Tráfico de Órgãos em Moçambique (5)

Conheça aqui as principais etapas deste assunto

 

Savana - 02/04/04 

A ASA DA LETRA (Mia Couto)

Desastres

— Então aquilo em Mo­çambique é que está um de­sastre!?

O meu coração congela, empalidecido pelo susto. Estou em Lisboa, numa manhã fria de Março. Amanhã vai ser lançado o meu livro de contos.
Acordei tarde, o homem do táxi tira proveito do meu cansaço. Mal digo que sou fora, ele dispara a observação sobre o estado desastroso do meu país. Agito-me no banco de trás enquanto as perguntas se atropelam na minha cabeça: Um desastre? Que tragédia abalou o meu
país? Novas cheias?

— Desculpe, estou fora há alguns dias, não tenho acesso ao noticiário. Que desastre é que se está a referir?

— Andam por lá a cortar tudo o que é órgão e a vender miúdos. Que barbaridade, no nosso século, ainda aconte­cerem coisas dessas!

Entendi, então. O homem falava de Nampula, do caso do alegado tráfico de órgãos humanos. Ou por outra: ele não falava de Nampula. Mas de Moçambique. Esse mundo que ele ignorava mas que imaginava como um universo onde todas as atrocidades são possíveis. As notícias que ele
não entendia bem eram prova desse palco natural de selva­jaria.

— Não acredita, meu sen­hor? Está em tudo que é jornal!

Quando me retirei da viatura fui, de imediato, com­prar jornais para beber da fonte onde o taxista poderia ter bebido. E lá estavam, de facto, os ca­beçalhos, as grandes re­por­tagens, as chamadas de pri­meira pági­na. Li as principais reportagens. E fiquei surpre­so. Nenhuma
delas era con­clu­siva sobre fosse o que fosse. Sem factos, sem provas.
Mas cada um dos artigos alimen­tando esse doentio desejo do es­cândalo.
Equipas inteiras de repórteres exportadas para Nampula com o pomposo título de "enviados especiais" reme­xendo em neblina, poeira e em ecos de rumores. Era como se, de repente, as mais elemen­tares normas daquilo que é o bom jornalismo tivessem sido esque­cidas. Falei, nesse ins­tante, com outros jornalistas portu­gueses que confirmaram a minha impressão sobre esse empolamento.

No regresso, apanhei o mesmo taxista. O homem quis saber se eu tinha lido os jornais. Respondi que sim, que os tinha lido. Não disse mas apeteceu--me perguntar-lhe:
— Então, em Portugal, isto é que vai um desastre!?

E poderia falar da pedofilia que atingiria tudo e todos, envolvendo até os mais altos dirigentes da nação. Fazendo tábua rasa de tudo aquilo que as autoridades de justiça portu­guesa pudessem ou não ter comprovado. Porque a lógica do escândalo não se destina a comprovar factos, mas a alimen­tar um.

Não defendo que não exis­tam problemas a serem escla­recidos em Nampula. Como existirão em outras províncias de Moçambique. E em outros países. Mas o assunto não é esse. O as­sunto é a capacidade que é reconhecida a um país para ser o produtor da sua própria informação. O direito soberano das suas legítimas instituições de produzirem confirmações ou desmentidos. Senão o que fica desta cam­panha histérica é a sedimen­ta­ção do mito da gente diabólica, a
desacreditação das auto­ridades moçambicanas, a pro­moção da instabilidade e da xenofobia. Um investidor, me­nos avisado, acredita que algo de nebuloso pode sempre ocorrer num país tão vulne­rável. Um turista, menos informado, risca da sua agenda a ideia de escolher
Moçam­bique como destino.

Talvez alguns dos jornalis­tas portugueses possam re­pen­sar este assunto à luz da sua própria experiência domés­tica. De tanto elegerem o lado escabroso da história da pe­dofilia, algum do jornalismo em Portugal agrediu profun­damente o seu próprio prestígio dentro e fora do país. Se tomássemos por certo o trata­men­to que fizeram do assunto da pedofilia acreditaríamos, nós em Mo­çambique, que Portugal fosse um país de abusadores de crianças. Mas Portugal não é a Casa Pia. Nem Moçambique é um territó­rio de selvagens traficantes.

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Moçambique
PUBLICO
Domingo, 04 de Abril de 2004

Ana Cristina Pereira 

Carlos Lupanheque estica o braço, estende a mão, recebe uma catana da mão do ajudante. Um olhar rápido e abana a cabeça. O rapaz que lha passou não precisa de ouvir uma palavra. Agarra no instrumento cortante e vai afiá-lo atrás da palhota. O assunto é sério, mas
Lupanheque é todo sorrisos. Sorri para a câmara. Como se fosse um artista. Todo ele é teatralidade.

Lupanheque está junto à palhota-consultório, rodeada de cajueiros.
Fixa o olhar no homem que está à sua frente, como se estudasse cada filamento do seu rosto, com uma lâmina de barbear presa entre os dentes. De súbito, pega na lâmina e começa a desenhar pequenos cortes no corpo do velho e "minguado" Abudo. No peito, nas pernas, nos
braços. Impossível olhar para a lâmina de Lupanheque sem pensar na propagação da sida. Abudo aguenta-se, firme, nem sequer pestaneja.

Ao aperceber-se do espanto na cara dos "estrangeiros", o guia diverte-se: "Não tem perigo! É para vacinar". Quantas pessoas já foram "vacinadas" com essa lâmina? Risos. E vai "vacinar" com quê? A pergunta soa mal depois de se ter assistido a todo o ritual de preparação do "remédio": a galinha degolada, o círculo desenhado em volta, a cobertura cuidada, a recolha meticulosa. Quase transpira provocação. "Chiuuuuu".

Lupanheque pincela as incisões impressas na pele do doente, introduzindo-lhe uma mistela feita de terra e sangue de galinha fresco. E visto assim, quase nu, com manchas castanhas espalhadas pelo corpo ossudo, Abudo até parece um seropositivo em estado avançado de degradação. O guia, José Santos, não se acanha: "Quantas vacinas levou para vir para Moçambique?". E logo outra voz, até então calada à sombra de um cajueiro, se ergue "Operação também dói".

Neste lugar, não é só a magreza de Abudo que é vulgar. O "tratamento" que lhe está a ser cuidadosamente aplicado também. A "vacina" faz parte da medicina tradicional, que o Governo moçambicano recentemente aceitou integrar no sistema nacional de saúde. Na eventual crença de que os curandeiros, depois de um programa de sensibilização a que alguns foram sujeitos, respeitam as mais elementares regras de profilaxia.... E os curandeiros viviam sossegados, até se ter começado a conotar a extracção e tráfico de órgãos humanos com os seus usos e costumes...

Carlos Lupanhede é um dos curandeiros mais solicitados de Nampula, mora em Carrupé, no meio do mato. Chegou ontem de uma demorada viagem a uma localidade vizinha, onde esteve a fazer "um trabalho" como este, que visa tirar "o mal" a Abudo. Um trabalho demorado, nada comparável ao "despacho" típico dos médicos modernos que exercem nos aflitos hospitais nacionais. A vacina é apenas o retoque final de uma consulta que começara cerca de duas horas antes.

