Tráfico de Órgãos em Moçambique (3)

Conheça aqui as principais etapas deste assunto

 

VERTICAL – 12.03.2004

Conclusões válidas para 4 corpos exumados

 

(Maputo) O Procurador-geral da República, Joaquim Madeira, disse ontem ao parlamento que as conclusões apresentadas recentemente pela sua instituição segundo as quais não há evidências de mutilação de órgãos humanos em Nampula só são validas em relação aos quatro corpos exumados.

 

Madeira fez esse pronunciamento em resposta à inquietação dos deputados sobre o alegado tráfico de crianças e de órgãos humanos. Este assunto marcou  o informe do PGR que durante dois dias esteve no parlamento a falar sobre a administração da Justiça no País.

 

Falando em nome da bancada da FRELIMO, a deputada Açucena Duarte manifestou   profunda indignação e preocupação com as informações que dão conta da existência de redes que se dedicam a rapto de menores e tráfico de órgãos humanos em Nampula, Manica, cidade e província de Maputo e outros pontos do País. “A nossa posição sobre este assunto é clara. Nós estamos preocupados e queremos, a todo o custo, que se concluam as investigações para que os possíveis implicados sejam julgados e condenados pela justiça”.

 

Segundo ela, a gravidade do assunto exige serenidade e seriedade de todos na sua abordagem.

 

Outros aspectos que aparentemente não inquietaram os deputados da FRELIMO são as investigações morosas e não concluídas, como acontece no “caso Siba-Siba Macuacua”, “caso Pedro Langa” ou no “caso Armando Ossufo”.

 

“Os cidadãos deste país exigem o cumprimento escrupuloso dos prazos legais e jamais aceitarão que os órgãos de administração da justiça, reiteradamente, desrespeitem os prazos de prisão preventiva, de proferição duma sentença ou de cumprimento de pena”, disse açucena Duarte

 

Por seu turno, Manuel Frank, da RENAMO-União Eleitoral, disse que o Informe do PGR deu a entender que os problemas dos cidadãos estão a ser resolvidos, enquanto na verdade não estão. Acrescentou que, a “linha verde” disponibilizada para os cidadãos queixarem-se junto do PGR não está ao alcance de todos; beneficia os cidadãos de Maputo.

 

Sobre o tráfico de menores, Frank disse que a PGR trata o caso como se de um romance se tratasse. Segundo ele, não basta criar comissões de investigação, é preciso agir no momento próprio.

 

Um outro deputado da RUE, também mostrou-se preocupado com os casos Siba-Siba, Armando Ossufo, Pedro Langa, fuga de Anibalzinho. E disse que admira como estes casos nem sequer foram mencionados no informe do PGR.

 

PGR

Antes de responder às várias perguntas, o PGR afirmou que o tom das intervenções dos deputados confirma que a democracia está a crescer no País.

 

Conforme o PGR, o caso de alegado tráfico de menores e órgãos humanos está a dar um impacto não real da situação criminal do país. Ele mostrou-se indignado por não ter recebido nenhuma informação sobre o assunto por parte dos deputado do ciclo eleitoral de Nampula. “Se o primeiro caso dizem que é de 2002, porque os deputados não falaram? E acrescentou que só este ano é que teve informação do assunto via, Liga dos Direitos Humanos.

 

No dizer do PGR, para melhor investigação do assunto é necessário que as instituições da justiça se unam. Este não é um problema sem solução. “A Polícia, o Ministério Público todos temos que juntar esforços para investigar este assunto. Não precisamos que venham estrangeiros investigar o alegado tráfico de menores e órgãos no nosso País”.

 

Sobre o “caso Siba-Siba”, Joaquim Madeira disse que já foram ouvidas 59 pessoas. As diligências continuam e algumas delas estão a ser feitas fora do País. Adiantou que no estrangeiro, sem mencionar os países, está-se a accionar mecanismos para que os ministérios públicos locais possam prosseguir com as investigações.

 

Quanto ao “caso Pedro Langa”, o PGR avançou que houve uma detenção, mas depois de passado o tempo de prisão preventiva o implicado foi absolvido.

 

Sobre o assassinato de Armando Ussufo, Madeira disse que em conexão com esse caso estão detidas pito pessoas e o processo encontra-se em andamento.

 

A cerca dos carros quentes de Cabo Delgado, Madeira comentou que o Ministério Público interpôs um recurso ao Supremo por não ter ficado satisfeito com a sentença do caso que absolveu   os acusados . (Arménia Mucavele)

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CORREIO DA MANHÃ - Maputo

TRIBUNA

(SAI ÀS SEXTAS FEIRAS)

Coluna de João CRAVEIRINHA

email: craveirinhajoao@mail. pt

HIS MASTER’S VOICE

(A Voz de Seu Dono)

Cão Que Ladra Não Morde

Cão que ladra não morde diz um velho rifão mas o promotor também ladra e morde mais do que um cão

(in Poemas da Prisão de José Craveirinha)

Quando eu era miúdo, anos 50, o “show” que me dava imensa satisfação era dar a corda ao Gramophone – nosso gira-discos de então – e colocar a tocar discos de 78 rotações por minuto.

A marca discográfica HIS MASTER’S VOICE era muito popular e sua representante – a Casa A. W.Bayly fundada em 1898, em Lourenço Marques e mais tarde integrada na Minerva Central. Literalmente o nome queria dizer “A Voz do seu Dono His Master’s Voice”. No logótipo tinha um cachorro branco (ou albino), a ladrar para dentro de um altifalante. Era a voz do seu dono.

Este “bolo dório” todo vem a propósito de alguns desmentidos que têm surgido em relação ao alegado “Tráfico de Órgãos Humanos e Desaparecimento de Crianças e de outras pessoas”. A defesa do investimento estrangeiro sobrepõe-se aos valores humanos tentando diluir este assunto macabro e tenebroso. Invocam-se números financeiros de investimento, estatísticas e projecções de viabilidade económica para Nampula, local alvo desta polémica toda do tráfico de Órgãos Humanos.

Freiras católicas espanholas e brasileira que denunciaram a possibilidade deste “execrável negócio” têm sido vítimas de ameaças de morte – segundo as organizações a que pertencem.

Informações indicam que as freiras espanholas se encontram protegidas pela polícia de seu país – a

Guardia civil – que têm acordo de cooperação com o Ministério do Interior de Moçambique. E a

segurança da brasileira? Cadê a Embaixada do Brasil? Já que Moçambique é incapaz?! …

Após o recente assassinato em Nampula de uma missionária brasileira evangélica, de imediato,

surgiria uma contra-informação no sentido de não conotar com o alegado tráfico de órgãos humanos.

De facto existem contornos muito estranhos sobre este assunto. A quem interessam este encobrimento?

Fala-se de ligações internacionais desde o Brasil, África do Sul, Israel, Portugal, Espanha, Itália… tanto quanto se sabe nesses países mais desenvolvidos existem empresas/clínicas privadas de luxo para o negócio de transplante de órgãos humanos e nunca foram contactados. Pelos vistos a procura deve ser enorme para Moçambique passar a estar no roteiro internacional do Tráfico

de Órgãos Humanos, caso se confirme no nosso país.

No entanto uma questão devia ser ponto de honra – averiguar até às últimas consequências e separar o que é boato dos factos reais. È possível que se esteja a misturar rituais de feitiçaria com

extracção de órgãos para transplantes que necessitam de conhecimento cirúrgico e acondicionamento em sistema de congelamento especializados.

Na era colonial, em Lourenço Marques, crianças e adultos, desapareciam algumas delas seriam

encontradas mortas, à posteriori, no pântano da “Lagoa da Bogaria”, mas sem órgãos tais como

rins, olhos, coração, órgãos genitais, etc. (O nome bogaria surge como corruptela de porcaria por se situar na antiga lixeira hoje Ferro velho depois do aterro nos finais dos anos 60. Esse pântano encontrava-se situado depois do bairro da prostituição das Lagoas). Muitos desses desaparecimentos eram atribuídos a um português cantineiro, alcunhado de Guiguisseca, com vivenda na zona da Polana/ Museu que se dizia vendê-los (os órgãos extraídos) para a África do Sul. Os rumores já vêm de longe.

É de se bradar… NHAN-DA-Ê-YÉEE… quem nos acode?

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Savana Maputo  12.03.04

 Espinhos da Micaia

 A vez da igreja católica

 Por Fernando Lima

 

Todos sabemos das humilhações infligidas às confissões religiosas no pós independência.

Todos sabemos que o laicismo do novo Estado nascido no 25 de Junho não desculpa os abusos e excessos.

Também sabemos da hierarquia das religiões durante o colonialismo. Sabemos da colagem da religião do Vaticano ao regime de Salazar-Caetano, mau-grado Paulo VI.

E também sabemos que à revelia da orientação oficial, seminários, missões, locais de culto serviram de alfobre ao movimento de libertação.

A Igreja Católica soube resistir ao despojar de bens, ao insulto gratuito, à propaganda hostil. A igreja nunca deixou de emitir as suas cartas pastorais. Manuel Vieira Pinto e Jaime Gonçalves, mais difícil para este que para aquele, confrontaram Samora quando era difícil fazê-lo.

