Havia festa em Magul — a uma centena de quilómetros
de Lourenço Marques, passada a Manhiça e Xinavane, por consequência, nos
arredores da capital.
Assinalava-se
mais um aniversário da vitória alcançada sobre as mangas do Gungunhana.
Recordava-se o nome puríssimo de Paiva Couceiro.
A
festa era mais rija do que o costumado, pois gozava da presença de um Ministro
das Colónias. E, por esse motivo, tão rija que a homenagem parecia rendida ao
Ministro e Magul funcionava como vaso de incenso, altar e terreiro de
espectáculos.
Vamos
a Magul.
O
percurso é agradável.
Passámos
Maracuene, em correria.
Bordejámos
a seguir o vale do Incomati, que (dizem ainda substanciais relatórios e
sugere-o o recorte físico do terreno) poderia ser, como outros vales húmidos
deste Sul do Save, celeiro, pomar e talho, abundantíssimos e generosos.
É
apenas um vago e mal amanhado mostruário de possibilidades. Topámos arrozais e
plantações de bananeiras, quase perdidas na imensidade dos incultos. As
plantações de bananeiras resgatam até certo ponto o panorama pobre da ocupação
agrícola: um grande tapete verde de folhas largas e preguiçosas ocupa já uma
superfície impressionante, e rende para o proprietário e para a economia da
colónia valores consideráveis. O esplendor fresco e, ao mesmo tempo, solene, de
paisagem compensa os espíritos contemplativos de melancolia que fere os
espíritos utilitários. Na Manhiça, povoado sede de circunscrição, alcançado
quarenta quilómetros além de Marracuene, houve um homem de bom gosto que preparou,
num poleiro ideal do terreno, uma varanda esplendorosa sobre o vale. O quadro
merece a viagem à Manhiça. Toda a beleza magestosa da enorme lezíria se oferece
aí para deslumbramento de turistas. O verde dos vegetais, a suavidade de cor
dos planos profundos, as brandas neblinas que empoam o azul — e a extensão
esmagadora dos horizontes, elevam a contemplação às alturas espirituais das
grandes emoções de arte.
Neste
Sul do Save monótono, pobríssimo de paisagem e de frescura, todo ele imbuído de
melancolia pesada das estepes—a varanda da Manhiça é jóia rara, por onde não
passará sem assomar-se nenhum espírito de bom gosto.
Mais
além, rodados mais umas dezenas de quilómetros, a estrada desce e penetra no
vale. De um lado e outro da estreita passadeira estendem-se a lonjuras a
lezíria de Xirravane. Parece agora, nesta época ressequida do ano, uma grande
estepe. Surgem manadas de bovinos tasquinhando os primeiros rebentos verdes. É
outro aspecto, outra forma das terras marginais do Incomati.
Bordejamos
as plantações da Companhia Açucareira «Incomati States», ao longo da cortina
do canavial—e, até Magul, a paisagem não merece a fadiga de a contemplar.
Se
porém a paisagem física, na sua árida chateza, aborrece as vistas que a procuram
- a paisagem histórica, mesmo diminuída pelo aparato oficial das cerimónias
comemorativas, tem a cor, o relevo e os horizontes dos melhores quadros da História
de Moçambique. De Magul — daquele pedaço de terra plana e ressequida em que se
ergue o monumento — vêem-se, em golpe de vista lançado de culminância para
lonjuras, o quadrado de Marracuene, a batalha de Coolela e o acto apoteótico
que foi a prisão do Gungunhana.
Enquanto
decorrem, perante a multidão dos negros, chamados como vencidos a homenagear os
vencedores e perante os burocratas da administração, as fases místicas do
cerimonial comemorativo—recordo, de um lugar tranquilo, as páginas de História
que consagraram o nome e as terras de Magul.
Poucos
anos antes de Magul, era este Sul do Save, sem limites definidos, hora amarga
da noite negra que precedeu a obra de ocupação. Politicamente, uma espécie de
vago protectorado, mantido, as mais das vezes com desvantagem e prejuízo, ora por manobras diplomáticas em que o prestígio da soberania sofria
frequentemente humilhantes desaires. Praticamente nada diferia, na essência, da
paisagem política e social dos vastos territórios ocupados por potentados
gentios: as correrias guerreiras, as invasões e emigrações, as intrigas
sucessórias e dinásticas, enfim, a permanente fervura de sociedades bárbaras,
ainda fortes pelas suas instituições e pelo número, permanentemente
movimentadas pela inquietação trágica dos povos bantos. Os colonizadores
europeus tentando, cada vez mais insistentemente, as penetrações profundas, e
procurando sofregamente direitos de ocupação, intrometiam-se na intriga e nas
contendas indígenas, procurando cada um orientá-las a favor dos seus desígnios.
A
situação dramática resultava especialmente do interesse suscitado pela África
entre algumas nações poderosas da Europa—interesse que desencadeava campanhas
diplomáticas e corridas expansionistas, verdadeiras corridas de obstáculos em
matos eriçados de complicadas e trepidantes soberanias gentílicas.
Na
última década do século passado, cerca de 1894, ganhos já pelo antigo presídio
de Lourenço Marques, os foros de cidade—não se rompera ainda, todavia,
completamente, o cerco abafante que se opunha à expansão da soberania no
sentido das terras do interior. A orgânica administrativa compreendia um distrito
de Lourenço Marques, mas, na verdade só precariamente dominávamos um
escasso território, de limites indefinidos, ao longo do rio Incomati e para
Sul do rio Espírito Santo. Para além de Cossine (no Norte e no vale do
Incomati) eram as terras do Gungunhana — um potentado que condescendia em
dizer-se vassalo de Portugal... uma vez que lhe respeitássemos a independência.
Arrumada,
com a sentença arbitral de Mac-Mahon, a questão com a Inglaterra e desviado
assim o mais perigoso concorrente às terras do Maputo — permanecia, no
interior que envolvia a cidade nascente, a soberania de facto dos régulos indígenas,
contra a soberania que pretendíamos fazer reconhecer. Por detrás dessa pesada
cortina surgia outra vez a Inglaterra, cativando o Gungunhana.
No
próprio distrito, rijamente apertado entre o mar e as terras do Gungunhana, só
dominávamos efectiva e soberanamente a cidade de Lourenço Marques e os
arredores. O restante território — as chamadas terras da coroa, onde se
cobrava imposto de palhota e se recrutavam soldados e trabalhadores — era um
mosaico de regulados que, apertados entre o poderio do Gungunhana e os
estabelecimentos portugueses, receando ambos, ora se apoiavam em uma ou outra
força. Não distava mais do que a 1872 a última grande chacina sofrida pelos portugueses
de Lourenço Marques.
Em
resumo: opunham-se à expansão da cidade e à ocupação efectiva do território,
uma região habitada por régulos-vassalos insubmissos, apesar de sujeitos ao
imposto e ao serviço militar (nas terras da coroa —e, nos seus domínios,
para além da Cossine, o Gungunhana derriçado pela diplomacia sertaneja de
portugueses e ingleses.
Era
esta a situação, recordada naquela hora festiva de Magul, a traços grossos e
breves.
Resta
lembrar também quem eram os povos que se nos opunham—avós, daqueles que
participam hoje, com mímicas de guerra,
nas festas comemorativas do combate. O Gungunhana era um
Zulu (vátua) na denominação portuguesa) descendente de aguerridos chefes, cujo poder e prestígio tiveram como fundador
o célebre Tshaka — político e guerreiro tão notável que ficou conhecido como o
Napoleão negro da África do Sul
Tshaka obteve o
poder, impondo-se, pela força de que dispunha como chefe do exército e como
guerreiro de altas qualidades, herdeiro do soberano de sangue da Zululândia—o
Dinjissnaio. Dois dos melhores generais—o Mosselakatse e o Manikusso — bons
discípulos da sua escola política e guerreira — seguiram-lhe o exemplo. Quando
as conquistas de Tshaka excediam já, territorialmente, as suas capacidades para
governá-las e mantê-las, resolveram estes seus generais, libertar-se do comando
do chefe supremo e prosseguir nas conquistas — mas em proveito próprio.
Mosselakatase,
depois de aventuras guerreiras mais ou menos afortunadas, que o levaram a
terras da Rodésia, fundou aí o reino dos Matabeles, de que foi o primeiro rei.
Manikusso, avançando, raziando, conquistando, entrou pelo Maputo e foi até à
Cossine (Mazimchope). Consolida prestígio e poder derrotando um outro general
do Tshaka que viera em sua perseguição — e, assim destravado, estende a sua
conquista até às margens do Zambeze para onde empurra o seu antigo aliado
Sangadaba.
Tudo
decore, como se vê, conforme os moldes clássicos das intrigas sucessórias e
guerras gentias em toda a África banto.
Em
1834, eram tamanhos o poder e ousadia do Manikusso que Lourenço Marques foi
atacada pelas suas tropas e trucidada a pequena guarnição que defendia o
Presídio.
Estava
fundado, com este Manikusso, que só em 1861, viria a morrer em Bilene, o reino
que mais tarde seria do Gungunhana.
Depois de
Manikusso veio seu
filho Mauéua, que logo se atiçou contra um irmão—o Muzila—obrigando-o a
refugiar-se no Transval.
