PRETO E BRANCO

A caminho de Moçambique
JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

" ... Os pássaros vêm pousar sobre os homens e sobre os animais pois não acham lugar que não esteja já ocupado por outros seres vivos..."

Excerto de uma nota de Leonardo da Vinci sobre a maneira de pintar o dilúvio.

Setembro de 1999, século passado, 15.00 horas da tarde de um não identificado dia da semana, num concorrido café de Lisboa. Sentava-me eu a uma mesa que já fora discreta, a um canto da sala e sobre mim incidiam agora alguns olhares que variavam entre a desconfiança, a desaprovação e a, vá lá, diversão. Relativamente alheio a isso, eu culminava naquele dia a leitura da obra publicada da Mário de Carvalho com as últimas folhas do extraordinário Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto. Obra perigosíssima, aliás, que se não deve ler em público, muito menos num espaço com as características daquele café onde os muitos clientes que constantemente entram, restauram reservas energéticas e saem, são entretanto confrontados com um fulano que lendo um livro sentado à mesa do canto, vai não vai lança uma gargalhada para o ar, após o que regressa ao mergulho absorto da leitura. Até à próxima gargalhada.

Mesmo século, mesmo dia, cerca de uma hora depois da deplorável cena supra descrita.

Telefono ao Mário de Carvalho que, apesar de não me conhecer pessoalmente, se mostra caloroso e receptivo à minha proposta de adaptação da obra em questão para cinema. Mas, já que estamos a falar destas coisas, contrapõe ele, não quererá o José Carlos analisar um argumento que escrevi para cinema? Porque não? respondo eu, qual é o seu mail, pergunta ele.

Manhã do dia seguinte, escritório da ZDOfilmes.

Leio o argumento numa fugaz meia-hora, extasiado, entre a lágrima sorrateira o sorriso e a gargalhada. Telefono imediatamente ao Mário de Carvalho e proponho-lhe desenvolvermos o argumento em parceria para o formato de guião. Fechamos acordo e após cerca de um ano, entre as imprescindíveis sessões de análise e enquadramento da história e personagens, confrontação de trabalhos via mail e muitas conversas telefónicas concluímos o guião. Imediatamente após o que, em total sintonia, concordamos que o filme já traz nome, expontâneo e indelével, identificação da sua essência e que só pode ser Preto e Branco. Senão vejamos: Um homem branco, 46 anos, que nunca conheceu "o Puto", nascido e criado em Moçambique, sargento na unidade de tropas especiais do exército colonial português.

Um homem negro, 27 anos, que nunca conheceu África, nascido e criado em Lisboa, finalista de engenharia no Instituo Superior Técnico, entusiasta dos ideais de esquerda.

Os dois encontram-se em Moçambique, em plena guerra colonial, quando o homem branco, na conclusão de uma operação especial no mato captura o homem negro, acabado de chegar a África como voluntário para a luta dos movimentos de libertação.

Por acidente, perdem a comunicação com o transporte que deveria recolher o sargento e encetam uma longa caminhada em território controlado pelos guerrilheiros do movimento de libertação, até ao aquartelamento da tropa colonial mais próximo.

Durante a progressão encontram o terceiro elemento do triângulo: uma enfermeira do exército português, graduada em alferes, justificadamente perdida na mata.

Está tudo explicado, sem pedagogia pretensiosa, com ironia. Esta inversão das características das personagens reflecte-se sobre as situações de conflito e dá um novo enquadramento à temática da guerra colonial portuguesa.

E praticamente dois anos depois, a equipa avançada voou ontem para o universo da materialização das ideias: Moçambique, cenário dramático, fantástico do Preto e Branco.

De lá darei conta, em diferido, a todos os que tiverem a paciência de seguir esta aventura, o processo da criação e concretização deste filme.

jcdeoliveira@mail.telepac.pt
15 de Abril de 2002

Maningue Moçambique, gente bo
nita
JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

Segunda-feira, dia 22 de Abril

São 14 horas. Perdidos no mato do interior, percorremos um estreito trilho, longuíssimo, entre duas paredes de vegetação alta que muitas vezes se entrelaça no topo envolvendo-nos num túnel que, mais à frente, se volta a abrir para um céu azulíssimo, pontuado por pequenas nuvens brancas. As botas pisam a areia fina do chão, o calor aumenta, o suor escorre pela fronte e pelas costas e o peso da mala da câmara fotográfica aumenta a todo o momento. Dizem-me, com toda a naturalidade, que atravessamos uma zona de elefantes. Ah, bom! Concentro-me no cheiro de lenha queimada que aqui no mato interior nos traz um outro olhar sobre as coisas.

Terça-feira, dia 23.

No final do dia sigo pela RTP internacional o Telejornal. O Governo acaba de reafirmar uma declaração de princípio, como um dos elementos centrais na governação: vai haver corte nas despesas públicas. A produção cultural, especialmente a musical, de bailado, teatral e cinematográfica têm custos elevados em todo o mundo. Em muitos países, os custos de produção são cobertos pelo encaixe das bilheteiras e pela exploração das obras em diversos formatos.

Em Portugal, perante a sistemática recusa dos diversos governos em aplicar os mecanismos de criação de mercado - longa e insistentemente defendidos pela ARCA e pela Plataforma Audiovisual - e na insuficiência do número de bilheteiras e de espectadores que permita recuperar os custos da produção, cabe ao Estado financiar, mesmo que parcialmente, a produção cultural, na lógica de que aí se exprime, para a contemporaneidade e para a história, a diversidade dos olhares dos criadores sobre a sociedade. Para o bem e para o mal.

