertura cuidada, a recolha meticulosa. Quase
transpira provocação. "Chiuuuuu".
Lupanheque pincela as incisões impressas na pele do doente,
introduzindo-lhe uma mistela feita de terra e sangue de galinha fresco. E visto
assim, quase nu, com manchas castanhas espalhadas pelo corpo ossudo, Abudo até
parece um seropositivo em estado avançado de degradação. O guia, José Santos,
não se acanha: "Quantas vacinas levou para vir para Moçambique?". E
logo outra voz, até então calada à sombra de um cajueiro, se ergue
"Operação também dói".
Neste lugar, não é só a magreza de Abudo que é vulgar. O
"tratamento" que lhe está a ser cuidadosamente aplicado também. A
"vacina" faz parte da medicina tradicional, que o Governo moçambicano
recentemente aceitou integrar no sistema nacional de saúde. Na eventual crença
de que os curandeiros, depois de um programa de sensibilização a que alguns
foram sujeitos, respeitam as mais elementares regras de profilaxia.... E os
curandeiros viviam sossegados, até se ter começado a conotar a extracção e
tráfico de órgãos humanos com os seus usos e costumes...
Carlos Lupanhede é um dos curandeiros mais solicitados de
Nampula, mora em Carrupé, no meio do mato. Chegou ontem de uma demorada viagem
a uma localidade vizinha, onde esteve a fazer "um trabalho" como
este, que visa tirar "o mal" a Abudo. Um trabalho demorado, nada
comparável ao "despacho" típico dos médicos modernos que exercem nos
aflitos hospitais nacionais. A vacina é apenas o retoque final de uma consulta
que começara cerca de duas horas antes.
Abudo sentia "umas dores nas costelas, fez análises no
hospital, incluindo raio-x, mas não acusou nada, quis ver o que dizia a
tradição". Os médicos modernos receitaram-lhe uns comprimidos "para
dar acalmação", mas o velho não se deu por convencido. Andava a remoer, a
remoer, nos saberes antigos com que cresceu e chegou quase aos 70 anos. Uma
idade de ouro num país onde a esperança média de vida ronda os 47.
"O adivinho acabou de dizer que ele é um dirigente da
religião muçulmana, está a me compreender?", adianta-se o neto, Manuel
Seca. Alguém que lhe inveja o posto? "É. Luta de cadeiras, mesmo". E
então? "Tem que trogar", replica, no seu entoado português dos
macuas. Trogar é drogar e drogar é uma das partes mais dolorosas de todo o processo
de cura a que se submete um paciente. Abudo terá de inalar uma infusão - de
ervas e raízes - preparada na hora. Assim, atarracado de panos e cobertores,
entrará no delírio que lhe permitirá confirmar que foi o tal rival que lhe fez
mal e vencê-lo.
Não é "a primeira, nem a segunda nem a terceira vez"
que Abudo se socorre de um "médico" destes. Nem o neto. Seca
recorda-se bem de ter ficado "com a mioleira numa trapalhada" durante
a longa guerra civil. "Estive três meses no hospital, tinha muita dor na
cabeça,
saí, fui ao curandeiro e curei". Não era depressão
pós-traumática.
Era "mau olhado mesmo".
O curandeiro, o adivinho e o feiticeiro ocupam um lugar de
primeiro plano na sociedade moçambicana, onde amiúde as trivialidades da vida
assumem contornos de sobrenatural. O mal é quase sempre - se não sempre -
provocado. Se os mambas (selecção nacional de futebol) perdem contra a
Guiné-Conakry há logo quem diga que "tem agulha" enterrada no
relvado. Se um homem rico e gorducho vive entre a população faminta, corre
sérios riscos de ser tomado por "chupa-sangue". Se uma pessoa adoece,
se a fome aperta, o emprego foge, se o amor dói, então pode muito bem acontecer
"ter maus espíritos".
Nenhuma da medicina parece ser capaz de saciar a fome que se tem
de certeza quando se vive encurralado entre a tradição e a modernidade.
Em Moçambique, a relação curandeiros/médicos é de 80 mil para
1070. Circular entre as casotas dos bairros periféricos de Nampula é esbarrar
com todo o tipo de curandeiros. Diz-se que é no Norte que moram "os
melhores".