Os portugueses
resolveram então, habilmente, tomar partido pelo exilado, que tendo, com este
auxílio, conseguido derrotar o Mauéua e ocupar o trono, se reconheceu vassalo
de Portugal.
Morreu
em 1883. Devia suceder-lhe Mafemane, seu filho e herdeiro legítimo. Mas outro
filho, sem direitos, que lhe cobiçava a herança e o poder, mandou-o assassinar.
O
assassino chamava-se Mardungaz ou Mordungaz—mas subiu ao trono com o nome de
Gungunhana.
A
morte do nosso aliado Muzila preocupou naturalmente a governação portuguesa.
O sucessor respeitaria ou não os sentimentos de gratidão e obediência de seu
pai. Da sua crueldade e espírito sanguinário dera imediatamente provas: da sua
versatilidade sabia-se que era soberano do gentio—e isso bastava.
A
habilidade de um sertanejo, antigo oficial do exército, armado em embaixador
junto do Gungunhana — José Cavaleiro de Alegria Rodrigues—permitiu que as coisas
se não descompuzessem até 1894. Não só o Gungunhana se manteve relativamente
fiel nas suas terras, para além da Cossine, sem incomodar desmedidamente as
autoridades portuguesas e o gentio do distrito de Lourenço Marques—como também
concordou em aceitar, como vassalo, algumas condições essenciais para a
afirmação dos nossos direitos de soberania perante o mundo civilizado.
Praticamentegozava
magnífica independência—e funcionava, de facto, como sombra negra, ameaça
permanente.
Exageravam-se
certamente o seu poder, a organização militar do seu exército, as suas
riquezas—até a extensão dos seus domínios. Mas, descontados mesmos os exageros,
o Gungunhana era, na verdade, o potentado mais temido e influente da colónia, depois
do Monomotapa. Os régulos vátuas enfeudados ao Gungunhana dominavam, pelo
menos, todos os vastos territórios que se estendem do Incomati até ao Zambeze e do país dos
Matabeles
(Rodésia) até ao Oceano.
A
corte do soberano funcionava em
Manjacaze, povoação que ele fundara, conforme a tradição dinástica, como seu
pai fundara o Udongo e Manikusso o Chaimite. A calma em que se vivera entre o
reinado de Muzila e 1894—calma relativa, muito eriçada de preocupações, erros
e fraquezas, agravadas pela
eterna incompreensão do
Terreiro do Paço acerca das realidades políticas e administrativas das
colónias—quebrou-se aparatosamente com uma insurreição dos principais régulos
das terras da coroa. Não tardou que a revolta se estendesse e avassalasse
quase todo o distrito de Lourenço Marques.
A
cidade viu-se novamente ameaçada, reduzida outra vez à situação de burgo cercado
- como ameaçado estava todo o próprio esforço realizado nos últimos anos para
vencer as terras do interior.
Por
detrás dos revoltosos espreitava o Gungunhana.
Por
detrás do Gungunhana esperavam activamente os ingleses.
Não
bastavam as tropas aquarteladas em Lourenço Marques para defender a cidade.
Cada habitante teve de fazer-se soldado. Fortificações improvisadas procuraram
aumentar a capacidade de defesa. O estado de alerta tornou-se permanente — e a
fadiga, as vigílias, ameaçavam vencer a população como aliados dos negros revoltados.
Em
14 de Outubro, foi a cidade violentamente assaltada. Defendida com desespero,
os assaltantes foram repelidos ao cabo de uma hora angustiosa de combate. E só
a fome e as dissidências entre os régulos assaltantes impediram novas
investidas do gentio.
Em
Novembro chegavam reforços da Metrópole, que consolidaram a posição defensiva
e puseram Lourenço Marques a coberto de novos assaltos — mas por falta de
capacidade ofensiva a situação não se modificou. A cidade continuava cercada.
Produz-se
então um acontecimento raro na amargurada História de Moçambique — História de
heróis e de mártires sacrificados a incapacidades políticas e administrativas:
o Governo considera a gravidade da situação, sem ilusões nem cobardias, e
escolhe para enfrentar o homem recomendado pelas mais altas qualidades.
António
José Enes, homem de letras e homem de acção, espírito combativo e espírito
estudioso, energia clara e reflectida
— o
político que sabia pensar como homem de ideias e agir como homem de acção, que
amava os valores e não os invejava, que não se sentia deminuido com os triunfos
e as glórias dos seus colaboradores, e para o qual a política era apenas o meio
de servir superiormente o seu país—foi nomeado Comissário Régio e enviado a
Moçambique, com os poderes necessários.
Não
tornaria a verificar-se na política colonial da Nação esta feliz coincidência
perante uma situação de gravidade ou emergência: um Governo reconhecendo
nobremente a sua incapacidade para resolver directamente, e a distância,
problemas de governo local; uma política que consentiu a nomeação do homem mais
indicado para enfrentar uma grande questão, desistindo de impor, conforme as
suas tendências e tradições, o primeiro medíocre categorizado pela influência e
compadrio, finalmente — o próprio
Homem.
A coincidência
entre estas circunstâncias e estes valores libertam definitivamente
Moçambique das amargas aventuras do seu passado, entregando a colónia, livremente,
às suas extraordinárias possibilidades de futuro.
Principia
então — e desta vez em ascenção gloriosa e firme—o período moderno da História
de Moçambique.
António
Enes concebe um plano político, — e todas as virtudes do plano ressaltaram à
medida que a sua execução se ia desenvolvendo.
Um
plano directo, objectivo, de homem de acção que sabe pensar e sabe rir dos
retóricos de Bizâncio: sufocar e punir a revolta das gentes das terras da
coroa, em termos de não ficarmos à mercê de outras; partir da defensiva
organizada para a ofensiva decidida, conduzindo esta até à pacificação real e
definitiva; criar as possibilidades táticas e estratégicas de ataque ao
Gungunhana — e atacá-lo, logo que as circunstâncias o permitissem, com o fim
de o reduzir a verdadeiro vassalo da coroa, ou aniquilá-lo.
O
homem de letras soubera subtrair-se inteiramente às tentações literárias que,
no seu tempo, e entre os homens da sua formação, deformavam os entendimentos
perante as realidades.
O
plano, precisamente concebido, seria preciosamente executado: dos elementos
materiais, das oportunidades, da selecção e estímulo aos valores, das
particularidades ambientes—de tudo, enfim, cuidou superiormente o
extraordinário chefe.
E
aqueles que com ele serviram conheceram a glória de servir, a glória de
mandar, a glória de obedecer—sem sofrerem decerto a melancolia dos
valores que apodrecem por não terem encontrado um chefe.
Em
28 de Janeiro de 1895, procedendo a organização da rectaguarda a reconhecimentos
cautelosos, abalava de Lourenço Marques a primeira coluna da ofensiva.
Tratava-se de ocupar Marracuene, óptima posição sobre o Incomati, e de exercer
a primeira acção punitiva sobre os rebeldes.
No dia
imediato assentaram-se arraiais, junto à margem do rio, no chamado Alto
da Massinga. As tropas tinham sido rudemente experimentadas pela
fadiga e pela chuva—e hesitava-se entre prosseguir as
operações na margem direita do Incomati e retirar de Marracuene para Lourenço
Marques, depois de instalar ali um posto militar de ocupação. Tudo
dependia do tempo melhorar, ou
continuar a chuva a impedir propósitos mais ofensivos.
As
coisas pareciam indicar que a simples presença da coluna afugentara os rebeldes.
Não se pressentia inimigo nem se quebrara o socêgo das primeiras noites mal
dormidas em bivaque.
Inesperadamente,
pelas quatro horas da madrugada de 2 de Fevereiro, acabavam as tropas de
despertar à ordem do toque de alvorada, foi o quadrado tático violentamente
acometido e roto em uma das faces. E o combate principiou em luta
corpo-a-corpo.
A
surpresa, a fadiga das tropas, a escuridão da noite, a vozearia bárbara do
gentio, provocaram o pânico — e tudo redundaria em trágico desastre, de incalculáveis
consequências, se a têmpera e bravura de alguns oficiais o não conjurasse, em
prodígios de energia heróica. O nome de Roque de Aguiar grava-se para sempre, na
História de Moçambique, durante este quarto de hora de angústia. Outros o acompanham
em esplendor heróico. Conseguem estes oficiais reconstituir o quadrado, reanimar
os tímidos, excitar os bravos e, por fim, mudar inteiramente a fisionomia do
combate. Os assaltantes, a cuja bravura se deve também justa homenagem, são
repelidos. E do quadrado assim reorganizado, depois de sacudida a luta
corpo-a-corpo, partem balas, em rajadas, que os desmoralizam. A luta a
distância perde logo intensidade. E antes que a manhã rompesse
a batalha estava ganha — e concluída com as primeiras luzes do dia, às seis
horas.
Fora
vencido um rude e perigosíssimo passo.
O desastre
que pairou sobre o quadrado de Marracuene teria sido, a consumar-se, talvez
irreparável. Juntaria aos rebeldes os poucos régulos que ainda se conservavam
na espectativa; lançaria as terras da coroa para os braços ávidos do Gungunhana
— e teria certamente decidido este contra nós.
Lourenço
Marques dificilmente se teria salvo.
A
vitória arrancada, contra as próprias circunstâncias que pesaram
consideràvelmente a favor da derrota, surtiu efeitos opostos. Senão
diametralmente opostos, pelo menos suficientes para desembaraçar o caminho até
esta planura de Magul, onde me encontrei naquela manhã festivamente
ministerial, a recordar estas coisas.
