Tráfico de Órgãos em Moçambique (4)

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ESPECIAL REPORTAGEM
Tráfico de órgãos humanos em Moçambique
Desde segunda-feira que prosseguem em Nampula, no Norte de Moçambique, as investigações ao tráfico de órgão humanos. O repórter Manuel Vilas-Boas visitou, nestes dias, os lugares da polémica e traz o testemunho de um missionário português que há dois anos acompanha os estranhos casos de alegado tráfico de crianças e de órgãos humanos na cidade das acácias.

http://www.tsf.pt/online/primeira/interior.asp?id_artigo=TSF143261

 


07:00
19 de Março 04


Manuel Vilas-Boas

 

"Ele Confessou Que Ia Vender ao Branco"
PUBLICO
Por ANA CRISTINA PEREIRA, em Nampula
Sábado, 20 de Março de 2004

Dois tiros ecoam do mato. "É tiro de caçadeira, não tem perigo, pode ir." Elilda Santos, a missionária brasileira que tem vindo a denunciar o tráfico de pessoas e de órgãos, não desiste. Disseram-lhe que um homem tentou vender dois sobrinhos e ela vai "ver se é verdade". Em Nampula, há quem trate de amputar as suspeitas que contaminam toda a província, mas também quem as amplie. Cada qual está à sua maneira "à espera do adiante", a ver no que dá.
A confirmar-se a tentativa de venda, não seria história inédita. Um rapaz, de 17 anos, foi detido em Julho de 2003, depois de ter sequestrado uma criança de dez anos para vender ao casal O'Connor, acusado pelas missionárias de coordenar uma rede de tráfico. Foi entregue à polícia pelos empregados da quinta e condenado por "descaminho e ocultação de menores". E, desde então, pelo menos outros três indivíduos foram interrogados pelas autoridades por terem
anunciado aos funcionários do "branco" que vinham "para o tráfico".
O chefe da aldeia de Beligine não está. O régulo vizinho, magro e descalço, vai à frente. Hoje, bamboleia como se tivesse nascido a dançar. Ainda não sabe, mas amanhã não poderá fazer o mesmo: uma queda põe-lhe uma perna inchada e não há médico que suba os capins para o

analisar. Entre as palhotas, perto do lume, há dois rapazes e diversas maçarocas a assar. Só conhecem a história "de ouvir falar". "O dono casa é que sabe os tintins todos, ele é que é da família."
O pequeno rádio a pilhas, pousado em cima de um pano, contou, logo cedo, que mais uma criança desapareceu. Elilda faz doutrina: "Isto não pode continuar a acontecer." E "a luta tem de ser de todos". Flores Herculano, de 22 anos, não quer briga com o vizinho. Mas lá começa a desatar o nó que lhe ata a cabeça desde domingo: "Foi à tarde, depois do almoço, as mulheres conseguiram alcançar o homem lá à frente."
Elilda inquieta-se. Não trouxe gravador e queria registar as declarações. Quem eram as

vítimas? Consuma Musama e Zumaligi Fernando, de quatro e cinco anos. E eram levados por quem? Por João, o tio de 15 anos, que mora em Anchilo. "As mulheres começaram a perguntar para onde levava as crianças e ele confessou que ia vender ao branco."
Ninguém foi à polícia, explicam, porque o rapaz "é família". Elilda diz que deviam ir, que voltará no dia seguinte para ouvir a história da boca da família e para a convidar a prestar declarações também na Liga dos Direitos Humanos. "Depois de ir à polícia, a polícia diz que
é tudo mentira, intimida as pessoas e elas já dizem que não se passou nada."
A autoridade do tio materno
A aldeia de Beligine, a poucos quilómetros da cidade, é zona de macuas, como quase toda a província. Os macuas, o maior grupo étnico do país, fixaram-se em zonas férteis. A maior parte vive numa área limitada a norte pelo rio Rovuma (província de Cabo Delgado), a oeste
pelo rio Lugenda (província do Niassa) e a sul pelo rio Licundo (província da Zambézia).
A suspeita - falsa ou verdadeira - ensina muito sobre os macuas que ainda vivem segundo as tradições. O dia faz-se noite, a noite faz-se dia, de volta à picada, seguida de deriva por trilhos e atalhos, Elilda pede ao "dono da casa", o senhor Três, para a levar à mãe das
crianças. O velho Três acede. Vai ele e a mulher, que, como ele, só fala macua.
A base da organização política e social dos macuas assenta na linhagem. Cada unidade uterina, que reside num lar, pertence a um grupo que partilha o mesmo território. A autoridade familiar cabe ao tio materno (o atata), que, como outros tios maternos, depende de um
decano. A filha de Três só contará o sucedido se o tio materno a autorizar.
O atata está no lar, num bairro próximo. O que quer deixar claro de imediato é que "a dona da casa" - onde Elilda estivera - "é ela", a mulher de Três. Na sociedade matriarcal macua, embora a real chefia da família pertença aos irmãos ou tios maternos, a mãe é a figura
central do núcleo. Quando uma filha se casa, a sogra pode beneficiar do trabalho do genro, o que promove o bem-estar da sua rede de parentes.
As mulheres dispõem cadeiras no átrio, o atata encosta-se a uma motorizada, com ar de pouca paciência. Três fica atrás, não é consultado. O atata ordena à sua irmã que relate o que se passou. E ela responde-lhe, em macua, sem direito a tradução. Não tira os olhos dele, é para ele e apenas para ele, irmão dela, que ela fala. Como se só ele estivesse ali.
"Não é caso para levar às estruturas", sentencia o homem. A polícia e a Liga dos Direitos Humanos não "carecem" de saber nada. "Quem levava as crianças era o meu sobrinho. Ele costuma levar as crianças para brincar, demorou, as mulheres ficaram preocupadas."
"Ouvimos que ele próprio confessou", contrapõe Elilda. "Quem disse isso?", pergunta uma e outra vez o atata. Ela não responde, não quer que a família de Herculano Flores tenha problemas com a vizinhança. E ele despacha-a: "Isso é mentira."
Tendência natural para o rumor?
O tal rapaz que está preso queria vender um menino por 80 milhões de meticais (perto de três mil euros) ao "branco". Garry O'Connor diz que nada tem a ver com isso e lembra que

funcionários seus é que o entregaram à polícia. Da fama já não se livra. Terão os aldeões
inventado esta nova tentativa de venda?
O director da Polícia de Investigação Criminal da província diz que Nampula tem uma tendência natural para o rumor. Será esta história apenas um reflexo do desejo de enxotar "o branco" dos 300 hectares que o município lhe concessionou e que antes estavam em poder dos macuas? Ou houve mesmo uma intenção de venda e, como diz Elilda, os macuas tradicionais protegem-se uns aos outros e ninguém confia na polícia?
Ontem, o conselho municipal publicou uma nota no jornal "Notícias" a afirmar que "tem estado a orientar as estruturas de base no sentido de identificarem detalhadamente as possíveis famílias afectadas". E lançou um apelo aos munícipes para "colaborarem na denúncia".
A família que, na véspera, pôs um anúncio na rádio a anunciar o desaparecimento de uma criança não foi à polícia. Pelo menos por enquanto. E a equipa da procuradoria anda no terreno - desta feita sem Elilda - a investigar as denúncias das missionárias. Nampula
está "à espera do adiante".

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Juiz falou do caso em Portugal

Tráfico de órgãos em Moçambique já tinha sido denunciado há um ano

 

  

 

2004-03-20 09:31:53

Lisboa - A existência de tráfico de órgãos humanos em Moçambique já tinha sido denunciada, em Maio do ano passado, pelo juiz moçambicano Augusto Raul Paulino, que se deslocou a Portugal para participar num colóquio internacional sobre «Direito e Justiça no século XXI», adiantou a revista portuguesa «Tempo» na sua última edição.