Consultar um médico tradicional é um acto corriqueiro. E
Moçambique não é excepção: a Organização Mundial de Saúde diz que 80 a 90 por
cento da população dos países em
desenvolvimento utiliza a medicina tradicional. À
casa de Tchu-Tchu, quase cego, quase surdo, chegam até "políticos de
Maputo". Deputados? "E ministros também", afirma o
curandeiro, de quem os vizinhos têm medo. Diz-se, à
boca pequena, que "é dos maus". Quem o vê encolhido numa cadeira de
madeira manchada pelo uso, não adivinha, mas é um autêntico mestre ao serviço
da justiça social. "Não falha".
Há curandeiros que são só curandeiros, como Paulina Tamele, que
estudou o segredo das plantas e cura com elas. E adivinhos que são só
adivinhos. Lupanheque é as duas coisas, como Tchu-Tchu e muitos outros médicos
tradicionais. E um "médico" assim não se faz com uns
anos de universidade. Lupanheque teve tuberculose, doença
causada pelos espíritos bons, começou a sonhar com receitas medicinais e
aprendeu a curar. "Não aprendi, vi directamente com os espíritos",
corrige, em tom grave. E não é Lupanheque que cura, são eles, os
espíritos.
Um adivinho é um porta-voz de dois mundos, um ponto de ligação
entre os vivos e os mortos. Uma espécie de embaixador dos mortais junto dos
seus antepassados-deuses e outros espíritos divinizados. É ele que neutraliza
os dois grandes planos da existência: o espiritual e o
físico. Quando lhe chega alguém à porta consulta os espíritos.
"Se não cura, volta para trás".
Para curar Abudo, Lupanheque tem de "chamar o
remédio". No meio de um campo de milho, a uns metros da
palhota-consultório, pousa uma tigela de fabrico artesanal com um
"preparado" de raízes e plantas. Há diversas pessoas em volta - uma
consulta de medicina tradicional é,
por natureza, algo que se faz "acompanhado" de
familiares.
Lupanheque osculta o doente com um corno, que tem uns pêlos que
lhe foram atados com um pano sujo. Abudo lava a cara. O momento é solene. Só se
ouve respirar. Ao lado da tigela, o curandeiro coloca três cornos; por cima,
uma espécie de cesta; no fim, faz cair um pó
branco. "Tem que chamar". O espírito que irá curar
Abudo está em Pemba, onde moram os antepassados do adivinho/curandeiro.
"Há uma grande distância de uma província a outra, está a me compreender?".
A esposa-ajudante de Lupanheque termina de "pilar"
outro preparado e o velho Abudo entra para o "bafo", envolto em mais
cobertores do que os que consegue suportar, com uma panela sobre o lume aceso
entre as pernas. O calor, na palhota despojada, é intenso. A penumbra só é
quebrada pelas velas dispostas junto ao vulto de Abudo.
O momento é de grande tensão. Lupanheque, com uma bata branca
vestida por cima dos calções e da camisola cavada, um corno na algibeira, está
visivelmente satisfeito. "Uma hora, tem que 'trogar' uma hora!".
Os familiares de Abudo agitam-se, na suspeita de que não
aguentará tanto. "Está muito minguado". E ele geme, transpira,
alucina, reza, volta a gemer, a alucinar. "Alá! Alá! Alá!" Lupanheque
nada estranha.
É capaz de fazer a ponte entre o tangível e o intangível, Abudo
há de ficar bom.
"Aquilo não falha", garante Seca. Jura-se ser esta uma
imagem de cumplicidade entre os homens, a natureza e as entidades divinas. E
admite-se que o velho sucumba. A "sofrência" de Abudo é imensa, vê-se
- e cheira-se - banhado em suor. O curandeiro reduz o tempo
de "bafo".
Depois de ir ao "banho para tirar o azar do corpo" e
de ser "vacinado", Abudo ainda vê uma catana afiada aproximar-se do
seu peito. Nem um sinal de susto. A lâmina de barbear fez-lhe escorrer sangue
de uma perna, a catana deixa-lhe só duas grandes marcas em forma de x. "É
o fim, é o fim, é o fim". Uf! Abudo pode relaxar. "Me trabalhava
muito a cabeça". Agora, talvez pelo efeito da droga, todo ele é "acalmação".
Há tratamentos que duram diversos dias ou semanas. "Não
tenho casa para internados. Tenho essa perspectiva", anuncia o curandeiro.
Os doentes que vêm de outras províncias amanham-se, conforme podem, no chão da
sua casa. Nada de anormal.
Lupanheque exibe a palhota-consultório, muito escura, com chão
de terra, onde se conseguem ver alguns chocalhos, ervas, raízes. Ali, há uma
única peça que podia estar num consultório de um médico moderno: uma pasta
preta, com papéis dentro. "Há 27 anos que faço isto",
sorri, vitorioso, Lupanheque.