O bispo da Beira é um dos arquitectos do quadro de paz de que todos desfrutamos.

A igreja católica, mais ágil e pressionante que as outras confissões, com diplomacia e com algumas ameaças insinuadas, tem hoje de volta grande parte da propriedade perdida depois da independência. Chissano e muitos dos seus pares, “ renascidos cristãos”,  fazem-se filmar nos templos nas datas mais marcantes do calendário litúrgico.

Com toda esta pacificação, nada fazia prever a “explosão católica” a propósito do alegado tráfico de órgãos humanos que tem epicentro em Nampula.

Vozes avisadas fazem notar que não é a igreja católica. D. Jaime, responsável pela Conferência Episcopal tem-se pronunciado com grande reserva, não obstante “dar a cara” por Nampula. O bispo local mantém-se silencioso. A Nunciatura não se pronuncia mas são conhecidos os apelos privados à moderação.

Restam os serviços missionários, autores do comunicado incendiário divulgado pela imprensa e os seus amplificadores centrados em Portugal. Não há beato de redacção (ou sacristia?) que não tenha vindo a público com relatos aterradores de morticínios em Nampula, na Beira, Gondola, Mandimba. Até um deputado no Parlamento Europeu, cujo partido trata Moçambique por “antigo ultramar português”, se desdobrou em frenéticos telefonemas para as chancelarias de Maputo para se inteirar da câmara de horrores em que o país se transformou.  Há Nampula e há  renovação de mandatos em Estrasburgo nos próximos meses.

Revanche ou não, unânime ou não, é a primeira vez que a igreja católica se envolve, com a dimensão nacional e internacional que conhecemos, a partir de acontecimentos numa província islamizada e com um governador de origem muçulmana.

É a vez da igreja católica quando em todo o mundo, mas sobretudo nos Estados Unidos, há um enorme escândalo envolvendo ministros da igreja de Cristo em práticas sexuais com menores.

O Estado e as suas instituições executivas parece não se terem apercebido da dimensão do problema que não se reduz à exploração degradante de menores dos extractos mais pobres da sociedade moçambicana.

Ao Estado, mas não só, compete dar as respostas adequadas a esta nova crise que nos estoirou entre portas.

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EL PAIS - Madrid


Decenas de niños han desaparecido y han sido mutilados en Mozambique  Añadir a Mi carpeta

Religiosas españolas denuncian la existencia de una supuesta red de tráfico de órganos

 

 

ANA CARBAJOSA (ENVIADA ESPECIAL) - Nampula

 

EL PAÍS | Internacional - 11-03-2004

 

 

 

 

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Marcelino, de 13 años, sentado delante de su casa en Nampula, cuenta cómo consiguió escapar tras ser secuestrado por unos hombres blancos.
(ANA CARBAJOSA)
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"Pasé mucho miedo. Los blancos me querían matar para comerme", dice un niño secuestrado

 

 

 

 

 

"Le faltaban un ojo, las manos y tenía el cuerpo abierto en canal. ¡Estaba vacía!", relata un testigo

 

 

 

 

 

"Quiero vender a este niño por 80 millones de meticais (3.200 euros) ofreció Dionisio

 

 

Marcelino salió de su casa en Nampula (Mozambique) el 6 de enero para ir a bañarse al río. En el camino encontró a dos hombres blancos que le obligaron a subirse a su coche. "Tuve miedo y empecé a correr. Lloraba muy alto. Me cogieron y me metieron en el coche. Me taparon la boca con un pañuelo y me ataron los pies. Hablaban una lengua que yo no comprendía. Entonces llegamos a los bambúes (a las afueras) y me metieron en una habitación oscura", cuenta Marcelino, de 13 años. Él logró escapar. Pero decenas de niños han sido secuestrados, asesinados y mutilados en tres meses en Mozambique en una trama denunciada por monjas españolas.

"Dentro había cuatro niños y una niña que yo no conocía. Pasamos allí mucho rato hasta que aparecieron unos hombres que me habían oído gritar en la carretera. Se pelearon con el guardián de la casa y tiraron abajo tres puertas. Nos soltaron", cuenta hoy Marcelino, el muchacho de 13 años que logró escapar de sus captores. "Pasé mucho miedo. Los blancos me querían matar para comerme", relata en voz baja con la mirada clavada en el suelo.

Ahora Marcelino se refugia en la casa de su tía para que no le encuentre la policía que le amenaza para que no hable de lo sucedido. De poco le sirve. Mientras rememora el rapto, un coche de la policía aparece en las inmediaciones de la casa de su tía. Se para a unos 15 metros y permanece ahí el tiempo suficiente para ser visto. A los pocos minutos se va. No ha vuelto a ver a aquellos blancos, pero dice que si los viera tal vez los reconociera. Tampoco ha vuelto a ver a los otros niños. Aún tiene miedo y por las noches sueña que le secuestran. Ya no se atreve a salir solo. "Ni al río a bañarme. Ahora me lavo en casa". Una precaria construcción de adobe y tejado de paja, similar a las miles, que divididas en barriadas configuran la ciudad. Donde las palmeras y las montañas de basura conviven con unos 200.000 habitantes.

Otros 50 niños, de entre 12 y 15 años, no han tenido la suerte de Marcelino y han desaparecido en Nampula, tierra de la tribu makua, a 2.000 kilómetros al norte de Maputo, en los últimos tres meses. Siete cadáveres han aparecido además en las inmediaciones del convento de las Siervas de María, sin órganos. Tras asistir a varios intentos de rapto de menores, las religiosas (cuatro de ellas españolas) denuncian la existencia de una red internacional de tráfico de órganos con sede en esta ciudad, encabezada por un matrimonio que vive en una finca colindante, que, según las monjas, cuenta con la connivencia de la policía y el Gobierno de la provincia. Las religiosas aseguran que hablar les ha costado más de una amenaza, y ahora temen por su vida.

Las autoridades niegan que exista esa red y fuentes médicas y antropológicas aseguran que la extracción de órganos obedece a la práctica de magia negra en la región. Pero los niños continúan desapareciendo y en Nampula, sus habitantes viven atemorizados ante esta ola de secuestros y asesinatos. La española sor Juliana (María del Carmen Calvo) encabeza junto a la hermana brasileña María Elilda do Santos la guerra sin cuartel declarada al Gobierno, la policía y los sospechosos.

El cuerpo de Salima Iburano, de 12 años, fue uno de los siete que han aparecido sin órganos, según los testigos. Su madre, Mwaziza Francisco, de 29 años, enferma de malaria, recuerda lo sucedido. A su lado, la prima de Salima, Amizinha Osene, de 11 años, que se separó de su prima poco antes de que destrozaran su cuerpo. Desde entonces, apenas se comunica. Mira con ojos tristes y a veces asiente con la cabeza. Mwaziza cuenta lo sucedido. "Salima vendía bananas en el mercado de la Memoria. Ese día salió con su prima a vender. Cuando Salima volvía a casa dos hombres del vecindario le dijeron que le comprarían todas las bananas si les acompañaba. Esa noche no volvió a casa y la buscamos hasta el amanecer". Mwaziza llora y continúa entre lágrimas.

"Al día siguiente una vecina anunció que habían encontrado muerta a una niña que vendía bananas. Supe que era mi hija. Fui a buscarla. La policía me preguntó cómo iba vestida. Llevaba una saya negra. Una blusa roja. Una bolsita con dinerito y unas cuantas bananas en un balde con tapadera. 'Entonces es su hija', me respondieron y me pidieron 250.000 meticais (unos 10 euros) para investigar el caso. No vi el cadáver ya estaba tapado con la capulana (tela que se anudan las mujeres en Mozambique a modo de falda). Pero la reina, como conocen en el barrio a la jefa local sí vio el cuerpo. Fue ella quien la amortajó. Ahora está muy enferma de malaria. Gruesa, medio desnuda y sudorosa habla en la oscura habitación llena de mugre en la que vive. "Estaba tirada en el suelo, junto a la bandeja de bananas. Le faltaba un ojo, la lengua, las manos y tenía el cuerpo abierto en canal. ¡Estaba vacía! Sin tripas y sin el sexo".

En el convento de las Siervas de María, mientras habla la madre de Salima, una monja llega corriendo a avisar a sor Juliana, la madre superiora. Unos hombres vienen a denunciar la desaparición de su sobrina. En la puerta del monasterio dos campesinos cuentan que han perdido a una niña de 14 años, cuando se dirigían al sembrado. Comienza el protocolo habitual: las monjas les acompañan a la radio y les dan dinero para que radien la pérdida. El anuncio cuesta 30.000 meticais (algo más de un euro). El paso siguiente es la denuncia en comisaría. Pero cuando llega el momento los familiares de la desaparecida huyen. Tienen miedo de la policía. Esa rutina se repite cada semana. Así hasta 50.

El redactor jefe de Radio Encuentro es incapaz de dar una estimación del número de anuncios de desapariciones de menores que han emitido en los tres últimos meses. Tampoco tienen una lista con los nombres de los niños. Un listado que la policía les reclama. Las hermanas también dicen tenerla, pero todavía nadie la ha visto.