Ora resta saber se, com o novo Governo, os investimentos na cultura continuarão a ser olhados como tal ou, se pelo contrário, serão classificados como despesa e, nesse caso, elegíveis para a lista dos cortes na despesa pública. Nas minhas piores noites, quando o cepticismo espreita, vejo o íncubo, ele próprio, ajudar a levantar o enorme braço da administração pública segurando a faca do corte intransigente, sobre a despesa pública do que era o investimento na cultura.


Quinta-feira, dia 25

São 14 horas, algures na picada a caminho de Changalane. Há já vários dias que percorremos exaustivamente a zona interior e a sul de Maputo em répèrage, para escolha dos muitos cenários para Preto e Branco.

Neste dia particular, a pick-up de cabina dupla roda a boa velocidade pela picada, uma linha recta de terra vermelha traçada até ao horizonte entre a vegetação viçosa, densamente arborizada. Ao longe parecem materializar-se timidamente duas figuras de que nos aproximamos rapidamente. Caminham pela berma na nossa direcção.


O calor e a trepidação do carro tornam a imagem difusa e dificultam a percepção. Só à medida que nos aproximamos consigo perceber que são duas crianças, provavelmente com cerca de quatro anos, uma mais à frente, a cerca de quatro metros da que a segue. Mais próximo ainda, percebo que as duas pararam e olham o carro que se aproxima. A da frente tem a pele negra coberta por um vestido de alça imaculado, vermelho forte com flores brancas estampadas que só lhe deixa os pequenos tornozelos e pés à vista. E que a de trás veste uma camisita amarela e um calção verde. Quando consigo destinguir as expressões vejo que a da frente desmancha de súbito a máscara imóvel de espanto, protesta num choro sonoro, dá uma assustada meia volta e corre de braços abertos para o pequeno rapaz. Ele abre os braços, caminha para ela e recebe-a, os dois abraçam-se longamente, imóveis na berma da estrada
.

Ela encaixou a cabeça no ombro dele, ele vai virando a cabeça e olha-nos fixamente, com a boca cerrada, enquanto nos afastamos no carro, pela picada em direcção ao horizonte, largando uma enorme nuvem de poeira finíssima, avermelhada, que logo fica estagnada no ar quente, imóvel, que se abate e apaga aquelas pequenas figuras e diluem aquele enorme olhar.

Passo o resto do dia, entre a viagem e as paragens para escolha de cenários a pensar e tomar notas sobre a reacção àquela cena de cada uma das minhas personagens centrais do filme. O Sargento, moçambicano branco, o português lisboeta negro, engenheiro, e a enfermeira portuguesa alentejana branca, os três aqui no mato, longe da influência dos poderes que aqui os colocaram, três anos antes do dia que hoje se comemora.


José Carlos de Oliveira é realizador e produtor, está a rodar "Preto e Branco" em Moçambique e escreve este "Diário" quinzenalmente


"Isto não é um filme de guerra"

A primeira vez que José Carlos de Oliveira falou com Mário de Carvalho foi para lhe propor fazer um filme a partir do livro Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto. O escritor devolveu-lhe a proposta com um pequeno argumento - "pouco mais de vinte páginas" - em que conta a história de dois homens, um preto e outro branco, apanhados em plena Guerra Colonial, no início dos anos 70. "Era um argumento extraordinário, com muita piada e uma abordagem invulgar e inesperada a esta temática", explica o realizador, que antes fez Inês de Portugal (cinema, 1997), Dragão de Fumo e O Crime (séries de TV).

Desenvolvido o argumento e obtido o indispensável subsídio do ICAM, mudou-se a acção, inicialmente pensada em Angola, para Moçambique, e procuraram-se os parceiros para esta produção - a Cinemate e a Ébano. José Carlos chegou a Moçambique, que não conhecia, em Abril. Um mês depois começou a filmar.

"Pareceu-me importante fazer este filme neste momento. Importante para Portugal e para África", diz o realizador. "Isto não é um filme de guerra", explica. "É sobre pessoas que são apanhadas pela guerra". Em Preto e Branco encontram-se um sargento branco, que sempre viveu Moçambique e defende a colónia porque é um operacional que não perde muito tempo a pensar, e um preto, estudante de Engenharia vindo da Avenida de Roma para fazer guerrilha e lutar pela independência. "Quando os dois se confrontam", explica José Carlos de Oliveira, "longe da influência do poder, sozinhos na selva, começam a perceber que têm uma imagem errada um do outro. Passam do ódio à cumplicidade".

E garante: "É uma fita que tem uma leitura fácil para o espectador comum e outras leituras, complicadíssimas na medida em que eu for artista e estiver inspirado, para quem tiver a paciência e o gosto de ler tudo o que lá está."
26 de Maio de 2002

Rodagem: "É à séria, tu vais matá-lo"
MARIA JOÃO CAETANO em Moçambique

Parece uma árvore. Valente Dimande passa os dias com os braços no ar a segurar o enorme microfone com nome francês - perche. Tronco direito e as mãos como ramos, apontados ao céu, onde nasce o microfone felpudo e sensível que capta todos os sons, até mesmo os mais pequenos. No filme de José Carlos de Oliveira, Preto e Branco, o papel de Valente é invisível. Foge dos enquadramentos, estica-se todo, os braços nem tremem, apenas o suor escorre lentamente da testa ao pescoço. São dez da manhã mas o sol queima como se fossem três da tarde, estão 28 graus numa manhã de Inverno, em Goba, no meio do nada, a uma hora e meia de Maputo.