Abudo sentia "umas dores nas costelas, fez análises no hospital, incluindo raio-x, mas não acusou nada, quis ver o que dizia a tradição". Os médicos modernos receitaram-lhe uns comprimidos "para dar acalmação", mas o velho não se deu por convencido. Andava a remoer, a remoer, nos saberes antigos com que cresceu e chegou quase aos 70 anos. Uma idade de ouro num país onde a esperança média de vida ronda os 47.

"O adivinho acabou de dizer que ele é um dirigente da religião muçulmana, está a me compreender?", adianta-se o neto, Manuel Seca. Alguém que lhe inveja o posto? "É. Luta de cadeiras, mesmo". E então? "Tem que trogar", replica, no seu entoado português dos macuas. Trogar é drogar e drogar é uma das partes mais dolorosas de todo o processo de cura a que se submete um paciente. Abudo terá de inalar uma infusão - de ervas e raízes - preparada na hora. Assim, atarracado de panos e cobertores, entrará no delírio que lhe permitirá confirmar que foi o tal rival que lhe fez mal e vencê-lo.

Não é "a primeira, nem a segunda nem a terceira vez" que Abudo se socorre de um "médico" destes. Nem o neto. Seca recorda-se bem de ter ficado "com a mioleira numa trapalhada" durante a longa guerra civil. "Estive três meses no hospital, tinha muita dor na cabeça,
saí, fui ao curandeiro e curei". Não era depressão pós-traumática.
Era "mau olhado mesmo".

O curandeiro, o adivinho e o feiticeiro ocupam um lugar de primeiro plano na sociedade moçambicana, onde amiúde as trivialidades da vida assumem contornos de sobrenatural. O mal é quase sempre - se não sempre - provocado. Se os mambas (selecção nacional de futebol) perdem contra a Guiné-Conakry há logo quem diga que "tem agulha" enterrada no relvado. Se um homem rico e gorducho vive entre a população faminta, corre sérios riscos de ser tomado por "chupa-sangue". Se uma pessoa adoece, se a fome aperta, o emprego foge, se o amor dói, então pode muito bem acontecer "ter maus espíritos".

Nenhuma da medicina parece ser capaz de saciar a fome que se tem de certeza quando se vive encurralado entre a tradição e a modernidade.
Em Moçambique, a relação curandeiros/médicos é de 80 mil para 1070. Circular entre as casotas dos bairros periféricos de Nampula é esbarrar com todo o tipo de curandeiros. Diz-se que é no Norte que moram "os melhores".

Consultar um médico tradicional é um acto corriqueiro. E Moçambique não é excepção: a Organização Mundial de Saúde diz que 80 a 90 por cento da população dos países em

desenvolvimento utiliza a medicina tradicional. À casa de Tchu-Tchu, quase cego, quase surdo, chegam até "políticos de Maputo". Deputados? "E ministros também", afirma o

curandeiro, de quem os vizinhos têm medo. Diz-se, à boca pequena, que "é dos maus". Quem o vê encolhido numa cadeira de madeira manchada pelo uso, não adivinha, mas é um autêntico mestre ao serviço da justiça social. "Não falha".

Há curandeiros que são só curandeiros, como Paulina Tamele, que estudou o segredo das plantas e cura com elas. E adivinhos que são só adivinhos. Lupanheque é as duas coisas, como Tchu-Tchu e muitos outros médicos tradicionais. E um "médico" assim não se faz com uns
anos de universidade. Lupanheque teve tuberculose, doença causada pelos espíritos bons, começou a sonhar com receitas medicinais e aprendeu a curar. "Não aprendi, vi directamente com os espíritos", corrige, em tom grave. E não é Lupanheque que cura, são eles, os
espíritos.

Um adivinho é um porta-voz de dois mundos, um ponto de ligação entre os vivos e os mortos. Uma espécie de embaixador dos mortais junto dos seus antepassados-deuses e outros espíritos divinizados. É ele que neutraliza os dois grandes planos da existência: o espiritual e o
físico. Quando lhe chega alguém à porta consulta os espíritos. "Se não cura, volta para trás".

Para curar Abudo, Lupanheque tem de "chamar o remédio". No meio de um campo de milho, a uns metros da palhota-consultório, pousa uma tigela de fabrico artesanal com um "preparado" de raízes e plantas. Há diversas pessoas em volta - uma consulta de medicina tradicional é,
por natureza, algo que se faz "acompanhado" de familiares.

Lupanheque osculta o doente com um corno, que tem uns pêlos que lhe foram atados com um pano sujo. Abudo lava a cara. O momento é solene. Só se ouve respirar. Ao lado da tigela, o curandeiro coloca três cornos; por cima, uma espécie de cesta; no fim, faz cair um pó
branco. "Tem que chamar". O espírito que irá curar Abudo está em Pemba, onde moram os antepassados do adivinho/curandeiro. "Há uma grande distância de uma província a outra, está a me compreender?".

A esposa-ajudante de Lupanheque termina de "pilar" outro preparado e o velho Abudo entra para o "bafo", envolto em mais cobertores do que os que consegue suportar, com uma panela sobre o lume aceso entre as pernas. O calor, na palhota despojada, é intenso. A penumbra só é quebrada pelas velas dispostas junto ao vulto de Abudo.

O momento é de grande tensão. Lupanheque, com uma bata branca vestida por cima dos calções e da camisola cavada, um corno na algibeira, está visivelmente satisfeito. "Uma hora, tem que 'trogar' uma hora!".
Os familiares de Abudo agitam-se, na suspeita de que não aguentará tanto. "Está muito minguado". E ele geme, transpira, alucina, reza, volta a gemer, a alucinar. "Alá! Alá! Alá!" Lupanheque nada estranha.
É capaz de fazer a ponte entre o tangível e o intangível, Abudo há de ficar bom.

"Aquilo não falha", garante Seca. Jura-se ser esta uma imagem de cumplicidade entre os homens, a natureza e as entidades divinas. E admite-se que o velho sucumba. A "sofrência" de Abudo é imensa, vê-se - e cheira-se - banhado em suor. O curandeiro reduz o tempo
de "bafo".

Depois de ir ao "banho para tirar o azar do corpo" e de ser "vacinado", Abudo ainda vê uma catana afiada aproximar-se do seu peito. Nem um sinal de susto. A lâmina de barbear fez-lhe escorrer sangue de uma perna, a catana deixa-lhe só duas grandes marcas em forma de x. "É o fim, é o fim, é o fim". Uf! Abudo pode relaxar. "Me trabalhava muito a cabeça". Agora, talvez pelo efeito da droga, todo ele é "acalmação".

Há tratamentos que duram diversos dias ou semanas. "Não tenho casa para internados. Tenho essa perspectiva", anuncia o curandeiro. Os doentes que vêm de outras províncias amanham-se, conforme podem, no chão da sua casa. Nada de anormal.

Lupanheque exibe a palhota-consultório, muito escura, com chão de terra, onde se conseguem ver alguns chocalhos, ervas, raízes. Ali, há uma única peça que podia estar num consultório de um médico moderno: uma pasta preta, com papéis dentro. "Há 27 anos que faço isto",
sorri, vitorioso, Lupanheque.

A galinha, morta para o ritual de protecção, continua jogada a um canto. Vai-se espreitar a tigela que ficou no campo de milho. "Apareceu!" O que é? "Uma 'troga' amarrada". Abudo respira de alívio. "Isto estava enterrado no chão, lá no cemitério, em Pemba,
veio de lá".