En la comisaría, de paredes desconchadas, un ventilador alivia el calor sofocante y espanta a los mosquitos portadores de malaria. El subcomandante de la policía de Nampula, Xabier Tocoli, habla: "No hay cuerpos sin órganos. El cuerpo de Salima estaba entero. El de la mujer de los combonianos fue simplemente un aborto clandestino". Y así, repasa una por una las denuncias, negándolas o reduciéndolas a crímenes comunes.

Además de los menores identificados, decenas de niños de la calle han sido también secuestrados en los últimos meses, utilizando como señuelo dinero, azúcar o "una cartera bonita para la escuela", afirma sor Juliana. "En la última cena de Navidad había 20 niños de la calle. El año anterior habían sido 90", afirma e insiste en que el mes de febrero ha sido especialmente abultado el número de desapariciones. Un trabajador social de la zona maneja cifras parecidas. No existe ningún registro de los niños de la calle, ni ninguna estimación de su número y resulta difícil comprobar estas desapariciones.

Juliana no está sola, las 28 monjas del convento (4 españolas y 24 mozambiqueñas hablan con una sola voz). El resto de la comunidad religiosa de Nampula también las apoya hasta el punto de haber escrito una carta dirigida al presidente de Mozambique, Joaquim Chissano, exigiendo una solución al problema.

El goteo de muertes violentas y la aparición de cuerpos mutilados habían despertado las sospechas de las religiosas y de parte de la población desde hace tiempo, de que la pareja de extranjeros vecina de las monjas, el surafricano Gary O'Connor y la danesa Tanja Shytte, conocidos como "los blancos", estaban al frente de la supuesta red de tráfico de órganos. Pero la desconfianza se tornó en acusación directa el pasado 15 de julio cuando un joven llamado Dionisio acudió a la casa de los blancos para vender a un niño. "Quiero vender a este niño por 80 millones de meticais (3.200 euros)", relató el vendedor. La pareja de extranjeros no estaba en casa y los vigilantes de la finca llevaron al criminal al convento para que las monjas tuvieran conocimiento del caso. De ahí fueron hasta la comisaría y hoy el vendedor cumple condena en prisión. Desde entonces, las hermanas oyen avionetas aterrizar en el aeropuerto (también junto al convento) por la noche. Piensan que acuden a recoger los órganos de los muertos.

O'Connor y Shytte, y sus respectivos gobiernos, defienden su inocencia y alegan que su acusación obedece a un antiguo conflicto de tierras. El Gobierno de Nampula concedió hace tres años 300 hectáreas de terreno al joven matrimonio (34 años, ella, y 36, él) para montar una granja de pollos. En él trabajaban desde tiempo inmemorial cerca de mil campesinos que fueron expulsados tras la venta (considerada ilegal por la comisión anticorrupción del Gobierno). Por eso nunca han sido bien vistos en la ciudad, pero desde que las monjas lanzaron la acusación son además temidos y odiados a partes iguales. La mera idea de aproximarse a su finca produce pavor a los nampuleños. Consideran la hacienda de "los blancos" una especie de casa de los horrores.

Shytte, de 34 años, es rubia y muy menuda. Le tiemblan las manos y se le atascan las palabras en la garganta. "Soy inocente, ¿cómo pueden decir que nos comemos a la gente. En misa los curas aconsejan a la gente que no se acerque a nuestra casa. Esto empieza a ser muy grave. Esto sólo tiene que ver con lo de la tierra", asegura tajante en el cibercafé que regenta en el centro de la ciudad.

Su abogado, Marcel Jones Muhahe, explica que la pareja ha sido detenida una única vez el pasado diciembre y tras pasar tres días en prisión salieron en libertad, aunque ahora deben presentarse cada 15 días ante el juez. Los motivos de la detención: tráfico de drogas, ocultación y rapto de menores y supuesto tráfico de órganos. Ahora el proceso está en fase de instrucción y la Fiscalía decidirá esta semana si incoa el juicio. Las autoridades locales desmienten las informaciones de las religiosas y argumentan que los hechos no han sido suficientemente investigados. Es lo que sostiene, el gobernador de la provincia, Abdul Razak, un reputado médico. "No hay ningún cadáver en el que haya evidencia de extracción de órganos. Tampoco ha habido desaparición de menores. Aunque sí hay cuatro detenidos en relación con los intentos de venta de personas. La investigación debe continuar. Pero nos tienen que dar información, datos que no tenemos. Las monjas hablan con la prensa, pero no con nosotros", se queja Razak.

El Gobierno de Maputo envió el mes pasado un equipo a Nampula para investigar el caso. Interrogaron a varias personas y exhumaron cuatro cadáveres. El resultado de las pesquisas lo plasmaron en el "Informe preliminar de la Fiscalía", que no ha dejado satisfecho a casi nadie. Determina que no ha existido extracción de órganos y constata la "continua" desaparición de menores, pero no entra a investigar la materia.

El fiscal jefe de Nampula, Daniel Magula, anuncia que reabrirán el caso. "Las investigaciones siguen adelante. Tanto en el tema de órganos como de desaparición de menores. Pero nosotros y la policía tenemos un serio problema de falta de medios. No tenemos ni siquiera un coche para desplazarnos", reconoce el fiscal, que aún no ha conseguido el dinero suficiente para poder terminar su carrera de Derecho.

Desaparecen niños y aparecen cuerpos in órganos, pero ¿es factible la hipótesis del tráfico de órganos? Varios médicos consultados descartan que en Nampula existan los medios para extirpar órganos para trasplantes. "Extraer un órgano requiere una técnica quirúrgica. Luego se necesita un medio frío para poderlo conservar. En Nampula no se dan las condiciones para hacer eso. Aunque una avioneta transporte los órganos, hace falta un quirófano para la extracción. Los órganos que dicen que faltan (lengua, ojos, genitales) no son trasplantables y además, por las costuras y las secciones se nota cuando un órgano ha sido extirpado para un trasplante. Yo me inclino más porque sea una cuestión de ritos", apunta Gonzalo Martín, cirujano en Mozambique desde hace nueve años. Una posibilidad que cada vez cobra más fuerza a la hora de explicar la aparición de cadáveres mutilados, aunque no da repuesta a las decenas de desapariciones de menores.

Este tipo de ritos que incluyen la antropofagia se realizan en algunas zonas de los países litorales del Índico (Tanzania, Mozambique y África del Sur sobre todo). En Nampula, la mayoría de la población, musulmana, también practica el animismo. "Existe una creencia por la que un hombre que quiere convertirse en líder de su comunidad debe tomar una poción mágica hecha de partes del cuerpo humano. Estas ceremonias se hacen en clubes secretos a los que no puede acceder quien no pertenezca a la comunidad. Nadie reconoce haber participado en una, pero se practican", explica el antopólogo Victor Igreja, que investiga los traumas de la guerra en Mozambique. Durante ese periodo (1977-1992) los líderes guerrilleros pensaban que comer carne humana era una manera de burlar la muerte y de inmunizarse ante los disparos del enemigo. Igreja también habla de los Gamba, curanderos del centro del país, que durante su formación deben ingerir órganos humanos y raspaduras de huesos, que mezclan con harina.

Aibua Ussene es un curandero de Nampula que se trasladó a Maputo ante la creciente demanda de pacientes capitalinos (la medicina tradicional es el único acceso al sistema de salud para el 60% de la población del país, según fuentes del Ministerio de Salud). "Cura las dolencias: gonorrea, dolor de columna, malos espíritus. No curamos sida. Sólo reducimos los dolores", reza un tablón a la entrada de la consulta en un barrio mísero de la periferia de Maputo. Dentro, sentado en una esterilla, el curandero se rodea de sus útiles de trabajo: cáscaras, cortezas, mejunjes, ungüentos, pelo de animales, cuernos, cetros, velas y un ejemplar del Corán. Cura mediante la impresión de suras del Corán con sangre de gallina, mezclada con azafrán. También receta baños en sangre de cabrito.

Ussene asegura que no utiliza partes del cuerpo en sus ritos, pero no duda de que los sucesos de Nampula son obra de feticheros (a diferencia de los curanderos echan mal de ojo). La gente con dinero acude a ellos para tener más y ser respetados en la comunidad. El fetichero les ordena matar a alguien de su familia y extraerles el hígado o el corazón. "Cuando hacen sus sesiones también comen partes de personas para fortalecerse".

Hay antecedentes de tráfico y de mutilaciones de cuerpos en la zona y en todo el país. En octubre del año pasado un grupo de individuos le extirparon el pene y los testículos a un menor de nueve años en Manica. La foto del menor, desnudo y mutilado aparece de nuevos estos días en la prensa. Días antes, en Chimoio, un menor había sido encontrado sin corazón. Unos mil niños y niñas son reclutados al año en Mozambique, de acuerdo con un estudio de la Organización Internacional de las Migraciones publicado en 2003.