A galinha, morta para o ritual de protecção, continua jogada a
um canto. Vai-se espreitar a tigela que ficou no campo de milho.
"Apareceu!" O que é? "Uma 'troga' amarrada". Abudo respira
de alívio. "Isto estava enterrado no chão, lá no cemitério, em Pemba,
veio de lá".
"Quem cura, mata". Esta é uma máxima de qualquer
curandeiro moçambicano como Lupanhaque. Tirou o "mal", mas também o
pode fazer. Abudo parece ter "esfriado" o desejo de vingança, mas se
mudar de ideias, quiser fizer uma encomenda de mau olhado, Lupanhaque
aceitará.
Raimundo Omia, curandeiro desde "1950 até hoje",
sentado na berma da estrada, levantara-se, dera uns passos largos, voltara a
sentar-se, antes de explicar a dualidade. "Um curandeiro pode fazer
trabalho para você morrer ali mesmo na estrada, você está a andar e cai".
Já
matou alguém? "Se pede para matar alguém, eu pergunto: para
viver quantos dias?, quantas horas?" Não fala em pegar numa faca ou numa
pistola. Fala em magia negra. Diz que nem é preciso saber o nome da pessoa em
causa. E este é um curandeiro especializado em dar
sorte...
A velha Luisinha Luigo foi assassinada há umas semanas. Detido
pelas autoridades, um jovem terá confessado o crime. "A nossa mãe era
feiticeira e merecia morrer, porque ela matou muita gente". Levou a mãe
para fazer um tratamento num curandeiro nos arredores da cidade
de Tete, matou-a no caminho de regresso com uma pedra com cerca
de
dois quilos. Omia conhece a história. Qual é a diferença entre
um feiticeiro e um curandeiro? "O feiticeiro só serve o mal, o curandeiro
pode servir o bem e o mal". Ambos capazes de comer órgãos humanos?
"Isso que estão falando lá... isso é costume muito antigo
que pode meter adivinho, curandeiro e feiticeiro". Conhece
alguém que faça? "Não".
Nas esburacadas ruas de Nampula, ainda há quem se lembre bem dos
Naparama ( que significa "força invencível" em macua). Os guerreiros
tradicionais conseguiram exorcizar o medo, cortando línguas e pénis e
praticando uma espécie de canibalismo simbólico. No final da década de 80,
Moçambique viveu uma espécie de "guerra santa". Tanto a Renamo, como
a Frelimo possuíam partidários da magia negra nas suas fileiras. Guerreiros da
Renamo usavam curandeiros para "preparar o corpo". E a Frelimo chegou
a condenar idosas à morte por "lançarem feitiços". E agora? O que se
passa?
Lupanheque é um exibicionista, mas não se embrenha em conversas
quando o tema são os corpos mutilados que têm sido encontrados em Nampula. Só
usa "raízes e plantas" nos tratamentos. De animais só o sangue de
galinha. Acredita no seu poder sobrenatural. Acha que traz sorte.
Os casos que têm surgido em diversas partes do país - sobretudo
de extracção de genitais - não são um exclusivo de Moçambique. A tradição vigora
na Suazilândia, no Malawi, na África do Sul, na Tanzânia. Omia lembra que há
cada vez mais curandeiros estrangeiros a
fixar-se em Moçambique.
O tanzaniano Sulleiman Moto afiança, através de uma intérprete
com um bebé amarrado ao corpo, que só usa medicamentos à base de cascas de
árvores e de raízes. Moto, tal como os outros curandeiros consultados pelo
PÚBLICO, alega desconhecer casos concretos de uso de órgãos humanos. Que outra
coisa seria de esperar? "Quem cura, mata", dizem os curandeiros, um a
um. Mata como?
"Curo todas as doenças, menos sida", gaba-se
Lupanheque. E então porque não? "Os ancestrais ainda não explicaram como é
que isso se faz". Porquê? "Ainda não chegou a vez". E as outras
doenças sexualmente transmissíveis? "Não tem problema". Boa notícia
num país que
convive bem com a poligamia. Risos. Lupanheque só tem uma esposa, 12 filhos.
A imprensa nacional traz algumas promessas de vida. Curandeiros,
como Kenneti Mudini, apregoam-se capazes de curar a doença maldita que já
afecta mais de um milhão de moçambicanos e provocou mais de 400 mil órfãos.
