TAL&QUAL – 15.10.2004

Texto l ANDRÉ BARBOSA

 Fotos | JOSÉ CARLOS PRATAS

     José Castelo Branco, o mais popular concorrente da "Quinta das Celebridades", gaba-se de descender de uma li­nhagem de famílias reais euro­peias, mas a "nobreza" de san­gue do "marchand" encontra-se em África, precisamente em Mo­çambique. Sérgio Vieira, o seu ir­mão mais velho, é uma figura de vulto naquele território africa-no: foi braço-direito de Samora Machel, co-fundador da Frelimo, ex-ministro da Segurança e é agora director do maior programa de desenvolvimen­to de Moçambique, o Projecto do Vale do Zambeze, entre muitos outros cargos de relevo exercidos desde há anos.

Ao contrário do polémico "conde de White Castle", o seu irmão é uma celebridade que prima pela discrição. E que não se importa de arregaçar as man­gas quando se trata de trabalhar. Enquanto José Castelo Branco saltita, de Chanel, entre as cou­ves da Quinta da Baracha, Sér­gio Vieira passou a última sema­na, incontactável, em peregrina­ção pelas localidades pobres onde começam a florescer infra-estruturas hidráulicas e comple­xos agro-industriais, aproveitan­do os recursos do maior rio de Moçambique.

     Apesar da polémica à volta do concurso da TVI e da participa­ção de Castelo Branco, Sérgio Vieira alega não saber nada so­bre o assunto. "Por onde tenho andado, não vejo televisão, nem tenho tido contactos telefónicos. Nada mesmo! Além disso, é um tipo de programas que eu não vejo", sublinha o ex-deputado em conversa com o "T&Q". Nem sequer a mãe, Nini, tem relatado ao filho mais velho as aventuras agrárias do negociante de arte.

Sérgio Vieira assume ao "T&Q" que nunca foi um irmão presente durante a infância e adolescência de Castelo Branco. "Quando ele nasceu, eu estava na guerra, depois entrei na Frelimo, por isso praticamente não o conheci nessa altura". Nem nas décadas de 60 e 70, nem nas se­guintes. "Quando ele partiu para Portugal, foi com os nossos pais, estudar não me lembro o quê para a Escola António Arroio, se não estou em erro".

Sérgio Vieira parece desco­nhecer grande parte da vida de Castelo Branco. Garante que há "contactos regulares", mas a últi­ma vez que se encontraram aconteceu no ano passado, numa visita-relâmpago ao nosso País, a convite do presidente da Assembleia da República. "Não estive em casa dele, ele vive afas­tado de Lisboa e não deu para ir até lá", conta.

Apesar de afiançar que as rela­ções entre ambos são "perfeita­mente normais", o "T&Q" soube que o político nunca aceitou a exuberância de Castelo Branco. "O irmão quase o escorraçou de Tete, não convivia muito bem com os gestos amaneirados do Zé. Já na altura era gozado, e ti­nha uma alcunha depreciativa de que agora não me recordo", reve­la ao "T&Q" um familiar de Cas­telo Branco, que preferiu manter o anonimato. Sérgio Vieira des­mente, garantindo que nunca chegou a aperceber-se que o ir­mão era o homem excêntrico que agora preenche as conversas de muitos portugueses. "Nunca estive com ele durante a infância, estive mais perto da minha irmã", volta a salientar.

      Sérgio Vieira reside no bairro de Sommerschield, em Maputo, com a mulher e os quatro filhos - os sobrinhos de Castelo Bran­co. "É um sítio onde vivem pes­soas de elite", conta ao "T&Q" um jornalista do "Diário de Mo­çambique". Nesse bairro estão igualmente instaladas embaixa­das como a dos Estados Unidos, uma clínica e a sede da Frelimo, o partido no poder que ajudou a fundar. Basta-lhe sair de casa e atravessar algumas ruas para lá chegar, embora a maior parte da sua actividade se desenrole hoje na região do Tete, onde nasceu -ele e Castelo Branco.