A
vitória significou a conquista do território — mas não realizara a
pacificação. Os régulos rebeldes debandaram para a sombra do Gungunhana,
levando as suas gentes, e deixando praticamente despovoados os territórios da
conquista.
Fora vencida a terra, também
insubmissa e cruel, armada de chuvas copiosas, mosquitos e humidades
corrosivas; fora vencido o gentio aguerrido que se levantara em aliança com a
terra inimiga — mas nem terra nem gentes estavam pacificadas.
Era
necessário organizar uma paz nos territórios
vencidos — e
prosseguir a guerra; consolidar
a vitória — e projectá-la à distância. Demais estava indicado que se
aproveitasse o favor das circunstâncias, para
desanuviar de vez, de todas as nuvens negras, o céu azul do Sul do Save.
Isto é: para suscitar a oportunidade de eliminar ou reduzir à
impotência o Gungunhana. O plano do Comissário Régio cumprir-se-ia até final.
Reorganizados,
com a decisão de quem sabe o que quer, as forças e o território, passou-se à
acção imediata: bater definitivamente os rebeldes vencidos, mas ainda não
convencidos, das terras da coroa; ocupar em volta, e mesmo no interior das
terras do Gungunhana, posições de onde o mantivéssemos em respeito de
verdadeiro vassalo; se as circunstâncias o permitissem, atacá-lo em
profundidade, liquidando-o de vez como chefe de gentes vátuas.
Era
o caminho para Coolela e Chaimite, com escala por esta planície de Magul—onde
hoje nos encontramos, em ar de festa.
Em
fins de Maio daquele mesmo ano de 1895 (bem se vê que a burocracia ainda não
sujeitava desmedidamente os homens de acção) estavam as coisas preparadas e dispostas
para se principiar a cumprir o plano ofensivo do Comissário Régio.
Organizaram-se
duas colunas — uma que se destinava a operações nas terras de Inhambane, e se
chamava a coluna do Norte; outra que operaria no distrito de Lourenço Marques—a
coluna do Sul. A primeira liquidaria de vez a insubmissão dos régulos das
terras da coroa; a segunda levaria a ocupação de posições e demonstrações de
força, em volta e adentro das terras do Gungunhana, até onde a fortuna o permitisse.
Comandava a primeira o major Gomes Pereira, levando consigo oficiais como Paiva
Couceiro, Freire de Andrade e Sanches de Miranda. Comandava a segunda o coronel
Eduardo Galhardo, entre cujos oficiais se contava Mousinho de Albuquerque.
Aquela primeira coluna, cuja memória se fixou nesta terra rebarbativa de Magul,
defrontava, conforme o historiador
dos portugueses em
Moçambique, a seguinte situação:
«Toda a região para o Sul do Incomati e entre
este rio e o mar estava pacificada, ou, pelo menos, não era abertamente hostil.
A Magaia, depois das operações que ali se realizaram, foi abandonada pelos
régulos rebeldes, o Matibejana e o Maazul, que se retiraram para o Norte; a
Matola conservava-se sempre, ao menos na aparência, a nosso favor; o régulo da
Moamba e o seu aliado da Cherinda esperavam o resultado da luta para se
pronunciarem, e entretanto não nos hostilizavam; a Manhiça estava a nosso favor
desde que as nossas tropas lhe pisavam o território; os povos de Intimane,
repartidos em vários regulados, eram uns por nós enquanto outros se bandeavam
com o Gungunhana. Para além da margem esquerda do Incomati fica a Cossine, que
obedecia a um régulo vassalo do Gungunhana chamado Chonguela Manavi, criança
de quinze anos de quem era tutor um tal Massingele. Esta gente, que só obedecia
ao Gungunhana, por medo das suas sanguinárias mangas, não se nos mostrou
hostil. Para nordeste ficavam vários pequenos regulados, sujeitos a um chefe de
nome Magioli, cujas relações com o senhor de Gaza eram mais íntimas e portanto
mais acentuado o espírito de hostilidade contra nós. Era aí, com a gente desse
régulo, com os cossas que mais o avizinhavam, e com os habitantes da
margem do Limpopo, que o Gungunhana, parece, mais contava e com eles se
propunha experimentar a sorte das armas».
Apesar
da vitória de Marracuene, a situação não era, por consequência, fácil. O
gentio rebelde do distrito de Lourenço Marques, certamente confiado no poder
do Gungunhana, e convencido que era do interesse deste apoiar os seus
propósitos de desforra, mostrava-se disposto a resistir e recuperar as posições
perdidas.
A
coluna entrou afoitamente na Cossine, onde estabeleceu um posto, e, em 30 de
Agosto, iniciou a marcha na direcção de Magul, onde então o Matibejana residia
e organizara o quartel general da resistência.
Em
3 de Setembro alcançava a planície de Magul.
Procuro
distinguir a paisagem brava de então no pacífico recorte desta planura, agora
animada por um monumento simples e esguio como ponto de exclamação, em volta do
qual há um palanque armado e bandeiras desfraldadas.
Uma
superfície chã, exposta à torreira do sol, atapetada de capins amarelos, quente
como uma grelha. Meia dúzia de árvores esqueléticas, amarguradas, vagueiam, perdidas
na solidão. No horizonte uma onda branda do terreno, arborizada, recorta no céu
linhas crespas de mata pobre.
Cerro
os olhos e parece-me ouvir, exalados da próprias paisagem, os acordes do poema
musical de Borodine sobre as estepes da Ásia Central.
Avistam-se
as primeiras forças inimigas já a curta distância da mata que limita a
planície. Os auxiliares — gentes recrutadas nas terras da coroa, acobardados
perante nós depois da vitória de Marracuene, e acobardados perante os rebeldes,
que não consideravam definitivamente vencidos — paralisados de
pavor, recusam-se a prosseguir. Inúteis todos os esforços para os
imobilizar; e iriam pesar nas operações de combate, como mais um inimigo. Toda
a coluna é obrigada a parar, tolhida pela paralisia nervosa de um dos seus
órgãos—e exactamente no momento em que uma paragem, por dar a entender receio ou
hesitação, se tornava mais arriscada.
Alguém
aparece, no entanto, disposto a sacrificar-se para salvar a situação.
É
magro e comprido como D. Quixote. Pulsam no
seu coração todas as generosidades heróicas do cavaleiro da Mancha. A sua
consciência é escrava da sua alma de cavaleiro. E seria mais tarde, somados os
passos que deu na vida e o espírito que os conduziu, o carácter de português
mais puro do seu tempo.
Tinha
a seu cargo o serviço de segurança da coluna.
Chamava-se
Henrique de Paiva Couceiro — e era então só tenente de artilharia.
Adiantou-se
na direcção do inimigo, a galope curto, bravo e sereno.
A
sua audácia, a simplicidade e naturalidade do cavaleiro e, certamente também, o
poder dominador que irradia dos gestos heróicos — impuzeram-se aos rebeldes.
Couceiro, não só os alcança sem receber ofensa, como também, chegado à fala, os
intima, em voz de estertor, confiada e ameaçadora, a entregarem o Matibejana.
Dava-lhes três dias—só três dias!—para cumprirem a intimação. E se não
cumprissem...
Dir-se-ia
que trazia consigo o poder divino de castigar e perdoar.
Os
rebeldes, assombrados, ouviram — e não ousaram o menor gesto contra o herói.
Couceiro, terminada a sua arenga intimativa
e ameaçadora, volta as costas ao
gentio e retira-se a passo.
Foi
esta façanha que salvou a coluna de um ataque imediato e deu ao comando o tempo
necessário para se reforçar e conjurar o perigo que resultava da cobardia dos
auxiliares.
As
tropas recuaram até Xinavane sob o pretexto de aí aguardarem que decorresse o
prazo fixado para a entrega do Matibejana. Na verdade procuravam apenas refazer-se
do precalço.
Passados
três dias, reforçadas e bem dispostas, avançaram novamente.
Em
7 alcançaram outra vez as terras de Magul. E na manhã de 8, marchavam então a
quilómetro e meio da mata que orla a planície, sensivelmente neste lugar em que
hoje nos encontramos, quando lhes surgiram pela frente as mangas inimigas.
Era
uma massa negra e ululante de cerca de sete mil guerreiros, apostados em
envolver e chacinar os 275 brancos da coluna portuguesa.
O
assalto não tardou.
Enquanto
as colunas rebeldes se lançam, desaustinadas e ferozes, a coluna, em quadrado,
defende-se a pé firme, golfando descargas compactas. Cortinas de fumo, espessas
e amargas, ocultam o inimigo — e é necessário cessar fogo para render a
atmossfera à sua transparência. Mas logo se vê que apesar das descargas
cerradas, o inimigo conseguiu aproximar-se perigosamente. O fogo rompe outra
vez, mais vivo, raivoso, contínuo, para tornar a cegar as vistas da coluna.
Combate-se entre nuvens de pólvora, numa luta de fantasmas. As mangas do
Matibejana conseguem assim aproximar-se a menos de cem metros do quadrado. Mas
aí, já muito ceifadas, quebrados os ímpetos iniciais—hesitam. É o momento
crítico em que a vitória se decide. Os auxiliares percebem o desgaste e
fraqueza do inimigo. Pressentem que apesar do seu avanço, ele não conseguirá
transpor a curta distância que já o separa do quadrado. E então decidem-se.