"Acaba de chegar o amigo de todos, o Dr. Said Mutocha, com
a solução de todos os problemas da sua vida", anuncia-se nas páginas de um
semanário. Diz-se capaz de tratar "tuberculose, hermadite, vómitos,
doenças dos rins, bilharziose, anemias, impotência sexual, doenças
mentais, esterilidade feminina, doenças cardíacas, malária"
e outras tantas patologias, inclusive "maus espíritos". E, no fim de
tudo, sugere: "Os doentes de sida tenham calma, ainda há esperança de vida
nas mãos do dr. Mutocha".
Lupanheque é um curandeiro de aldeia, com pano branco na palhota
e tudo. Curandeiros tradicionais como ele nem sequer discutem preços. Se a sua
arte não fosse sobrevivência nem aceitaria uma oferta. Curar é, para si, um bem
que tem de partilhar. "Ficaria doente" se usasse tabela. Nas cidades,
a conversa é outra, o comércio instala-se.
Em Moala Expansão, bairro periférico de Nampula, há um
curandeiro com um cartaz elucidativo que o tempo quase apagou. "Leia
devagar e procure o número da sua doença: 1 para ter emprego 50 contos; 2
sonhar um espírito alto 50 contos; 3 tratamento para que tenha sorte 30
contos.". Tem também tratamento para a "mulher gostar do
marido", tratamento para "fazer bom negócio", tratamento
"para um casal que nasce" (leia-se infértil), para "os homens
que não casam".... Tudo com o preço à frente (um euro são cerca de 30
contos ou 30 mil meticais).
Perto daquele, Bismillah Rahaman Rahim: "Avisa-se que
existe um curandeiro vindo de Dar-es-Salam Tanzânia. Cura as tais doenças:
Gonorreia, embico, coluna, inchaço de pernas, diapede, espíritos maus. Matar
mochos, preparar machambas, moagens e obtenção de ouro etc. NB. Não curamos
sida. Só temos para tirar as dores. $ Bem vindo".
O cifrão, antes do "Bem Vindo" não é um pormenor
irrelevante. Na Rua dos Sem Medo, onde outrora moravam os portugueses, outro
tanzaniano quer dinheiro até para deixar fotografar o cartaz. Sulleiman Mota
trata de doença, arranja bons empregos, cura males de amor e torna as
pessoas mais ricas.
Em 1991, a ONU iniciou um programa junto dos médicos
tradicionais, com o objectivo de travar a propagação do HIV. Aquando da
avaliação, três anos depois, permanecia a confusão sobre uma suposta cura.
Há curandeiros que dizem curar a sida com o uso de amuletos e de
tatuagens. Mau mesmo são os que propagam o mito nascido na África do Sul -
segundo o qual ter relações sexuais com uma virgem mata o vírus. O mito faz
estragos dentro e fora de Moçambique. Não só impulsiona o abuso sexual de
crianças (84 por cento das meninas de rua de Maputo são prostitutas), mas
também aumenta os fluxos de tráfico de menores para a vizinha África do Sul,
têm alertado
diversas organizações.
Como os médicos tradicionais cumprem um papel importante no apoio
e aconselhamento familiar, o programa usou-os para promover o uso do
preservativo e combater o sexo fora do casamento. Os "médicos" que
curam dizem-se capazes de "matar". Como podem, com os seus meios,
fazer o diagnóstico de HIV? Como pode um médico tradicional - defensor acérrimo
da fertilidade do clã - aconselhar uma seropositiva que quer ter um filho? E
como pode um médico tradicional abandonar um doente que se tornou dependente
dos seus cuidados e apoios?
Há uns dias, em entrevista ao jornal Savana, a directora do
Departamento de Medicina Tradicional do Ministério da Saúde, Adelaide Bela
Agostinho, revelou não ter bases "para afirmar que a medicina tradicional
não cura a sida". Defendeu que falta estudar os métodos
usados por eles. E desculpou-lhes o uso de lâminas em mais de um
paciente.
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A série de artigos que o jornal PUBLICO tem
publicado sobre Moçambique e o tráfico de órgãos tem causado algumas reacções
em Moçambique. Aqui está uma, publicada no oficioso diário de Maputo, NOTICIAS,
por alguém envolvido na gestão do Corredor de Nacala (e por sinal também irmão
do escritor Mia Couto).