"Quem cura, mata". Esta é uma máxima de qualquer curandeiro moçambicano como Lupanhaque. Tirou o "mal", mas também o pode fazer. Abudo parece ter "esfriado" o desejo de vingança, mas se mudar de ideias, quiser fizer uma encomenda de mau olhado, Lupanhaque
aceitará.

Raimundo Omia, curandeiro desde "1950 até hoje", sentado na berma da estrada, levantara-se, dera uns passos largos, voltara a sentar-se, antes de explicar a dualidade. "Um curandeiro pode fazer trabalho para você morrer ali mesmo na estrada, você está a andar e cai". Já
matou alguém? "Se pede para matar alguém, eu pergunto: para viver quantos dias?, quantas horas?" Não fala em pegar numa faca ou numa pistola. Fala em magia negra. Diz que nem é preciso saber o nome da pessoa em causa. E este é um curandeiro especializado em dar
sorte...

A velha Luisinha Luigo foi assassinada há umas semanas. Detido pelas autoridades, um jovem terá confessado o crime. "A nossa mãe era feiticeira e merecia morrer, porque ela matou muita gente". Levou a mãe para fazer um tratamento num curandeiro nos arredores da cidade
de Tete, matou-a no caminho de regresso com uma pedra com cerca de
dois quilos. Omia conhece a história. Qual é a diferença entre um feiticeiro e um curandeiro? "O feiticeiro só serve o mal, o curandeiro pode servir o bem e o mal". Ambos capazes de comer órgãos humanos? "Isso que estão falando lá... isso é costume muito antigo
que pode meter adivinho, curandeiro e feiticeiro". Conhece alguém que faça? "Não".

Nas esburacadas ruas de Nampula, ainda há quem se lembre bem dos Naparama ( que significa "força invencível" em macua). Os guerreiros tradicionais conseguiram exorcizar o medo, cortando línguas e pénis e praticando uma espécie de canibalismo simbólico. No final da década de 80, Moçambique viveu uma espécie de "guerra santa". Tanto a Renamo, como a Frelimo possuíam partidários da magia negra nas suas fileiras. Guerreiros da Renamo usavam curandeiros para "preparar o corpo". E a Frelimo chegou a condenar idosas à morte por "lançarem feitiços". E agora? O que se passa?

Lupanheque é um exibicionista, mas não se embrenha em conversas quando o tema são os corpos mutilados que têm sido encontrados em Nampula. Só usa "raízes e plantas" nos tratamentos. De animais só o sangue de galinha. Acredita no seu poder sobrenatural. Acha que traz sorte.

Os casos que têm surgido em diversas partes do país - sobretudo de extracção de genitais - não são um exclusivo de Moçambique. A tradição vigora na Suazilândia, no Malawi, na África do Sul, na Tanzânia. Omia lembra que há cada vez mais curandeiros estrangeiros a
fixar-se em Moçambique.

O tanzaniano Sulleiman Moto afiança, através de uma intérprete com um bebé amarrado ao corpo, que só usa medicamentos à base de cascas de árvores e de raízes. Moto, tal como os outros curandeiros consultados pelo PÚBLICO, alega desconhecer casos concretos de uso de órgãos humanos. Que outra coisa seria de esperar? "Quem cura, mata", dizem os curandeiros, um a um. Mata como?

"Curo todas as doenças, menos sida", gaba-se Lupanheque. E então porque não? "Os ancestrais ainda não explicaram como é que isso se faz". Porquê? "Ainda não chegou a vez". E as outras doenças sexualmente transmissíveis? "Não tem problema". Boa notícia num país que convive bem com a poligamia. Risos. Lupanheque só tem uma esposa, 12 filhos.

A imprensa nacional traz algumas promessas de vida. Curandeiros, como Kenneti Mudini, apregoam-se capazes de curar a doença maldita que já afecta mais de um milhão de moçambicanos e provocou mais de 400 mil órfãos.

"Acaba de chegar o amigo de todos, o Dr. Said Mutocha, com a solução de todos os problemas da sua vida", anuncia-se nas páginas de um semanário. Diz-se capaz de tratar "tuberculose, hermadite, vómitos, doenças dos rins, bilharziose, anemias, impotência sexual, doenças
mentais, esterilidade feminina, doenças cardíacas, malária" e outras tantas patologias, inclusive "maus espíritos". E, no fim de tudo, sugere: "Os doentes de sida tenham calma, ainda há esperança de vida nas mãos do dr. Mutocha".

Lupanheque é um curandeiro de aldeia, com pano branco na palhota e tudo. Curandeiros tradicionais como ele nem sequer discutem preços. Se a sua arte não fosse sobrevivência nem aceitaria uma oferta. Curar é, para si, um bem que tem de partilhar. "Ficaria doente" se usasse tabela. Nas cidades, a conversa é outra, o comércio instala-se.

Em Moala Expansão, bairro periférico de Nampula, há um curandeiro com um cartaz elucidativo que o tempo quase apagou. "Leia devagar e procure o número da sua doença: 1 para ter emprego 50 contos; 2 sonhar um espírito alto 50 contos; 3 tratamento para que tenha sorte 30 contos.". Tem também tratamento para a "mulher gostar do marido", tratamento para "fazer bom negócio", tratamento "para um casal que nasce" (leia-se infértil), para "os homens que não casam".... Tudo com o preço à frente (um euro são cerca de 30 contos ou 30 mil meticais).

Perto daquele, Bismillah Rahaman Rahim: "Avisa-se que existe um curandeiro vindo de Dar-es-Salam Tanzânia. Cura as tais doenças: Gonorreia, embico, coluna, inchaço de pernas, diapede, espíritos maus. Matar mochos, preparar machambas, moagens e obtenção de ouro etc. NB. Não curamos sida. Só temos para tirar as dores. $ Bem vindo".

O cifrão, antes do "Bem Vindo" não é um pormenor irrelevante. Na Rua dos Sem Medo, onde outrora moravam os portugueses, outro tanzaniano quer dinheiro até para deixar fotografar o cartaz. Sulleiman Mota trata de doença, arranja bons empregos, cura males de amor e torna as
pessoas mais ricas.

Em 1991, a ONU iniciou um programa junto dos médicos tradicionais, com o objectivo de travar a propagação do HIV. Aquando da avaliação, três anos depois, permanecia a confusão sobre uma suposta cura.

Há curandeiros que dizem curar a sida com o uso de amuletos e de tatuagens. Mau mesmo são os que propagam o mito nascido na África do Sul - segundo o qual ter relações sexuais com uma virgem mata o vírus. O mito faz estragos dentro e fora de Moçambique. Não só impulsiona o abuso sexual de crianças (84 por cento das meninas de rua de Maputo são prostitutas), mas também aumenta os fluxos de tráfico de menores para a vizinha África do Sul, têm alertado
diversas organizações.

Como os médicos tradicionais cumprem um papel importante no apoio e aconselhamento familiar, o programa usou-os para promover o uso do preservativo e combater o sexo fora do casamento. Os "médicos" que curam dizem-se capazes de "matar". Como podem, com os seus meios, fazer o diagnóstico de HIV? Como pode um médico tradicional - defensor acérrimo da fertilidade do clã - aconselhar uma seropositiva que quer ter um filho? E como pode um médico tradicional abandonar um doente que se tornou dependente dos seus cuidados e apoios?
 
