NIASSA(NAMPULA/KIONGA/RIO
LUHENDA)
Esta Província do Niassa, arranjo administrativo de,
pelo menos duas províncias, mais realistas que o sistema único de faces
diferentes que a formou — é o vagão da cauda, na marcha do progresso e
desenvolvimento da colónia.
Numa administração muito centralizada como
a nossa, a distância da cabeça aos membros faz-se sentir, quando é considerável,
em atrazos e lentidões, que se
traduzem pela impassibilidade dos grandes espaços vasios,
pelo menor conhecimento dos territórios, pela permanência do sabor africano original
— enfim, pela quebra ou cansaço do sopro colonizador.
Lourenço
Marques, que comanda, que pensa, que decide e que impele — está muito, muito
longe do Niassa. E o seu impulso chega lá, enfraquecido, como os factos de água
que saem das mangueiras e que com a distância perdem intensidade e força.
Mas
nem só por isso a província do Niassa se distingue das mais províncias da
colónia. Também os seus caracteres físicos e etnográficos, muito acentuados,
muito diferentes, fazem dela território especial — outra face desta enorme
colónia.
A
Zambézia é, conforme a África que imaginam os que não conhecem a África — com
os seus grandes palmares, as suas humidades viscosas, os seus rios, a sua exuberância
tropical, a mais africana das províncias de Moçambique.
O
Niassa, também o é — relativamente a uma África mais real, mais verdadeira do
que essa que imaginam as pessoas que nunca foram à África. É a Província dos
grandes isolamentos e das grandes solidões, das grandes distâncias e dos
grandes horizontes. Nenhuma outra dá ao viajante, tão profundamente, a ideia da
extensão e profundidade africanas — e em nenhuma outra também a África se
mostra mais próxima da África do período lendário, que fez do grande Continente
o mais bárbaro armazém de mistérios mundiais.
Distingo
nesta Província três — pelo menos três — faces diferentes: a face litoral,
profundamente impregnada de História, das mais densamente povoadas da colónia,
híbrido etnográfico da Ásia e da África, e que, por isso, podia dizer-se a
mais oriental das regiões de Moçambique, e constituida pelas terras de
Leste, sensívelmente, até aos meredianos de Nampula ou Montepuez. A face do
Lago Niassa, e o seu prolongamento pelas terras sob a influência da linha de
comunicações que vai de Ribaué ao Lago. Finalmente, o grande bocado, quase
vasio, de território, através do qual correm, para além de Negomano, os rios
Rovuma e Luhenda.
Só
outras conveniências, de ordem administrativa, indiferentes à geografia, à
etnografia — e até à Política — promoveram a junção destas três faces
distintas numa província que tem de aceitar-se como verdadeira.
O
viajante, porém, não pode deixar de sentir como mais verdadeira
a distinção destes três grandes bocados de território.
Entramos
na Província, por Moma, percorrendo terras planas e húmidas do litoral. O
coqueiro zambeziano acompanha-nos, como elemento dominante da paisagem até à
sede da circunscrição.
Mais
uma vilazita alegre e bem disposta a intrometer-se — mas ainda mal se desenham
os traços fisionómicos da nova Província. As machambas de algodão sucedem-se,
prolongam-se — e aparecem as plantações de sizal.
O
algodão cultiva-se, em agricultura de indígenas e em pequenas machambas, que
raras vezes excedem a área de um hectare por cultivador; o sizal cresce em
grandes plantações dirigidas e administradas directamente por europeus, em que
as plantas, com os seus chuços pontiagudos, parecem formar um sistema defensivo
da guerra moderna. O sizal tem qualquer coisa de metálico e duro, de regular e
de fabricado, que não é próprio, ou que não é corrente, no reino vegetal. Os
modernistas, defensores quase agressivos da linha recta e da sua frigidez
plástica, decerto se deslumbram perante as grandes extensões eriçadas das
plantações de sizal, com as suas folhas rígidas como pontas de aço, a sua
simplicidade rectilínea e a sua calma plena de força. Eu prefiro a fantasia com
que se dispõem as folhas tenras dos algodoeiros, como prefiro a desordem
vegetal das grandes florestas, às matas de plantacão, de árvores alinhadas como
soldados, em terrenos limpos de paradas militares.
É
no entanto o preto, em economia familiar dirigida, ou aglomerado em «mão de
obra», é sempre o grande realizador desta ocupação agrícola — o mais importante,
indispensável e precioso colaborador dos capitais. E, por enquanto, os europeus
ainda não impuzeram a sua superioridade técnica, tão eloquente e praticamente,
que possam disputar ao negro o melhor quinhão da glória económica de produzir
algodão, arroz, sizal, etc.