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Miopias perigosas
NOTICIAS
Sexta-feira, 2 de Abril de 2004
Fernando Couto
A província e cidade de Nampula tornaram-se internacionalmente
conhecidas pelas razões que são do conhecimento público e que afectam a imagem
do país não cabe esta matéria neste artigo, ate porque o mesmo está a ser
investigado por quem direito e nada mais prejudicial
para as investigações judiciais e policiais que a mediatização
desses mesmos processos.
Deambulando recentemente por terras de Nampula, fica-se surpreso
quando se continua a encontrar jornalistas e repórteres fotográficos, sobretudo
pertencentes a órgãos de informação portugueses, facilmente reconhecidos por
envergarem os típicos coletes (não à prova de bala) mas com muitos bolsos e sem
mangas e pelo número de câmaras e objectivas fotográficas para registarem
aquela imagem que um dia os tornará famosos. Numa azáfama incontida percorrem
os locais recônditos em estilo de detective sherlokiano, em busca não do tempo
perdido, mas de pistas, de testemunhos, de provas, provas nunca até agora
identificadas. E como não há jornalismo gratuito
enviam prosas para os jornais aos quais pertencem, ou que os contrataram para o
efeito.
Nesta azáfama de descobrir traficantes de órgãos e crianças, o
jornal português "Púb1ico" , tido como um órgão da informação escrita
de referência, na sua edição do dia 27 do Marco do ano corrente, publica um
extenso artigo com o título "A miséria empurra as crianças de
Nacala para as mãos dos traficantes". Nessa peça
jornalística dá-nos conta que "Junto à praia Caetano Veloso, há vendedores
e compradores a "sombrarem". Pese o estilo já
moçambicanês de inventar palavras e embora exista em
Moçambique quem goste das músicas do cantor brasileiro Caetano Veloso a
jornalista deu um real pontapé na história do seu próprio país. A praia de
Nacala chama-se simplesmente de "Fernão Veloso". Um pequeno engano.
Mas que mancha a credibilidade do jornalismo de investigação feito por
profissionais.
Não se fica por aí as omissões e imprecisões. Afirma-se por
exemplo que "O porto de Nacala é um dos mais importantes da Africa
Oriental - tanto que os americanos tomaram recentemente conta dele". De
forma certa e segura, o porto de Nacala continua a ser operado pela empresa
pública CFM. Decorrem negociações para a concessão do corredor,
mas também por certo e seguro, no actual quadro negocial a operação daquele
porto de águas profundas não vai ser feita por empresas norte-americanas, mas
por interesses empresariais moçambicanos. O seu a seu dono.
Dão-se conta que trinta crianças esperam um navio para serem
traficadas com destino a Portugal Sucede que vão longe os tempos em que navios portugueses
escalavam o porto de Nacala. Ou mesmo que existam navios actualmente, de
qualquer bandeira, que rumem
directamente para portos portugueses. Como entrariam essas
pobres crianças traficadas a bordo dos navios? Quem são os comandantes que
arrecadariam com essa responsabilidade? Passageiros clandestinos? Escravos? A
que ponto chega essa malha de traficantes de menores?
Mistérios da natureza, que a jornalista não explica,
limitando-se pela acusação, citando relatos verbais. Credibilidade zero, que provocam
danos colaterais ao país.
Afirma-se ainda que os pescadores das baias de Nacala "Não
falam em barcos suspeitos, apontam a linha férrea, o sentido de Maputo".
Um pequeno erro geográfico. A linha férrea que parte de Nacala não caminha
transversalmente mas encaminha-se sim, para o Malawi e para
Lichinga. Por certo e de certo é que será muito difícil fazer
circular passageiros, mesmo raptados ou furtados, de Nacala para Maputo por
comboio. Impossibilidade técnica.
E vem-nos à mente um outro artigo publicado há alguns meses no
mesmo jornal em que se afirmava que a segunda causa de morte em Moçambique era
produzida pela queda de cocos. Valha-nos Deus que nunca chegamos a esse ponto e
infelizmente as causas da mortalidade são mais sérias.
Surpreendente é também a afirmação do bispo de Nacala transcrita
no mesmo jornal, na mesma edição. D. Germano Grachan com direito a fotografia
respondendo a uma pergunta de o que vaie então uma vida? " diz:
"Aqui, a vida é um farrapo. Mata-se uma pessoa como se mata uma galinha".
A ser verdade e sem prejuízo do segredo da confissão, o ilustre prelado que faz
tão grave acusação deve no mínimo prová-la. Qual a taxa do mortalidade em
Nacala? Da população quantos homicidas existem? Sinceramente, como frequentador
assíduo daquela bela zona do país nunca ouvi tais apreensões ou constatações.