Com ímpeto feroz das cobardias que explodem em bravura, lançam-se à carga com
as suas azagaias. E é o golpe de misericórdia. Os últimos assaltantes caem ou
fogem desabaladamente — e não tarda que em toda a planície só restem as tropas
vencedoras, sangrando do sangue da vitória, e os mortos.
O
combate durara uma hora.
Se
não fora a vitória seria a chacina em massa e a perda de todos os resultados já
alcançados.
E a
vitória era, apesar de alcançada sobre um régulo rebelde das terras da coroa, o
primeiro golpe vibrado no poder e prestígio do Gungunhana.
Em
volta do monumento prosseguiam protocolarmente as cerimónias comemorativas.
Distraído
com lembranças do passado e alheio ao que se passava em volta, cincoenta anos
depois do Matibejana, fui repentinamente surpreendido por imagens que pareciam
arrancadas à evocação em que me perdera. Vi-me eu próprio, e a gente grada que
me acompanhava, embora confortàvelmente sentados, no quadrado de Magul de 1895,
enquanto as mangas do Matibejana nos
carregavam de azagaias em riste.
Foi
um segundo de alucinação.
O quadrado
era simplesmente o palanque amaneirado de onde assistia à cerimónia—e que
também era quadrado. Os negros que avançavam entre nuvens de poeira, com azagaias
e escudos, eram simplesmente bailarinos.
Para
gozo do Ministro, que, infelizmente para a História de Portugal, não nasceu a
tempo de bater-se em Magul, tinham sido concentrados alguns milhares de vátuas
para, ao mesmo tempo, reverenciarem a soberania e exibir-se em batuque de
guerra.
A
ideia fora felicíssima, menos como demonstração do entendimento em que vivemos
com os adversários de 1895 - entendimento que por outras formas salta aos
olhos — do que como pretexto para apresentação de um dos mais belos e
impressionantes espectáculos a que pode assistir, no Sul do Save, quem anda por
aí a espreitar curiosamente terras e gentes menos conhecidas.
Trata-se
de uma mímica de guerra, representada e bailada, ao som de marimbas, por
artistas coreográficos e musicais de magníficos recursos e expontaneidade.
Os
negros são músicos e escultores natos.
Estes,
são músicos e bailarinos de aptidões naturais, cultivadas durante alguns
séculos de escola guerreira e coreográfica. Treinavam-se para a guerra, dançando
— e aprendiam na guerra os seus passos de dança. Da guerra, que não puderam
fazer mais, guardaram, como saudade física e espiritual, a dança. O sentido ou
instinto que têm do ritmo e das atitudes, são dos mais apurados da sua
raça—essa raça que forneceu aos civilizados de hoje, os elementos essenciais
da música e do bailado chamados modernistas.
Aproximaram-se, em multidão de alguns milhares, levantando
poeiras que o sol doirava, com as suas azagaias brandidas, os escudos de pele
de boi cobrindo os corpos, rumorejando como o mar.
No
primeiro plano, uma orquestra de muitas dezenas de marimbas esperava com
impaciência.
Não
se realizara, evidentemente, apesar do número e das armas, um clima de guerra.
Mas este rolar de multidão armada, crispando por milhares de braços agitados,
envolta em poeira, eriçada de lanças, provocava, ao menos sensível, os frémitos
emotivos dos grandes espectáculos viris.
Um
velho zulo, que certamente era do tempo do Gungunhana, e que, possivelmente,
se batera em mangas de guerra, adiantou-se, com gravidade não isenta de
melancolia. E, dirigida ao palanque-quadrado, a sua voz, encorporada de solenidade,
cava, que parecia desgarrada da boca de uma caverna, gritou a saudação vátua:
-
Bayete!
E logo
a multidão, por milhares de gargantas, numa só voz de sonoridades oceânicas,
exclamam:
- Bayete!
Bayete! Bayete! E
o velho repete:
- Bayete! E o coro:
- Bayete! Bayete! Bayete!
Três
vezes ribombam, no silêncio soleníssimo da planície, os Bayet vátuas.
Um
arrepio eriça todas as peles sensíveis da gente branca.
Estas
mangas pacíficas de músicos e bailarinos, armados para cantarem e dançarem,
ainda conservam, do seu antigo poder de amedrontar, a faculdade de arrepiar.
Todo o palanque-quadrado, galhardamente comandado por um ministro e um
general, foi violentamente sacudido por esta carga de comoventes saudações.
Perdidas
em lonjuras as últimas notas da terceira saudação, explodiram entusiasticamente
dezenas de marimbas. E logo a rigidez e silêncio das formações, se quebraram em
movimento e alarido musical.
Na
primeira fila, dois grupos coreográficos, ágeis e nervosos, extraordinários bailarinos
e excelentes actores, simulam, em ritmos frementes, as fases de um combate. O
coro, de milhares de vozes, milhares de corpos, milhares de azagaias — a
multidão, com tudo que a multidão tem de cruel, de violento, de brutal e de
belo — acompanha o bailado, em ondulações de vaga crispada pelo temporal.
Uma
primeira figura, espécie de comentador coreográfico, desloca-se como um demónio
em paroxismos de movimento e ritmo; todos os seus músculos trepidam como se os
excitasse poderosa corrente eléctrica.
No
ar rodopiam poeiras. E a nuvem fina de pó, sobre os corpos suados, bailando também
em espirais destrambelhadas, cria ambientes de coisa fantástica.
Em
certa fase do bailado, exactamente a mais pictural e movimentada, os dançarinos
batem com os escudos no solo, elevando-os seguidamente, com as lanças, num
salto brusco, magnífico de energia rítmica e destreza, em que desenham no
espaço preciosamente, em atitudes inacreditáveis, os seus corpos negros de
longos músculos. Apesar da violência selvagem do passo, não lhes falta a graça
original com que desabrocham algumas flores estranhas dos trópicos.
E a
grande onda, sempre
animada pela cantilena vibrante das
marimbas, pelos gritos de guerra, em crispações de lanças e escudos,
consegue
na verdade
realizar, no ambiente musical, imagens espectaculares de guerra gentia.
Terminado
o bailado e desenvolvido o argumento até à última cena, a vaga desce
aparatosamente sobre o palanque-quadrado em carga ululante de guerreiros. É uma
floresta inteira de azagaias e escudos, que rola tumultuosamente, envolta em
poeiras, espessas como fumos de pólvora, e que parece ir subverter a alta
burocracia de Moçambique.
Pára
repentinamente, ofegante e luzindo pelo suor de milhares de corpos, a poucos
metros do palanque ministerial—que resiste como o quadrado de 1895. Os vátuas
de hoje carregaram como os rebeldes de há cincoenta anos — e estacaram como
gentes que pagam o imposto.
Só
então distingo na massa fremente, entre os rapazes destas gerações submissas,
os velhos que ainda pertenceram às hordas do Matibejana e às mangas do
Gungunhana.
Procuro
nos seus olhos a saudade da sua juventude independente e belicosa — mas o seu
olhar mostra-se baço, resignado, apenas levemente irónico.
O
espectáculo seria mais puro, e inapagável a impressão que deixaria, se o
guarda-roupa e adereços dos artistas não fossem desmanchados pelo mesmo mau gosto
sórdido que tem pretendido, nos últimos anos. vestir a gloriosa nudez
indígena. Quer dizer: se os mímicos de hoje se apresentassem mais
rigorosamente semelhantes, no traje e no armamento, aos guerreiros de ontem.
Mas
não. Sobre os corpos, sempre vigorosos e belos destes magníficos vátuas -
fisicamente tão semelhantes aos cuanhamas de Angola - vestindo os seus braços esguios e as
suas pernas nervosas, vêem-se sobretudos esfarrapados e camisolas em
frangalhos, em mistura confrangedora com peles de leopardo, polainas de pele
de cabra e preciosos escudos de coiro. E assim, a beleza plástica do quadro
sofre, naturalmente, destas nódoas de miséria e mau gosto.
No
entanto, o espectáculo é ainda impressionante — especialmente quando se observa
em conjunto e as vistas deslumbradas pelo movimento e a cor se distraem de
pormenores agoniativos.
Terminada
a cerimónia na planície de Magul, as forças
ministeriais retiraram, em ordem perfeita, sobre a Manhiça, onde nos esperava o
almoço.
Diga-se,
em abono da verdade, que nem outra coisa mais heróica era possível fazer,
passados cincoenta anos sobre a vitória de Magul, por mais excelente que fosse
— e era de facto — o moral da comitiva.
Entretanto,
rodando na estrada de 1945, os olhos ainda cheios de imagens de vátuas em
mímica de guerra, retomo a evocação dos acontecimentos passados até à prisão do
Gungunhana e pacificação definitiva do Sul do Save.
Enquanto a coluna do Sul cumpria em Magul o melhor e mais
notável da sua missão, dispunha-se e manobrava a coluna do Norte, para trilhar
espinhoso caminho de glória.
Era
muito mais circunstancial a missão desta coluna. Enquanto a do
Sul marchou, desde o princípio, para o
objectivo preciso e definido de bater os rebeldes do distrito de Lourenço Marques e limpar o território de focos de insubmissão — a coluna
do Norte organizou-se
e
iniciou operações, cujo desenvolvimento e objectivos iam depender das reacções
do Gungunhana perante as nossas exigências para o estabelecimento de uma
soberania efectiva nas terras de Gaza.