Acusado de matar Samora Machel

     Ao contrário do irmão, Sérgio Vieira prefere não ostentar sinais exteriores de riqueza. "Nunca deixa entender que tem dinheiro. Ë claro que tem um bom carro, como todos os ou­tros políticos e empresários, mas nunca se vê, por exemplo, em es­tâncias de férias, como outros", continua o jornalista moçambi­cano.

     No entanto, Sérgio Vieira que, soube-se esta semana, vai deixar de ser deputado pela Frelimo, cargo que ocupava na Assem­bleia da República, foi recente­mente criticado por se dedicar mais aos insultos políticos do que ao Gabinete do Vale do Zambeze. "Continuou no Maputo a curtir as noites de luzes, a refrescar-se da brisa marítima das barreiras da Costa do Sol, onde se alojam, preguiçosamen­te, os novos ricos", desabafa-se num texto publicado na Internet.

Porém, o jornalista garante que Sérgio Vieira é um homem estimado. "Ele não é polémico. As pessoas gostam dele como um político da velha guarda e apreciam o que está a fazer pelo Zambeze", garante,

Mesmo assim, a Renamo, partido da oposição, não perde uma oportunidade para o envolver em diversos escândalos. "Sempre que os ânimos se exaltam,
acusam-no de ter sido responsável pela morte de Samora Machel", conta o jornalista. Recor­de-se que Sérgio Vieira, além de amigo pessoal do antigo presi­dente moçambicano, que mor­reu em 1986, na sequência da
queda do avião onde viajava era, na altura, ministro da Seguran­ça.

Esta não foi a única polémica onde se viu envolvido: "Foi acu­sado publicamente de ter morto algumas pessoas, isto na altura de Samora Machel. Ele próprio chegou a meter o caso em tribu­nal e nunca se reuniram provas suficientes", recorda o jornalis­ta. As acusações não o fazem ca­lar. "É um dos intelectuais da sua bancada, dos pensadores mais activos, dos que mais falam na Assembleia. E também o mais atacado", acrescenta.

"Orgulho-me dele'7

    Castelo Branco já recor­dou Sérgio Vieira por di­versas vezes, em entre­vistas e agora na "Quin­ta das Celebridades". "Tenho um irmão que está em Moçambique, Sérgio Vieira, que é político. Estudou cá, nas Caldinhas, em Santo Tirso, e for­mou-se em Direito. Aliás, é amigo pes­soal do presidente Jor­ge Sampaio e de uma série de dirigentes da época", disse em entrevista à revista "Caras", em Abril do ano passado. A serem verdade os rumores que dão conta da relação con­flituosa com o irmão mais velho, Castelo Branco apa­renta não guardar rancor: "O meu irmão sempre foi coerente e abraçou a cau­sa que ainda hoje defende. Orgulho-me muito dele", acrescentou.

O intelectual da família

     E tem motivos para isso. O "cérebro" da fa­mília não só frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa, entre 1959 e 61, curso que viria a prosse­guir na Universidade de Paris até 63, como tirou uma licenciatura de Ciências Políticas na Universidade de Argel, na Argélia, e ainda fez es­tudos políticos no Colege d'Europe, na Bélgica. Regressado a  Moçambique, foi combatente da Luta de Libertação Nacional até 1974, seguindo depois para a di­recção do Gabinete de Samora Machel, até 77. Foi ainda, antes de se tornar Ministro da Segu­rança, em 1984, Governador do Banco de Moçambique e Minis­tro da Agricultura - função que acumulou com os cargos de vice-ministro da Defesa e de Governador do Niassa.