"Façam silêncio", pede o realizador. No set (há quem diga plateau mas José Carlos prefere o inglês) ficam todos calados, imóveis, acompanhando a sequência - sempre igual - de palavras, antes da ordem para "acção".

Primeiro "vozes", depois "som" e a seguir a confirmação de que está a "andare", dito assim, com pronúncia alentejana, por Francisco Veloso, o homem do som, sentado com os auscultadores nas orelhas, inseparável do carrinho - que empurra de um lado para o outro, pelos íngremes caminhos de terra batida, como um pai dedicado que embala o filho à procura de sombra protectora - de máquinas repletas de botões que servem para mexer nos graves e nos agudos.

Depois é a vez de Pipas anunciar em inglês os números da cena e do take. Pipas diz que se chama assim porque em pequeno "era muito gordinho". Agora, é uma figura esguia, de boné enterrado na cabeça, a correr de um lado para o outro, carregando cabos, trazendo a preciosa película que alimenta a máquina de fazer filmes, dando vida à claquete.

Mas ainda não acabou o surpreendente diálogo técnico. Falta Ricardo pedir "speed" e só então a palavra é novamente do realizador, entusiasmado com a cena que se vai seguir: "Vamos lá, tu vais matá-lo, estás com muita raiva." Aprendeu este truque com Elia Kazan e acredita que estas últimas palavras são determinantes para a performance dos actores: Jorge Parente, Ângelo Torres, Luís Sarmento e Rui Filipe Torres têm a raiva nos olhos e as pesadas armas nas mãos; Sidónio Givandes, o produtor musical que se estreia como actor (pena que seja só por algumas cenas, já, já vai morrer), está estendido no chão com uma faca "espetada" no peito, dentro do casaco guarda um saco de sangue de groselha.


"Vamos lá, é à séria", avisa outra vez o realizador. Quando grita "acção" as palavras do guião ganham forma: "O segundo soldado continua a revistar o negro morto, despachadamente, sem cerimónias. E diz: Este já está como há-de ir, meu Primeiro." José Carlos de Oliveira sorri, escondido na "casinha" improvisada de flanela preta. Já não olha os actores nem o sangue nem as armas, já só olha o pequeno monitor. "Enquanto termina a revista, os olhos do Negro parecem fixar o céu." O realizador aguarda um momento e suspira fundo. Corta.
26 de Maio de 2002


Rodagem: fugindo das cobras e à espera do helicóptero

Às seis da manhã, a cantina cheira a ovos e salsichas, a pão delicioso com manteiga e mel ou doce de manga, a café instantâneo, que alguns mexem durante uma eternidade, só com um bocadinho de água, para fazer espuma e imitar as saudosas bicas. Às seis da manhã, os actores ainda ensonados vestem as fardas da tropa escolhidas por Clarice; a maquilhadora Isabel trata de lhes sujar a cara e as mãos; Orlando, o anotador, olha para o relógio pela centésima vez pois sabe que tempo é dinheiro e o dia aqui acaba cedo, por volta das quatro da tarde; Cristina Homem de Melo, assistente de realização, produtora executiva, actriz e conselheira, chega com bloco e caneta na mão a perguntar "podemos ir?"

O dia começa cedo em Goba. Dos Pequenos Libombos, espécie de aldeamento turístico com televisão e ar condicionado onde parte da equipa está instalada, chegam as pick ups e o jipe de Luís Sarmento - "nunca me separo do meu jipe, faz-me sentir seguro", explica o actor moçambicano, que também participou em O Gotejar da Luz, de Fernando Vendrell, rodado a poucos quilómetros dali.

Das precárias tendas instaladas no quintal surgem, a pouco e pouco, os outros elementos da equipa. "Nós estamos habituados, não nos importamos de estar aqui e assim não perdemos tempo", explica Camilo de Sousa, um dos produtores da Ébano. Desde 1978 que Camilo e Licínio de Azevedo fazem filmes juntos. "É preciso muito espírito de sacrifício para fazer cinema em Moçambique", dizem. "Mas nós gostamos de fazer filmes, por isso..."

Da cozinha aparece Celinho para saber se é preciso trazer mais água quente ou leite. "É ele que toma conta de nós", explica o grande Nordine, o responsável pelos cenários. Celinho ri-se. Do que ele gosta mesmo é de produzir espectáculos, mas desta vez calhou-lhe produzir refeições para esta gente toda - um serviço de catering variado, que inclui esparguete à bolonhesa e caril de frango, muitas coca-colas, "2M" e "laurentinas", isto é, cervejas.

Antes de começarem as filmagens, todos os elementos da equipa de Preto e Branco receberam um stick antimosquitos e uma embalagem de Jeito, que é marca de preservativos ("Pensa direito, usa Jeito", diz o anúncio). No kit de primeiras necessidades, poderia ainda incluir-se o protector solar, umas botas altas por causa das cobras (há sempre cataneiros e um enfermeiro por perto, mas nunca se sabe) e água, muita água. Por outro lado, das malas de viagem poderiam excluir-se, sem qualquer prejuízo, as roupas de lã e o telemóvel - sujeito aos amuos da rede e provocando amuos aos produtores que têm de andar quilómetros e subir montes para poderem, enfim, em voz exageradamente alta, comunicar com o mundo. É que os telefonemas são importantes. Dirigem-se ao Governo e às forças armadas e deles depende a contratação de um actor indispensável - um helicóptero.