Há uns dias, em entrevista ao jornal Savana, a directora do Departamento de Medicina Tradicional do Ministério da Saúde, Adelaide Bela Agostinho, revelou não ter bases "para afirmar que a medicina tradicional não cura a sida". Defendeu que falta estudar os métodos
usados por eles. E desculpou-lhes o uso de lâminas em mais de um paciente.

 

Lemonde.fr

 

Rumeurs dans les médias autour d'un trafic d'organes au Mozambique

LE MONDE | 06.04.04 | 14h33

Les témoignages de deux religieuses ont été relayés dans plusieurs pays

Maputo correspondance

Mercredi 31 mars, une session du Parlement européen a été consacrée à la lutte contre les trafics d'organes internationaux. A l'origine de ce débat, les inquiétudes manifestées par deux eurodéputés portugais sur un présumé trafic d'organes international dans la province de Nampula, au nord du Mozambique. S'appuyant sur des dénonciations parues dans certains médias, José Ribeiro e Castro (Parti populaire) et Carlos Lage (Parti socialiste) pressaient depuis des mois le Parlement européen de débattre de "ce commerce cruel et brutal d'organes humains qui se pratique au nord du Mozambique".

La préoccupation des deux députés, représentants du Portugal, ancienne puissance coloniale du Mozambique, et de la Commission européenne, qui a assuré à l'issue des discussions qu'elle continuait de suivre de près cette question, peut sembler légitime. Seul problème dans le cas de Nampula : l'existence d'un tel trafic à destination des pays riches n'a encore jamais été prouvée. Les effets sont dévastateurs pour l'image du pays, très dépendant de l'aide extérieure.

A l'origine de cette affaire, l'envoi en décembre 2003 par une religieuse brésilienne, Maria Elilda dos Santos, résidant à Nampula, d'une cassette vidéo à l'émission "Fantastico" du groupe de télévision brésilien Globo. Se bornant à montrer des sépultures, la religieuse dénonce l'existence d'un trafic d'organes international. Relayées par une partie de la presse brésilienne et portugaise, ces dénonciations se répandent à l'étranger.

Interrogées sur place ou par téléphone, Maria Elilda dos Santos et Sœur Juliana, religieuse espagnole habitant dans le même couvent, ne cessent alors de dénoncer pêle-mêle, mais sans jamais apporter de preuve sérieuse, des disparitions, des ventes d'enfants ou la découverte de corps sans organes sur la voie publique. Un couple d'éleveurs, Gary O'Connor, zimbabwéen, et Tanja Skytte, danoise, est accusé par les religieuses d'être à la tête des trafiquants.

Depuis juillet 2003, trois commissions d'enquête se sont succédé sur le terrain. Sans exclure la possibilité de l'existence de trafics d'enfants à des fins de sorcellerie ou de prostitution, le parquet général de la République a conclu en février à l'absence de preuves sur un trafic d'organes opérant à partir de Nampula. En revanche, un conflit foncier entre le couple d'étrangers et la population, pour laquelle les religieuses ont pris fait et cause, a été démontré par l'enquête. Et les incohérences des accusations des "sœurs courage", auréolées de leur appartenance à l'Eglise catholique, sont rarement relevées.

Cette absence de preuves n'empêche pas une partie de la presse internationale de continuer à couvrir l'affaire. M. O'Connor et son épouse sont consternés par l'ampleur prise par cette "histoire incroyable, qui utilise l'ignorance de la population". Depuis plusieurs semaines, le couple reçoit des journalistes venus d'Europe. Mais il est amer sur la façon dont son histoire a été relatée par certains médias. "La Radio Télévision portugaise -RTP- est venue nous interviewer pendant plus de deux heures, aucune image n'est jamais passée à l'antenne", déplore Mme Skytte. A Maputo, le représentant de RTP, auteur d'une quinzaine de reportages sur le sujet, se justifie en exprimant son désir de ne pas voir les enquêtes sur d'éventuelles disparitions d'enfants être abandonnées.

Plus graves sont les conséquences d'un reportage paru le 3 mars dans le quotidien de Bologne, Il Resto del Carlino, repris dans France Soir, qui appartient au même groupe, Poligrafici Editoriale. A la suite de la parution de l'article qui se contente de reproduire les déclarations des religieuses, le ministre des affaires étrangères italien, Franco Frattini, a annoncé une suspension temporaire des soutiens financiers au Mozambique, qui est depuis des années le premier bénéficiaire de l'aide italienne.

Jordane Bertrand

 ARTICLE PARU DANS L'EDITION DU 07.04.04

 

A série de artigos que o jornal PUBLICO tem publicado sobre Moçambique e o tráfico de órgãos tem causado algumas reacções em Moçambique. Aqui está uma, publicada no oficioso diário de Maputo, NOTICIAS, por alguém envolvido na gestão do Corredor de Nacala (e por sinal também irmão do escritor Mia Couto). __________________________________________________________________

Miopias perigosas

NOTICIAS

Sexta-feira, 2 de Abril de 2004

Fernando Couto

A província e cidade de Nampula tornaram-se internacionalmente conhecidas pelas razões que são do conhecimento público e que afectam a imagem do país não cabe esta matéria neste artigo, ate porque o mesmo está a ser investigado por quem direito e nada mais prejudicial
para as investigações judiciais e policiais que a mediatização desses mesmos processos.
Deambulando recentemente por terras de Nampula, fica-se surpreso quando se continua a encontrar jornalistas e repórteres fotográficos, sobretudo pertencentes a órgãos de informação portugueses, facilmente reconhecidos por envergarem os típicos coletes (não à prova de bala) mas com muitos bolsos e sem mangas e pelo número de câmaras e objectivas fotográficas para registarem aquela imagem que um dia os tornará famosos. Numa azáfama incontida percorrem os locais recônditos em estilo de detective sherlokiano, em busca não do tempo perdido, mas de pistas, de testemunhos, de provas, provas nunca até agora

identificadas. E como não há jornalismo gratuito enviam prosas para os jornais aos quais pertencem, ou que os contrataram para o efeito.

Nesta azáfama de descobrir traficantes de órgãos e crianças, o jornal português "Púb1ico" , tido como um órgão da informação escrita de referência, na sua edição do dia 27 do Marco do ano corrente, publica um extenso artigo com o título "A miséria empurra as crianças de
Nacala para as mãos dos traficantes". Nessa peça jornalística dá-nos conta que "Junto à praia Caetano Veloso, há vendedores e compradores a "sombrarem". Pese o estilo já

moçambicanês de inventar palavras e embora exista em Moçambique quem goste das músicas do cantor brasileiro Caetano Veloso a jornalista deu um real pontapé na história do seu próprio país. A praia de Nacala chama-se simplesmente de "Fernão Veloso". Um pequeno engano. Mas que mancha a credibilidade do jornalismo de investigação feito por profissionais.