O tráfico de órgãos em Moçambique saltou recentemente para as páginas dos jornais internacionais com o caso da província de Nampula. Porém, este flagelo - entre outros crimes de natureza internacional - tinha sido já denunciado há cerca de um ano por um dos mais conhecidos juízes moçambicanos, que se deslocou a Coimbra para participar num colóquio.

Na sua exposição, agora divulgada pela «Tempo», Augusto Raul Paulino falou sobre os vários tipos de criminalidade internacional existentes e Moçambique, referindo como uma das manifestações de crime internacional «a que se relaciona com o tráfico de órgãos humanos».

Na mesma ocasião, o magistrado, conhecido pela sua ligação ao mediático caso da morte do jornalista Carlos Cardoso, chegou a «traçar» os contornos do tráfico de órgãos humanos. «Acredita-se que os principais mercados estejam na região, na Suazilândia e na África do Sul, e tenham a ver com o uso dos órgãos pelos curandeiros e feiticeiros, sendo principalmente procurados os órgãos genitais», revelou.

«Este negócio não parece possuir uma organização interna muito sofisticada», refere ainda o juiz. Porém, acrescenta, «a sua concretização põe, no entanto, sérios problemas de segurança local, pois os traficantes matam as vítimas para lhe extrair os órgãos ou encomendam-nos a indivíduos ou grupos organizados».

Além das características geográficas do país, Paulino apontou o facto de dois terços da população de Moçambique (num total de 19 milhões de habitantes) viver em situação de «pobreza absoluta» como factores propícios à actuação de várias formas de criminalidade internacional. Um tipo de criminalidade que, segundo o juiz, parece não contar com uma forma efectiva de perseguição e punição por parte das autoridades locais.

(c) PNN - agencianoticias.com

Vendidas para casar na África do Sul


Amissa era uma jovem de 13 anos. Tinha uma amiga cuja irmã vivia e trabalhava em Maputo. Um dia, de visita aos pais, a irmã da amiga convenceu Amissa a ir com ela para a cidade, onde lhe arranjaria trabalho em casa de uns senhores. Na segunda visita, Amissa e os pais aceitaram, mas na casa dos senhores pouco tempo esteve. Foi levada para a fronteira com a África do Sul e vendida por 550 rands a um mineiro, com quem casou. Os pais nada mais souberam dela e Amissa jamais se livrou do seu destino.

Esta é uma das muitas histórias que ilustram o tráfico humano em Moçambique. Mais uma vez, trata-se de jovens provenientes de zonas rurais, aliciadas com bons empregos em casa de senhores das grandes cidades ou até em quintas sul-africanas. Mas a realidade é outra e o objectivo só um: casamentos forçados com pessoas muito mais velhas. «Vão ao engano. Chegam aos locais e não falam a língua, basta fazer com que assinem um papel, que não sabem o que lá está escrito. Depois, são maltratadas e nunca mais conseguem fazer nada para se libertarem», explica-nos Margarida Ditunga. O tráfico para casamento é usual em Moçambique, tanto faz que seja dentro do país como para a África do Sul. O esquema de aliciamento é quase sempre o mesmo: algum dinheiro para os pais e a promessa de trabalho ou de estudo para as filhas. As zonas mineiras da África do Sul são as preferidas para este tipo de negócio.

Quanto à exploração sexual, em Julho de 2002 um estudo da Direcção Provincial da Saúde de Maputo revelava que a prática atingia meninas e meninos dos 13 aos 18 anos, pertencentes aos distritos da Manhiça, Moamba e Namaacha. Num universo de 270 menores, 26% admitiram ter sido exploradas sexualmente. Deste grupo, 74% eram raparigas e os restantes rapazes, sendo o tipo de exploração mais comum a prostituição (53%), a pornografia (27%) e o estupro (20%). O mesmo estudo revela ainda que, de entre as vítimas, 34,7% são provenientes de famílias de rendimentos médios, 25,3% de famílias com altos rendimentos e 40% de famílias muito pobres.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

21.03.2004

 

À procura da menina de Massinga
O caso passa-se no ano de 2002 em Massinga, província de Inhambane, e consta invariavelmente de qualquer dossier sobre tráfico de menores em Moçambique, conta-nos Margarida Ditunga. É a história de duas meninas de 11 e 12 anos que são levadas para Maputo e abandonadas na rua. Uma acabou eventualmente por ser entregue aos pais. Mas da outra nunca mais ninguém soube. Tudo começa quando as crianças são interpeladas por uma senhora, conhecida como negociante de coco em Inhambane, que lhes oferece roupa e comida caso aceitem partir com ela para Maputo. Ambas aceitaram. Chegadas à capital moçambicana, a senhora não conseguiu entregá-las ao intermediário que supostamente estaria à espera e decide abandoná-las na via pública. Ali ficam dias e noites a fio. Uma teve sorte e acabou por ser acolhida por uma família que vivia numa zona da periferia, onde permaneceu ainda durante uns tempos. Até que começou a ser abusada sexualmente pelos seus protectores. Um dia, conseguiu fugir e foi conduzida a uma esquadra de polícia. A menina não sabia sequer em que zona se situava a casa em que tinha sido acolhida para poder indicar às autoridades onde procurar os seus agressores. Sabia apenas onde morava em Massinga. Foi levada de volta à casa de seus pais. A companheira ainda hoje é procurada.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

21.03.2004

Os donos invisíveis dos meninos de Moçambique
A maioria são meninos e meninas entre os nove e os catorze anos, trazidos para as grandes cidades como Maputo, quando não sabem ler nem escrever. Alguns só mais tarde aprendem a fazer contas, e só se necessário. Tudo depende do ofício que lhes está destinado: pedinte, assaltante, vendedor ambulante de fruta ou de bebidas nos mercados informais ou simples ardinas.

Não são diferentes de outros meninos oriundos de zonas rurais e distantes das grandes cidades, onde são deixados na rua ou ao deus dará, à sorte sabe-se lá de quem ou do quê. Em Maputo, é vê-los, cada um por sua conta, junto aos semáforos, na praia ou nas zonas frequentadas por quem tem dinheiro, já com alguma conversa e sempre prontos para o que der e vier. É só preciso facturar, porque todos têm uma característica comum: um «dono», homens ou mulheres que ninguém sabe bem quem são, apenas que serviram de intermediários na viagem do campo para a cidade e que agora recolhem os dividendos do seu investimento.

«É como se fossem "donos" invisíveis. Raramente aparecem, mas nunca esquecem a recolha do dinheiro ao fim do dia. E tudo acontece às claras», comenta a representante da FDC, recordando: «Ainda há pouco tempo se ficou a saber que, em Maputo, na zona da praia, havia um indivíduo que tinha a seu mando um grupo de crianças, que usava e emprestava a quem lhe apetecia e quando queria. Nunca ninguém fez nada. É frustrante, pois raramente chegamos a conhecer o desfecho destes casos. Nunca houve qualquer julgamento, nunca houve acusados.»

Os donos perduram. Os meninos, esses, nunca ninguém sabe ao certo quantos, apenas que são muitos. Quase todos acabam por cair na rua para dormir e escolher o lixo dos ricos para se alimentarem. Mais tarde, há sempre os que acabam por seguir as pisadas dos «donos» tornando-se no «dono» de alguém.