También el año pasado, el Ministerio del Interior de Mozambique organizó un seminario para tratar el problema del tráfico de menores. Según los datos aportados en aquel encuentro es en las zonas rurales donde más casos se dan y la mayoría de lo menores raptados se ven obligados a trabajar en prostíbulo o son víctimas de canibalismo. En total, 1,2 millones de niños son vendidos al año en todo el mundo, siendo los países africanos los mayores proveedores, según Unicef.

La Liga de Derechos Humanos de Mozambique fue la que interpuso la demanda ante la justicia a petición de las monjas. Su presidenta, Alice Mabota, certifica que hay tráfico de menores en el país, a su juicio destinados a redes internacionales de prostitución y de trabajos forzados con sede y escala en Suráfrica, vía Brasil. También asegura que hay extracción de órganos, aunque no descarta que puedan ser utilizados para prácticas rituales. Y ante esto "la policía no hace nada. El trabajo de la policía de Nampula es inexistente. La policía protege a los traficantes". La conversación con Mabota se interrumpe, el fiscal general llama y avisa de que ha aparecido un adolescente con la cabeza cortada en los alrededores de Maputo. Mabota sale corriendo.

 

 

 

SAVANA Maputo  12.03.04
Missionários em Nampula pronunciam-se sobre o alegado tráfico de órgãos e sentenciam
ELILDA NÃO TEM CREDIBILIDADE
Nampula no centro do furacão

HISTÓRIA DE UMA MISTIFICAÇÃO EM NOME DA CRIANÇA
Paola Rolletta e Naita Ussene em Nampula

Tudo começou quando um casal, a viver numa propriedade nos arredores de Nampula,  foi acusado por uma leiga brasileira do convento Mater Dei, vizinho deste casal, de traficar crianças e órgãos humanos. A religiosa em questão, Elilda Santos, entre muitas outras afirmações rocambolescas, diz que nos últimos meses meia centena de crianças teriam desaparecido da cidade e muitas foram  encontradas sepultadas, em campas perto da propriedade do casal, sem órgãos internos. Para dar mais veracidade à história, Elilda exibia para as câmaras um saco plástico com rótulo relacionado com cirurgia. Num país onde não há depósitos sanitários para lixo hospitalar, tal "prova" não é difícil de desenterrar...
Por uns minutos na televisão...
Enquanto os media de meio mundo, sobretudo brasileiros e portugueses, disparam entrevistas à irmã brasileira, Maria Elilda dos Santos e outras missionárias espanholas do Convento Mater Dei das Servas de Maria, onde até há pouco a brasileira estava hospedada, o mundo dos missionários da província começa a dividir-se. O comboniano italiano Giuseppe Brunelli é
peremptório e comenta: "Estamos perante uma ficção missionária. Parece que esses missionários não querem o desenvolvimento das pessoas daqui. Se Comboni fosse vivo de concerteza que daria um murro na cara da brasileira..." Do mesmo parecer é o padre Mário Maloquiha, pároco de Santa Isabel da Namaita, onde Elilda dirigiu um projecto financiado pela Arquidiocese de São Paulo: "Falem com a população daqui. A senhora não tem credibilidade nenhuma".
Começa a haver também uma ruptura entre a missionária brasileira e as freiras espanholas e sobretudo uma cisão no seio dos católicos em Nampula. Elilda recusou dar-nos uma entrevista porque tínhamos já falado com a superiora do convento Mater Dei, irmã Juliana. "A irmã Juliana anda a dizer coisas que eu é que devo responder na Procuradoria", alegou a brasileira que tínhamos encontrado  quarta-feira da semana passada no aeroporto de Nampula a despedir-se da outra missionária, esta luterana, também brasileira, assassinada no mês de Fevereiro.
A Igreja Católica, como instituição, não tomou até agora uma posição oficial nesta história. Apenas Jaime Gonçalves, o bispo da Beira e presidente da Conferência Episcopal Moçambicana, mostra a sua "preocupação", e convida à investigação pelas autoridades.
"Esqueletos no armário" ?
Soubemos, em Nampula, que os missionários e religiosos queriam organizar uma manifestação pública. Não decorreu supostamente porque também as missões têm "esqueletos nos armários". "Há alguns anos, três missionários, um sacerdote e dois frades, foram transferidos para outros países acusados de pedofilia", disse-nos um missionário que quer manter o anonimato.
Coisas estranhas passam-se na quinta do casal Gary O'Connor e Tanya Skytte, dizem as freiras do convento Mater Dei. Coisas estranhas passam-se também na comunidade religiosa onde vivem freiras espanholas e a missionária brasileira. "Os meninos daqui têm medo dos carros que não conhecem e dos brancos", disse-nos o padre Rodrigues, da ordem dos Servos de Maria. "Eles sabem reconhecer os brancos bons dos maus", diz quando argumentamos que não têm medo de nós, apesar de perfeitos desconhecidos para as quatro meninas e um menino que ele acompanhava ao Convento.
Os cães ferozes
Não há nenhum portão nem cão feroz a guardar a quinta onde se faz o alegado tráfico de menores e órgãos. Estávamos à espera de um aparelho de segurança formidável. Chegámos e como não vimos ninguém batemos as palmas, como se vê nas telenovelas brasileiras. Veio Dona Aissa e três cães, que ladraram quando nos viram. O casal, Gary O'Connor e Tanya Skytte, ele zimbabweano mas de nacionalidade sul-africana, 36 anos, ela dinamarquesa, 34, não estavam em casa. Tinham ido à cidade tomar conta do Internet café que inauguraram em Dezembro passado no centro de Nampula. Demos uma volta pela quinta onde vimos os aviários que albergam 5.000 frangos, vimos os trabalhadores moçambicanos e um zimbabweano, a trabalhar na secção de frio, onde os frangos são tratados para serem vendidos na praça e assados no take-away Farmfresh, propriedade do casal, ao lado do Internet café.
A quinta tem uma extensão de 300 hectares e está rodeada de propriedades de várias ordens religiosas: da arquidiocese a oeste, a sul o seminário dos combonianos, a seguir o convento da Mater Dei e oeste as carmelitas. A norte há  a propriedade estatal de investigação agro-ambiental. O espaço da quinta era uma grande machamba estatal até ao ano 2000 cujo direito de uso e aproveitamento foi dada ao casal, seguindo aparentemente os trâmites
exigidos pela Lei de Terras. O casal tinha pedido um terreno onde montar um aviário "de alta tecnologia", e para cultivar milho e frutas. Apresentou o projecto, foram-lhes propostos três terrenos, eles escolheram este porque ser perto da estrada alcatroada para Nampula.
A concessão levou ao desalojamento de camponeses que se instalaram no terreno depois da falência da leiteira estatal o que provocou protestos das religiosas e líderes comunitários. Só que, como nos disse o secretário do bispo, padre Emílio Giorgi, o anterior governador da província de Nampula tinha concedido, verbalmente, este terreno à igreja católica. O
mesmo alegam os camponeses das redondezas que apresentaram um abaixo-assinado ao actual governador Abdul Razak onde diziam que "...Sua Excia o governador Mualeia, o qual fez uma autorização verbal para o uso e aproveitamento daquelas áreas."  A Comissão Contra a Corrupção, recentemente criada, concluiu que a concessão foi feita "sem observar com rigor a Lei de Uso e Aproveitamento da Terra, no que diz respeito ao direito das comunidades que vinham ocupando aquela área de boa-fé ".
Abdul Razak, foi o primeiro governador de Nampula de ascendência islâmica nesta  província predominantemente muçulmana, a ser indigitado pelo Presidente Joaquim Chissano e até agora tem estado acima de qualquer suspeita de parcialidade. Razak disse ao SAVANA que "durante o processo, o meu gabinete reuniu-se com os líderes comunitários para acomodar o interesse das populações ao do casal" acrescentando que ficou convencido "que poderiam ser acomodados todos os interesses".  Mas assim não aconteceu. Muitos dos líderes comunitários perderam o dinheiro que
obtinham ilegalmente dos camponeses sobre as "machambas" cultivadas no terreno da quinta.
E as freiras do convento Mater Dei, onde a missionária brasileira Elilda dos Santos estava em retiro espiritual desde dia 6 de Julho do ano passado, também perderam as pretensões àquela terra. Quatro das testemunhas apresentadas pela irmã Elilda contra o casal que acusa do tráfico de menores e órgãos humanos, são líderes comunitários "prejudicados".
Psicose do rapto de crianças
Ao movimento habitual de carros e pessoas em Nampula, juntaram-se nas últimas semanas os jornalistas estrangeiros que continuam a chegar. As mães estão apreensivas à espera que os filhos cheguem da escola. Agora o clima está um pouco mais calmo, dizem as várias pessoas com quem falamos.
Não diz o mesmo o barbeiro Nunes Paulino, da Barbearia Arte Nova em Nampula. "Chamei um menino, vizinho da minha namorada, para lhe dizer que ela viesse ter comigo. Dessa vez dei-lhe uma moeda . Nisto vem o pai do miúdo, acusar-me de querer raptar o filho dele. Espancou-me. Os vizinhos acorreram e finalmente fomos à esquadra. Fomos todos interrogados. O menino desmentiu o pai, que nem chegou a apresentar queixa-crime contra mim. Mesmo assim fiquei sete dias na cadeia. Se não fosse a intervenção do meu patrão ainda lá estava". Isto ocorreu em Fevereiro. O senhor Abdul
Gafur confirmou e até acrescentou: "Pode haver pessoas que se aproveitam desta situação nesta terra onde o custo de vida é alto e a vida das pessoas vale pouco. Mas antes de acusar, porque é que a polícia não investiga?"
O chefe dos procuradores provinciais, Daniel Magula, admitiu a "falta de meios" do seu serviço. "Alguns agentes da Polícia de Investigação Criminal não têm formação adequada e a própria força luta com falta de meios, mas na Procuradoria a situação ainda é pior".
Os meninos de rua têm medo dos "brancos"?
O mercado está cheio de gente. Os meninos  pedem esmola ou vendem objectos de pouco valor: isqueiros, corta-unhas, colares. Muitos deles têm pai e mãe mas vivem na rua. Outros são meninos da rua. À noite encontram abrigo, por exemplo, no átrio da Catedral da cidade, por isso são os meninos da Catedral. Vivem divididos em grupos: há os da Rotunda, os da Ferrovia. Na Estação dos Caminhos de Ferro, onde cada dois dias chega o comboio que vem de Cuamba, já não há crianças a dormir: uma disposição dos Caminhos de Ferro de 19 de Dezembro do ano passado correu com eles porque criavam problemas e eram acusado de roubar nos contentores. Junto à Catedral, no dia em que os visitámos, contámos 17. Uns vêm de Nacala (200 Km de Nampula), outros são da cidade, um é de Lichinga. "Costumam vir brancos? ", perguntamos. Responderam que já faz tempo que não vão, "Acabou o contrato deles. Antigamente vinham americanos aqui para nos dar comida e roupa da organização deles. Mas agora o contrato acabou e se foram embora", disse-nos o Túlio, 15 anos. Perguntamos se tinham conhecimento de rapto de menores. Um deles disse-nos que sim, quatro amigos dele foram raptados por um branco e foram levados num carro de vidros fumados para uma localidade de que conhecia o nome. Perguntamos como sabia o nome, uma vez que não tinha sido levado também. Disse-nos que duas crianças tinham fugido e contado. A irmã Elilda levou o adolescente ao mosteiro e daí para ser ouvido pelo Procurador. Foi posto numa casa de acolhimento pela acção social mas fugiu.
Na Rotunda encontramos Jorjito, é de Mocímboa da Praia (província de Cabo Delgado) e conhecido pelos outros como "o tanzaniano". Mocímboa fica a centenas de quilómetros de Nampula. O fluxo migratório dos adultos é muito variável e incontrolável. O dos menores ainda mais. Um secretário de um bairro de Nampula disse-nos que o número de núcleos familiares varia de um dia para outro. "Hoje podemos ter 50 famílias, mas amanhã já podem ser 48 ou 52."
Recebemos um telefonema a dizer que um menino deu entrada no hospital tendo sido alvo de uma tentativa de amputação de sexo. Augusto Paulo, 10 anos, afirma que uma senhora negra mostrou-lhe uma nota de cem contos.
Prometeu dar-lhe a nota se entrasse no carro. Augusto entrou e conta que foram para o mato junto à  FAINA (Feira Agrícola), onde saíram do carro. A senhora puxou-lhe o sexo e tentou cortar com uma faca. Augusto estava sentado numa cama dum dos quartos da cirurgia dois do Hospital Central de Nampula. Os outros doentes também lhe faziam perguntas. E ele, com ar tímido mas conversador, respondia. A senhora já não tinha faca, mas sim tesoura. O conto de Augusto continua. Diz que começou a gritar, chegou gente, a polícia que não falou com ele e um homem com um carro levou o
Augusto para o hospital. "Como é qu0e os pais do Augusto agora sabem que ele está cá? Podem pensar que desapareceu", dissemos. Alguém nos disse que o senhor do carro teria ido à Rádio Encontro fazer um anúncio. No dia seguinte encontramos o Augusto na rua, pediu-nos uma moeda. Dois dias depois o Augusto disse-nos  que a mãe queria que ele fosse connosco.
Dissemos para a mãe vir ter connosco. Queria entrar no nosso carro e que fossemos a casa dele.
Elilda "manda" nas Rádios
Na Rádio Encontro os anúncios de desaparecimento custam 30.000 meticais e na Rádio Moçambique 35.000. A Irmã Juliana disse-nos que muitas vezes são elas próprias a pagar por estes anúncios.
A lista da meio centena de crianças desaparecidas em Nampula nos últimos meses é um mistério. Na Rádio Encontro e na Rádio Moçambique não querem falar disso. Prometeram-nos fornecer a lista, apenas uma lista de anúncios públicos, mas nunca conseguimos ter acesso a ela. "Mas se são anúncios públicos, emitidos pela rádio, qual é o problema?". Não obtivemos resposta nenhuma. A Rádio Moçambique respondeu à carta enviada pela PIC dizendo que a notícia da lista foi divulgada a partir de Nampula na base do testemunho da irmã Elilda. Os jornalistas da Rádio Encontro e Rádio
Moçambique consideram que a carta é um intimidação e vai contra a Lei da Liberdade de Imprensa.
Descobrimos por acaso o pai do Mussito,  o senhor Arune que fez dois anúncios na Rádio Encontro. Mussito teria sido raptado por uma vizinha.
Fomos falar com a dona da casa, vizinha do senhor Arune. Contou-nos que ele  para evitar pagar a renda de casa e dar conta de um caso amoroso mantido com uma outra vizinha, teria organizado "o rapto" do Mussito.
No relatório  da Procuradoria da República lê-se que pelas declarações de diversas pessoas Mussa é uma criança "sujeita a maus tratos pela madrasta que, por vezes, o obrigava a despir-se em público". "Quando foi encontrado pelo pai no mercado, encontrava-se a divertir-se com outros meninos." Mas entretanto o senhor Arune tinha desaparecido da casa onde vivia, deixando as contas para pagar.
Abaixo os boateiros?