Não se fica por aí as omissões e imprecisões. Afirma-se por exemplo que "O porto de Nacala é um dos mais importantes da Africa Oriental - tanto que os americanos tomaram recentemente conta dele". De forma certa e segura, o porto de Nacala continua a ser operado pela empresa
pública CFM. Decorrem negociações para a concessão do corredor, mas também por certo e seguro, no actual quadro negocial a operação daquele porto de águas profundas não vai ser feita por empresas norte-americanas, mas por interesses empresariais moçambicanos. O seu a seu dono.
Dão-se conta que trinta crianças esperam um navio para serem traficadas com destino a Portugal Sucede que vão longe os tempos em que navios portugueses escalavam o porto de Nacala. Ou mesmo que existam navios actualmente, de qualquer bandeira, que rumem
directamente para portos portugueses. Como entrariam essas pobres crianças traficadas a bordo dos navios? Quem são os comandantes que arrecadariam com essa responsabilidade? Passageiros clandestinos? Escravos? A que ponto chega essa malha de traficantes de menores?
Mistérios da natureza, que a jornalista não explica, limitando-se pela acusação, citando relatos verbais. Credibilidade zero, que provocam danos colaterais ao país.
Afirma-se ainda que os pescadores das baias de Nacala "Não falam em barcos suspeitos, apontam a linha férrea, o sentido de Maputo". Um pequeno erro geográfico. A linha férrea que parte de Nacala não caminha transversalmente mas encaminha-se sim, para o Malawi e para
Lichinga. Por certo e de certo é que será muito difícil fazer circular passageiros, mesmo raptados ou furtados, de Nacala para Maputo por comboio. Impossibilidade técnica.
E vem-nos à mente um outro artigo publicado há alguns meses no mesmo jornal em que se afirmava que a segunda causa de morte em Moçambique era produzida pela queda de cocos. Valha-nos Deus que nunca chegamos a esse ponto e infelizmente as causas da mortalidade são mais sérias.

Surpreendente é também a afirmação do bispo de Nacala transcrita no mesmo jornal, na mesma edição. D. Germano Grachan com direito a fotografia respondendo a uma pergunta de o que vaie então uma vida? " diz: "Aqui, a vida é um farrapo. Mata-se uma pessoa como se mata uma galinha". A ser verdade e sem prejuízo do segredo da confissão, o ilustre prelado que faz tão grave acusação deve no mínimo prová-la. Qual a taxa do mortalidade em Nacala? Da população quantos homicidas existem? Sinceramente, como frequentador assíduo daquela bela zona do país nunca ouvi tais apreensões ou constatações.
Nem nunca deparei com corpos estendidos nas ruas, vielas da cidade de Nacala. E, como frequentador assíduo, começo até a ficar com receio de tanta maldade escondida.
Existem sim problemas sérios de pobreza. Existe sim um contraste humilhante entre sinais exteriores de riqueza e as condições em que muita gente vive. Tenhamos que ser realistas e sobretudo não dar uma imagem do país, como se fôssemos todos bandos de criminosos, em que
se matam pessoas por qualquer razão e motivo.
O que espanta é a cruzada jornalística feita sobre urna questão séria e que merece toda a profundidade de investigação, que merece ser feita justiça, venha desencadeada por órgãos de informação estrangeira que têm, no seu próprio país, muito para investigar, desde os casos de pedofilia, ate as manchetes da imprensa internacional sobre a prostituição em cidades do interior. Estas percepções que em Moçambique se mata, se esfola, se trafica, transmitem uma percepção de insegurança, de um estado caótico, lembrando cidades do "far west", sem

"sheriffes", nem lei, nem ordem.
Não é o caso. São falsas percepções.

Felizmente existem outras situações positivas na província de Nampula. Como a estrada dos milagres que liga a capital provincial a Nacala. Lentamente a construção desenvolve-se tornando aquele caminho de estrada penosa num trajecto fácil. Empreitada que ultrapassa os
calendários do admissível. Com um ritmo e a urna metodologia de construção, que para nós comuns dos mortais, não construtores de estradas, não conseguimos compreender. Os troços ainda em reabilitação, provavelmente para quebrar a monotonia do condutor e testar a resistência dos carros, alternam entre solos de areia, a solos repletos de pedra solta, saltando e partindo os vidro do para brisas e criando uma pesada nuvem de poeira que nos tira por completo a visibilidade e nos enche os pulmões, sobretudo quando as viaturas
do próprio empreiteiro andam a velocidades de mais de 100 à hora, sendo os primeiros a desrespeitar os sinais de precaução.
Inesperadamente aparecem bocados de estrada asfaltada, com troços em terraplanagem. O imprevisto para o incauto condutor é meticulosamente previsto pelos construtores da estrada. O que nos dá uma sensação de sermos pilotos da prova de "ralis" do Paris-Dakar, pelo menos pelo tempo em que a construção se arrasta, ate à sua conclusão.

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EXPRESSO – 07.04.2004

Atitude inédita da Comissão de Justiça e Paz
Religiosos com os olhos em Nampula

 

As congregações religiosas portuguesas exigem que o Governo português exerça «pressão internacional» para que as denúncias feitas por missionários de Nampula sobre o desaparecimento de crianças e o tráfico de órgãos naquela cidade moçambicana não fiquem por esclarecer.

 

Esta é a primeira vez que a Comissão de Justiça e Paz dos religiosos (freiras e padres) interpelam o Executivo de Durão Barroso para actuar diplomaticamente sobre uma questão internacional de Direitos Humanos.

 

Num comunicado agora divulgado - ao qual o EXPRESSO Online teve acesso - aquela Comissão garante possuir ter informações de que em Nampula «têm desaparecido crianças, jovens, adolescentes e também adultos». Recorde-se que na sexta-feira os missionários de Moçambique revelaram a descoberta de um outro cadáver de uma mulher, com marcas de agressão.

 

«Foram encontrados vários corpos mutilados e enterrados sem qualquer processo de identificação», assegura a Comissão de Justiça e Paz dos religiosos portugueses, sublinhando que, apesar de caber «às autoridades moçambicanas apresentar, nas devidas instâncias, provas para factos cuja verificação é inegável», Portugal não se pode eximir de pressionar internacionalmente, a exemplo do que já fez a Comissão Europeia, «para que a verdade não seja ocultada e a justiça seja realizada».

Mário Robalo

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Uma Escrava Sexual Compra-se por 128 Euros
PUBLICO
Por ANA CRISTINA PEREIRA, em Maputo
Segunda-feira, 05 de Abril de 2004

Há dezenas de pessoas com banca montada ao longo do último quilómetro de asfalto. Negoceiam missangas, capulanas, fritos, frutos, doces, refrescos, num pachorrento e suado regatear. Deste lado da fronteira é Moçambique e tudo é míngua: emprego, salário, esperança. Do outro
lado fica a África do Sul e de lá chegam promessas de farturas várias. Ao longo da fronteira comum, compra-se uma moçambicana por mil rands (128 euros) ou até menos.
O vozear dos vendedores perde-se entre o roncar das viaturas pesadas e ligeiras que passam a fronteira Ressano Garcia, a 120 quilómetros de Maputo. Há gente deitada na berma em amarelo bocejo. Aissa, 28 anos, três filhos, é moçambicana, mas só vende "cold drinks" - "made
in South Africa". "Ando aqui a improvisar", diz ela. Para atravessar a fronteira sem visto e sem passaporte "é só falar com aquele rapaz lá, esse que está a vender manga".

Nem é preciso abordar o vendedor apontado. A menos de meia dúzia de metros da fronteira, parte, mato adentro, um caminho de terra batida desenhado pelo muito uso. Os guardas nem se mexem e um rapaz, todo gaiteiro, dita os preços ali mesmo: são 150 rands (19 euros) para
atravessar a fronteira de carro: 50 para a guarda moçambicana fechar os olhos e 100 para a sul-africana fazer o mesmo.