"Claro que é difícil filmar aqui, podia ter feito isto no Alentejo e até poupava dinheiro", arrisca sorrindo José Carlos de Oliveira. "Mas seria a mesma coisa? Claro que não."
26 de Maio de 2002-10-12

O acordador na picada moçambicana
JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

Um dos dias de rodagem do "Preto e Branco" neste enorme Moçambique.

Há vários acordadores no mundo. Desde o almuadem cego que, segundo Saramago denuncia na nova História do Cerco de Lisboa, não poderia nunca ter subido à almádena para o chamamento matinal da cidade de Lisboa sem executar as abluções rituais, e, portanto, ou o relato está ferido de lapso ou o cerco à, ou da, pouco interessa, Lisboa mourisca pelos cruzados ao serviço deles próprios e, segundo então afiançaram, de Deus
nunca aconteceu. E mais outros: a mãe ou o pai, provavelmente os nossos mais carinhosos acordadores e, por isso mesmo, nem sempre os mais eficazes; o revisor do transporte público, quando se adormece antes da apresentação do bilhete; o empregado de restaurante, quando não o dono, que, mais ou menos gentilmente, depende da dimensão da conta, interrompe a tertúlia apaixonada e egoísta; o galo que, nos tempos que correm, entre a sopa de canja, o frango na brasa e o fricassé os urbanos só imaginam; o som das muitas vassouras que desde as cinco da manhã afagam os pátios das casas de Maputo, numa azáfama de limpeza rigorosa que me recorda o Alentejo; e o acordador do gado, aqui em Moçambique. Só que este me parece exclusivo, com o olhar de forasteiro que tenho a sorte de poder deitar sobre este enorme país: são 6.30 de mais um dia destes muitos a caminho do novo cenário escolhido e preparado para a rodagem das cenas agendadas para hoje.

Conduzo o todo-o-terreno, já com alguma ligeireza e, por isso mesmo, um ou outro susto e muita poeira na esteira. No rádio do carro o som de África. Os primeiros raios de sol avermelham o capim que envolve a picada e, sempre da esquerda para a direita, levantam-se bandos de pássaros que desafiam o carro e depois desaparecem no mato.

Outra vez à esquerda, levanta-se uma águia de asa larga, esforçada, que adquire um voo plácido sobre o mato, depois dirige-se ao pára-brisas do carro para curvar largo à direita no último momento e plana até fincar as garras no ramo de uma árvore próxima. Roda a cabeça para nós num arco de 180 graus sobre o seu único occipital e fixa-nos, segundo aparenta, impassível.

Ele está lá à frente, o acordador, este outro, logo a seguir à curva da picada, junto à cerca que define o perímetro onde a manada pernoita, indolente, pouco incomodada ainda pela fome e pelas moscas que, coitadas, também têm direito à pernoita. Junto à cerca o homem negro está em pé, linear na sua elegância, e estica o braço esquerdo para a frente, recuando o direito. Entre a mão de um e outro segura uma pequena fisga, elásticos tensos, e quando larga a pedra em direcção à garupa de uma vaca ou boi, confesso que não consigo apurar, há mais um dos muitos animais que prazenteiramente se levanta. Para um novo dia de uma imensidão de capim viçoso que, consoante o ângulo de luz que venho escolhendo para as cenas, varia entre os tons vermelhos e dourados. Como temos visionado aqui no material filmado que vai chegando do laboratório da África do Sul, morosamente, duas vezes por semana.
25 de Junho de 2002-10-12
Retirado do DIÁRIO DE NOTĺCIAS



O que é um turra?

"Preto e Branco". Estivemos na periferia de Maputo a assistir à rodagem de um filme mais luso-moçambicano do que português sobre a Guerra Colonial. Uma fita de pequeno orçamento, realizada por José Carlos Oliveira, onde não foi deixado espaço para o ódio. Estreia na próxima Primavera.

Texto de António Cabrita
Fotografias de David Francisco

Em Moçambique, na periferia de Maputo, sob um sol impiedoso, prossegue a rodagem de "Preto e Branco", um filme de José Carlos de Oliveira que escolheu a guerra colonial como cenário.

- Então, foi hoje que morreste? - pergunta o jornalista ao Primeiro Soldado, o actor Rui Filipe Torres.

- Não. Já fui enterrado. Mas ainda não morri.

- Ressuscitaste? Como é?

- Nos filmes acontece ser-se enterrado primeiro...

- É por isso que tu gostas de ser actor: enterram-te e depois tu ainda tens uns dias para sorver uns canecos...

- À custa disso estás-me a dever um gin tónico...

Vira-se para a equipa e diz:

- Um gin, paga o senhor jornalista quando chegarmos a Goba para o almoço.

O enredo arranca assim: uma pequena patrulha de soldados portugueses depara com um bando de "turras" e apanha um deles, só que os homens vão morrendo no trajecto para o ponto de encontro com o helicóptero que os iria recolher...
 
Goba é a povoação onde está acampada a equipa de produção e onde se organizou a cantina que serve almoço a toda a equipa de rodagem, entre as quatro e meia da tarde e as cinco e meia, quando a luz já não permite a continuação dos trabalhos.

