REGRESSEI...


Porque cantei ao Criador
Senti o mar alongar-se
Por não me ter dado vida e amor,
Por eu ter voltado...

Voltei...
Nas asas de um poema.
Fechei os olhos e senti
O baloiçar das palmeiras,
O leve roçar das folhas
Numa brisa escaldante de fim de tarde.
Emocionei-me,
Ao ver a matiz do céu ao Pôr de Sol,
Num olhar doce junto da beira-mar...


Voltei à terra!... Na outra costa de Angola,
Senti o cheiro da terra húmida,
O cacimbo da manhã,
O Sol escaldante do dia,
A preguiça do calor,
O suor escorregadio na pele.

Tive vastas sensações
Num poema que lembrou-me a raiz,
De um Moçambique imaginário
Porque pertence ao passado.
Hoje, Moçambique está mais pálido,
As ruas já não são garridas
E, até o rufar dos tambores

Não se ouvem ao longe, noite inteira.
O rasto dos machibombos apinhados
Depois das sete, deixam as ruas desertas.



 
Também não quero ouvir pregões
Deste casario desordenado
Desta gente desenfreada
Numa correria louca
Em louca competição
Numa cidade em convulsão...

Não estou lá, nem estou cá!
Os meus sentidos anseiam pela Paz
De noites tranquilas...
Tropicais?!... Mediterrâneas?!... Tanto faz.
Desde que haja silêncio
Eu consiga ouvir o meu coração bater
A minha alma aquietar-se
Num aconchego real.

Sede... Tenho sede dos crepúsculos a dois,
Em tons calmos e mornos,
Onde se instalou a cumplicidade
E a saudade é verbo sempre actual.
Ah! Só porque voltei,
Nas asas de quem não conheço bem,
Onde só o nick me é familiar,
Sinto-me, assim, "A TAL"...

Fechei os olhos
E deixei sentir emoção
Num grito de dor e prazer,
Por ter me deixado levar
Pelo rubro das acácias
Pelo calor do Sol
E, pelo afagar da alma.
Voltei! Com quem?!...

                                                   Carla Dimitri



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