O esguio e citadino Maurício está a exagerar. No mercado de cores garridas e cheiros

intensos, dois grupos de rapazes competem pelo esvaziar dos bolsos alheios. Subornar um guarda fronteiriço moçambicano custa entre 50 mil e 200 mil meticais (entre 1,6 e 6,6
euros). Do outro lado, Komatiport, pode-se passar desembolsando um mínimo de 50 rands (6,4 euros).

Há um buraco feito no arame farpado por onde se pode passar por menos dinheiro: 100 rands (12 euros). "Ali é mato, a vossa raça complica muito, melhor passar na fronteira mesmo", avisa Artur, que entretanto se junta. Mas como é que se faz para passar pelo buraco? "Há um
guarda à espera, eu chamo, ele leva até ao outro lado".

A barreira de arame farpado estica-se ao longo de cerca de cem quilómetros. O buraco indicado pelos rapazes fica entre a fronteira viária e a fronteira ferroviária, a uns 500 metros. Mas "lá longe" há outras aberturas, usadas por quem não pode pagar o suborno. À direita está o Kruger Park, uma das maiores reservas naturais da África do Sul, com zebras, gazelas, girafas, mas também búfalos, leões e elefantes. De quando em quando, os jornais noticiam a morte de imigrantes clandestinos por acção de animais selvagens. A esquerda
pode anular esse risco, mas traz outros: abundam histórias de moçambicanos que caem nas mãos dos latifundiários "boer" e são obrigados a trabalhar de graça.

Pelo último relatório Jean-Pierre, fornecido pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, sabe-se que o movimento de Ressano Garcia é contínuo. De 20 de Janeiro a 5 de Fevereiro, atravessaram a fronteira ilegalmente 1825 homens, 282 mulheres e 163 crianças.
Quantas terão ido à força?

Ainda o mês passado, graças à intervenção da "inteligência" sul-africana, quatro homens foram detidos com cinco menores de cinco anos que se preparavam para vender do outro lado. Maurício e os amigos não fazem perguntas. Se um homem leva, dentro do carro, uma criança, isso não lhes diz respeito. Nem a eles, nem aos guardas fronteiriços. E o facto é que a maior parte passa de livre vontade.

Logo cedo, na estação de Maputo, o PÚBLICO encontrara José, a aguarda o comboio das 7h30 para a fronteira de Ressano Garcia. Hoje, como na véspera e na antevéspera, o comboio não partiu. Houve uma avaria. Mais uma. Mas José voltará amanhã. Se for preciso, voltará depois de amanhã ou até depois e depois. Até haver transporte. Tem 14 anos, calças largas e esfoladas. Queria ir "para lá mesmo". Como é que pode atravessar? "Assim mesmo". Para quê? "Tentar esses aforas".

O contacto de José é para a fronteira ferroviária, mas a maior parte das pessoas que, como ele, tenta a sorte do outro lado da fronteira, chega em carrinhas-táxi. Os "voluntários", angariados com promessas de emprego, de estudo ou casamento, pagam cerca de 500 rands (64
euros) para as despesas do tráfico para a África do Sul. E alguns encontram destino igual aos raptados - igual ao de Noela, de 12 anos, que, o ano passado, foi resgatada "ao dono" pela polícia e entregue aos pais.

Tráfico para África do Sul aumenta

O tráfico humano para a África do Sul tem aumentado, diz o relatório da Organização Internacional das Migrações (OIM). Meninos como José engrossam as fileiras da exploração infantil. Mas o maior parte das vítimas que passam por Ressano Garcia, são mulheres e crianças, como Noela, cuja história foi revelada durante a Cimeira da União
Africana.

As meninas "ficam, por uma noite, em casas de trânsito ao longo da fronteira comum", onde são agredidas e "iniciadas no trabalho de sexo que as aguarda", especifica o documento, que cifra em cerca de mil o número de moçambicanas traficadas para a África do Sul todos os anos.

Os preços variam de acordo com o destino: hotéis, bordéis, rua, casas particulares. Algumas são vendidas a casas de prostituição no centro de Joanesburgo por mil rands (128 euros). Outras são comercializadas como escravas sexuais ou como esposas entre os mineiros do Rand
Ocidental, periferia de Joanesburgo, por 850 rands (108 euros), sustenta ainda o documento. Amissa tinha 13 anos quando foi aliciada com uma proposta de trabalho e vendida na fronteira por 550 rands (77,5 euros) a um mineiro com quem casou.

Indocumentadas, sem falar a língua, as mulheres e as crianças sofrem diversos tipos de pressões. Até as crenças ancestrais entram no jogo dos seus "donos". "Uma mulher pedirá cuecas, cabelo e unhas, ameaçando as vítimas de morte por magia se não cooperarem", refere o
relatório da OIM.

O Governo moçambicano escuda-se na miséria para rejeitar a existência de tráfico e falar em pessoas que procuram "alternativas" de vida. Enquanto isso, o famoso mito sul-africano (ter sexo com uma virgem cura a sida) e alguns restos de mentalidade esclavagista fazem
desaparecer crianças em Moçambique e noutros países da África Austral.

O Procurador Geral da República não dá mais entrevistas. A secretária diz que Joaquim Madeira está cansado da imprensa estrangeira e aconselha o PÚBLICO a tratar dos problemas de Portugal.

Bem perto da Procuradoria, vizinha do Ministério do Interior, os meninos de rua oferecem-se para guardar carros, para "acompanhar", vendem miudezas. Circulam por toda a cidade. Fixam-se junto aos semáforos, junto às praias. Oitenta e quatro por cento das meninas prostitui-se. Muitos trabalham para os seus "donos" - as pessoas que os trouxeram do campo para a cidade. 

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"Temos Uma Tradição Migratória Que Inclui Tráfico de Pessoas"
Por POR ANA CRISTINA PEREIRA (TEXTO) E FERNANDO VELUDO (FOTO)
Domingo, 11 de Abril de 2004

A Campanha Regional Contra o Abuso de menores na África Austral foi lançada em Maputo, em Junho de 2002. Tem como parceiros Moçambique, África do Sul, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe e planos para se estender a Angola e à Suazilândia.

Entende-se que a pobreza e a ruptura do tecido social que feriu estes países são fenómenos comuns que tornam os menores vulneráveis ao tráfico. O esquema de aliciamento é quase sempre o mesmo: algum dinheiro para os pais e promessa de trabalho ou estudo para os filhos.

Segundo a Organização Internacional das Migrações, o tráfico de pessoas para a África do Sul é um dos negócios mais rentáveis do mundo e envolve uma rede com ramificações em Macau e em Hong Kong. A campanha engaja ONGs dos vários países e é coordenada pela Fundação Para o Desenvolvimento da Comunidade. Margarida Guitunga é a responsável por esta área naquela instituição, liderada por Graça Machel.

PÚBLICO: Há ou não tráfico de pessoas em Moçambique?

Margarida Guitunga: Na versão oficial parece que não há nada, mas não passam duas semanas que não se veja, pelo menos, um relato de abuso sexual ou desaparecimento de crianças nos jornais. Neste momento, uma brigada do Ministério do Interior está na Suazilândia na pista de uma menor que desapareceu no Xai-Xai, província de Gaza. Criou-se uma equipa multisectorial que está a ser coordenada pelo Sindicato Nacional de Jornalistas e será lançado um relatório sobre tráfico de menores em Moçambique no início de Abril, esperamos que tenha informações substanciais.