Assim,
a primeira missão da coluna do Norte consistia em apoiar energicamente uma
campanha diplomática contra o famoso régulo.
O
combate de Magul viria a impressionar mais tarde, e profundamente, o filho de Muzila.
Mas já muito antes, a organização e os primeiros movimentos da coluna do
Norte, que alcançara tormentosamente Chicomo, na fronteira dos seus
territórios, o haviam convencido da possibilidade de ser atacado no próprio
reduto sagrado de Manjacaze. Se a coluna do Sul fracassasse, na sua
perseguição aos rebeldes das terras da coroa, alcançaria ele, sem riscos nem
sacrifícios, uma vitória quase decisiva. Mas podia não fracassar e vencer — e
não lhe restavam dúvidas que, nesse caso, seria ele, Gungunhana, o verdadeiro
derrotado.
Enviou
então, para negociações, uma embaixada ao Comissário Régio.
António
Enes não recebeu a embaixada. Preferiu que fossem delegados seus a Manjacaze —
não para negociar, mas para impor condições. E ou o Gungunhana as aceitaria,
reduzindo-se de facto, como de direito, a verdadeiro vassalo da coroa, — ou
seria a guerra.
A
coluna do Norte principiou pois por apoiar a missão dos delegados da autoridade
soberana.
Os
delegados que em Julho se deslocaram a Manjacaze iam exigir do Gungunhana a
entrega dos régulos rebeldes do distrito de Lourenço Mar ques e o pagamento anual de
um tributo de dez mil libras em oiro, além do compromisso de não impedir, nos
seus territórios, a cobrança de impostos, a liberdade de comércio, o
estabelecimento de postos militares e vias de comunicação, etc.
Entretanto
a coluna, já em guerra dolorosa contra o clima e a insalubridade, aguardaria
em Chicomo o resultado do ultimatum.
O
Gungunhana, cujo retrato psicológico se pintava então, como bruto cruel e sanguinário,
violento e cobarde — não era tão bruto nem tão cobarde como se dizia. Nem a sua
alma era completamente destituida daquela nobreza que, em todos os tempos,
marcou a raça dos grandes chefes. A propaganda de guerra diminuiu injustamente
a figura.
Não
só teve artes para demorar as negociações até meio de Setembro — como tendo,
por fim, concordado quanto às condições que o expoliavam de todos os direitos
de soberania no seu território, recusou, no entanto, e terminantemente, ceder
quanto à única que manchava a sua dignidade de soberano. O Gungunhana
submetia-se a todas as condições que lhe impunham — excepto a entregar os
rebeldes que junto dele tinham procurado asilo. Não queria, quando morresse,
apresentar-se desonrado perante os seus manes.
E tão
intransigentemente manteve a sua atitude que, ante a intransigência, também
irredutível, do Comissário Régio, a guerra se encontrou automaticamente
declarada.
Por
essa altura — tinham principiado, com correrias aparatosas nas terras do
Gungunhana, as primeiras demonstrações ofensivas da coluna do Norte
—
travou-se o combate de Magul. E esta vitória portuguesa, ao mesmo tempo que
desmoralizava um pouco as hostes do famigerado chefe vátua, elevava
naturalmente o moral das tropas do coronel Galhardo, que o clima e as
incertezas tinham deprimido.
Estava
aberto o caminho para Manjacaze.
Em
3 de Novembro, vencidas tremendas dificuldades de organização, foi dada a ordem
de marcha.
Esperava-se
alcançar Maajacaze em 6— o que não foi possível por via da natureza do terreno
que não o consentiu. A coluna bivacou junto da lângua de Coolela, tencionando
lançar-se daí rapidamente sobre o reduto do Gungunhana. Na manhã seguinte tudo
se encontrava preparado para a arremetida. E ia dar-se a voz de marcha, quando
surgiram pela frente, em todo o seu poder, as mangas do Senhor de Manjacaze.
O
Gungunhana, esgotados todos os recursos da sua diplomacia, e não tendo querido
sacrificar a sua dignidade de chefe vátua com um acto de traição a gentes da
sua raça — acossado no próprio lar real — decidira confiar o seu destino à
sorte das armas.
Frente
às tropas do coronel Galhardo, e a menos de trezentos metros, marchava, com
segurança e galhardia espectaculares, a fina flor do exército vátua—cerca de
doze mil guerreiros dispostos em oito mangas.
Era
uma floresta de azagaias luzindo à luz doirada do nascente e erguida sobre a
onda negra dos melhores soldados do
Gungunhana — soldados que
sabiam bater-se, manobrados por chefes prestigiados em dezenas de combates e
cuja estirpe guerreira enraizava no célebre Tshaka.
Seria
necessário remontar ao poderio do Monomotapa para encontrar na História de
Moçambique poder e território tamanhos.
Atacaram
em massa, dispostos em meia lua — um grande abraço de morte e de fogo que
procurava envolver o quadrado.
O
alvo era magnífico. As descargas da coluna batiam-no em cheio. No entanto as
mangas, insensíveis à sangria, continuavam a avançar imperturbavelmente. Só
passado algum tempo, muito desbastadas, se acachaparam entre o capim, de onde
respondiam ao nosso fogo, prosseguindo o avanço. A artilharia troou sem
conseguir desmoralizá-los.
Era
evidente que o comando inimigo tentava aproximar-se até de onde pudesse lançar-se
com êxito para o esmagamento do quadrado. E para tanto pagava com o sacrifício
de numerosas vidas os metros de terreno que ia ganhando. O quadrado procurava,
por sua vez, inutilizar a possibilidade de uma carga final poderosa, desbastando
violentamente pelo fogo as colunas assaltantes. Estas refaziam-se concentrando-se
— isto é, vedando constantemente as brechas abertas na massa cerrada pela artilharia
e pelas rajadas de infantaria.
E
como se tratava de guerreiros amantes da guerra, portadores de uma tradição
bélica tão cultivada que ainda hoje se impõe nas suas danças, a carga
disparou-se com entusiasmo, conduzida heroicamente pelos mais aguerridos—os
famosos búfalos e jacarés, especialistas ferozes e experimentados
das cargas exterminadoras. Dirigia-se, com magnífico entusiasmo, a um canto do
quadrado, brandindo armas, eriçadas de azagaias, com jeitos de vaga
irreprimível.
Não
lhes bastou porém o impulso nem a alma guerreira para resistirem às rajadas
certas e ceifantes do quadrado. A coluna assaltante, por fim, rota e
esfarrapada, teve que ceder. Dela já não restavam senão alguns punhados de
bravos, que insistiam com ganas de heróis, enquanto a maioria, convencida da
derrota, se escapulia por entre o capim basto da lângua. Havia cadáveres a
menos de trinta metros do quadrado.
Estava
ganha a batalha.
Em
quarenta minutos ansiosos de combate fora batido e desprestigiado todo o
poderio vátua, destroçadas as esperanças de quantas cubicas viram nele a
máquina de guerra que nos expulsaria do distrito de Lourenço Marques — e
reduzidas para sempre as lendas temerosas que engrandeciam a figura do
Gungunhana como papão africano. O Senhor de Gaza era, depois daquela manhã
húmida de Coolela, apenas um régulo batido e em fuga — como o Matibejana.
Fora
dado e vencido o passo decisivo, mas restava ocupar Manjacaze e prender o
Gungunhana, para eliminar ao mesmo tempo todas as veleidades de reconstituição
do poderio vátua.
Logo
no dia 11 as tropas avançaram sobre a povoação real, que incendiaram e
reduziram a cinzas. O Gungunhana, naturalmente, tinha-se escapulido a tempo
com as suas numerosas mulheres e alguns dos grandes da sua corte.
E
como de facto não valia a pena manter tão custosa e difícil máquina de guerra
só para o aprisionar, deu-se então por praticamente concluída a campanha de
1895.
Estava
desbravado o caminho para a pacificação total, não só do Sul do Save, como
também de toda a colónia.
Bem
pode dizer-se que principiou em Coolela a era moderna da História de Moçambique
e aí se fechou o rosário de amarguras de três séculos tormentosos.
Reverenciados
os heróis e os mártires, rendidas todas as homenagens àqueles que escreveram
uma página gloriosa de história política e militar, avaliados comovidamente os
esforços e sacrifícios de quantos se bateram, recordada com justiça a
galhardia dos vencidos - fica sempre viva para o espírito e consciência dos
homens de hoje a lição dos factos.
A
campanha de 1895 — série de êxitos militares, cujas consequências políticas lhe
deram relevo culminante na História de Moçambique — vale como experiência, como
lição, como imperativo dos acontecimentos do passado sobre a ordem de coisas e
de ideias do presente e do futuro, especialmente, pela demonstração que fez de
quanto podem em política colonial, o sentido das realidades, a acção pronta e
decidida e o respeito pelo valor e pelas competências.