Há um mês a cidade de Nampula ficou sem água. Um "chapa" começou a deitar fumo. O motorista foi ver o radiador e a tampa saltou. Estava próximo do depósito de água municipal. O motorista saltou o muro para recuperar a tampa. Alguém viu e começou a espalhar o boato que estava a pôr veneno no depósito. Foi fechado o fornecimento de água durante uma semana para análises e as autoridades vieram a público desmentir o envenenamento.
Luís é um jovem de 28 anos de Nampula. Contou-nos que viveu o "pesadelo do chupa-sangue". Corria o boato de que os chupa-sangue voltaram à cidade para matar. "Fiquei durante uma semana, todas as noites, a bater no tambor da água para não ser apanhado pelos chupa-sangue. Eu nunca vi  ninguém
chupado, mas todos dizem que é verdade..." O fenómeno é recorrente em
Nampula. "Quando há seca, cólera, eleições, enfim uma situação particularmente importante para a comunidade, volta a lenda dos chupa-sangue que tem como protagonistas o branco porque é o estrangeiro e o estranho", disse-nos o historiador Luís Filipe Pereira, da Universidade "Eduardo Mondlane".
Estranho da mesma maneira é o aviário de Gary O'Connor e Tanya Skytte. Até há pouco tempo não havia galinhas. Foi montada a infra-estrutura para uma unidade moderna de criação de frangos, nomeadamente a construção dos pavilhões, a instalação da energia eléctrica que não havia, a reabilitação da casa de habitação. A irmã Elilda, nas conversas mantidas com os diplomatas em Maputo, afirma que não havendo galinhas, na quinta  deve existir um outro tipo de comércio...  As freiras do Convento Mater Dei dizem o mesmo. O superior da ordem Servos de Deus enviou o padre Cláudio Avallone a Nampula para oferecer solidariedade às irmãs e a Elilda. O Padre Cláudio, que está hospedado no convento, encontrou-se com o bispo Tomé Makweliha, e mais ninguém.
Há galinhas: o projecto do aviário
O projecto das galinhas é parcialmente financiado pelo Gabinete de Apoio a Pequenos Investimentos (GAPI), instituição financeira reconhecida pelo Banco de Moçambique. O projecto envolve um investimento total de cerca de 300 mil dólares. É uma unidade tecnicamente sofisticada para a produção de frango congelado e, numa segunda fase, pintos de um dia. Tem o apoio técnico da Ross Breeders África, que representa a multinacional Ross Breeders Ltd, baseada no Reino Unido, um dos líderes mundiais na produção avícola. "Esta indústria pode ter um significativo impacto económico e social: gera novos negócios, gera emprego, e aumenta o rendimento familiar. O projecto GETT foi concebido para ser um centro tecnológico,
fornecendo 'know-how' aos produtores. O empreendimento enquadra-se na estratégia de redução da pobreza prosseguida pela instituição porque pode constituir o agente dinamizador da transferência da tecnologia, sem o qual será difícil financiarmos os pequenos avicultores", dizem no GAPI.
"Investimos todos o nosso dinheiro neste projecto. Tentámos estabelecer uma relação de boa vizinhança com todos. Com as freiras sempre mantivemos boas relações. Elas agora têm energia eléctrica graças a este projecto.
Quando começámos a ter problemas com os camponeses que queriam fazer machamba na nossa terra, a irmã Juliana acalmou-nos contando que também tinham tido os mesmos problemas. Não conseguimos perceber o porquê destas
acusações", dizem desolados Gary e Tanya. "Acho incrível como a igreja pode ter estado a apoiar os criminosos que tentaram vender uma criança aos meus trabalhadores. A missionária Maria Elilda insinua que nós praticamos estes crimes. Os meus trabalhadores dizem que no gabinete do procurador, as freiras estavam a perguntar porque estavam eles a ajudar um branco e não os moçambicanos. Eles disseram que não estavam a ajudar ninguém, apenas a dizer a verdade. Agora, o facto delas estarem a usar o racismo, usando a minha nacionalidade como prova de crime é aberrante". Diz O'Connor.
O casal neste momento está em liberdade sob termo de residência e identidade. Cada quinze dias apresentam-se à polícia e não podem sair do país enquanto não acabar a instrução preparatória. São acusados de rapto e tráfico de crianças e órgãos. O historial legal, segundo o seu advogado, o
moçambicano Marcelo Jonas Muhacha, é "uma aberração". Foram alvo de um mandato de busca e apreensão no mês de Outubro. "Vieram polícias à procura de órgãos humanos. Não encontraram nada. Abriram até o frigorífico", diz Tan0ya. O certificado desta busca é negativo. No dia 12 de Dezembro são detidos pelo Procurador Francisco  Cuamba no meio da rua. Ouvimos várias testemunhas que contam uma versão completamente diferente da veiculada pela irmã Elilda. A acusação é que a segurança privada do casal teria algemado o procurador. "Na realidade um segurança da companhia Alfa entrou em acção porque o procurador disparou dois tiros e tudo dava a entender que fosse uma cena de assalto a mão armada. Interveio um polícia de trânsito que reconheceu o procurador e assim as algemas passaram a ser postas nas mãos de Gary e Tanya", disse-nos a senhora Maria dos Anjos. As próprias fotografias que circulam no meio diplomático (tiradas pela brasileira que perseguia insistentemente o casal, e pela própria Tanya em retaliação) mostram "um paradoxo". "Como é possível que a segurança pessoal do casal o possa ter algemado? É ridículo", comenta um diplomata que quer manter o anonimato.
Colocamos a mesma pergunta ao secretário do bispo, padre Emílio Giorgi, que nunca encontrou o casal nem foi visitar a "quinta dos horrores": "Em Moçambique um Procurador pode prender se apanhar uma pessoa em flagrante.
E o casal tinha um menino no carro deles. "  A filha deles, de 6 anos, estava de facto no carro.
A história cresce em complexidade em resultado das características da sociedade: a pobreza, a religião e os monopólios económicos da zona. "As freiras estão a prejudicar os investidores com estas acusações racistas. É preciso sim que haja uma investigação séria para averiguar se há ou não tráfico de menores", comenta  António Miranda, português, a trabalhar na indústria de caju, e que teve um processo de averiguação devido a uma denúncia de Elilda. "Ela afirmava que a minha casa de Nacala, em tempos anteriores, teria sido um cativeiro onde teria sido escondida uma criança.
Não foi provado nada e não tenho nada contra a busca que foi feita. Só que a irmã Elilda procedeu como se estivesse a jogar o papel de polícia, de gravador na mão "entrevistava" os meus trabalhadores com prepotência."
A guerra religiosa e o caso da Samira
O delegado provincial do Conselho Islâmico, Abdul Vahab Kassam, não se conforma  com as declarações  dos missionários e religiosos católicos.
"Dizem que as autoridades tentam esvaziar as denúncias alegando, entre outros motivos que elas não passavam de uma tentativa de indispor a população da vizinhança do mosteiro, supostamente católica, contra o governador da província que é muçulmano. Contra essa tentativa pesa o facto de que muitos dos moradores locais envolvidos, como vítimas ou como
testemunhas, são muçulmanos. Ora, nós não temos nenhuma denúncia na nossa comunidade. Mas pergunto porquê os nossos irmãos católicos não nos contactaram? Querem denegrir a imagem dos muçulmanos? Será que isso está relacionado com as eleições deste ano?". Kassam lembra-se dos encontros quinzenais que os líderes muçulmanos mantinham com o antigo bispo D. Manuel Vieira Pinto, encontros que nunca mais se realizaram desde a eleição do novo bispo, Tomé Makweliha, em 2001.
Um dos cavalos de batalha da leiga Elilda é  o caso da menina Samira que foi encontrada morta em Outubro de 2002. Samira, 12 anos, estava a vender bananas com uma amiga. Dois jovens aproximaram-se querendo comprar todas
as bananas. Foi com eles e desapareceu.  Foi encontrada morta dias depois, sem os órgãos internos, sem olhos, segundo a denúncia da brasileira.