Nem nunca deparei com corpos estendidos nas ruas, vielas da
cidade de Nacala. E, como frequentador assíduo, começo até a ficar com receio
de tanta maldade escondida.
Existem sim problemas sérios de pobreza. Existe sim um contraste
humilhante entre sinais exteriores de riqueza e as condições em que muita gente
vive. Tenhamos que ser realistas e sobretudo não dar uma imagem do país, como
se fôssemos todos bandos de criminosos, em que
se matam pessoas por qualquer razão e motivo.
O que espanta é a cruzada jornalística feita sobre urna questão
séria e que merece toda a profundidade de investigação, que merece ser feita
justiça, venha desencadeada por órgãos de informação estrangeira que têm, no seu
próprio país, muito para investigar, desde os casos de pedofilia, ate as
manchetes da imprensa internacional sobre a prostituição em cidades do
interior. Estas percepções que em Moçambique se mata, se esfola, se trafica,
transmitem uma percepção de insegurança, de um estado caótico, lembrando
cidades do "far west", sem
"sheriffes", nem lei, nem ordem.
Não é o caso. São falsas percepções.
Felizmente existem outras situações positivas na província de
Nampula. Como a estrada dos milagres que liga a capital provincial a Nacala.
Lentamente a construção desenvolve-se tornando aquele caminho de estrada penosa
num trajecto fácil. Empreitada que ultrapassa os
calendários do admissível. Com um ritmo e a urna metodologia de
construção, que para nós comuns dos mortais, não construtores de estradas, não
conseguimos compreender. Os troços ainda em reabilitação, provavelmente para
quebrar a monotonia do condutor e testar a resistência dos carros, alternam
entre solos de areia, a solos repletos de pedra solta, saltando e partindo os
vidro do para brisas e criando uma pesada nuvem de poeira que nos tira por
completo a visibilidade e nos enche os pulmões, sobretudo quando as viaturas
do próprio empreiteiro andam a velocidades de mais de 100 à
hora, sendo os primeiros a desrespeitar os sinais de precaução.
Inesperadamente aparecem bocados de estrada asfaltada, com
troços em terraplanagem. O imprevisto para o incauto condutor é meticulosamente
previsto pelos construtores da estrada. O que nos dá uma sensação de sermos
pilotos da prova de "ralis" do Paris-Dakar, pelo menos pelo tempo em
que a construção se arrasta, ate à sua conclusão.
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EXPRESSO –
07.04.2004
Atitude inédita da
Comissão de Justiça e Paz
Religiosos com os olhos em
Nampula
As congregações religiosas portuguesas exigem
que o Governo português exerça «pressão internacional» para que as
denúncias feitas por missionários de Nampula sobre o desaparecimento de crianças
e o tráfico de órgãos naquela cidade moçambicana não fiquem por esclarecer.
Esta é a primeira vez que a Comissão de
Justiça e Paz dos religiosos (freiras e padres) interpelam o Executivo de Durão
Barroso para actuar diplomaticamente sobre uma questão internacional de
Direitos Humanos.
Num comunicado agora divulgado - ao qual o
EXPRESSO Online teve acesso - aquela Comissão garante possuir ter informações
de que em Nampula «têm desaparecido crianças, jovens, adolescentes e também
adultos». Recorde-se que na sexta-feira os missionários de Moçambique
revelaram a descoberta de um outro cadáver de uma mulher, com marcas de
agressão.
«Foram encontrados vários corpos mutilados e
enterrados sem qualquer processo de identificação»,
assegura a Comissão de Justiça e Paz dos religiosos portugueses, sublinhando
que, apesar de caber «às autoridades moçambicanas apresentar, nas devidas
instâncias, provas para factos cuja verificação é inegável», Portugal não
se pode eximir de pressionar internacionalmente, a exemplo do que já fez a
Comissão Europeia, «para que a verdade não seja ocultada e a justiça seja
realizada».
Mário Robalo
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Uma Escrava Sexual Compra-se por 128 Euros
PUBLICO
Por ANA CRISTINA PEREIRA, em Maputo
Segunda-feira, 05 de Abril de 2004
Há dezenas de pessoas com banca montada ao longo do último
quilómetro de asfalto. Negoceiam missangas, capulanas, fritos, frutos, doces,
refrescos, num pachorrento e suado regatear. Deste lado da fronteira é
Moçambique e tudo é míngua: emprego, salário, esperança. Do outro
lado fica a África do Sul e de lá chegam promessas de farturas
várias. Ao longo da fronteira comum, compra-se uma moçambicana por mil rands
(128 euros) ou até menos.