Um
chefe que sabia o que queria e se documentara, sem ilusões livrescas nem
cálculos de baixa política, acerca das realidades da colónia — e que também não
invejava os seus colaboradores, disposto como estava a repartir com eles toda
a glória e todos os sacrifícios; possibilidades de acção desentorpecidas de
fórmulas e burocracia corrosivas; um conjunto de valores cuidaadosamente
selecionados; um Terreiro do Paço compreensivo (momentaneamente compreensivo)
acerca da gravidade da situação e, por isso mesmo, disposto a deixar fazer—explicam,
não só o êxito da campanha, tão necessário então à situação dificílima a que
os acontecimentos políticos externos e internos tinham conduzido a colónia,
como mostram também as razões profundas que determinaram uma mudança completa
de face na História de Moçambique.
Na
verdade, na História da colónia, até 1895, é menos povoada e brilhante a
galeria de heróis e construtores, do que a galeria de mártires. E todo o longo
e amargurado rosário de desastres, sacrifícios e sofrimentos que custou a
persistência de três séculos — foi armado pela inconsistência, descoordenação
ou simples desprezo, dos valores que, sabiamente coordenados, fabricaram o
êxito de 1895.
Seria
magnífico que na passagem de todas estas datas comemorativas da campanha —
Marracuene, Magul, Coolela, depois Chaimite, Maputo, Macontene, etc. — esta
lição se mostrasse tão viva nos espíritos como aos olhos se mostram as
bandeiras desfraldadas e a alegria dos burocratas em feriado.
Entretanto chegávamos à Manhiça — naturalmente com
apetite, o mais devorador de todos os apetites de estômago: o oficial.
A
pequena povoação, constituída quase exclusivamente pelos edifícios da administração,
é bonita e agradável—e não só porque se debruça garridamente na sua varanda
sobre o vale do Incomati, mas também nos próprios traços da sua fisionomia
fresca e asseada.
Estava
naturalmente em festa — engalanada para receber Sexa Ministro, transladado
transitoriamente do Terreiro do Paço com a intenção de se documentar sobre a
paisagem de Moçambique, e que se fazia acompanhar de outros Sexas nomeadamente Sexa Governador Geral.
Havia
meses que a colónia se vinha passando a ferro, disfarçando, embonecando — para que Sexa
Ministro, que desejava conhecer de perto as suas virtudes e mazelas, ficasse
bem impressionado. A Manhiça acompanhara o movimento geral. Estradas,
edifícios e almas haviam sofrido, pelo menos, um mês de intensiva e zelosa
preparação; nas estradas tinham-se
alisado os pisos para que o físico quebradiço, mas precioso, de Sexa, não trepidasse
nem conhecesse as aflições da areia e as ciladas do matope; nos
edifícios tinham-se alindado as fachadas e as casas de banho; nas almas tinham-se incutido entusiasmos,
que deveriam explodir em vivas e palmas. Todas as coisas e lugares, que,
conforme o programa, deveriam receber a honrosa visita de Sexa, procuravam
mostrar-se, nesse dia festivo, como os mais exigentes as desejariam ver sempre.
E
tudo para que Sexa se informasse, como bom estudioso que era, acerca do corpo e
alma da colónia que se honrava com a sua presença.
Multidões
de negros, amavelmente convidados pela autoridade local, tinham descido dos
seus povoados ao povoado dos brancos, para ver, cumprimentar e admirar Sexa—o Branco
Grande, quase Máximo, que descendia em linha política dos brancos fortes
que tinham derrotado o Gungunhana. Envergavam panos novos e vestimentas
lavadas. Ao longo de uma espécie de avenida orlada de verduras, e através da
qual deveria
passar Sexa, alinhavam-se rapazes e raparigas, trazidos ao cuidado de
missionários. E as suas faces negras, de risos brancos, luziam alegremente
entre a policromia garrida dos panos que vestiam.
Quando
Sexa Grande apareceu entre os Sexas menos grandes, a multidão gentia,
respondendo, pronta e convictamente, aos sinais de comando das autoridades,
missionários e cipaios, explodiu em manifestação quente — e expontânea,
demonstrando assim quanto aqueles corações selvagens se sentiam desvanecidos,
honrados e agradecidos.
De
princípio—e porque Sexa Grande era menos avantajado em corpo que os Sexas menos
grandes — os pretos não o distinguiam entre os brancos solenes. Procuravam,
em vão, o representante imponente dos vencedores de Magul, e não compreendiam,
no seu besunto de bárbaros, que esse fosse o homem franzino e macerado que se
adiantava no desfile.
Mas
quando perceberam que era ele mesmo—o entusiasmo não teve limites.
Enquanto a multidão de fundo, em movimentos de maré, gritava vivas
prolongados, as crianças e as raparigas lançavam flores quentes dos trópicos.
Às
vezes o entusiasmo descoordenava-se um pouco. A chuva de pétalas não coincidia
' com os vivas. Mas dez metros à frente do grupo ministerial, um missionário
zeloso, e encantador de entusiasmo, afinava o desconcerto com expressão
afogeada e muito significativa:
—Vá,
dêem palmas!... Mais palmas, mais vivas!... Então aquele!... Vá!... Não te
esqueças das flores!... Viva! Viva!...
E
tudo se recompunha.
Atingimos a meta
do almoço, como não podia deixar de ser, profundamente comovidos. E
distraído assim de lembranças dos tempos heróicos, em que se construiu a estrutura
da colónia moderna, encontrei-me a meditar acerca das vantagens destas digressões
ministeriais pelas colónias—e, infelizmente para mim, em desacordo com a
maioria que condenava, senão as visitas, pelo menos—como direi?—o estilo de
tais visitas.
Por
outro lado—e uma vez que se admite que o cargo de Ministro das Colónias é muito
acessível a pessoas da política que apenas conhecem o ultramar de leitura, ou
de viagens mais ou menos turísticas—parece-me de bom senso dar aos ministros a
instrução que lhes falta. Instruir é uma missão de Estado que bem pode
abranger os próprios ministros. Por outro lado, estas visitas, salvos os
desfiles, discursos e recepções que, na verdade, não aproveitam a ninguém,
obrigam a reparar muitas estradas (aquelas por onde o ministro passará); a
limpar e arranjar muitos edifícios (aqueles onde o ministro entrará) — e a
vestir de ponto em branco alguns esfarrapados. E acontece que, por vezes,
obrigam também a deslocar-se na colónia alguns funcionários superiores que a
conhecem tão pouco como o ministro, praticando-se assim a chamada instrução em
classe.
É
certo que, em alguns sectores da administração, certas coisas padecem um
pouco; param, enervadas, à espera que o ministro se vá. Mas em compensação
movimentam-se extraordinariamente alfaiates e costureiras; pastelarias, hotéis
e restaurantes; o comércio em tintas e vernizes etc. Há repórteres que viajam
arrecadando suculentos anúncios para os seus jornais; produzem-se, em oratória,
estreias auspiciosas
que decidem alguns destinos—enfim, estas visitas, encaradas de certos pontos de
vista muito reflectidos, além de deixarem no espírito dos ministros ideias
optimistas, que muito contribuem para excitar o seu zelo e acendrado patriotismo,
movimentam as actividades, animam o comércio — e lavam a colónia.
Discordo
daqueles que as condenam, gritando que os ministros apenas vêm encher-se de
mais ideias falsas, que não aprofundam questões além do nível superficial que
as reveste, e que se dilata assim a distância já considerável que existe entre
a colónia e o Terreiro do Paço. Pura maledicência! Os ministros ficam com
ideias muito precisas acerca da paisagem da estação seca, adquirem utilíssimos
conhecimentos práticos de geografia—e até, no prolongamento destas viagens,
indo a Vidago, Gerez e Pedras Salgadas, reparar as saúdes abaladas por tão
fatigantes e arriscadas travessias, entram em contacto directo e utilíssimo com
muitos colonos, que também bebem águas quando vão à metrópole.
É
sempre com infinito prazer que considero as viagens ministeriais—e com
invejável conforto que me desloco nas estradas que se honram com a passagem
provável de Sexas. Se alguma coisa lamento, é que não se desloquem
anualmente às colónias três ministros, ao mesmo tempo, e que os três não
transitem por todas as estradas, não visitem todas as escolas e hospitais e não
recebam homenagens em todos os povoados europeus e indígenas.
Recolhemos
a Lourenço Marques quando anoitecia e depois de uma reverência oficial muito
rápida—porque a
hora do jantar se aproximava naturalmente comovida, perante o monumento que, em
Marracuene, lembra aos homens
distraídos de hoje,
os bravos que ontem morreram, para salvar a capital e assegurar às gerações
modernas a regularidade das refeições.
Embuçado
na noite ambiente, retomei com devoção, o fio de lembranças que, durante o dia,
levara até Coolela.
A
campanha de 1895—e com ela a ocupação ou domínio do Sul do Save, tiveram em
Coolela, como dissemos, os seus pontos de decisão e culminância. Aí se ganhou,
de facto, a guerra contra o gentio insubmisso e se conquistou praticamente o
Sul do Save.
No
entanto, nem tudo fora concluído.
Tão
bem e valorosamente se conduzira a campanha que bem merecia coroar-se com uma
acção apoteótica.
E a
apoteose consumou-se, no fim desse mesmo ano, em Chaimite.
Depois
de Coolela, as tropas expedicionárias, cobertas de glória mas muito experimentadas
e combalidas, regressaram à metrópole. As terras de Gaza — do Senhor de Gaza! —
passaram a constituir um distrito, cujo governo foi confiado ao comandante da
cavalaria de Coolela e Manjacaze, capitão Joaquim Mousinho de Albuquerque. O
Comissário Régio embarcava para Lisboa a dar contas da sua missão.