Encontrámos Waziza Francisco, tia da Samira. Disse-nos que reconheceu apenas a roupa da Samira. Não quis ver o corpo. Nem o tio Ussene, que fez a denúncia de desaparecimento, porque sendo muçulmano não pode ver o corpo
feminino. Foi feita a cerimónia de sepultura na terra da avô, Monapo. Um polícia, dias depois, pediu-lhes dinheiro para fazer a investigação. Hoje continua a chorar a morte da sobrinha, que considerava como filha. "Era bonita, boa aluna e obediente."  Nem as autoridades nem a irmã Elilda foram ter com ela. " Não sei se estas história de rapto são verdadeiras.
É  preciso investigar." A família pagou o funeral. "Muitas pessoas não têm dinheiro sequer para fazer uma cerimónia e é possível encontrar corpos sepultados no meio do campo ou na berma da estrada, sem cruz nem nada", comenta Luís Amhad.
O namorado de Elilda
Em Nampula sempre se falou de que a irmã Elilda tinha um caso com um rapaz de Nampula e que o próprio bispo D. Manuel Vieira Pinto sabia.
Descobrimo-lo e falamos com ele. Tem medo de represálias. "Ela compra todos", disse-nos. O jovem, que quer manter o anonimato, contou-nos que a irmã Elilda ficou furiosa quando ele engravidou uma jovem da qual teve uma filha. A brasileira então acusou-o ao bispo D. Manuel Vieira Pinto de ter roubado dinheiro para comprar uma carrinha. "Pura mentira. Tinha comprado a carrinha antes de a conhecer. Mas o bispo não quis acreditar e eu até pus o processo no Tribunal. Mas no fim, como a igreja é mais poderosa, tive que aceitar ver o meu carro ser apreendido." "Esta mulher prejudicou muito a minha vida". Pessoas próximas do Bispo dão a entender que este reconsiderou pois, em dada altura, recomendou a Elilda que voltasse por uns tempos ao Brasil.
O "projecto" de Elilda
Maria Elilda dos Santos, 45 anos, originária do Maranhão, mas desde bebé em Brasília, pertence a uma comunidade diocesana fundada pelo arcebispo emérito de São Paulo (Brasil), cardeal Paulo Arns. É uma comunidade de missionárias leigas consagradas, que não vivem em convento mas fazem os votos de castidade, obediência e pobreza. Em 1995 chegou a Nampula para dirigir um projecto financiado pela Arquidiocese de São Paulo, na comunidade de Namaita, a 30 quilómetros de Nampula.
As pessoas que lá vivem nem querem ouvir falar do nome dela. "Não podíamos circular livremente porque estava sempre a chamar-nos ladrões. Se o dinheiro chegou aqui, nós não sabemos". "Sabemos que não podíamos usar a igreja para as cerimónias porque tinha virado armazém. Ela tinha uma barraca na estrada, que foi destruída pelo ciclone Delfina, em 2001".
"Chamava-se Fruta-ganha pouco. Vendia bíblias, refrescos e roupa das doações. Quando se foi embora daqui, retirou os painéis solares que tinha posto na casa onde vivia. Até hoje estamos sem água. E sem alfabetização, porque ela correu com o grupo de professores que na altura nos ensinavam", contou-nos Calisto, animador da paróquia.
PIC DUVIDA DA AGRESSÃO À LEIGA BRASILEIRA
A Polícia de Investigação Criminal em Nampula (PIC) diz serem desencontradas as versões em torno de uma alegada agressão à leiga brasileira do Mosteiro Mater Dei, que despoletou o caso do tráfico de menores e de órgãos humanos.
Maria Elilda dos Santos diz ter sofrido uma agressão, esta terça-feira, na residência onde se encontrava alojada nos últimos dias, no Bairro de Mutauanha, arredores da cidade de Nampula, alegadamente protagonizada por dois jornalistas espanhóis, que se encontravam em Nampula a investigar o caso em referência.
Segundo a leiga, os dois jornalistas, identificados por José Miguel Goana e Imaculada Navarro, sem terem marcado entrevista, foram localizar, fazendo-se transportar de táxi, a casa onde ela se encontrava, fora do Mosteiro, por motivos de segurança, em consequência das ameaças que, constantemente, ela diz ter estado a sofrer.
Chegados lá, ainda de acordo com Elilda dos Santos, os dois espanhóis, que ela diz terem-se passado por jornalistas, pediram para falar com ela, ao que a outra irmã brasileira, de nome Ení, respondeu que não seria possível, porque a visada não se encontrava em casa, resposta que, aparentemente, não agradou o grupo.
Tendo conseguido entrar no quintal, por insistência, conforme explicou a Irmã Ení, os dois tentaram forçar a porta da casa, ao mesmo tempo que filmavam em redor, tendo na circunstância enfrentado a oposição de Elilda dos Santos, que afinal se encontrava no interior da casa. Na altercação que se seguiu Elilda terá ficado magoada num braço, o que a levou a recorrer à polícia. Mais concretamente à 1a Esquadra da PRM na cidade de Nampula, na Av.25 de Setembro, onde viria a meter queixa e a abertura do respectivo processo. Aqui, a leiga não se apresentou ferida nem a sangrar, mas ela dizia sentir dores no braço direito, pelo esforço exercido para travar a entrada dos invasores.
Chamados a depor, os acusados saíram do hotel onde se encontravam hospedados e fizeram-se à referida Esquadra, onde já se encontrava a leiga brasileira a depor, mas, quando a polícia quis fazer acareação, ela se recusou o frente a frente, alegando motivos de segurança, uma vez que, na sua argumentação,  outros tentaram agredi-la.
Quem são os espanhóis?
 Os dois acusados estavam numa missão da rede SER (Serviço Espanhol de Radiodifusão), próxima do Conselho Episcopal de Espanha, no âmbito das denúncias feitas por aquela leiga, sendo Imaculada Navarro a jornalista e José Miguel Goana um médico legista, segundo apurou o SAVANA de fonte autorizada da PIC.
Carlos Manuasse, Chefe-Adjunto do Departamento Criminal da PIC em Nampula, que entrevistou os dois espanhóis, disse à nossa reportagem que não encontrou motivos que levassem as pessoas a serem detidas, aproveitando ao mesmo tempo desmentir as notícias postas a circular por uma imprensa internacional, segundo as quais a polícia em Nampula já tinha ordenado a detenção do grupo.
" Se eles chegaram à polícia foi apenas para uma audição, para termos a outra versão do assunto, e nós ficámos sem entender o porquê da leiga ter negado a acareação em plena Esquadra, porque o que a Polícia queria era a confirmação se terão sido eles as pessoas que a agrediram e se num frente a frente os dois refutariam as acusações que pesavam sobre eles", disse a fonte, que adiantou dizendo que a PIC deixou a equipa prosseguir com o seu trabalho, dado ser o seu último dia em Nampula, após cerca de uma semana de trabalho, e por não encontrado indícios de terem agredido a leiga.
A fonte da PIC disse ter estranhado a intenção da leiga ao ter logo corrido para fazer queixa à Esquadra, ao invés de procurar o hospital para receber a assistência, donde partiria o processo, porque lá há um posto policial. Elilda depois do incidente com os espanhóis entrou imediatamente em contacto com diversas rádios internacionais dando conta que tinha sido agredida.
De acordo com os dois súbditos espanhóis, foi-lhes negado a entrevista pela leiga Maria Elilda dos Santos durante toda a permanência em Nampula, situação que terá levado a uma espécie de insistência, tratando-se de uma peça fundamental da sua investigação. Eles negaram tê-la agredido e muito menos terem entrado dentro da casa onde se encontrava a religiosa, como ela afirma ter acontecido. Aliás, Elilda disse a vários  jornalistas, incluindo portugueses, que não foi tocada pelos dois espanhóis, e que o braço direito foi  "machucado" devido à luta da " porta".
Segundo outras fontes, não é de estranhar esta nova atitude de Elilda dos Santos, que se assemelha a uma vingança contra os espanhóis, a quem mostrou pouco simpatia nos últimos dias, aparentemente em consequência dum diferendo com as outras freiras espanholas radicadas em Nampula, nomeadamente no mosteiro Mater Dei onde se acolhia anteriormente.
Curiosamente, fala-se em Nampula, que terá sido a Espanha o país europeu que mais quis tratar o assunto de perto e cuidadosamente, daí que, muitos jornalistas e outros especialistas de investigação se fizeram ao epicentro da polémica sobre o alegado tráfico de órgãos humanos.