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Nacionalidades diferentes, o mesmo medo em Maratane
São sete da manhã e já um calor carregado de humidade se entranha nos corpos. O dia promete. Após o café expresso da praxe, o jipe parte em direcção a Maratane, a pouco mais de 30 quilómetros da cidade de Nampula, onde está sediado um dos campos de refugiados aceites pelo Governo moçambicano. Avisam-nos que temos de ser cautelosos com as fotografias. «Há que protegê-los, até porque são cada vez mais procurados pelos traficantes para trabalho barato», explicam-nos.
Posto isto, começamos a contar os minutos. Nada que não se faça em pouco mais de meia hora e a uma velocidade considerável, apesar da estrada em mau estado. «Andamos melhor aqui do que na cidade», diz satisfeito o administrador do campo que nos serve de guia.
Vidros fechados e ao som da RDP-África, o jipe segue veloz, deixando de rasto uma nuvem de pó que parece não incomodar quem por ali passa: homens, mulheres e crianças a caminho da cidade ou do mercado mais próximo. Quase todos a pé e a maioria descalça. Só umas tantas bicicletas e alguns penduras partilham a estrada com o 4X4 branco. Algazarra e muitas poses, dirigidas ao foco da máquina fotográfica que o repórter leva ao pescoço, animam a viagem. «Já estou aí?», pergunta o miúdo pendurado na bicicleta.
Ao fundo da estrada, um tom rosa choque chama a atenção. Afinal, um chapéu de chuva que protege uma idosa de tronco curvado, provavelmente da dureza dos raios de sol, pensamos. Mas não. Segundos depois, cai uma chuvada monumental. Os pingos são fortes e quentes.
«Não se assustem, daqui a bocado está tudo seco», continua o administrador. As nuvens retiram energia à manhã, mas por pouco tempo e só até se avistar os portões do campo, duas correntes agarradas a troncos de madeira. No meio, uma tabuleta a anunciar INAR (Instituto Nacional de Apoio ao Refugiado).
A CHEGADA

O administrador faz sinal de passagem. O segurança, um homem, cuja pele não deixa transparecer a idade - tanto pode ter 40 como 50 - levanta-se do banquinho, em sinal de anuência.
Passada a fronteira, são só mais uns segundos até ao largo, onde tudo acontece. Ao nosso lado desfilam casas de pedra e cal, construídas noutros tempos, em tons de branco e cinzento, dispostas em fila e já a dividir paredes com ar de construção recente. No largo, uma capela, a antiga mercearia e a fonte de onde ainda jorra água.
Maratane «era herdade de um colono», contam-nos. Após as nacionalizações, foi aproveitada pelo Governo para um centro de acolhimento de idosos e desde 2000 que é campo de refugiados, um espaço gerido pelo governo em parceria com o Alto-Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas.
«Tivemos que os tirar de Maputo. Aqui estavam mais isolados e protegidos. São imigrantes específicos, não clandestinos, e era preciso integrá-los na comunidade», explica o administrador Adérito Silva.
Antes da transferência, as autoridades tiveram que explicar à população o objectivo da medida, «para que não se sentissem ameaçados. Até agora, não houve qualquer problema. Os refugiados são pessoas pacíficas. Uns acabam por regressar às suas terras ou partir para a cidade, outros ficam por aqui. Trabalham quase sempre nas actividades do campo», justifica Adérito.
Maratane alberga 4757 pessoas, 2754 homens e 2003 mulheres. Crianças dos zero aos 12 anos são 1971, sendo a maioria da faixa etária dos três aos seis anos, muitos já nascidos ali.
AMEAÇA

Os refugiados são de 17 nacionalidades diferentes - Burundi, Ruanda, Etiópia, Somália, Libéria, Serra Leoa, Sudão, Uganda, Chade, República Centro-Africana, Congo Brazzaville, Angola, Costa do Marfim, Zimbabwe, Quénia e Palestina -, mas partilham os mesmos medos: a guerra e o tráfico. Este, aliás, foi um dos motivos que os levaram a aceitar a condição de refugiado, juntamente com as divergências religiosas e políticas.
Até há bem pouco tempo, havia um movimento contínuo de saídas e chegadas, perceptível pelas casas novas, de terra e água, ou deixadas ao abandono. Agora, parou mais. Há quem esteja em Maratane desde o início, em 2000, outros há pouco tempo.
Mulete, um congolês de 33 anos, vive no campo desde 2001. Casou, teve um filho, e o que mais queria era poder continuar a tirar o seu curso de técnico de saúde, que abandonou quando deixou o país. O pai e a mãe morreram, por isso, voltar ao Congo é uma hipótese que nem se coloca. Mulete queria sair dali, mas há o receio do tráfico. Todos conhecem histórias de refugiados «mais ambiciosos, que queriam sair dos campos para trabalhar noutros locais e que foram enganados», conta-nos. «Há seis meses foi retido um carro em Maputo cheio de somalis refugiados, com destino à África do Sul», explica ainda.
A ameaça do tráfico paira cada vez mais sobre eles, mas Argelene, uma mulher ruandesa, diz não estar disposta a esperar muito tempo. «Quero sair», afirma. O marido concorda. Estão no campo há dois anos e têm uma filha de oito meses. Argelene fala-nos enquanto mima a filha, que espera numa cama do posto de saúde um carro que a leve ao médico na cidade. «A bebé está cheia de febre e tem diarreia. Não há leite. Vai comendo o que há, papa de farinha de milho ou feijão. Está sempre assim», diz em francês.
No campo não é preciso expressarem-se noutra língua, o francês sobressai em relação ao português. Basta referir que a escola francesa, onde decorria um curso de francofonia naquela manhã, integra mais de 800 alunos, enquanto a portuguesa tem 300. «Como a maioria vive e trabalha dentro do campo, não há problema», comenta Mulete - mas, ressalva em português escorreito, «fiz questão de aprender».
A agricultura é a principal fonte de trabalho dos refugiados. No campo emerge ainda um aviário enorme. A administração distribui «peixe e carne uma vez por semana», diz Mulete. «Quem quer mais alguma coisa compra na barraca ou no mercado», sublinha, onde já alguns refugiados vendem o que produzem ou que conseguem negociar fora do campo.
A vida é feita a gastar o tempo. A criançada divide-se entre a brincadeira e a escola. As mulheres ajudam na machamba. Mulete, por exemplo, só faz trabalho voluntário: «Sou o comissário do campo.»

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Da venda ao resgate da jovem Noela
Noela, vamos chamar-lhe assim, tem apenas 12 anos e todos os dias acompanha a mãe na venda de bebidas na barraca da família, situada numa zona próxima da capital, Maputo. Um dia, apareceu um cliente novo, desconhecido, que com ela meteu conversa. Foi aparecendo mais vezes, dia após dia, e acabou por a aliciar e conseguir convencê-la a partir com ele. Noela nunca mais voltou a aparecer. Passado algum tempo, o sujeito volta a surgir na mesma zona. É atentamente vigiado pela família de Noela, que acaba por conseguir descobrir onde vive. Na sua casa encontram uma menina sul-africana, que diz ter visto a sua filha ser entregue no seu país e transaccionada. A partir destes dados, os pais de Noela conseguiram descobrir o paradeiro da filha na África do Sul, que é resgatada e levada de regresso para Moçambique. O caso passou-se em 2003, pouco tempos antes da Cimeira da União Africana, o que causou grande incómodo junto da classe política. Quanto ao destino dado ao traficante, ninguém sabe qual foi.