Parecia
um ponto final, decerto precipitado.
A
fadiga sofrida em operações duríssimas — e também o optimismo resultante das
glórias alcançadas, explicavam a precipitação.
Na
verdade, havia que recear, enquanto o Gungunhana e os seus mais aguerridos
cabos de guerra não fossem reduzidos a zero — e apesar do clarão decisivo da
vitória—uma tentativa desesperada de ressurreição do poderio vátua. Todos
compreendiam que não se realizaria pacificação completa e domínio absoluto
sobre povos e territórios, enquanto o Gungunhana e os seus generais — mas
especialmente o Gungunhana — andassem a monte.
Todos
o compreendiam—e Mousinho de Albuquerque melhor do que ninguém... porque o compreendia
activamente.
Todos
o compreendiam, receando, no entanto, comprometer o êxito alcançado, com
empreendimentos complementares arriscados — e Mousinho com a clarividência e
decisão dos homens de acção perante a sugestão das oportunidades.
Os
políticos, contentavam-se com o que tinham, adiando a conquista do que lhes
faltava, conforme uma indecisão tradicional dos políticos, a que estes chamam
Prudência. O Homem, pretendia concluir a tarefa, pensando, decerto, que, mesmo
em política, se arrisca menos intervindo a tempo do que deixando engordar as
dificuldades em cómodos adiamentos.
E
assim, ao mesmo tempo que os comandos superiores davam a campanha por concluída
— o Governador do distrito de Gaza pensava em conclui-la de facto, prendendo o
Gungunhana e liquidando com ele todas as veleidades de ressurreição do poderio
vátua.
Enquanto
Mousinho procurava informar-se acerca do paradeiro do régulo batido, teve o Governo
conhecimento dos seus planos — e logo o proibiu de levá-los por diante. A
Prudência dos chefes entendia dever refrear os impulsos do herói.
Demais, sempre
assim fora. E
se assim não fosse haveria muitos mais heróis e seria, por
consequência, muito mais difícil—a política. A esta interessa sempre
festejar os heróis mortos, e os vivos
quando não pode deixar de ser - mas não lhe convém, em geral, fabricar heróis
de pura água. Prefere fabricá-los, entre os seus apaniguados—heróis cómodos, sintéticos.
Entretanto
Sanches de Miranda, encarregado pelo Governador de Gaza de descobrir o
refúgio do Gungunhana, dava boa conta dos seus esforços: o régulo refugiara-se
em Chaimite, a povoação onde seu avô Manikusso fora enterrado, e aí procurava,
mediante práticas de feitiçaria, reconquistar os favores da Fortuna.
Mousinho
encontrava-se, portanto, quando o Governo pretendeu cortar-lhe as asas, muito
mais perto do Gungunhana, que excitava poderosamente as suas intuições e
imaginação de herói—do que dos chefes que pretendiam segurá-lo.
Em
tais circunstâncias os heróis libertam-se sempre, jogam o seu destino e o destino
da sua causa numa cartada. Se perdem, perdem tudo — e a História, ou não os
recebe, ou os guarda como traidores ou loucos. A Prudência dos políticos exulta
então com estas modestas vitórias. Se ganham—e geralmente ganham, porque as
intuições dos puros heróis raras vezes falham—os políticos, forçados a deglutirem
a desobediência, apressam-se a participar nas suas glórias festejando-os, para
os liquidarem logo que podem — e consagrá-los definitivamente no primeiro centenário
do seu nascimento. E só a História, mais tarde, fará justiça completa, esquecendo
os políticos e arrecadando sob luzes eternas as figuras dos heróis.
Mousinho
tinha de correr a sorte dos heróis.
Entre
a proibição de tentar qualquer ofensiva contra o Gungunhana e o imperativo das
suas intuições de português e herói, sentiu, possívelmente, pela primeira vez,
o amargor, a revolta e o desdém que mais tarde ressaltariam, consideràvelmente
dilatados, da carta que, como Comissário Régio, escreveria ao inglório
ministro que então o comandava... e que só através deste documento passou à
História.
Também
o Gungunhana — perfeitamente de acordo com o Governo português—não desejava
ser incomodado. E à falta de força e capacidade hierárquica para se impor ao
Governador de Gaza—desonrou-se, mandando entregar o Matibejana e enodoando
assim a página de nobreza e dignidade reais, que escrevera para a sua história,
antes de Coolela.
Em
resumo: Mousinho encontrou-se sitiado, por um lado pela proibição terminante
do seu governo; por outro lado pela rendição moral do Gungunhana, que traduzia
uma súplica desesperada de paz. Se o Governo não queria e o Gungunhana suplicava
até à desonra — como prosseguir?
E
Mousinho prosseguiu — rompeu o cerco.
E a
sua decisão de prosseguir foi a primeira atitude moral de heroísmo do cavaleiro,
que sabia o que queria e aonde ia, e o primeiro passo da investida a Chaimite.
Seguro
de si, certo de que a sua desobediência seria um alto serviço prestado ao
país—deslocou-se ao posto de Languene, e daí arrancou na madrugada de 26 de
Dezembro, a encontrar-se na foz do Chengane, com Sanches de Miranda, o descobridor
do régulo fugitivo. Logo vieram ao seu encontro emissários do Gungunhana,
pedindo que não avançasse mais, pois o seu chefe viria pessoalmente prestar
vassalagem.
Adiante!
Em
27, antes de romper a manhã, Mousinho, acompanhado apenas por Sanches de
Miranda, o tenente Couto, quatro dezenas de praças europeias voluntárias,
tentadas pelos riscos da empresa, e alguns auxiliares, abalou como bala
disparada.
Chovia
como chove em África — quando chove. Do terreno encharcado rompiam, já altos e
densos, os capins quesilentos desta quadra do ano. O matagal hirsuto e
arrevezado da região tornava a marcha ainda mais dura. Mas ninguém dava pela
chuva nem pelas dificuldades, vontade e entusiasmos superiores reduziam os
músculos a peças de máquinas. A resistência moral tornava-se contudo ainda
mais necessária do que a resistência física. A chuva, a lama, as bravezas do
mato, eram dificuldades de ontem e de hoje — mas não era a mesma a segurança do
território que trilhavam. O Gungunhana encontrava-se na situação de fera
acossada e dispunha ainda de forças que chegavam para esmagar meio cento de
europeus atrevidos. Uma reacção brusca e desesperada era mais do que provável.
E
Mousinho, com a sua gente, a sua alma, a sua ideia, contra os rigores do
mato dezembrão, contra a chuva teimosa, contra as incertezas mortais — caminhava,
caminhava sempre...
O
único receio que angustiava aquele punhado de heróis era o de não chegarem a
tempo e encontrarem o covil vazio. E então aceleravam o passo, exigindo dos
músculos o que os músculos só dão em horas supremas de excitação nervosa.
Às
oito horas, cerca de uma povoação que dava pelo nome de Vuiana aco-dem
novos emissários do
Gungunhana a pedirem que se detivesse. O régulo parecia excelentemente
informado acerca do itinerário e desígnios do Governador de Gaza.
Adiante!
Às
dez horas da manhã já alguns soldados dificilmente acompanham o Chefe. As
febres reacendidas pelo esforço minam os menos fortes. Mas arrastam-se; nenhum
pensaria em desistir enquanto lhe restasse um sopro de energia.
Às onze
horas parece impossível suportar mais a teimosa velocidade da marcha. Mas
caminham ainda, como autómatos, gastando em cada passada as últimas energias
do impulso inicial. Deixaram de sentir os tormentos da incerteza e as sedes de
glória. Caminham — e é tudo!
Ao
meio dia caem alguns estropiados.
À
uma hora torna-se absolutamente indispensável conceder um descanso.
Além
do máximo que humanamente se lhes poderia exigir todos tinham dado o máximo
que só Deus concede em momentos raros. Acampam — e Mousinho, enervado, tem de
suportar mais essa fadiga — a de descansar.
Em
certa altura surge, perante o pequeno quadrado, uma malta de gentio armado, que
faz fugir os auxiliares espavoridamente. Os europeus mal o pressentem. Uns
dormem como brutos e sonham glórias, outros deliram de febre e sonham
acordados. Mas os do bando não vêm em ar de guerra. É Godide, um filho do
Gungunhana, acompanhado por alguns guerreiros, que vem reeditar a súplica dos
emissários anteriores. O Governador que não avance mais.
Seu
pai—o famoso, o temível Gungunhana! - virá, virá mesmo, em pessoa,
submeter-se. Não quer mais guerras; implora a paz.
E o
Godide não consegue deter o cavaleiro como não conseguiria deter, na sua
trajectória, a bala disparada.
Adiante!
Às
três horas da madrugada Mousinho não suporta mais o enervamento do descanso.
Uma voz de comando disperta a hoste adormecida sob o aguaceiro. Uma palavra de
encorajamento anima a boa fibra dos seus companheiros: “Vá rapazes, já falta
pouco! Mais um salto e estamos lá!”
E a
caminhada heróica recomeça.
Não
tarda porém que tudo pareça perdido. De repente, e quando menos o esperavam,
surgem pela frente da pequena coluna negros armados em multidão — nada menos
que três mangas de guerra, das mesmas que durante anos fizeram tremer o
sertão.
Era
uma imagem de esmagamento fulminante...