      No auge da carreira de Sérgio Vieira, já José Castelo Branco ti­nha rumado a Portugal. Dois ou três anos depois de vir para o nosso País, com o irmão a mi­lhares de quilómetros, o marchand sentiu-se com liberdade suficiente para criar a sua Tatiana Valeska Romanov, uma figura que muitos conhecem da noite lisboeta, ape­sar de a celebridade garantir que aquela mu­lher exuberante apenas desfilava. "Isso é mentira! Passava a vida no Fi­nalmente, uma discoteca 'gay', e fazia shows de travesti nou­tras casas", garante o mesmo fa­miliar que vive em Portugal. Já na década de 80, casa com Ma­ria Arlene, assistente de Fialho Gouveia no programa "Arca de Noé" (RTP1). Mas as saias e a maquilhagem continuam a transformá-lo em Tatiana.

    Sérgio Vieira, reputado políti­co, professor universitário, es­critor e investi­gador científico, entre mui­tas outras activida­des, nem desconfia­va que, em Portugal, o irmão Cas­telo Bran­co inunda­va a noite com purpurinas.

 

 

 O homem dos sete instrumentos

 Nome - Sérgio Vieira

Local de nascimento -Tete (centro de Moçambique)

Estado civil - casado Filhos - quatro

Formação académica - licenciado em Ciências Políticas na Universidade de Argel (Argélia), em 1967; estudou Direito na Fa­culdade de Direito de Lisboa entre 1959 e 61; estudou Direito na Universidade de Paris entre 1961 e 63; fez estudos políticos no Colege d'Europe (Bélgica) em 1962.

Actividades políticas e profissionais - antigo comba­tente na luta de libertação de Moçambique; director do gabine­te do Presidente Samora Machel (1975/77); governador do Ban­co de Moçambique (1978/81); ministro da Agricultura (1982/83); governador do Niassa (1983/84); vice-ministro da Defesa (1983/84); ministro da Segurança (1984/87); professor na Universidade Eduardo Mondlane (desde 1987); director do Gabinete de Estudos Africanos (1987/92); escritor; consultor em Ciências Sociais; investigador científico do Centro de Es­tudos Africanos da UEM; membro da Organização Nacional de Professores; Organização da Juventude Moçambicana; Asso­ciação de Escritores Moçambicanos; director do Projecto do Vale de Zambeze (desde 2001); membro do Comité Central da Frelimo; deputado nas legislaturas 94/99 pelo círculo eleitoral do Tete pela bancada da Frelimo; deputado; mem­bro da comissão permanente da Assembleia da República; coronel na reserva.

 

O GRANDE PROJECTO DO IRMÃO

A zona do vale do Rio Zambeze é conside­rada pelos especialistas urna das regiões hi­drográficas de maior potencial energético da África Austral, Além da criação de uma central hidroeléctrica, o projecto dirigido por Sérgio Vieira prevê a ligação de populações pobres à Internet, a arborização da albufeira de Cahora Bassa, incentivos à pecuária e reflorestamento de grandes áreas.

Mas não é só: "No dia 5 de Outubro come­çou a nascer ali a maior linha ferroviária do Mundo!", congratula-se o político ao "T&Q", "Está tudo a correr perfeitamente e temos tido muitos incentivos do estrangeiro", diz-nos.

 

 


   Vieira, eu?!


  José Castelo Branco - ou José da Silva Vieira -, escolheu usar o apelido da família materna. O seu avô chamava-se Pe­dro Castelo Branco, um homem que o "marchand" alega ter co­meçado como escrivão e que rapidamente chegou a solicitador. De acordo com um familiar do negociante de arte contactado pelo "T&Q", o apelido teria sido "oferecido" pelo patrão ao bisa­vô da celebridade, que nasceu na Guarda e foi trabalhar para a índia. "O homem não tinha apelido e quando nasceram os pri­meiros filhos, o patrão ficou com pena e deu-lhes o próprio nome", conta.

  A mãe, Inês Castelo Branco, mais conhecida por Nini, que vive com o filho e Betty Grafstein na vivenda de Sintra, casou-se com o indiano Francisco da Silva Vieira. O casal teve três filhos: Sérgio, Gabriela - que é veterinária em Portugal - e o "caçula" José.