O vozear dos vendedores perde-se entre o roncar das viaturas
pesadas e ligeiras que passam a fronteira Ressano Garcia, a 120 quilómetros de
Maputo. Há gente deitada na berma em amarelo bocejo. Aissa, 28 anos, três
filhos, é moçambicana, mas só vende "cold drinks" - "made
in South Africa". "Ando aqui a improvisar", diz
ela. Para atravessar a fronteira sem visto e sem passaporte "é só falar
com aquele rapaz lá, esse que está a vender manga".
Nem é preciso abordar o vendedor apontado. A menos de meia dúzia
de metros da fronteira, parte, mato adentro, um caminho de terra batida
desenhado pelo muito uso. Os guardas nem se mexem e um rapaz, todo gaiteiro,
dita os preços ali mesmo: são 150 rands (19 euros) para
atravessar a fronteira de carro: 50 para a guarda moçambicana
fechar os olhos e 100 para a sul-africana fazer o mesmo.
O esguio e citadino Maurício está a exagerar. No mercado de
cores garridas e cheiros
intensos, dois grupos de rapazes competem pelo
esvaziar dos bolsos alheios. Subornar um guarda fronteiriço moçambicano custa
entre 50 mil e 200 mil meticais (entre 1,6 e 6,6
euros). Do outro lado, Komatiport, pode-se passar desembolsando
um mínimo de 50 rands (6,4 euros).
Há um buraco feito no arame farpado por onde se pode passar por
menos dinheiro: 100 rands (12 euros). "Ali é mato, a vossa raça complica
muito, melhor passar na fronteira mesmo", avisa Artur, que entretanto se
junta. Mas como é que se faz para passar pelo buraco? "Há um
guarda à espera, eu chamo, ele leva até ao outro lado".
A barreira de arame farpado estica-se ao longo de cerca de cem
quilómetros. O buraco indicado pelos rapazes fica entre a fronteira viária e a
fronteira ferroviária, a uns 500 metros. Mas "lá longe" há outras
aberturas, usadas por quem não pode pagar o suborno. À direita está o Kruger
Park, uma das maiores reservas naturais da África do Sul, com zebras, gazelas,
girafas, mas também búfalos, leões e elefantes. De quando em quando, os jornais
noticiam a morte de imigrantes clandestinos por acção de animais selvagens. A
esquerda
pode anular esse risco, mas traz outros: abundam histórias de
moçambicanos que caem nas mãos dos latifundiários "boer" e são
obrigados a trabalhar de graça.
Pelo último relatório Jean-Pierre, fornecido pela Fundação para
o Desenvolvimento da Comunidade, sabe-se que o movimento de Ressano Garcia é
contínuo. De 20 de Janeiro a 5 de Fevereiro, atravessaram a fronteira
ilegalmente 1825 homens, 282 mulheres e 163 crianças.
Quantas terão ido à força?
Ainda o mês passado, graças à intervenção da "inteligência"
sul-africana, quatro homens foram detidos com cinco menores de cinco anos que
se preparavam para vender do outro lado. Maurício e os amigos não fazem
perguntas. Se um homem leva, dentro do carro, uma criança, isso não lhes diz
respeito. Nem a eles, nem aos guardas fronteiriços. E o facto é que a maior
parte passa de livre vontade.
Logo cedo, na estação de Maputo, o PÚBLICO encontrara José, a
aguarda o comboio das 7h30 para a fronteira de Ressano Garcia. Hoje, como na
véspera e na antevéspera, o comboio não partiu. Houve uma avaria. Mais uma. Mas
José voltará amanhã. Se for preciso, voltará depois de amanhã ou até depois e
depois. Até haver transporte. Tem 14 anos, calças largas e esfoladas. Queria ir
"para lá mesmo". Como é que pode atravessar? "Assim mesmo".
Para quê? "Tentar esses aforas".
O contacto de José é para a fronteira ferroviária, mas a maior
parte das pessoas que, como ele, tenta a sorte do outro lado da fronteira,
chega em carrinhas-táxi. Os "voluntários", angariados com promessas de
emprego, de estudo ou casamento, pagam cerca de 500 rands (64
euros) para as despesas do tráfico para a África do Sul. E
alguns encontram destino igual aos raptados - igual ao de Noela, de 12 anos,
que, o ano passado, foi resgatada "ao dono" pela polícia e entregue
aos pais.