Oito da manhã, o dia aqueceu, enxuga um lençol de humidade sobre o corpo. O realizador previne contra os perigos de não usar botas no meio do mato - o capim pode esconder a surucucu, uma cobra com milénios de mau humor. Ainda ontem, um jipe atropelou uma na picada, o que provocou discussão.

O Sargento/Luís Sarmento acende o cigarro e lembra: nos anos 60 era preciso uma "licença de isqueiro" ("Chatices de branco... coitado!", lembra o repórter) e era ainda necessário a qualquer preto moçambicano andar com uma "caderneta" onde se anotava a autorização do patrão (branco) para poder movimentar-se na "cidade de pedra" (Lourenço Marques) depois das 21 horas.

"O que é um turra?", pergunta o filho do "cataneiro", que veio espreitar a rodagem. Sim, o que é um turra, interrogará grande parte do público português quando vir "Preto e Branco", filme de José Carlos de Oliveira, que co-escreveu o guião com Mário de Carvalho.

Turra: o drama dos vocábulos em desuso. Tem mais sílabas a palavra que hoje todas as crianças decifram automaticamente: terrorista. A perna do 2º Soldado/Jorge Parente, separada do seu corpo, foi dar um pontapé numa estrela antes de se estatelar na areia. Quem manda o bruto pisar na mina? Ainda há pouco dançava no meio da clareira, no meio do capim alto, quando se julgava à beira de ser recolhido pelo helicóptero, ainda há pouco vociferava quando viu o héli afastar-se, cheio como um ovo. Tinha feridos, foi a desculpa. Filhos da puta! Percebe agora que não verá mais as raízes das casuarinas encavalitadas nas dunas, a caminho da Costa do Sol, em Lourenço Marques, que nunca responderá à pergunta fatal de Fátima, na última carta. A sua perna está algures, a metro e meio do coto que o prega ao chão. O braço não alcança a perna. Imagina a cabidela, os grãos de vazio no sangue que a terra absorve. Ruminará o soldado o provérbio macua, "a morte é a armadilha de Deus", antes de lhe tom!
bar a cabeça? Revista a cena no monitor de vídeo, regozija-se o realizador: "Está óptimo, temos uma equipa do caraças!"

 
"Preto e Branco" é uma fita de pequeno orçamento que o ICAM subvencionou e a RTP apoiou e que deve também muito à cooperação moçambicana.

"Foi essencial", lembra José Carlos Oliveira, "depois de terem falhado as diligências para filmar em Angola, ter encontrado gente em Moçambique que não só havia lido o guião como reagido entusiasticamente ao conteúdo do mesmo... e que revelava uma grande militância, nas conversas que íamos mantendo pelo telefone, nas 'repérages' que faziam, nas propostas para cenários ou nas soluções que apresentavam para os problemas do filme. Para mais, eles tinham descoberto a chave que eu e o Mário de Carvalho tínhamos posto no filme: no fundo somos todos semelhantes e, se estivermos longe das circunstâncias com que o poder nos condiciona, conseguimos entender-nos... Houve coisas que nos levaram à guerra e que talvez não fossem necessárias... Portanto, perante o empenho desta equipa, fiz uma associação com a Cinemate e decidi vir filmar a Moçambique, onde confirmo que é possível trabalhar num verdadeiro formato de cooperação."

Acção! Ali, a meio do mato, a 40 quilómetros dos leões e elefantes da reserva de Maputo haverá uma corda para puxar o Primeiro Soldado/Rui Filipe Torres, simulando o impacto quando receber pelas costas o tiro que lhe interrompe a mija? Cuidado com a "perche" para não entrar no plano. Nós usávamos uma MG, explica Luís Sarmento, que foi capitão dos comandos, a mando de Kaúlza, durante a guerra. "Quero pôr o espectador lá dentro!", diz o realizador sobre o plano subjectivo que se prepara. Francisco Veloso, o técnico de som, pede silêncio. Vladimiro posiciona o reflector, de modo concentrado. É alto, de um preto de ébano, e ao agarrar no reflector prateado tem como função "anular os negros". "Acção", grita José Carlos Oliveira, e Pascoal, o turra que os tugas aprisionaram, move-se contrafeito, receoso de pisar mina na picada. O Sargento pisa-lhe as peugadas - prevenido. A câmara desliza no "charriot", morde os passos amedrontados. "Quero pôr os espectadores lá dentro." Corte! É me!
smo uma equipa do caraças: cinco elementos da equipa técnica (moçambicana) são realizadores.

Licínio Azevedo, realizador, aqui produtor, Camilo de Sousa, realizador, neste caso produtor, Orlando Mesquita, realizador, montador, músico e aqui "script-boy", ou seja "anotador", António "Pipas" Forjaz, realizador, e aqui claquetista e segundo assistente de câmara, e o ausente Valente Dimande, realizador e técnico de som, que chegará de Cannes - onde foi apresentar filmes moçambicanos - ainda a tempo de assistir o sonoplasta Francisco Veloso, português.

A perna do segundo soldado, separada do corpo, estatelou-se na areia. A sua perna está algures, a metro e meio do coto que o prega ao chão. O braço não alcança a perna...
 