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Tráfico esconde-se no rosto da pobreza

ANA MAFALDA INÁCIO (textos)RODRIGO CABRITA (fotos
O tráfico humano não é um fenómeno recente. Nem tão-pouco característico do continente africano ou de Moçambique. Hoje apenas tem outros rostos e um nome diferente: escravatura moderna, a que não envolve trabalhos forçados, mas a exploração sexual, o casamento obrigatório, a adopção ilegal e até a extracção de órgãos.
Ninguém sabe ao certo quantas pessoas ou montantes envolve esta actividade, mas calcula-se que, em todo o mundo, seja negócio de milhões. Em Moçambique, um estudo da Organização Internacional para a Migração refere que mais de mil pessoas são traficadas por ano, sobretudo menores do sexo feminino.
«É uma das características do tráfico moderno, a preferência por menores cada vez mais pequenos. As idades podem ir desde os três aos 17 anos. Tudo depende dos fins para que se destinam», explica-nos Margarida Ditunga, da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, organização humanitária presidida por Graça Machel. «Antes, as pessoas eram traficadas para trabalhos forçados; agora são-no para exploração sexual ou para serem mortas e lhes retirarem os órgãos. É impensável que a humanidade tenha chegado a este ponto.»
Desde a década de 90 que o tráfico de pessoas emergiu um pouco por todo o lado, quase sempre associado a movimentos migratórios. É uma realidade que afecta crianças, mulheres e cada vez mais refugiados. A pobreza está na base do negócio, seja em África, na Europa ou na América Latina. Moçambique não é excepção. Tem 17 milhões de habitantes e 70% da população vive abaixo da linha da pobreza. Destes, 70% são crianças com menos de 18 anos, a maioria na faixa etária abaixo dos 14 anos. «É muito fácil aliciar um pai ou um jovem com uma vida melhor. Quem não quer isso para os filhos ou para si? As vítimas são trazidas das zonas rurais para estudar, trabalhar ou simplesmente serem alimentadas, e depois deixadas na rua, em bordéis, noutro local qualquer ou entregues a pessoas para casamento», diz a representante da FDC.
ROSTOS

Por isso se diz que o tráfico moderno tem vários rostos, até aquele que é feito dentro do próprio país e com a anuência das vítimas ou dos seus progenitores. «Também há tráfico cá dentro. É o tráfico doméstico, feito à frente de toda a gente. É impossível ignorar e é precisa muita coragem para o combater. Até agora, não tem havido vontade política. Não é por falta de capacidade da polícia, embora seja necessária uma autoridade eficiente», acusa Margarida Ditunga, argumentando: «Há meninos que são trazidos para as grandes cidades para andarem a pedir, a vender nos mercados ou a assaltar pessoas. Vemos isso em Maputo. Há meninas com 12, 13 anos que são levadas para a África do Sul e vendidas para casar com pessoas mais velhas. Isto é tráfico. É um negócio.»
Os casos multiplicam-se, sobretudo com menores de 17 anos, quase sempre aliciadas para empregos bem pagos na África do Sul, mas a maioria não consegue passar das zonas fronteiriças, onde são deixadas em casas de trânsito. «São vendidas, algumas a mil rands [121 euros], outras por menos: 750 a 900 rands [91 a 110 euros]», confirma Ditunga. O preço apenas difere das zonas onde são deixadas: Pretória, Durban, Joanesburgo, cidade do Cabo. Tudo depende de o destino serem os hotéis, os bordéis ou a rua. «As jovens são maltratadas. Ficam sem documentação, não sabem falar a língua e jamais conseguem sair desses locais», explica.
Não há montantes concretos, mas a dirigente da FDC diz haver relatórios que referem tratar-se de um negócio que envolve mais de um milhão de rands (121 mil euros). Um estudo de uma ONG, conhecido como «documento do padre Jean Pierre», revela que as vítimas do tráfico são quase sempre oriundas das províncias de Gaza, Nampula ou Maputo. São levadas das zonas rurais, por intermediários em quem confiam, para as cidades. Aí são entregues a outras pessoas, partindo depois para o seu destino, sobretudo África do Sul.
O documento revela que há uma rede que envolve moçambicanos e sul-africanos a operar no país, que utiliza dois percursos: de Maputo para Comatipoort e daqui para Joanesburgo ou de Maputo para a Ponta do Ouro e depois Durban. «Há um comboio que todas as quintas-feiras passa a fronteira da África do Sul em direcção a Moçambique. Os passageiros são sobretudo jovens apanhados ilegalmente naquele país. Se alguém quisesse fazer alguma coisa, já teria feito.»

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"Só Temos Um Caso Confirmado de Desaparecimento de Crianças"
PUBLICO
Por ANA CRISTINA PEREIRA, em Nampula
Segunda-feira, 22 de Março de 2004

As denúncias das Servas de Maria sobre tráfico de órgãos e de seres humanos, que estão a ser investigadas pela procuradoria de Moçambique, alegam o desaparecimento de 52 crianças em meio ano. Mas os registos da Polícia de Investigação Criminal (PIC) são bem distintos. Relacionadas com a polémica, admite apenas uma, a de Erga Vitorino, de três anos. "Há crianças que podem andar sem ninguém na cidade", observa o director daquela polícia na província de Nampula, Eugénio Julião Balane. "Podem desaparecer, é provável, mas eu não
tenho isso em ocorrência."
PÚBLICO - A Polícia de Investigação Criminal (PIC) está a colaborar com a Procuradoria?
EUGÉNIO JULIÃO BALANE - Há uma colaboração estreita. Aquando da vinda da comissão multisectorial faziam parte também quadros da PIC, da Polícia da República, para além do médico legista.
P. - Essa foi a que deu origem ao relatório preliminar, que levou o Procurador-Geral a dizer, no Parlamento, que o que mais o intriga e choca é "a apatia com que alguns agentes da autoridade lidam com as denúncias".
R. - Foi. Entretanto, no terreno, o trabalho continua. A cargo da procuradoria provincial, que também tem vindo a solicitar serviços da PIC.
P. - Temos ouvido relatos de uma polícia que "intimida"...
R. - Nós temos acompanhado pela imprensa. Não há fundamentação. Nós já estávamos a trabalhar antes. Em 2001, em Nacala, houve o assassinato de três crianças. Primeiro, deu-se por desaparecidas duas crianças. Quando a polícia procurava a terceira, tinham acabado de a
assassinar. Foram localizados os autores, que confessaram ter extraído línguas daquelas crianças para fins supersticiosos. Da terceira criança, não tinham ainda extraído nada.
P. - As suspeitas sobre o casal O'Connor surgem coladas a acusações de encobrimento por parte da polícia...
R. - O caso veio a lume, em Julho, quando um indivíduo que dizia ter 17 anos, mas não tinha qualquer elemento que o identificasse, entendeu pegar numa criança que tinha encontrado pela alta noite pela rua fora. Depois de uma semana a viver com a criança, levou-a à quinta do casal sul-africano. Lá, sugeriu o negócio. Os guardas da quinta levaram ao posto que fica dentro do convento das irmãs. É a partir daqui que começa a intervenção das irmãs. Caso registado aqui é esse. Processado pela polícia, foi canalizado para a procuradoria.
O tribunal condenou a 17 anos de prisão. E há o caso de três senhores que sugeriram o negócio, mas não levavam ninguém para vender.
P. - Mário Centura e Saimone Tuzene dizem-se vítimas de rapto e de espancamento.
R. - Falaram com quem?
P. - Os testemunhos constam do relatório preliminar da PGR.
R. - Há casos que a procuradoria processou directamente. O que não foi tratado por nós, não posso comentar.
P. - Mário está escondido há cinco meses. Diz que foi intimidado pela
polícia.
R. - Está escondido onde? Intimidação? Aquela onda de desaparecimentos de crianças... Nós pedimos à Rádio Moçambique e à Rádio Encontro que nos fornecesse a lista de familiares para
investigação. O nosso pedido foi encarado como ameaça, tentativa de violação da lei de imprensa. Nós não queríamos saber as fontes, queríamos saber quem são os ofendidos. Se desaparece uma criança, a família preocupa-se e essa criança tem de ser levada a essa família. Como não foi a nenhuma unidade policial, não temos esse registo.
P. - Como é que estas famílias, em vez de irem à polícia, vão à rádio pôr um anúncio?
R. - É. Isso é absurdo. Nós solicitamos, queremos conhecer a família, se não aparece, como vamos investigar?
P. - Mas por que é que as queixas não chegam à polícia?
R. - Nós recebemos queixas de vária ordem a fazer referência ao desaparecimento de crianças ou mesmo meninas de idade (doze para diante). Encontramos algumas situações... filhas que fogem dos pais, porque se meteram com um namorado sem consentimento. Há casos de casais que se separam, um leva as crianças para passar o fim-de-semana e não devolve...
P. - Mas há mães que choram crianças que desapareceram.
R. - Nós temos um caso confirmado. Há um casal que participou o desaparecimento de uma criança de três anos em Novembro. Estamos a tratar esse caso com todo o cuidado.
P. - Como é que define a relação da população com a polícia?
R. - A polícia procura criar relações estreitas com a comunidade. Cria mecanismos próprios para tomar controlo, tendo em conta que a população deve dar o contributo. Existem, em alguns bairros, conselhos comunitários.
P. - Há quem lhes chame milicianos e polícias comunitários...
R. - É conselho. O conselho comunitário do bairro é seleccionado pela população daquele mesmo bairro. Esse conselho, a qualquer momento, pode dar informação à polícia sobre a presença de elementos perigosos.
P. - E eles comunicam desaparecimentos de crianças?
R. - São casos raros. A maioria das casos que temos não se enquadram nesses que se falam - de tráfico. A criança que raptaram, em pleno dia, as pessoas viram, mas pensaram que o homem levava para criar. Se a polícia visse esse caso não ia desconfiar, a criança não estava a