Adiante de Moma, no caminho para Nampula, damos com a sede magestosa de
um posto-civil: o de Chaulaúa. A magestade provém da magnífica álea de grandes
árvores, que se estende aos pés do solar administrativo — e que seria digna
de um esplêndido palácio, que aí não existe, naturalmente.
Era
nosso intento não nos demorarmos. Teodósio Cabral que me acompanhava desde
Naburi fazia aqui as suas despedidas. E em despedidas estávamos quando apareceu
um grupo de pretos, capitaneado por um régulo, a pedir auxílio contra os
elefantes, que lhes andavam a destruir as machambas. O caso, diziam, era
particularmente grave nas terras do régulo Gelo. Havia dias que assolavam a
região e tudo indicava que os indígenas perderiam os seus haveres.
Alguns
régulos vinham, há tempo, solicitando a intervenção de Teodósio Cabral, de
quem ouviam falar, mas que não conheciam, porque o caçador não se abeirara
ainda daquela região. E nesse dia, tendo conhecimento da sua passagem por
Chaulaúa, insistiram.
Era
afinal o melhor pretexto para a caçada.
Nem
seria humano passar adiante sem prestar aos indígenas o auxílio solicitado.
Seria
um dia de demora — mas demorar-nos nestas circunstâncias era, de certa forma,
também um dever a cumprir.
Resolvemos
pois ir passar a noite à sanzala do régulo Gelo, cuja machamba os
elefantes andavam destruindo.
Lá
chegámos com certa dificuldade, por estradas e caminhos de lama.
Tirou-se
a bateria do carro, preparou-se o farolim — e aguardámos no próprio terreiro
da sanzala, à beira da machamba.
Enviaram-se
emissários a todas as sanzalas das proximidades, com instruções no
sentido de não fazerem barulho essa noite — e antes mandarem imediatamente
alguém a prevenir, se sentissem a aproximação dos elefantes, pois bem podia
acontecer que eles aparecessem em outras machambas e não naquela em que
os esperávamos.
Um
dos nossos pretos levaria o farolim à cabeça, atrás de nós, para onde nos deslocássemos.
No momento preciso, o Teodósio Cabral ou eu manobraríamos o farolim, enquanto o
outro atiraria. Seria eu, certamente, o atirador, visto que, de alguma forma,
era o convidado.
Às
dez horas da noite, arrepiados de frio, muito chegados à fogueira, esperávamos
ainda — e sem grande entusiasmo, porque o Teodósio Cabral se sentia bastante
doente.
Cerca
das onze horas a escuridão, estrelada e silenciosa, animou-se com grande
algazarra.
De
uma machamba, distante três ou quatro quilómetros, romperam gritos e
latadas.
Evidentemente
os elefantes andavam por lá — mas as nossas instruções não estavam sendo cumpridas.
Em lugar de mandarem alguém a prevenir-nos — os pretos tratavam de afugentar os
elefantes.
Em
tais condições era inútil deslocarmo-nos.
Descompôs-se
o régulo, que, por sua vez, descompunha os súbditos (a eterna história, a
eterna transferência de responsabili-dades dos grandes para os pequenos — até
ao mais pequeno) e tivemos por perdida a noite, a demora e a generosa intenção,
não totalmente desinteressada, que nos levara à sanzala do régulo.
Não
contávamos já com elefantes na machamba — e até porque tinham aparecido
noutra.
Deitámo-nos
em volta da fogueira para dormirmos até ao nascer do sol e retomarmos depois a
nossa vida.
O
Teodósio não se sentia melhor. Atormentavam-no dores violentas.
Menos
de uma hora depois fomos surpreendidos por certo ruído muito nosso conhecido,
na mata que envolvia a machamba.
Eram
os elefantes.
Lá
andavam a esgalhar ramos e a partir paus.
Ouviam-se
rajadas de estalos, de quando em quando — e percebia-se que os bichos se
aproximavam. Decerto não vinham «corridos», pois a aproximação era calma e
ordenada. Deslocavam-se, sim, mas pastando.
Era
então provável que viessem à machamba.
Preparámos tudo — e aguardámos.
Ninguém
diria então que o Teodósio Cabral estava doente e lutando com dores agudas.
Houve
um momento em que os elefantes, sempre dentro da mata, não estiveram a mais de
quinhentos metros.
Tínhamo-los
como certos. Não tardaria que estivessem na machamba.