A equipa retribui a estima que o realizador lhes vota e verifica-se uma cumplicidade feita de um objectivo comum cumprido a gosto, o que é corroborado por todos os elementos. Camilo de Sousa: "Assim que lemos o guião fizemos tudo para que este filme fosse desviado de Angola. Este filme tinha de ser nosso... É uma história muito bonita e que pode ter um papel político importante..." Clarissa, directora de "casting" e responsável pelo guarda-roupa, beberica um chá e confirma que o filme "fala de ideais, dos ideais da altura que se polarizavam num e noutro lado do conflito, pois afinal todos amavam a mesma terra. Este filme mostra muito o que foi o racismo, a maneira como o português subestimava os negros... acho que é um filme de uma violência psicológica muito grande pois vemos como as pessoas eram atiradas para o meio do nada, no meio da morte. Acho que é isso, homens atirados para situações em que deixavam de saber o que estavam fazendo... E aqui já não é um filme português o!
u moçambicano mas universal."

José Carlos Oliveira perfilha este sentimento comum e diz que o filme deixou de ser português para passar a ser, no mínimo, "luso-moçambicano". E que lhe agrada esta restituição do seu a seu dono.

Todos os dias há problemas a resolver, novos contratempos, a "steadycam" que se avaria, um actor que se magoa, mas a rodagem prossegue num ritmo vivo. A visível segurança do realizador tranquiliza a equipa, José Carlos Oliveira tem uma condução serena, habilitada, que sabe procurar a agulha no palheiro. A dado momento, um dos actores, num laivo de impertinência, sugere que o realizador faça um "travelling" sobre o capim de modo a ver-se o ondear provocado pelas pás do helicóptero. José Carlos não acusa a interferência e riposta, pedagógico: "Tens razão, seria um plano bonito, a dificuldade está em saber se não seria ornamental. Numa fita com este tipo de valores humanos e emocionais o ornamento não tem lugar, não te parece?"

Vladimiro levanta alto o reflector - é um elemento-chave na opção técnica de filmar a 2/3 em contraluz, uma técnica muito arriscada, dada a intensidade e as flutuações da luz nestas latitudes. Claquete. Acção: a equipa acompanha o passo frenético dos soldados que gritam e agitam os braços na direcção do helicóptero. De lá, do héli, a "perche" que flutua acima da cabeça do Sargento deve parecer uma mosca a fugir do cardume.

"Quero pôr o espectador lá dentro!", diz o realizador sobre o plano subjectivo que se prepara. Francisco Veloso, o técnico de som, pede silêncio. Vladimiro posiciona o reflector, de modo concentrado. "Acção", grita José Carlos Oliveira
 
À noite chegam os "rushes", vindos de um laboratório na África do Sul: os contornos estão cheios de recorte, as cores ganham matizes, a escala dos planos dá a temperatura do lugar. Percebe-se que será um filme onde África vai estar presente.

"Fiz operações com o Roxo, não gostava nada dele...", escava Luís Sarmento nos seus tempos de comando, quando ainda não sabia que os "pretos tinham carácter e eram gente como eu e tu". Adivinha-se que tipo de crueldade perpassa nesse juízo sobre o referido soldado, mas os morcegos que vêm de trás da casa distraem com o seu ziguezaguear nervoso os comentários. No aveludado da noite os morrões acesos intensificam o silêncio. Está na hora de deitar que amanhã o dia começa às seis, à hora em que as neblinas ainda adejam sobre a barragem dos Pequenos Libombos, que fornece a água para Maputo.

- "Tia", quando tiver tempo faz-me um chá. Quando tiver tempo, pode continuar a comer a laranja...

- Mas eu agora tenho tempo.

- Então pode ser.

Enquanto a "tia" prepara o chá, José Carlos Oliveira refere que era para ter adaptado uma novela de Mário de Carvalho e que o escritor preferira trabalhar nesta história inédita, cuja qualidade o acabara por motivar.

A visível segurança do realizador tranquiliza a equipa. José Carlos Oliveira tem uma condução serena, habilitada, que sabe procurar a agulha no palheiro
 
O enredo de "Preto e Branco" conta-se duma penada: uma pequena patrulha de soldados portugueses depara com um bando de "turras" e apanha um deles, só que os homens vão morrendo no trajecto para o ponto de encontro com o héli que os recolherá e o Sargento, um aldeão nascido em Moçambique e completamente afeiçoado aos costumes, vê-se sozinho com um "turra" letrado, de Lisboa e de alma citadina, e que só ali se encontra por "consciência de classe". Às duas por três, no jogo dos contrastes de carácter, o Sargento está mais em casa que o "turra", e vão deixando de se ver como inimigos para se dimensionarem como homens que, afinal, lutam pela mesma terra. Para apimentar esta convivência difícil entre homens "no meio do mato", onde sentem esvaziada qualquer razão ideológica prevalecente para os seus actos, cai-lhes do céu a enfermeira Adelaide/Cristina Homem de Mello, que sobreviveu de pára-quedas à queda do avião em que seguia. E um triângulo de afectos na provação, em tempo de guer!
ra, acorda mil vespeiros.

Há, pois, guerra, ou antes, homens apanhados na girândola dos seus cagaços e que mais do que inimigos se descobrem iguais.