chorar. Há crianças que podem andar sem ninguém na cidade. Que podem desaparecer, é provável, mas eu não tenho isso em ocorrência.

P. - Há a história da menina que desapareceu em Mamoa e que a polícia entregou à avô, em Angoche, a 40 quilómetros de Nampula. Elilda Santos diz que a polícia pedia dinheiro para entregar a criança aqui...
R. - Não tenho informação.
P. - Com tanta acusação de inacção e de intimidação, tem de se admitir que a relação entre a polícia e a população é estranha.
R. - Não posso considerar estranha. Há é indivíduos que procuram desinformar sobre o trabalho da polícia. A população sabe que até 1998, de dia, aqui, era normal ser assaltado à mão armada. Desde 98, qualquer roubo de carro, qualquer assalto à mão armada, é esclarecido. Algumas pessoas com "interesses", que não posso precisar, precisam de tirar dividendos, então falam. A democracia é assim, a gente tem de admitir. Mas esses que denunciam na imprensa
não vão à polícia. Os casos que chegam à polícia têm seguimento!
P. - Há investigações em Nacala de tráfico para prostituição infantil, exploração do trabalho infantil ou mesmo escravatura? Os relatórios internacionais falam em crianças que saem para a Rússia, para a China, para a África do Sul...
R. - Esse é um fenómeno novo para esta área de cá. Não posso comentar. Há grupos de meninas, quem passa manda parar, isso tem uma certa relevância externa. Por causa do porto, há essa tendência de fluxo. Quando chegam os barcos, há estrangeiros que querem... Mas não
tenho informação sobre tráfico. 
"Os Rumores Propagam-se com Uma Velocidade Extrema"
O director da Polícia de Investigação Criminal na província de Nampula, Eugénio Julião Balane, garante que os rumores de corpos encontrados sem órgãos são apenas isso mesmo, rumores. Que, na região se propagam "com uma velocidade extrema".

P. - Vários relatórios internacionais - Organização Internacional de Migrações, Organização Humanitária Molo Songololo, Ending Child Prostitution Pornography and Trafficking International, por exemplo - falam em crianças que desaparecem sistematicamente de Moçambique e entram em redes de tráfico para prostituição, escravatura, abuso do trabalho infantil, extracção de órgãos.
R. - Se for por essa via de análise global... do país. Mas o caso concreto é que se enfatiza demasiado aqui. Fala-se em extracção de órgãos. E a gente questiona: no corpo de quem? Há corpos que aparecem e que não têm esclarecimento. Temos uma brigada que se desloca para
lá e está no local e faz o exame direito. O médico, no hospital, faz a autópsia. Nenhum desses corpos localizados no corredor de Nampula, fora do que eu referi, foi encontrado sem órgãos.
P. - E a Sarima?
R. - Estava a vender bananas. Desmembrou-se da companheira e foi com um senhor. Apareceu morta na via pública, exame feito constatou-se que tinha sido violada e estrangulada. Não faltavam órgãos.
P. - Falámos com pessoas que dizem que viram o corpo e que lhe faltavam...
R. - Quem são essas pessoas?
P. - São pessoas que prestaram depoimentos à Procuradoria.
R. - Fazem parte da família? Não. Então não viram. Estão a alimentar-se de dados informais. Se as chamarmos para falar, não vão longe. Dizem, porque vi não sei o quê, porque estão a me intimidar. Ninguém está a intimidar nada. Ouviu por aí e propagou.
P. - Há outros corpos. A prática corrente, dizem-nos, é a polícia ser chamada por causa de um corpo que aparece, chegar ao local, olhar e mandar abrir um buraco para enterrar...
R. - Tem médico! Aquilo é uma equipa, não é uma pessoa. Faz-se um relatório!... A população não tem coragem de se aproximar: isso pode ter a ver com certos mitos. Estive pessoalmente na linha férrea quando apareceu o homem despedaçado. Não se aproximaram e disseram que não tinha órgãos genitais.
P. - Mas estava cortado de uma forma muito peculiar...
R. - Não houve corte de instrumento cortante. A cabeça estava desfeita. Aquilo é arrancamento. Numa altura, ocorreram grandes casos de cólera. A Beira foi muito afectada, Nampula foi um pouco. Foi enviada uma equipa de médicos para socorrer a população lá no
interior. Ia dar instruções, ensinar como pôr cloro na água para evitar contaminações. A população começou a dizer que os enfermeiros traziam cólera, que iam pôr nos poços de água, agrediu os enfermeiros, fez reféns. Tivemos que destacar uma força para acompanhar os enfermeiros. Os rumores, em Nampula, propagam-se com uma velocidade extrema. Então não há tempo para analisar o assunto.
Cada um vê um bocadinho e aumenta duas, três vezes.

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DIÁRIO DE NOTÍCIAS

22.03.2004

Tráfico sexual de mil moçambicanas por ano
Todos os anos são traficadas como escravas sexuais cerca de mil moçambicanas para a África do Sul, através de uma rede internacional que tem ramificações em Macau e Hong Kong. Os dados são de um estudo da Organização Internacional de Migração (OIM) das Nações Unidas, divulgado ontem em Joanesburgo.

Segundo o semanário sul-africano The Sunday Independent, citado pela agência Lusa, o negócio mais rentável do mundo é o tráfico de pessoas para a África do Sul, país que se tornou um destino-chave do esclavagismo no continente. De acordo com o estudo «Atenção ao tráfico humano na África Austral», os sul-africanos importam anualmente cerca de mil moçambicanas e entre 800 a mil tailandesas.

As mulheres traficadas de Moçambique entram na África do Sul em carrinhas-táxi e são vendidas a mineiros, enquanto as oriundas da Tailândia e da Europa Central se destinam a bordéis. Por seu lado, as mulheres sul-africanas estão a ser traficadas para Macau e Hong Kong.

Menores do Lesoto são vendidos para orgias de fazendeiros da província do Estado Livre, homens de negócios e a tripulações de embarcações do Cabo. «Crianças traficadas, especialmente virgens, podem render até dez mil dólares ou mais cada», disse Mac Piecskowski, da OIM, citado pelo semanário.