Mas
não. O moral dos vátuas ainda não se refizera do desastre de Coolela. Os guerreiros
não compreendiam a sua superioridade. Vinham apenas entregar-se — pagar pé
— render-se à hoste estropiada de Mousinho.
Adiante!
O
incidente ressuscitou energias que pareciam mortas pela comoção e pela fadiga.
A marcha reganhou o ritmo das primeiras horas e a jornada heróica refez-se por
algum tempo na sua expressão de entusiasmo e vontade.
E
às seis horas e meia, pisando terras arenosas, empapadas de água, pálidas e
sujas, eriçadas de verrugas de muchem — avistavam a paliçada de
Chaimite, o antro do Gungunhana!
Os
que ainda puderam deitaram a correr atrás de Mousinho. Os que mais não puderam
foram caindo extenuados pelo caminho. Uma ordem breve, terminante, gritada em
corrida: os auxiliares cercariam a povoação; só aos brancos seria concedida a
honra de transpor a paliçada.
Aproximava-se
o grande momento!
Dificilmente
se acreditaria que o Gungunhana, o fraticida que assaltara um trono, durante
largos anos chefe incontestado e temido de aguerridas gentes vátuas, que fora papão
de conquistadores europeus e trunfo de diplomacias civilizadas — e que
apesar de copiosamente batido reunia ainda em volta de si forças consideráveis
— dificilmente se acreditaria que se deixasse prender na sua casa, entre os
seus, por um capitão de cavalaria, dois oficiais subalternos e quarenta
soldados estropiados.
A
ponderação é uma bela e respeitável qualidade burguesa... mas com ela ninguém
conseguiria entrar em Chaimite...
Daquele
passo com que Mousinho transpôs a paliçada que cercava a povoação do
Gungunhana — depois do facto, já de si espantoso, de ter conseguido alcançá-la
apenas com a força da sua audácia — era mais previsível, na verdade, o
massacre em massa daquele punhado de europeus, do que o êxito e a glória.
Mousinho
lançou-se, à frente dos seus homens, em pé de vento, decidido, rápido e
inexorável, levando consigo todas as fatalidades heróicas do seu temperamento
— inclusivamente a suicida. De espada desembainhada correu sobre alguns negros
armados de espingarda, que davam ares de querer defender-se — e a sua ofensiva
pronta e fulminante, bastou para esfrangalhar as últimas e hesitantes
veleidades de resistência daquela guarda real. Guerreiros e outras gentes que
se encontravam na povoação reduziram-se num momento a simples espectadores
atónitos da aventura do herói. Gungunhana! Gungunhana!
Logo
lhe indicaram a palhota onde o Gungunhana se escondia.
—Deitem
fogo à palhota!
Então
o Gungunhana apareceu.
Não
se desprendera dele, apesar da derrota e da desonra, toda a dignidade real.
Apareceu—mas ainda de fronte erguida, ar arrogante, como se houvera determinado
viver esse último minuto magestático da sua existência de grande chefe vátua,
como quem fôra.
Mas
não durou, possívelmente, os sessenta segundos precisos, esse minuto de
coragem e dignidade reais. Mal apareceu, Mousinho ordenou que lhe amarrassem as
mãos e o obrigassem a sentar-se no chão, a seus pés.
O
momento apoteótico da campanha de 1895 produziu-se então. A prostração humilhada
do famigerado chefe vátua, rendido aos pés de Mousinho, do qual se desprendiam
todos os poderosos e transcendentes feitiços dos heróis em acção culminante,
tinha o valor de um símbolo.
O
herói e o vencido encontravam-se, finalmente, na mesma página vibrante de
História—o primeiro no momento culminante da sua glória, o segundo nas profundezas
mais amargas da sua derrota.
Era
a derrota irremediável e definitiva do Gungunhana — e, com ele, independentemente
de futuras erupções, desse já caído império vátua, que as suas manhas de político
e a sua existência de soberano-vivo, ainda mantinham, no covil de Chaimite.
Ainda
não pôde dignamente fixar-se em
Arte—e decerto porque
a velha escola de pintura histórica, que as artes modernas condenaram, encontra
cumprindo pena de exílio — este momento sublime da nossa história militar nas
colónias: o momento preciso em que o Gungunhana verga, manietado e demolido,
perante o capitão de cavalaria, desgrenhado como uma chama, a ressumar suor e
glória. Em volta, sobrepondo-se aos elementos físicos de fundo que completam a
expressão plástica do quadro — gentes assombradas, palhotas friorentas num
ambiente de cores úmidas e desmaiadas, plumas de fumo sobre as fogueiras
cansadas—pairaria, como personagem viva e material, o assombro hipnótico dos
vátuas, paralisados e transmudados em espectadores da inacreditável cena.
Teria
eclodido um segundo angustioso e supremo de silêncio...
Logo
a seguir, por insustentável, o quadro esbandalha-se em cenas mais vizinhas do
humano-comum. O assombro dos vátuas deflagra em alarido. Batem com as azagaias
nos escudos de coiro, aplaudindo. É a sujeição moral, a rendição deslumbrada ao
herói—mas é também a explosão de um conjunto de sentimentos transcendentes e
recalcados de desforra, contra o déspota sanguinário que fora seu chefe.
Parecia-lhes agora insignificante, ridículo—e já não compreendiam a razão dos
temores que antes lhes inspirava.
Sic
transit gloria mundi... para os déspotas.
O
acto heróico caminhou então rapidamente para o seu desenlace.
Era
indispensável manter e reforçar, sem soluções de continuidade, esta pressão
violenta da audácia sobre o espírito dos vencidos — ainda, materialmente, muito
mais numerosos e fortes.
O
Gungunhana estava ali, liquidado para sempre como chefe— sem os seus Grandes,
os seus conselheiros, o seu Estado Maior? O próprio régulo, esvasiado já de
toda a dignidade real, regressado à pele do Mardungaz, apontou dois—o Quito,
irmão de Muzila, e o Manhuno. — Fusilem-nos!
O
Manhuno morreu como um vátua, sorrindo — como teria morrido o Gungunhana, se
fora na verdade o melhor, o mais forte e o mais digno dos vátuas.
Entretanto
a mãe do régulo prostrado, rogava pelas vidas do filho e do neto.
Depois,
tudo mais — o regresso, a deportação do Gungunhana, a consagração dos heróis,
etc. — são meras ondulações destes minutos sublimes...
Anotemos
apenas que Mousinho teve razão — e não só porque venceu. Continuaria a ter
razão se houvera fracassado. Apesar de preso e reduzido à impotência, o Gungunhana
— por consequência, apesar de esfrangalhado até ao âmago o império vátua — não
eram as suas gentes, honra lhes seja feita, daquelas que se submetem
facilmente.
E
os acontecimentos futuros iam demonstrá-lo.
Dois
anos mais tarde, Mousinho, guindado já às culminâncias do Governo Geral da
colónia, teria que haver-se, embora tendo aprisionado o Gungunhana, com a
última erupção do espírito de independência vátua, que liquidaria
definitivamente em Macontene, com o desaparecimento do último Grande.
Nem
todos os chefes do Gungunhana tinham sido apanhados.
Escapara o mais notável—aquele que havia de
encerrar, para os vencidos, com uma página de bravura heróica digna das gentes da sua raça, a história
do império vátua.
Chamava-se Maguiguana, gozava de enorme prestígio e era, além de
guerreiro audaz, agitador habilíssimo. Conseguiu reacender a chama vátua, organizou
a revolta em terras do Chibuto e Bilene, e consumou-a aparatosamente, atacando
e massacrando uma pequena força portuguesa do comando do alferes Chamusca.
A
aventura veio a naufragar quatro meses mais tarde, contra nova coluna do
comando de Mousinho, em Macontene.
O
herói de Chaimite fechou a vitória e o ciclo de oiro das suas façanhas de guerreiro,
com a mais audaciosa e notável carga de cavalaria despedida em sertões africanos.
O
Maguiguana conseguiu escapar depois do combate.
Mousinho,
naturalmente, resolve prendê-lo. Depois de Coolela fôra a sua intuição que lhe
comunicara a necessidade de prender o Gungunhana para liquidar de vez a
inquietação bélica dos vátuas. Agora era a própria experiência e a lição dos
acontecimentos que o comandavam.
Repete-se,
embora com outras proporções, o fossado de Chaimite: uma corrida violenta e comovente em perseguição
do guerreiro e, por fim, a descoberta do seu covil em Mapulanguene, onde o
vencido se refugiara. Cerca-se a povoação,
mas ao contrário do que fizera o Gungunhana, que se deixara surpreender
na sua palhota, sem galhardia nem ânimo, o Maguiguana não se entrega. Procura
escapulir-se — mas o cerco que o aperta não lho consente. Vê-se acossado por
todos os lados. E para não ser preso, com a decisão dos bravos que não admitem
humilhações, lança-se, disposto a morrer ou a fender a muralha armada que o
sitiava. E morre combatendo, heroicamente e cumprindo assim a palavra que dera
aos seus quando os levara para a revolta:
—
Se os brancos me apanharem hei-de saber morrer!
Nunca
mais os vátuas se insurgiram nem a guerra voltou a ensanguentar estas terras de
Gaza.
Lourenço
Marques podia, enfim, respirar e demandar tranquilamente o seu destino de
cidade e capital.