A cantina serve o almoço entre as 16h30 e as 17h30 quando a luz já não permite as filmagens
 
Para Norodine Daúde, uma torre com uma voz pausada, cantante, e que é o "cenógrafo desta guerra", o responsável pelo bom efeito das explosões, dos ricochetes dos tiros nas árvores, etc., "o filme tem graça porque a sua dinâmica é diferente e dá uma certa abertura para uma espécie de reconciliação, pois nesta história invertem-se um pouco os papéis, o que a gente pensa que é o de fora é o de dentro e o de dentro é afinal o de fora... a história é bonita, esta luta não é tanta a dos tiros como a do conflito psicológico entre pessoas". Já para Eberhard Schedl, alemão, o homem da câmara à mão, uma contradição mina o guião: "Não existe ódio neste filme. Para mim, este conflito está nos limites do crível porque entre estes dois inimigos não existe ódio. O ódio existe à volta deles mas não entre eles." Explico-lhe que os soldados portugueses que fizeram o 25 de Abril, durante essa operação de sublevamento militar paravam os tanques e carros de combate nos semáforos vermelhos, mas Ebe!
rhard nasceu com a memória de outro tipo de guerras e fala em amputação de orelhas, de outros crimes afins, talvez esquecido do próprio aviso do realizador para quem este não é exactamente um filme de guerra mas de reconciliação entre os homens.

Na próxima Primavera, o espectador lisboeta saberá como irá José Carlos Oliveira resolver todas as tensões e contradições a que qualquer filme é permeável, mas agora há que arrepiar caminho, que o "set" fica longe e o plano de trabalho é para cumprir.

 Luís Sarmento    

Técnico e gestor de turismo, além de assessor do Ministério moçambicano para a área, 35 anos, Luís Sarmento é um desses casos de "português à solta" a que se referia Agostinho da Silva para caracterizar um certo espírito de desenvoltura, adaptação e demanda da alma lusa. Natural de Moçambique, antes do 25 de Abril foi oficial dos comandos nas tropas portuguesas, destacando-se como combatente. Na guerra, apesar da sua boa-fé na defesa das cores coloniais foi dando conta de que afinal os seus inimigos eram seus iguais e, após a gradual consciência social que lhe veio com as convulsões do país, entregou-se ao exército moçambicano, "confessando os seus crimes", de modo a pagar a sua dívida. O exército mandou-o embora e Luís Sarmento foi viver junto a uma comunidade piscatória na Ilha da Inhaca. Aí reconciliou-se consigo e com a terra. Mais tarde, regressado a Maputo tornou-se empresário sendo hoje um homem respeitado em todos os quadrantes. Participou nos filmes "Tempo dos Leopard!
os", de Camilo de Sousa, e em "O Lento Gotejar da Luz", onde José Carlos de Oliveira o topou, escolhendo-o imediatamente para encarnar o Sargento, um branco nascido em Moçambique e mais cafrealizado que muitos dos seus inimigos. É um dos vértices do núcleo central do filme.

Cristina Homem de Mello    

Actriz, 37 anos. Já fez de Inês de Castro no filme "Inês de Portugal", também de José Carlos Oliveira, e esse desempenho de uma personagem mítica que jogou a vida nas fronteiras da língua, do país e do amor, marcou a sua carreira. Mas como começou esta actriz que, ao contrário do que é habitual, não gosta das rotinas do teatro e do seu gotejar dia-a-dia no embate com o público, preferindo a câmara? Andou no Liceu Francês e fez o Isla, antes do Tozé Martinho a ter empurrado para a televisão. Depois tornou-se uma presença regular em séries televisivas de encarecido valor: "O Quadro Roubado", de José Carlos Oliveira, 13 episódios escritos por António Torrado; "Os Melhores Anos", primeira série realizada por Jorge Paixão da Costa e a segunda por José Carlos Oliveira, ambas com guiões de João Aguiar; "O Rosto da Europa", docudrama em 15 episódios de José Carlos de Oliveira, e também escrita por João Aguiar; "O Crime...", série com argumento e realização de José Carlos Oliveira; e p!
or fim "Inês de Portugal", "O Dragão de Fumo" (série e filme), de José Carlos Oliveira, e "Preto e Branco", que interpretou e em cuja produção trabalhou. Faz de Adelaide, uma enfermeira que, por acidente de serviço (o avião em que viajava é atingido e é largada em pára-quedas), terá de partilhar a vida no mato com dois homens e que irá tornar mais humana a relação entre Pascoal, o "turra" prisioneiro, e o Sargento.

Ângelo Torres    

Actor, 35 anos, nascido em S. Tomé e Príncipe. Radicado em Portugal, não lhe falta trabalho como animador cultural e "contador de histórias" - é uma dessas criaturas itinerantes que preservam a memória oral e que encantam as crianças com histórias deste e doutro mundo. Como actor está consciente de que "há poucos papéis para negros, em Lisboa, mas há que insistir até todos terem a mesma oportunidade sempre que se trata de representar o homem". Esta irrequietude em relação aos lugares tem reflectido, aliás, a história da sua vida pois já viveu algum tempo em França, onde participou numa longa-metragem, e assentou raízes por largos anos em Espanha, tendo também aí, como actor, entrado em duas longas-metragens espanholas. Era este o currículo antes de José Carlos Oliveira o ter arregimentado para fazer de Pascoal, um "turra" educado na Metrópole. A Pascoal só a "consciência política", mais do que o afecto a uma terra com a qual nunca tinha tido contacto, empurra para a guerrilha.!
É um dos elementos-chave da intriga e do contraste que faz a diferença e a graça desta história de Mário de Carvalho, e onde o branco é mais preto que o preto e vice-versa, num jogo de espelhos e de ironias. Depois deste já participou no último filme de Galvão Telles.