P. - Pobreza extrema, orfandade, desemprego, direito costumeiro, falta de serviços de segurança efectiva...

R. - É fácil aliciar com uma vida melhor. As vítimas são, quase sempre, trazidas das zonas rurais para estudar, trabalhar ou serem alimentadas. O maior motivo do tráfico em Moçambique é, como em qualquer parte do mundo, a exploração laboral. Temos tido relatos de crianças que são aliciadas e que, quando chegam ao destino, não encontram as condições que lhes tinham sido prometidas. Primeiro, porque nem chegam a receber dinheiro pelo trabalho. Segundo, porque antes mesmo de chegarem ao local são desprovidas de identidade para que fiquem totalmente anónimas e ilegais no país. Então são sujeitas a todo o tipo de chantagem. Não falam a língua, não têm dinheiro, não têm documentos, ficam totalmente vulneráveis. Sujeitam-se a exploração laboral, a escravatura sexual, a trabalhos de pornografia, a casamentos forçados. E também há tráfico de órgãos. As pessoas são raptadas e levadas para a África do Sul e um dos objectivos é esse.

P. - E Nampula?

R. - O caso de Nampula é complicado. Não estamos no terreno. Estamos na expectativa que haja uma investigação séria, profunda, que nos esclareça, no mínimo, sobre o paradeiro das 52 crianças dadas como desaparecidas.

P. - As pessoas vão à rádio, não à esquadra...

R. - Acho que isso tem a ver com o nível cultural. A rádio dá uma resposta imediata, a informação é partilhada, ao mesmo tempo, por milhares de pessoas. Isso encoraja. Quando um familiar precisa de comunicar com outro que está longe, quando alguém desaparece, quando há um falecimento, as pessoas vão às rádios. Também em Maputo. A rádio está muito presente na vida da comunidade. Ir à polícia, por que não? Se calhar tem a ver com o nível de resposta.

P. - Como avalia o desempenho da polícia?

R. - Quando tem pistas consegue resultados. Ainda recentemente, um homem fez desaparecer uma criança de 12 anos, aqui, perto de Maputo. Passado um tempo, regressou à zona. Quando a polícia seguiu até casa dele, encontrou outra. Essa criança, sul-africana, disse saber do paradeiro da moçambicana. Tinha sido vendida. E a polícia moçambicana, em colaboração com a polícia sul-africana, conseguiu recuperá-la na África do Sul e entregar a que estava aqui. Estas crianças traficadas existem. Sabemos que existem. Mas... a descoberta de redes não se faz de um momento para o outro.

P. - Há quem se apoie na ida voluntária para afastar a palavra "tráfico"...

R. - Quando uma criança vai pela primeira vez para a África do Sul, há sempre alguém que está por trás. E quem? Pessoas que já lá estiveram e voltaram ostentando algum luxo. Como a aparência é um atractivo, a criança nem sempre é traficada de forma compulsiva. Como é que atravessam? Em alguns casos, ilegalmente. A corrupção da polícia na fronteira, tanto de um lado como do outro, facilita o tráfico. No dia 28 de Janeiro, uma criança que não tinha dinheiro para pagar aos guardas [da fronteira de Ressano Garcia], foi violada.

P. - E atravessar a Ressano Garcia sem papéis é o mais fácil...

R. - Às quintas-feiras, de quinze em quinze dias, há um comboio que traz moçambicanos do interior da África do Sul para deportar na fronteira. Num desses dias, o padre Jean Pierre, que tem observadores no local, contabilizou 337 pessoas a atravessar a fronteira ilegalmente, a pé.

P. - O que quer dizer que muitos voltam a entrar?

R. - Alguns são de muito longe. Para eles é mais fácil voltar a tentar. O padre Jean Pierre está na zona fronteiriça desde a altura da guerra. Nós estamos a trabalhar com ele [no âmbito da Campanha Regional Contra o Abuso de Menores na África Austral]. Ele continua lá, porque hoje temos outro tipo de refugiados: da fome, do desemprego. E há pessoas de má-fé. Não temos aquele tráfico clássico - com os navios negreiros do tempo da escravatura. Temos uma tradição migratória que inclui tráfico de pessoas - através de carrinhas-táxi, de comboio. As pessoas estão habituadas, por isso, muita gente diz que não há nada. Mas tráfico não é apenas aquele que envolve redes e transporte de pessoas em massa.

P. - Há, pelo menos, uma casa de trânsito na fronteira comum...

R. - Existe uma casa de trânsito que funciona muito discretamente. Uma rapariga de 18 anos, vinda de Maputo, foi aliciada com promessas de casamento, mas foi posta em condições de escravatura. A 3 de Fevereiro, ela conseguiu fugir e reportar a uma assistente social.

P. - Como é que se altera essa realidade?

R. - Houve uma reunião entre as províncias fronteiriças de Pumalanga e Limpopo, do lado da África do Sul, e Maputo, do lado de Moçambique. Isso é bom, porque vão lançar uma campanha na zona para combater o fenómeno do tráfico - sobretudo de crianças. Chegou-se à conclusão que é mais importante a parceria entre as províncias fronteiriças do que com as de interior, como Cape Town, com quem temos trabalhado [e onde é bem visível a prostituição de rua de crianças moçambicanas, tal como em Joanesburgo].

P. - Onde são mantidas as pessoas enquanto esperam a deportação?

R. - Lindela é o campo de concentração onde os moçambicanos ilegais ficam detidos. É das piores coisas que se pode imaginar. Não sabemos o que eles fazem. Sabemos que muitos chegam aqui e... é para morrer. Só para morrer. Quando a polícia sul-africana apanha crianças... elas já estão na condição de criminosas, não são tratadas como vítimas...

 

 Palop > Moçambique

 

Suspeitas de tráfico ou feitiçaria dividem autoridades

Catorze pessoas detidas em Moçambique na posse de órgãos humanos

 

  

 

2004-04-30 15:07:37

Nacaroa - O jornal oficial moçambicano «Notícias» revela esta sexta-feira que as autoridades de Nampula detiveram na semana passada 14 pessoas na posse de vários órgãos humanos. O destino dos pedaços de corpos encontrados seria a feitiçaria e não o tráfico de órgãos.


Os suspeitos foram detidos na semana passada em Nacaroa, naquela zona do norte de Moçambique, de onde saíram as primeiras denúncias, por parte das religiosas Servas de Maria, de desaparecimento e possível tráfico de órgãos.

Na posse dos detidos estavam corações, braços, mãos e pernas humanos. O responsável provincial, Cassamo Mussagy, explicou que a descoberta foi feita durante um ritual de purificação organizado por um líder tradicional da região.

Os detidos «afirmam que os órgãos são de parentes seus já falecidos e que foram retirados graças a actos mágicos», precisou, por seu turno o procurador de Nampula, Daniel Magula.

No final do ano passado, as Servas de Maria denunciaram a prática de sequestros e tráfico de órgãos na província de Nampula, factos que chegaram ao procurador-geral da República. As investigações das autoridades moçambicanas chegaram apenas a uma conclusão, a de que os raptos e mutilações têm finalidades mágicas ou sobrenaturais e não estão relacionadas com tráfico de órgãos humanos.

Durante a guerra civil moçambicana foram relatados casos de curandeiros que faziam preparados com raízes, ervas e órgãos humanos. Segundo a antropologia africana, certos órgãos humanos são utilizados em rituais mágicos e de iniciação. Os órgãos sexuais servirão, com base nessas crenças, para aumentar a potência sexual.