«O traficante reúne-se com os amigos e guarda as crianças durante vários dias, servindo-se delas para orgias nocturnas», acrescentou. «Estes são alguns dos casos mais chocantes com que lidamos», denunciou o responsável das Nações Unidas.

«O público não aceita ainda esse facto, mas há muitas mulheres retidas contra a sua vontade em residências dos subúrbios (de Joanesburgo) como Randburg, Bedfordview e Benoni», sustentou Mac Piecskowski.

As revelações deste relatório surgem no contexto de suspeitas levantadas em Moçambique, segundo as quais crianças dadas como desaparecidas são traficadas para países como a África do Sul. Estas alegações estão a ser investigadas pela polícia sul-africana.

ESPECIAL REPORTAGEM
Tráfico de crianças em MoçambiqueReportagem em Nampula
O mosteiro Mater Dei, em Nampula, é um lugar quase mítico. Ali existem monjas, órfãos e pobres e doentes que batem à porta. O mosteiro confina com terrenos que são propriedade de um cidadão sul-africano, acusado de tráfico de órgãos humanos. A irmã Juliana, a Superiora do mosteiro, não tem dúvidas sobre o tráfico de pessoas naquela região norte de Moçambique. Ela conta ao jornalista Manuel Vilas Boas os passos de um dia entre as monjas servas de Maria e as denúncias que não pode calar.


12:00
23 de Março 04

 

http://tsf.sapo.pt/online/primeira/interior.asp?id_artigo=TSF143914

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mapa de Moçambique

MOÇAMBIQUE
Morte em NampulaPrograma completo
Durante vários dias, a TSF percorreu os lugares do tráfico de menores e de assassinatos em Nampula, capital do norte de Moçambique. Foram entrevistados missionários, vítimas e autoridades policiais e judiciais.


19:44
25 de Março 04


Manuel Vilas Boas

 

Reportagem de Manuel Vilas Boas, com edição digital de Luís Borges.

 

http://www.tsf.pt/online/primeira/interior.asp?id_artigo=TSF144144

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PÚBLICO

Cabeça: Tráfico de Menores em Moçambique
Por REPORTAGEM DE ANA CRISTINA PEREIRA (TEXTO) E FERNANDO VELUDO (FOTOS), em Nacala
Sábado, 27 de Março de 2004

Anja Gabriel, olhos postos no chão, vassoura de arbustos secos na mão, faz poeira à cata de trigo. Os camiões deixam cair pequenas porções quando fazem o transporte do porto de Nacala para uns armazéns situados a umas centenas de metros, e ela e as duas irmãs passam a via a pente para apanhar o desperdício e o transformar em pão. Sozinhas não. Há dezenas de mulheres e crianças a fazer o mesmo - no rosto de umas, a poeira mistura-se tanto com o suor que lembra as pinturas tradicionais macuas. Os homens que por ali circulam trazem a sobrevivência. E a sobrevivência não se esgota no cereal.

A prostituição infantil é mais prevalente em Maputo e na Beira, mas tem vindo a crescer em Nacala, com uma população muito móvel e um grande número de trabalhadores dos transportes. O porto de Nacala é um dos mais importantes da África Oriental - tanto que os americanos tomaram recentemente conta dele. E o famoso corredor integra a linha férrea que vai até Entre-Lagos, já na fronteira com o Malawi. O movimento é grande. Meninas como Anja Gabriel perdem a inocência em troca de migalhas.

As denúncias das missionárias sobre desaparecimento de menores - que estão a ser investigadas pela Procuradoria-Geral da República, com base, sobretudo, no relato de crianças que dizem ter escapado ao cativeiro - trazem o PÚBLICO até aqui, mas Anja Gabriel não pode paralisar por causa de rumores sobre barcos ou comboios que tentam levar meninos para longe, como terá acontecido a Jorge, que ia fazer 13 anos. Se se lhe perguntasse o que é o amor, o mais certo seria ela rir-se da pergunta. "Preciso de comer". Ela e as irmãs. Tentar a sorte noutras paragens é coisa que lhe faz brilhar os olhos. "Tem trabalho para mim?", questiona. Em Moçambique, como noutros países, há crianças que são dadas ou vendidas pelos pais a traficantes mediante descrições de trabalho agradável e promessas de fazer fortuna. A miséria empurra. Jorge, conforme consta do relatório entregue à procuradoria, terá, no início do ano, sido aliciado por um português em Nampula. Foi conduzido a uma casa, em Nacala, onde se encontravam "mais de 30 crianças à espera de navio para ir para Portugal". Falta de fiscalização na costa... Moçambique tem 2470 quilómetros de costa, mas faltam-lhe meios de fiscalização. Tanto que nas suas águas navegam barcos de pesca espanhóis. Tal facilidade não terá dito nada a Jorge. Tão-pouco as eventuais dificuldades inerentes à condição de imigrante ilegal menor. Começou a desconfiar do destino porque, de vez em quando, "saíam quatro ou cinco crianças que não voltavam". O menino terá aproveitado para fugir quando foi autorizado a ir lá fora, comprar pão. A criança descreveu o lugar e as três pessoas que tomavam conta do grupo. Identificou mesmo uma delas, mas a busca das autoridades não resultou em nada e o português apontado "fugiu - foi alertado por alguém da procuradoria mesmo", indigna-se Elilda Santos, missionária que tem sido porta-voz das denúncias que congregam missões católicas e Organizações Não Governamentais, agora convencida de que "não há vontade de descobrir a verdade", nem sobre as pessoas que desaparecem, nem sobre os corpos que apareceram mutilados aqui e noutras zonas da província de Nampula. Anja Gabriel mora na parte alta de cidade, como Ema, como Zenapo, como Amina. Sobrevive com o pai e com a mulher, que "é muito madrasta". Ouviu a história de Jorge, como ouviu a das ossadas encontradas à entrada da cidade. "Tem trabalho para mim?", volta a perguntar ao segundo dia. Em torno dela, outras nove crianças. Todas descalças. Algumas muito pequenas. Apenas uma, Amina, de nove anos, diz andar na escola. Das 07h00 às 09h00, altura em que desloca para ali. A vida corre tranquila em Nacala, cidade bem mais limpa e organizada do que a vizinha Nampula. Todos os dias, bem cedo, os pescadores fazem-se ao mar. Junto à praia Caetano Veloso, há vendedores e compradores a "sombrear". A lota "é a praia mesmo", onde chega lagosta, atum, peixe pedra, "tudo". O calor é intenso, a humidade sufocante, mas não se vê ninguém entrar na água. "Tenho um sobrinho que não aparece há três dias", diz um pescador, pousando a mão na cabeça de um miúdo. "Estamos à procura, até já foram para Nampula". Os pescadores não falam em barcos suspeitos, apontam a linha férrea, o sentido Maputo, África do Sul. Talvez o sobrinho de Bru - de cinco anos - tenha desaparecido mesmo. Talvez Bru esteja apenas a dizer aquilo que imagina que se quer ouvir. Foi à polícia? "Rádio só". Aqui, como na cidade de Nampula, a relação com as autoridades parece muito frágil e as suspeitas de tráfico ganham novos contornos ao saltar de boca em boca. Há uns meses, Cecília Rosa foi à polícia quando lhe desapareceu um filho, mas acomodou-se assim que este apareceu: "Estou agradecida, porque tenho o meu filho em casa". O menino, João, de oito anos, foi aliciado na escola comunitária com bombons. "O homem disse: “Anda lá, vamos fazer festa de crianças". E ele foi, com outros dois amiguinhos. Umas "mamãs é que os encontraram horas depois, sem roupas, naquela praia lá longe, onde as mamãs cortam cajueiro".