Mas
não. Fosse porque o barulho dos negros, noutras machambas, os desencorajasse,
fosse porque algum golpe de vento lhes denunciou a nossa presença, o certo é
que, a partir dessa altura, o rumor das rajadas se afastou, embora sempre tranquilamente.
Era agora perfeitamente claro que já não viriam.
Mas,
como se tinham aproximado muito, não seria difícil descobrir-lhes o rasto, ao
romper do dia — e ir em sua perseguição.
Não
deviam ir dormir longe aqueles elefantes.
Regressámos
à fogueira e procurámos dormir. Saímos sob nevoeiro denso — encharcados logo
aos primeiros passos — com alguns pisteiros improvisados, recrutados
entre a gente da sanzala.
O
sol, dentro em pouco, nos enxugaria.
Como
se previa, encontramos o rasto dos elefantes a menos de um quilómetro.
Tratava-se de um pequeno grupo de machos, que deviam ser alentados.
A
mata, não sendo das mais cerradas, não era todavia francamente aberta. Os
capins ainda não estavam altos, embora se tratasse apenas de capins de mata,
que não crescem desmedidamente, como os capins das chanas e mulolas. De quando em quando a mata cerrava-se e
formava matagais densos, que depois aliviavam. O terreno era levemente
ondulado — e nenhum de nós sabia dos acidentes que havia para diante, pois o
pisávamos pela primeira vez.
O
nevoeiro levantou pouco depois e não tardou que o sol entrasse
onde podia, deixando nas sombras da mata rasgões de luz. O rasto era fácil e fresco e os
pretos lá se entendiam com ele, sem nos obrigar a cuidados de maior.
A
cerca de uma hora de marcha ouvimos os primeiros rumores — uma rajada de
estrépitos, de mistura com marulhar da folhagem.
Depois
um grande silêncio.
Tínhamos
a impressão de que os elefantes iam andando adiante de nós.
O
vento rondava, ora favorável, ora desfavoravelmente. Era de admitir a hipótese
de termos sido pressentidos.
Mandámos
dois pretos à descoberta e esperámos. E enquanto esperávamos nenhum outro rumor
nos chegou aos ouvidos.
Os
pretos voltaram. Não tinham visto os bichos. Ou antes: não se empenharam em
vê-los.
Retomámos
a marcha.
Um
quarto de hora depois, assinalaram os elefantes outra vez a sua presença —
agora muito mais perto. Não havia dúvida de que os tínhamos a curta distância.
A
mata cerrava-se agora mais. O matagal rasteiro, especialmente, era muito
denso: lianas, arbustos, capim — onde, de quando em quando, se abriam, não clareiras,
mas espaços mais desanuviados.
Avançámos
nós, enquanto os pretos, à cautela, se deixavam ficar para trás.
Menos
de cinquenta metros adiante, além da barulheira dos ramos, demos com a agitação
dos próprios ramos que nos ocultavam os elefantes.
Estavam
ali.
Imediatamente, um
dos bichos revelou-se. Surgiu,
atravessado, a quarenta metros, perfeitamente calmo,
entretido com os rebentos verdes que lhe pertenciam.
O
vento corria agora a nosso favor. Estive tentado a atirar.
Mas
queria ver os outros. Talvez houvesse bicho mais alentado do que aquele, que,
realmente, parecia inferior aos que esperávamos.
O
elefante deslocou-se e os ramos tornaram a ocultá-lo.
Pouco
depois apresentava-se outro.
Nova
tentação — mas o bicho só tinha uma presa.
Estava
a tornar-me tão exigente que me arriscava a perder todos, pois, como disse, o
vento não estava seguro quanto a direcção.
Como
sentíssemos os animais deslocarem-se para a esquerda — deslocámo-nos nós
também, guardando sensivelmente a distância que nos separava.
E
assim viemos a descobrir um grupo — quatro ou cinco visíveis, mais dois ou três
que as ramadas e o matagal ocultavam — entre os quais avultava um grande
bicho, exactamente o que eu esperava encontrar.
Mas
tão cobertos estavam que não havia possibilidade de atirar com segurança, do
lugar em que nos encontrávamos.
Pretendi
aproximar-me um pouco mais e ganhar certo sítio de onde julgava que
descortinaria perfeitamente o corpo do elefante — mas o Teodósio fez-me sinal.
Que não. Não estavam bons.
Não
estavam bons?! A mim pareciam-me o melhor possível: calmos, muito preocupados
com o pasto, em plena refeição...
O
Teodósio tinha razão, como se verá.
Demorámo-nos
três ou quatro minutos, na esperança de que novo deslocamento dos elefantes
nos pusesse finalmente o mastodonte a descoberto.