No início deste mês, a Liga dos Direitos Humanos de Moçambique juntou-se às vozes que denunciam as mutilações e acusou os feiticeiros de serem responsáveis pelas mortes que estarão relacionadas com o tráfico de órgãos.

(c) PNN - agencianoticias.com

 

Tráfico de órgãos em Nampula - Polícia e Procuradoria com dados contraditórios
2004/05/03

 

O Procurador-Chefe provincial substituto em Nampula, Daniel Magula, acusa a PRM naquela parcela do país de estar a escamotear

 a verdade em relação ao caso dos 14 indivíduos que foram encontrados no distrito de Nacaroa na posse de órgãos.

Magula reitera tudo o que declarou á Imprensa semana passada e diz que o que viu naquele distrito são órgãos humanos, nomeadamente mão, coração e costelas.

`Não sei com que motivações o Comando Provincial da Polícia da República de Moçambique em Nampula aparece a querer encobrir a realidade dos factos constatados no terreno pela Procuradoria e pelo administrador de Nacaroa.

Os indiciados confessaram que se trata efectivamente de órgãos humanos, afirmou, algo perplexo, aquele magistrado, para quem as forças da lei e ordem tudo fazem para o seu descrédito no seio da sociedade, em relação a este caso.

O Comando da PRM em Nampula desmente que os órgãos encontrados na posse de pelo menos 14 pessoas no posto administrativo de Muchico, em Nacaroa, sejam humanos. Citando um relatório de peritagem médica, a corporação diz que os mesmos pertencem a uns seres vivos não identificados, mas não humanos.

Magula explicou ontem ao `Notícias´ que o processo dos 14 indivíduos indiciados de posse de órgãos humanos em Nacaroa está a ser dirigido inteiramente pelo Ministério Público em Nampula, porque a PRM alega sempre falta de meios para participar em diligências sobre este tipo de casos.

Cassamo Mussagy, administrador de Nacaroa, assegurou por seu turno ao Jornal que os órgãos encontrados eram humanos, conclusão, conclusão que também encontra suporte na alegada confissão dos indivíduos em cujas casas foram encontradas as panelas contendo os órgãos.

Entretanto a Polícia diz que as investigações prosseguem em Nacaroa, mas que as 14 pessoas estão a prestar declarações já em liberdade...

fonte: NOTÍCIAS

 

 

 

Maputo - Fracassada tentativa de venda de menor
2004/05/06

 

Cinquenta milhões de meticais é quanto ia custar o pequeno Adérito, órfão de mãe.

 

 

Fracassou na última segunda-feira, na cidade de Maputo, uma suposta tentativa de venda de um menor identificado pelo único nome de Adérito, com menos de 10 anos e residente no Bairro de Inhagóia.

A acção, movida por duas cidadãs, O. Guambe, 20 anos de idade, e R. Cossa, 26, ambas residentes no Bairro das Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM), foi inviabilizada porque o suposto comprador, Moisés Macamo, acabou denunciando o caso às autoridades policiais.

Para a sua detenção, Macamo, contactado na sua barraca no Bairro de Laulane, as denunciou à Polícia, pouco depois delas terem o abordado no sentido de ficar com o menor.

Detidas e encarceradas no mesmo dia na 14ª Esquadra da PRM, no Bairro de Laulane, as duas jovens confessaram a intenção de fechar o negócio com Moisés Macamo ao preço de 50 milhões de meticais. Segundo elas, a criança ainda ia ser roubada no Bairro de Inhagóia onde vive com o pai.

As implicadas apontam que se dirigiram à casa de Macamo para lhe vender a criança, uma vez ter acompanhado de populares que este comprava e traficava menores.

Entretanto, contactado pela nossa Reportagem, Moisés Macamo negou qualquer ligação com as jovens, bem como um suposto envolvimento na compra e tráfico de crianças. Segundo ele, ficou surpreendido quando as traficantes irromperam na sua barraca propondo negócio.

`Elas pediram-me para lhes ajudar indicando alguém interessado em comprar uma criança. Por não conhecer ninguém tratei de alertar à Polícia´...

 

fonte: NOTÍCIAS

 

2004-05-13 00:00:00
Brasileira Elilda dos Santos vai ao Parlamento Europeu
IRMÃ QUE DENUNCIOU TRÁFICO ESTÁ EM LISBOA

 

Maria Elilda dos Santos, missionária brasileira que denunciou o tráfico de pessoas e órgãos humanos no Norte de Moçambique (Nampula), chegou ontem ao fim da noite a Lisboa, onde permanecerá alguns dias, antes de partir para o Parlamento Europeu (Bruxelas) e para o Brasil.

 

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A irmã Elilda dos Santos

A missionária é acompanhada de funcionários da Embaixada do Brasil em Maputo e já terá recebido um convite do Governo brasileiro para colaborar com a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o tráfico de órgãos.

À partida de Maputo, a missionária referiu estar a ser alvo de "vários métodos de pressão" por parte das autoridades moçambicanas. Os missionários e grupos eclesiais que se encontram em Moçambique têm denunciado nos últimos meses o desaparecimento de crianças, jovens e adolescentes, bem como a descoberta de corpos mutilados e enterrados.

Elilda dos Santos dará uma conferência de imprensa hoje à tarde, no auditório da Casa Provincial dos Missionários do Verbo Divino (Lisboa). No início da próxima semana, a religiosa deverá viajar até Bruxelas, para contactos no Parlamento Europeu, nomeadamente com o eurodeputado Ribeiro e Castro, e na Comissão Europeia.

 

Edgar Nascimento

 

CONCLUIDO RELATÓRIO SOBRE TRÁFICO DE ORGÃOS

            O Ministério Publico já produziu o relatório final sobre o alegado tráfico de órgãos humanos na província de Nampula, mas o mesmo não será divulgado, por haver pessoas incriminadas na prática de tais actos, segundo apontou o Procurador-Geral da República, Joaquim Madeira.

            Conforme justificou Madeira, havendo suspeitos da prática dos mais de uma dezena de crimes reportados desde 2003, o relatório não será divulgado por questões de ética profissional, que irão obrigar a instauração de processos-crime.

NOTICIAS 06/08/04

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Relatório a denúncias

Procurador-Geral de Moçambique conclui que há tráfico de pessoas no país

2004-08-27 18:59:04

 

 

 

 


 

Lisboa - O Procurador-Geral de Moçambique, Joaquim Madeira, confirmou esta sexta-feira existirem dados que apontam para a existência de tráfico de pessoas na província de Nampula. No entanto, Madeira diz não ser possível concluir sobre a veracidade das informações que davam conta de tráfico de órgãos humanos.

Joaquim Madeira comentou à Rádio Renascença as conclusões do relatório da Procuradoria-Geral de Moçambique aos várias alertas lançados, nomeadamente por organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, a propósito de casos de tráfico de órgãos humanos e de pessoas.

«O relatório não tem dados conclusivos sobre o tráfico de órgãos, mas aponta para a possível existência de tráfico de seres humanos. Nós preferimos investigar concretamente para apurarmos quem são as pessoas implicadas, qual é a rota», argumentou o procurador. Joaquim Madeira admite que as investigações são complicadas, reconhecendo que «o crime organizado é difícil porque podem rapidamente desaparecer os vestígios».

Apesar das investigações já efectuadas continuam relatos quanto ao desaparecimento de pessoas, sobretudo crianças, na região de Nampula.