Terça-feira 28 Dezembro 2004 jornal CM – Maputo

TRIBUNA
                  por João CRAVEIRINHA

CINEMA, ÁFRICA PORTUGUESA
E ALIENAÇÃO COLONIAL NA RTP

“The lion and the calf shall lie down together but the  calf won't get much sleep”…in WOODY  ALLEN  (O leão e o vitelo podem deitar - se juntos mas o vitelo não  conseguirá adormecer)

Sábado dia 20 de Setembro 2003. São 15,08’ horas em  Moçambique… Noticiário das 14,08’ na RTP emitindo de Lisboa…O  locutor de serviço da RTP em 2003 comete uma “gafe” política...
– Fala com saudade e diz … ÁFRICA PORTUGUESA… para  dizer… lusófona… Tem no estúdio o realizador de cinema  português José Carlos Oliveira (que nunca tinha estado em  Moçambique antes) e a actriz Cristina Homem de Mello. Falam a  propósito do filme de J. Carlos Oliveira intitulado “ PRETO E  BRANCO” rodado em Moçambique…e com pretensão de…”filme  catarse”… da guerra colonial…Não confundir o título com o do filme  francês “PRETO E BRANCO A CORES” de décadas atrás…por  sinal muito bem feito exorcizando fantasmas do colonialismo  francês em África…No filme francês foi dada muita dignidade às
personagens africanas oprimidas, dentro do realismo brutal, da  colonização francesa na costa ocidental de África…Com humor mas  realismo ficcionado e não fantasias tentando dar uma imagem  errada do que foi esse facto histórico…Não são suficientes os  fantásticos efeitos especiais, alta tecnologia digital, criatividade,  bom casting, para se contar uma boa história em cinema ou  televisão…É preciso conhecimento dos factos reais como base da  narrativa a ficcionar...do argumento, e não nos podemos basear na  propaganda de um lado ou de outro. A obra sai muito artificial e  forçada. Rodeia-se para omitir. Falta de liberdade criativa.  Condicionalismos políticos sobrepõem-se. Inventa-se o que nunca  poderia ter existido. Há balizas para a ficção histórica.  
No entanto de amiúde surgem em Portugal, a beira-mar plantado,  tentativas de “fazer qualquer coisa” no CINEMA como neste caso  (FILME PRETO E BRANCO), ou em TELEVISÃO como por  exemplo a aberração de argumento da TELENOVELA “A JÓIA de  ÁFRICA” da TVi de Lisboa. Não confundir o título com o de “JÓIA  DA COROA” seriado da BBC sobre o colonialismo britânico na  então “British India”. A JÓIA DE ÁFRICA filmada em Moçambique –  história absurda situada na Zambézia talvez no Chinde das   “Donnas” mas filmada em Inhambane que de comum… só os  coqueiros…Nem os actores moçambicanos são de características  étnicas dos da Zambézia para não falar dos usos e costumes e  pronúncia idiomática quer do português quer da língua e dialecto  locais…Depois não venham falar das dissimetrias – Sul…  Norte…Até para se fazer um filme de referências da Zambézia no  Norte do Rio Zambeze…filma-se em Inhambane no Sul do Rio  Save…Não venham falar de dificuldades logísticas acrescidas caso  a Produção se instalasse na cidade de Quelimane, capital da
Zambézia…Foram para lá direccionados…Mais perto de Maputo.
Voltando ao Cinema –, é de surpreender que alguns actores e técnicos moçambicanos no recente filme português “PRETO E BRANCO”, sendo do Partido FRELIMO, da nova, e talvez por isso, não se tenham apercebido do anacrónico papel que lhes coube no filme em que foi escamoteado o aspecto fundamental da luta anti-colonial rumo à Independência Nacional – principal motivo da  guerra de libertação para os moçambicanos e guerra colonial para  os portugueses… Não é por serem recitados slogans de “consciência política” ou de “suavizar” aquilo que foi o racismo colonial português em Moçambique que se “exorciza” o que de perverso teve o colonialismo português, em termos de MENTALIDADE COLONIAL perdurando aos dias de hoje, em Portugal, na Europa, no Mundo… e em Moçambique… Muito moçambicano padece de complexo colonial de
inferioridade…porque em relação aos europeus …dentro da
anormalidade é normal que tenham complexo colonial de
superioridade no comportamento do dia a dia, no relacionamento com o moçambicano de pele mais escura ou morena … ou também olhando de cima para baixo mas com paternalismo colonial…Muitos dos políticos moçambicanos contribuem para isso com o seu servilismo perante aos europeus e indianos…associados ao dinheiro, negócios e quejandos…Então quando vão ao estrangeiro?
…Dá pena… Mas que fazer!?...”Nã vale a pééna!”(É mesmo nã, com dois és e acento. Expressão à povo moçambicano)…
A antestreia do filme “PRETO E BRANCO” teve lugar no dia 20 de Setembro de 2003, na cidade do Porto no Teatro Rivoli.
Contou com a presença inaugural do Presidente cessante Joaquim CHISSANO. Cerca de 70% dos técnicos e actores, foram moçambicanos. É uma co – Produção da RTP com a Marginal Filmes. No feliz dizer de José Alberto, pivot da RTP – Televisão pública portuguesa, no telejornal da noite do dia 20 de Setembro, …” o filme troca algumas cores da guerra”…(FIM)


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