Tráfico para África do Sul
aumenta
O tráfico humano para a África do Sul tem aumentado, diz o
relatório da Organização Internacional das Migrações (OIM). Meninos como José
engrossam as fileiras da exploração infantil. Mas o maior parte das vítimas que
passam por Ressano Garcia, são mulheres e crianças, como Noela, cuja história
foi revelada durante a Cimeira da União
Africana.
As meninas "ficam, por uma noite, em casas de trânsito ao
longo da fronteira comum", onde são agredidas e "iniciadas no
trabalho de sexo que as aguarda", especifica o documento, que cifra em
cerca de mil o número de moçambicanas traficadas para a África do Sul todos os
anos.
Os preços variam de acordo com o destino: hotéis, bordéis, rua,
casas particulares. Algumas são vendidas a casas de prostituição no centro de
Joanesburgo por mil rands (128 euros). Outras são comercializadas como escravas
sexuais ou como esposas entre os mineiros do Rand
Ocidental, periferia de Joanesburgo, por 850 rands (108 euros),
sustenta ainda o documento. Amissa tinha 13 anos quando foi aliciada com uma
proposta de trabalho e vendida na fronteira por 550 rands (77,5 euros) a um
mineiro com quem casou.
Indocumentadas, sem falar a língua, as mulheres e as crianças
sofrem diversos tipos de pressões. Até as crenças ancestrais entram no jogo dos
seus "donos". "Uma mulher pedirá cuecas, cabelo e unhas,
ameaçando as vítimas de morte por magia se não cooperarem", refere o
relatório da OIM.
O Governo moçambicano escuda-se na miséria para rejeitar a
existência de tráfico e falar em pessoas que procuram "alternativas"
de vida. Enquanto isso, o famoso mito sul-africano (ter sexo com uma virgem
cura a sida) e alguns restos de mentalidade esclavagista fazem
desaparecer crianças em Moçambique e noutros países da África
Austral.
O Procurador Geral da República não dá mais entrevistas. A
secretária diz que Joaquim Madeira está cansado da imprensa estrangeira e
aconselha o PÚBLICO a tratar dos problemas de Portugal.
Bem perto da Procuradoria, vizinha do Ministério do Interior, os
meninos de rua oferecem-se para guardar carros, para "acompanhar",
vendem miudezas. Circulam por toda a cidade. Fixam-se junto aos semáforos,
junto às praias. Oitenta e quatro por cento das meninas prostitui-se. Muitos trabalham
para os seus "donos" - as pessoas que os trouxeram do campo para a
cidade.
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Tráfico
de órgãos em Nampula - Polícia e Procuradoria com dados contraditórios |
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O Procurador-Chefe
provincial substituto em Nampula, Daniel Magula, acusa a PRM naquela parcela
do país de estar a escamotear a verdade em relação ao caso dos 14 indivíduos que foram encontrados no distrito de Nacaroa na posse de órgãos. |
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Maputo - Fracassada tentativa de venda de menor |
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Cinquenta milhões de meticais é quanto ia custar o pequeno
Adérito, órfão de mãe. |
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Fracassou na última
segunda-feira, na cidade de Maputo, uma suposta tentativa de venda de um
menor identificado pelo único nome de Adérito, com menos de 10 anos e
residente no Bairro de Inhagóia. |
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fonte: NOTÍCIAS |
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2004-05-13 00:00:00 |
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Maria Elilda dos Santos, missionária brasileira que denunciou
o tráfico de pessoas e órgãos humanos no Norte de Moçambique (Nampula), chegou
ontem ao fim da noite a Lisboa, onde permanecerá alguns dias, antes de partir
para o Parlamento Europeu (Bruxelas) e para o Brasil. |
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A missionária é acompanhada de funcionários da Embaixada do
Brasil em Maputo e já terá recebido um convite do Governo brasileiro para
colaborar com a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o tráfico de órgãos. |
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Edgar Nascimento |
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CONCLUIDO RELATÓRIO
SOBRE TRÁFICO DE ORGÃOS
O Ministério Publico já produziu o
relatório final sobre o alegado tráfico de órgãos humanos na província de
Nampula, mas o mesmo não será divulgado, por haver pessoas incriminadas na
prática de tais actos, segundo apontou o Procurador-Geral da República, Joaquim
Madeira.
Conforme justificou Madeira, havendo
suspeitos da prática dos mais de uma dezena de crimes reportados desde 2003, o
relatório não será divulgado por questões de ética profissional, que irão
obrigar a instauração de processos-crime.
NOTICIAS 06/08/04
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