...e a leviandade das autoridades

Há um pormenor que faz tudo confluir como um rio: a nudez das alegadas vítimas de todo este processo que lhes chega desde Nampula. Será que o homem, que as crianças não conseguiram identificar, era um pedófilo? "Não! Nada! Tirou as roupas para quê? Era para matar ali mesmo!", acredita a mãe, perna estendida ao sol. A pedofilia, que horroriza Portugal, tem um sentido "minguado" num país onde há meninas de doze anos com noivo e se vive o alarme do uso de órgãos humanos.

O que inquieta mais - apesar dos diversos relatórios internacionais que focam o tráfico de pessoas para prostituição, trabalhos forçados, escravatura, casamentos arranjados ou venda de órgãos - é a suspeita de morte para uso de partes do cadáver. A antrologia africana refere ritos iniciáticos onde o fígado serve para a purificação, o sexo para ganhar potência, o coração para aumentar a coragem (ver entrevista nas páginas seguintes)... "Feiticeiros! Nem há frigoríficos aqui!", sentencia Bru.

O relatório preliminar da Procuradoria Geral da República concluiu que não há evidência de tráfico de órgão em Nampula, mas frisou que o desaparecimento de pessoas é complexo e requer mais investigação para se apurar as motivações. E o procurador-geral admitiu que houve "omissão" e "leviandade" na forma como as autoridades trataram os casos.

As suspeitas não se cingem a esta província. Em meados do mês, quando foi ao Parlamento, o procurador-geral Joaquim Madeira falou de três jovens que recentemente confessaram ter morto e cortado os genitais a um miúdo de nove anos, em Chimoio, Manaica. O ministro do Interior, Almerindo Manhenje, também reconheceu existirem crimes de extracção de órgão, que cola a práticas de feitiçaria, e até referiu um caso de "uso de pele", ocorrido junto à fronteira com a Tanzânia.

Em Nacala, há quem tenha redobrado cuidados. Como o senhor Armando, que diz ter sido atraído para um das duas casas apontadas como cativeiro. "Fui na machamba, estava a semear amendoim, eram 8h00, apareceu um moço: “Olha, tenho o carro avariado, me acompanha". O agricultor acompanhou-o, só que, "chegado lá", o homem foi mudando de sítio até estarem já próximos de uma moradia com cães e ele recusou-se a entrar. Mas há também quem a vida obrigue a apagar cautela.

Anja Gabriel mostra a lata de tinta que arrancou ao lixo para guardar o trigo apanhado ao chão empoeirado. As amigas riem-se e logo se dispõem a exibir as suas "colheitas" - algumas amanhadas em capulanas - como quem espera receber um prémio. Um punhado de canetas e fazem uma festa.

A prostituição é proibida em Moçambique, o tráfico de órgão carece de legislação específica. Pormenores. Há trigo para peneirar aqui mesmo, junto ao Índico quieto e límpido. O ronco do estômago não deixa ouvir outro medo que não o da fome. E amanhã é um outro dia.

Inserts:

O menino, João, de oito anos, foi aliciado na escola comunitária com bombons. "O homem disse: “Anda lá, vamos fazer festa de crianças". E ele foi, com outros dois amiguinhos. Umas "mamãs é que os encontraram horas depois, sem roupas, naquela praia lá longe, onde as mamãs cortam cajueiro"

A prostituição infantil é mais prevalente em Maputo e na Beira, mas tem vindo a crescer em Nacala, com uma população muito móvel e um grande número de trabalhadores dos transportes.

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"É Preciso Ver o Contexto Antropológico Africano"
Por POR ANA CRISTINA PEREIRA (TEXTO) E FERNANDO VELUDO (FOTO), em Nampula
Sábado, 27 de Março de 2004

D. Germano Grachane, que é natural de Inhambane, no Sul de Moçambique, alertou a conferência episcopal para o surgimento de corpos mutilados já em 2001, desconfiado de "ritos diabólicos" e de "superstições africanas". Nesta entrevista, Grachane foca-se nas tradições e na miséria para falar também no tráfico de pessoas. Junto ao porto de Nacala, afirma, há quem venda "a alma por um par de sandálias de plástico, por um pedaço de pão".

PÚBLICO - As denúncias feitas pela Igreja Católica desembocam em Nacala, com a referência a "cativeiros", mas a polícia só confirma um caso de desaparecimento para extracção de órgãos em 2001.

D. Germano Grachane - Sei que, em 2001, aqui, desapareceu, pelo menos, um menino. Um homem encontrou dois miúdos a vender baldes de fabrico artesanal e deu-lhes uma nota grande. Os miúdos não tinham trocos e ele disse-lhes que o acompanhassem. Perto da casa, o homem mandou o mais pequeno esperar e entrou com o irmão para nunca mais voltar. O miúdo esperou, voltou a casa, a família procurou, foi à polícia. O homem foi encontrado e confessou que o tinha morto para lhe extrair a língua. Encontraram não só o crânio do miúdo, mas também o de outros. Fiz o relatório para a conferência episcopal. Nunca mais se soube se era um psicopata, se era um doente mental, se era um praticante de cultos satânicos. A minha primeira reacção foi pensar em ritos diabólicos e em superstições africanas.

Que superstições?

É uma crença comum a várias tribos: comendo, por exemplo, um coração de uma pessoa, a gente fica corajosa. Sei que, no mesmo ano, no Monapo, uma adolescente foi buscar água e desapareceu... até que começou a cheirar mal. A população encontrou o corpo - a menina estava mutilada nos seios. Não vi. Estive com o pai da menina durante uma visita pastoral. A festa foi na casa dele, mas, em vez de se alegrar connosco, chegou à minha beira e começou a chorar e contou-me a tragédia.

Para fazer um transplante não podia ser...

Seguramente. É preciso ver o contexto antropológico africano. Conheço uma tribo que, quando há sucessão do régulo, escolhe-se um, que é coroado, mas não é verdadeiro. O régulo verdadeiro surge depois, durante a festa do falso. O primeiro é imolado para a entronização do segundo e este, para mostrar que é capaz de governar, deve abrir a barriga do falso régulo, já no terceiro dia de decomposição, chupar-lhe o sangue e atravessar o rio com o corpo a servir de jangada.

Que tribo?

Não quero dizer para não ofender. Com o grau de desenvolvimento dos direitos humanos... talvez já não o façam, talvez o façam em segredo, mas isto é um ritual de entronização de um régulo, o sentido colectivo de um povo - não é um mito. Mitológica é a crença comum, aqui, no chupa-sangue. O chupa-sangue é o quê? O homem mais rico da aldeia no meio da população faminta, magra. Acredita-se que tem poder de se transformar em vampiro e que, durante a noite, chupa o sangue das pessoas, por isso é gordo. A população diz: matou o pai ou o irmão ou o sobrinho e foi dar de comer aos peixes, por isso tem sorte naquele lugar. Para a população local, não há nenhum rico que seja rico só... É porque tem feitiço.

Como é que a Igreja Católica - que é minoritária - lida com isso?

É preciso começar de novo o anúncio de Deus vivo, amigo dos homens. Temos de ir à raiz. Nós, africanos, queremos a vida e temos medo da morte. Isso é humano. Queremos esconjurar o poder da morte, então há mil e um ritos para garantir que nenhum espírito nos faz mal...

Há muitos macuas muçulmanos e cristãos que continuam a seguir as tradições africanas...

É pelo medo. Ouvem falar de Jesus Cristo e dizem: "Se calhar, a verdade está deste lado". Mas, depois, pensam: "Eu deixei as minhas tradições e todos os velhos dizem que a verdade está na tradição". Vivem nesta angústia, praticam sincretismo religioso. Nenhum das religiões sacia a fome que têm de segurança, de certeza.

Há referências a crianças que são vendidas aqui e entram em redes de tráfico com ligações à Rússia, à Ásia...