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CORREIO DA MANHÃ (Lisboa)

2004-03-12 00:00:00

NÃO ACREDITO QUE HAJA TRÁFICO

Os rituais africanos podem ser a explicação para o misterioso desaparecimento das crianças de Moçambique, um facto atribuído a um alegado tráfico de órgãos humanos. “Esse problema parece uma mistificação que pode ter por base os rituais africanos.

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Não acredito que haja uma rede de tráfico de órgãos porque Moçambique não faz transplantes nem tem condições para tal e é impensável fazer isso às escondidas noutro país”, declara ao CM o reputado cirurgião João Rodrigues Pena.

Para reforçar a sua tese, este antigo responsável pelos transplantes no Hospital Curry Cabral e Hospital da Cruz Vermelha lembra o caso de uma criança assassinada na Amadora, há alguns anos, “para o assassino comer os seus órgãos porque acreditava ser este um método terapêutico para curar os seus males e que lhe dava força”.

Rodrigues Pena considera o alegado tráfico de órgãos uma “realidade inverosímil” apenas concebida num cenário de ficção.

Apesar da grande falta de órgãos a nível mundial e de saber que há gente disposta a pagar muito dinheiro por um rim, fígado ou coração, o cirurgião refuta a tese do alegado tráfico porque “é ilícito e internacionalmente não é aceite. Não acredito que haja hospitais nem especialistas envolvidos nisso”, disse.

“Sei do que falo. Eu e a minha equipa fomos responsáveis por cerca de 2000 transplantes feitos em Portugal e a colheita de órgãos não pode ser feita por um carniceiro. É um acto cirúrgico minucioso, que requer uma equipa altamente especializada, numerosa e equipamento tecnológico muito sofisticado”, justificou Rodrigues Pena.

Questionado sobre os receptores, responde que o tamanho dos órgãos é importante. “Os órgãos das crianças são pequenos e só devem ser transplantados noutras crianças, não em adultos.”

A complexidade da transplantação passa pela compatibilidade, condição essencial para um receptor que esteja à espera de um rim ou coração. O fígado não requer a exigência da tipagem do grupo sanguíneo.

Para a transplantação ser bem sucedida é necessário que o órgão seja conservado em condições muito específicas e não pode ser submetido a temperaturas abaixo de 0 graus.

Depois de removido e criopreservado (conservado no frio), o órgão tem um tempo máximo como limite de segurança para ser transplantado.

O coração e o fígado não podem ultrapassar as 12 horas, o pulmão conserva-se pouco tempo, o rim preserva-se até às 24 horas e a córnea pode ser transplantada ao fim de 15 dias. A pele pode ser congelada, já o pâncreas e o intestino são órgãos muito delicados.

Rodrigues Pena sabe que na Índia os “colegas” fazem transplantes quando há dadores dispostos a vender um rim para criar um negócio ou casar. “Os párias vendem um rim a troco de dinheiro mas os resultados são maus e muitas vezes pagam com a própria vida”, conclui.

VIVER SEMPRE COM MEDO

Desde que as irmãs Elilda e Juliana, freiras da Congregação das Servas de Maria, denunciaram o rapto de crianças e o alegado tráfico de órgãos em Nampula, vive-se um ambiente de medo não só naquela província moçambicana, mas também nos arredores. Os pais tremem de cada vez que deixam os seus filhos na escola. Os filhos sentem-se inseguros e desconfiam da própria sombra quando não estão acompanhados. As crianças de rua, párias que não podem contar com a protecção de ninguém, vão-se escondendo como podem. As autoridades mantêm um incomodativo silêncio. As pressões internacionais sobem de tom.

Há muito que aquelas missionárias denunciam o desaparecimento de pessoas, sobretudo mulheres e crianças, e a descoberta de cadáveres com alguns órgãos removidos. Um dos casos mais divulgados é o de Sarima Iburamo, uma rapariga de 12 anos, que desapareceu em Outubro de 2002 quando ia vender fruta no centro de Nampula. No dia seguinte, apareceu o seu corpo sem o coração, pulmões e rins. A Polícia limitou-se a registar o caso.

Perante esta indiferença, as freiras fizeram pesquisas por conta própria e chegaram a filmar locais onde terão ocorrido alguns destes assassínios. As investigações só contaram com a intervenção do procurador-geral de Moçambique, Joaquim Madeira, depois de as freiras o terem contactado para lhe darem conta das suas suspeitas sobre o possível envolvimento dos seus vizinhos estrangeiros, o casal Gary O'Connor e Tania, que exploram uma quinta cedida pelo governador de Nampula, Abdul Razak, numa rede de tráfico de órgãos.

Joaquim Madeira enviou uma comissão de investigação a Nampula, que não encontrou indícios de tráfico de órgãos.

“Está tudo minado”, desabafa a irmã Elilda, ao CM, sugerindo que há pressões de figuras gradas para desabafar o caso. Contactada pelo nosso jornal, a procuradora moçambicana Isabel Rupia justifica o silêncio das autoridades afirmando que as investigações estão em curso.

A esperança da irmã Elilda, que se mantém firme nas denúncias apesar das ameaças e do assassínio da freira luterana Doraci Edinger, é que organizações internacionais actuem. A Amnistia Internacional prometeu enviar uma equipa. Portugal e Brasil estão entre os países que se disponibilizaram para ajudar nas investigações, que, segundo as irmãs, poderão encontrar ramificações em outros países, nomeadamente na Guiné-Bissau, onde recentemente foram denunciados casos de raptos.

BRASILEIROS ALICIADOS A DAR ÓRGÃOS

No Brasil, o tráfico de órgãos, sempre suspeitado mas raramente provado, provocou grande indignação em Dezembro passado, quando foi descoberta no estado de Pernambuco uma rede internacional que comprava órgãos de brasileiros pobres e os transplantava na África do Sul em cidadãos israelitas. A quadrilha, que continua a ser investigada, fez pelo menos trinta transplantes de rim e preparava-se para fazer também transplantes de fígado e coração.

Segundo depoimentos de pessoas aliciadas pela quadrilha, e cujos nomes foram mantidos em segredo devido a ameaças de morte, a rede de traficantes percorria bairros pobres da periferia de Recife, capital de Pernambuco, e aliciava desempregados de boa estrutura física a ir trabalhar na África do Sul, oferecendo-lhes até dez mil dólares mensais e todas as despesas pagas. Os que aceitavam eram levados para a cidade sul-africana de Durban, e só aí eram informados que o real objectivo era comprar-lhes um dos órgãos. Um desempregado brasileiro de 31 anos, recrutado na região de Jaboatão dos Guararapes e que aceitou viajar a trabalho para a África do Sul no início de Novembro, contou que foi levado ao Hospital St. Augustin, alegadamente para ver se a saúde estava em ordem e, depois de exaustivos exames, fizeram-lhe a proposta de vender um dos rins por 10 mil dólares. Assustado, não aceitou e foi recambiado para o Brasil, com a ameaça de que seria morto se contasse a sua história a alguém.

O capitão na reserva da Polícia Militar de Pernambuco Ivan Bonifácio da Silva e o capitão reformado do Exército de Israel Gedalia Talber são dois dos 11 suspeitos já presos no Brasil por envolvimento nesta rede. Segundo eles, a compra dos órgãos humanos em Pernambuco e as cirurgias na África do Sul eram custeadas pela Segurança Social de Israel. É que motivos religiosos impedem esse tipo de cirurgia em Israel, mas o Estado custeia os cidadãos israelitas que queiram fazer transplantes no estrangeiro.

O NEGÓCIO MACABRO VISTO POR HOLLYWOOD

A questão do tráfico de órgãos não escapa, obviamente, à indústria cinematográfica. Filmes como “Coma” e “Estranhos de Passagem” são apenas dois de uma imensidade de obras em que o negócio é abordado de forma mais ou menos frontal.

Uma das primeiras obras a denunciar claramente o tráfico de órgãos é “Coma”, dirigido no distante ano de 1978 por Michael Crichton. Baseado na obra homónima de Robin Cook (que assina o argumento de parceria com o realizador), o filme tem como protagonistas Michael Douglas e Geneviève Bujold. A história desenrola-se numa clínica privada onde alguns pacientes morrem estranhamente na sequência de operações aparentemente simples. Douglas acabará por descobrir que a clínica não passa de uma fachada para um chorudo negócio de fornecedora de órgãos. Impressionante é a cena em que Douglas descobre o armazém recheado de corpos em suspensão.

Não menos ‘chocante’ é o universo descrito em “Estranhos Prazeres” (”Dirty Pretty Things” no original), realizado em 2002 por Stephens Frears. Desta feita, a história roda em torno de um emigrante ilegal em Londres (Chiwetel Ejiofor), a quem um dia cai literalmente um coração humano nas mãos, quando tentava abrir um armário. A partir de então, o emigrante vê a sua situação (e a da companheira) em risco, embarcando numa espiral de acontecimentos que o levam a contactar de perto com o macabro mercado negro do tráfico de órgãos.

 

2004-03-11 00:00:00
Maria José Morgado diz ser necessário apoio para investigar
DEPUTADOS MOÇAMBICANOS VÃO A NAMPULA

O tráfico de órgãos chegou ontem ao Parlamento de Maputo, com o procurador-geral de Moçambique, Joaquim Madeira, a apresentar o balanço do trabalho desenvolvido e a pedir legislação específica. Um grupo de deputados vai deslocar-se depois de amanhã a Nampula, a pedido da Renamo, principal partido da oposição.

Yoav Lemmer (EPA)

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A denúncia de tráfico de órgãos está a agitar a população

Joaquim Madeira apresentou o relatório já conhecido sobre as investigações, que até agora não foi conclusivo. O procurador-geral moçambicano criticou o afã dos media relativamente a este caso e pediu que seja criada uma lei que regule o tráfico de crianças, a venda de órgãos humanos de modo a tornar mais eficazes as investigações. A Renamo criticou a falta de independência da procuradoria-geral em relação ao governo e pediu a deslocação de deputados a Nampula, palco de vários raptos de crianças e assassínios, denunciadas pela Congregação Servas de Maria.

O governo português está disponível para colaborar com Maputo na investigação dos alegados casos de tráfico de órgãos naquela região moçambicana. Uma disponibilidade manifestada já pela ministra da Justiça, Celeste Cardona, que afirma não ter ainda recebido nenhum pedido formal por parte das autoridades de Maputo.

Ontem, em entrevista à Rádio Renascença, a procuradora-geral adjunta, Maria José Morgado, tipificou as redes de tráfico de órgãos, as quais, sublinhou, actuam por norma em países pobres, com ligação a países mais ricos. Sem nunca se referir ao caso concreto moçambicano, a magistrada afirma que as investigações deste tipo de crimes são complexas e exigem apoio do poder político

WAMPHULA FAX – 12.03.2004

AGREDIDA EM SUA CASA EM NAMPULA

IRMÃ ELILDA MOVE PROCESSO CONTRA SUPOSTOS JORNALISTAS

A Irmã Maria Elilda dos Santos, natural de São Paulo-Brasil, em serviço na Arquidiocese de Nampula que na passada terça-feira foi agredida por dois supostos jornalistas espanhóis na residência das irmãs de Imaculada Conceição, acaba de instaurar um processo, pelo crime de intromissão abusiva em casa alheia. A Irmã, que despoletou o caso de tráfico de órgãos humanos confirmou ter sido agredida com violento empurrão na porta do seu quarto, por volta das 9horas e 40 minutos de terça-feira, na casa das Irmãs de Imaculada Conceição, no bairro de Mutauanha, para onde se refugiara por questões de insegurança no convento. Contudo, em entrevista que nos concedeu ao princípio da manhã de ontem, ela disse que já se sentia um pouco melhor. Contactado a propósito, Xavier Tocoli, director da Ordem e Segurança Pública, referindo-se aos agressores da freira, disse tratar-se de Emaculada Navarro, jornalista da Estação Radiofónica de Madrid e o médico-legista José Miguel, provenientes daquele país europeu e que vinham reportar assuntos relacionados com o alegado tráfico de menores e órgãos humanos na província de Nampula. Revelou ainda terem regressado no mesmo dia, a mando da Embaixa-da Espanhola, devendo aguardar desfecho do caso no seu país. Porém, em nota de imprensa recebida na nossa redacção, Gabinete de Informação condena atitude de tais cidadãos por se terem feito passar por jornalistas bem como instituições estrangeiras, com a devida autorização para trabalharem em Nampula.

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Há extracção de órgãos para efeitos de feitiçaria
2004/03/16

Refere Almerino Manhenje, Ministro do Interior.

 

O Ministro do Interior, Almerino Manhenje, reconheceu ontem em Maputo, a existência nos últimos tempos, de casos de extracção de órgãos humanos para fins de feitiçaria.

O titular da pasta do Interior, que falava na cerimónia de abertura do curso de subcomité de formação da SARPCCO (Organização dos Chefes da Polícia dos Países da África Austral) que irá decorrer até próxima sexta-feira, sob o tema `violência contra a mulher e criança´, apontou que o nosso país registou recentemente três casos de assassinato, para a extracção de órgãos humanos, alegadamente para fins de feitiçaria, situações que ocorreram nas províncias de Nampula, Sofala e Manica.

Igualmente, de acordo com Almerino Manhenje, têm sido notificados casos de tráfico de menores e mulheres para a vizinha África do Sul, onde as pessoas são usadas na prostituição e no trabalho infantil.

Quanto à situação de tráfico de órgãos humanos e de menores em Nampula, o ministro disse que o assunto ainda está a ser investigado e as conclusões serão tornadas públicas...

fonte: NOTÍCIAS

 

JORNAL DIGITAL

    Alegado tráfico de órgãos humanos

  Comissão parlamentar moçambicana chega a Nampula para investigar denúncias

 

  

 

2004-03-15 14:36:05