Na Save the Children, apareceu um homem para vender uma criança. Queria vender para quê? Para ter dinheiro. A miséria é grande, então, vende para prostituição, para escravatura, para o que for. Não sou tão tímido que não ponha o dedo na ferida: há mil e um motivos... Falam numa casa que seria cativeiro de meninos. A polícia foi lá e não encontrou evidências. É sempre assim. A polícia não chega a nenhuma conclusão. É preciso lembrar que os régulos do litoral é que iam buscar os escravos ao interior. A escravatura é um facto ainda recente... Isso está no consciente.

Foi abolida há muito...

Ainda hoje existem tribos de vientes na província de Nampula. O viente (aquele que veio) não pode ter uma sombra de cajueiro, uma planta, ser proprietário. Existe um grupo que chegou primeiro, os senhores, quando se lembra solta os cabritos para devastar as machambas dos vientes e eles não podem reclamar. Nesse contexto, não custa nada o tal senhor ir buscar um filho do viente para vender. Tranquilo, porque é um escravo.

Esta a falar dos macuas, o maior grupo étnico do país, fixado, sobretudo, nesta zona?

Sim.

O que vale então uma vida?

Aqui? A vida é um farrapo. Mata-se uma pessoa como se mata uma galinha. O pai com medo diz: "Não vale a pena ir à polícia, o meu filho não vai ressuscitar, melhor acabar aqui mesmo, não sofremos mais". Existe um atitude de resignação, de desespero passivo.

E é fácil aliciar uma criança?

A fome é tanta que um rebuçado basta. Nem é preciso. Querem andar de carro, mesmo que depois tenham de fazer cinco quilómetros a pé, pela alegria, pelo prazer. Depois de se ter começado a falar nisto, as crianças mais conscientes já têm medo. Na minha pregação, estou sempre a alertar as famílias, conforme a conferência episcopal. Quando desaparece uma criança, na casa não se dorme até a encontrar.

Os meninos de rua é que não têm quem os procure...

Diminuíram! Porquê? Não sei. Talvez pelos alertas ou pelos factos. A guerra acabou há 12 anos, o cortejo fúnebre não. A urna foi enterrada num buraco, mas o cortejo - órfão, crianças de rua, desempregados, famintos, doentes mentais - ainda não chegou lá. Nem sei se 50 anos serão suficientes.

Insert:

Mitológica é a crença comum, aqui, no chupa-sangue. O chupa-sangue é o quê? O homem mais rico da aldeia no meio da população faminta, magra. Acredita-se que tem poder de se transformar em vampiro e que, durante a noite, chupa o sangue das pessoas, por isso é gordo. A população diz: matou o pai ou o irmão ou o sobrinho e foi dar de comer aos peixes, por isso tem sorte naquele lugar. Para a população local, não há nenhum rico que seja rico só... É porque tem feitiço.

 

 

Há Quem Venda a Alma por Um Par de Sandálias de Plástico
Por A.C.P.
Sábado, 27 de Março de 2004

PÚBLICO - Há muita prostituição infantil em Nacala?

D. Germano Grachane - De miúdas, principalmente. Isto é um ponto marítimo, ferroviário, pedonal e aéreo. Não sou sociólogo, mas não é preciso ser especialista para ver. Aqui é normal! Ao fim-de-semana, os comboios, os camionistas. Olhe, é tempo de paz de Dezembro a Maio. É uma vida paradisíaca.

Por causa da miséria?

Sim. Uma pessoa vive longe, lá no campo, vê Nacala iluminada e é atraída pela luz. Vem, não tem emprego, não tem casa e é mãe de família, pai... Vende a alma por um par de sandálias de plástico, por um pedaço de pão. O HIV dispara em flecha. Já pedi socorro, com base nas características da cidade, e temos um pequeno centro para aconselhamento e acompanhamento dos infectados que não têm cura possível.

Há curandeiros que dizem que sim...

Li, no "Savana" [semanário moçambicano], o que a chefe de Medicina Tradicional do Ministério da Saúde diz: "Não tenho provas para mostrar que não podem curar". Seria um "boom" científico.

Há hipótese de os curandeiros estarem a usar órgãos humanos?

Não conheço casos concretos, só posso responder com a antropologia. Aí entraria também a superstição. Estariam a fazer remédios.

Em torno do processo de Nampula, surge também a insinuação de que as congregações católicas estariam a ceder crianças para adopção internacional à revelia da segurança social...

Na minha diocese, não conheço nenhum caso de adopção. Tenho é casos de pessoas que pedem que indique alguém para mandar ajuda para estudar. Eu era o melhor aluno do seminário, em 1957, e havia um casal benfeitor - eram os meus "padrinhos". Como aconteceu comigo, acontece com outros. Isso é o tipo de adopção que se pode facilitar. De outra não sei. Como é que se manda a criança para a Europa?

Há um português retido...

Documentos falsos. O Governo acusou-o de tentar levar ilegalmente um menor. Um dos pontos negativos destas histórias de raptos é que os carros são de brancos que subornam os locais. Isto pode desencadear uma aversão colectiva. É preciso tirar essa história a limpo.

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WAMPHULA FAX – 30.03.2004

Cidadã Encontrada Morta Em Mecubúri

SEM ORGÃOS GENITAIS

-  polícia deteve seis pessoas indiciadas do crime

 

 Seis cidadãos que soubemos responderem pelos nomes de Ramos Jacinto, Xavier Maque, Bernardo Rafael, Celito Baessa, Pedro Frederico e Jacinto Paulino, este último delegado político da Renamo no distrito de Mecuburi, em Nampula, estão desde sexta-feira última a contas com as autoridades policiais indiciados da morte de uma cidadã, que em vida respondia pelo nome de Marta Paita, de 39 anos de idade, para lhe extraírem órgãos genitais (vulva).

     Xavier Tocole, director da Ordem Interna junto do Comando Provincial da Policia da República, explicou à nossa reportagem que do grupo dos presos fazem parte os alegados intermediários do crime, isto é que aqueles que terão supostamente recebido orientações de um “patrão” , cuja identidade se desconhece, para “arranjar” um órgão genital feminino, e os executantes.

     As investigações preliminares, levadas a cabo pela policia, levaram à confissão dos executantes do crime, que denunciaram terem sido contactados pelo delegado da Renamo ao nível do distrito, o senhor Jacinto Paulino, para executarem o trabalho com a promessa de receberem 10 milhões de meticais valor, que seria entregue na próxima semana, segundo explicou Xavier Tocole.

      Ainda ontem, o gabinete de imprensa havia prometido mostrar publicamente os indiciados da morte e extracção dos órgãos genitais de Marta Paita, facto que não passou de intenções por razoes que não foram esclarecidas por Oliveira Maneque, chefe das relações públicas do Comando da Corporação.

      Segundo soubemos, a morte da Marta Paita e seu filho de dois meses, este por razões que se presume estarem relacionadas com a falta de amamentação, aconteceu na passada segunda-feira na localidade de Milhane, que dista a cinquenta quilómetros da sede do distrito, quando regressava do centro de saúde onde, de acordo com dados avançados por alguns familiares e em poder da policia, tinha ido vacinar o seu bebé.

      Depois de morta, os homicidas trataram de arrancar-lhe a vulva, trabalho que se diz ter sido feito com mestria, que foi posteriormente entregue ao Jacinto Paulino, para levar ao “patrão” que se sabe apenas ter vindo, na véspera do crime, da cidade de Nampula.

      Uma equipa da Procuradoria da Republica já esteve no terreno para proceder os exames de peritagem, que incluíram a exumação do cadáver para confirmar-se a extracção dos órgãos, segundo soube a nossa reportagem da Policia.

  Ainda ontem, a nossa reportagem apurou que os seis indiciados do crime de homicídio e extracção dos órgãos genitais de Marta Paita, já foram en