E entretanto admirávamos a
altura prodigiosa a
que o colosso erguia a tromba para colher, no alto de uma árvore,
alguns rebentos mais apetitosos.
Avultava
entre os mais, que só mostravam, acima da folhagem, partes do dorso e da
cabeça.
E
nesta contemplação estávamos tranquilamente, gozando o prazer sempre vivo de
observar elefantes em liberdade, na intimidade do seu viver, a trinta metros de
distância — quando explodiu o inesperado.
Decerto
porque o vento rondou, sem que nos tivéssemos apercebido, o elefante maior
levantou a tromba, desfraldou as orelhas, vibrou o seu grito de guerra e, sem
outro aviso, lançou-se furiosamente sobre nós, cilindrando com espantosa facilidade
quantos obstáculos encontrava.
O
ataque foi brusco, rapidíssimo — e inesperado.
O
Teodósio Cabral já o tivera como provável quando me impedira de ir mais além —
mas eu apostaria dobrado contra singelo que aquele elefante não nos atacaria.
Digamos,
de passagem, que eu estava bem armado com uma Winchester Especial 375 e que o
Teodósio Cabral apenas dispunha de uma Mauser 9 — muito apta para abater
elefantes, mas precária para os segurar em casos difíceis.
Valeu-nos,
em tais apuros, o automatismo de resoluções que dá a experiência.
O
animal foi imediatamente alvejado com
uma descarga — dois tiros quase simultâneos, que não o
seguraram. Mais dois tiros ainda — e ajoelhou. Levantou-se com agilidade
incrível e carregou de novo. À terceira vez, finalmente, despejadas as nossas
espingardas, adornou, voltou costas — e vimo-lo afundar-se no lugar onde antes
o tínhamos descoberto.
O
estardalhaço que ia na mata era de vendaval desfeito. A agonia do mastodonte,
com roncos de vulcão, e o pânico dos companheiros, abarrotavam de ruídos demolidores
o silêncio da mata.
Ainda
ofegantes, recarregávamos as espingardas e preparávamo-nos para ganhar posição
distante, mais segura, quando, não menos inesperadamente que da primeira vez,
vimos os restantes cinco bichos que completavam a manada disparados sobre nós.
Reacendeu-se
o combate, agora em condições muito mais apertadas.
E
só o facto de sermos dois e de termos arrostado a situação com a serenidade
indispensável nos livrou de apuros. A rapidez dos tiros sobre o animal maior,
repetida e colocadamente atingido, fê-lo desviar um pouco do rumo — o
bastante para que nos passasse, seguido de todos os outros, em fuga desabalada,
a dez metros de distância.
E
perderam-se, para trás, na direcção do caminho que tínhamos trazido — e onde
decerto os pretos se tinham ocultado — abrindo uma grande estrada através da
mata.
Mas,
o maior — bem o vimos — levava a morte consigo. Não iria longe. Tínhamo-lo
como certo.
Não
cuidámos então senão de descansar.
Para
ali estivemos, durante alguns minutos, dando aos nervos tempo de se recomporem.
O
primeiro elefante, que ainda víramos cair, atroava os ares, ali a poucos metros, com o seu ruidoso estertor.
Passado
um quarto de hora surgiram os pretos.
Um
deles subiu a uma árvore. Do alto fez-nos sinal. O elefante estava ali deitado
— quase a morrer. O sinal e a expressão do negro queriam dizer: «Está a
dormir».
Dos
outros elefantes e do ferido nada diziam — senão que se tinham tresmalhado
quando sentiram a manada correr na direcção em que se encontravam.
Um
garoto de catorze anos, que acompanhara estes pisteiros improvisados,
contava que o elefante — decerto o ferido, já distanciado dos companheiros —
correra atrás dele, e que só se salvara atirando-se para o lado, quando ia ser
apanhado. Que depois o elefante prosseguira e não o vira mais.
O
garoto não mentia. A sua história estava realmente escrita no terreno: o trilho
aberto pelo elefante, muito nítido — dir-se-ia ainda quente! — e, em certa
altura, bordejando o trilho, uma espécie de cama, feita no capim, que tinha o
jeito do corpo do preto.
Seguimos
nós em cata do ferido.
Encontramo-lo,
morto já, a menos de quinhentos metros.
Não
tardou que surgissem pretos de todos os lados. Os pretos em tais casos, são
como os abutres adivinham a carne
morta. Estes, decerto informados em todas as sanzalas do regulado acerca
da caçada, passaram palavra logo que ouviram os tiros — e não tardou que
afluissem, já apetrechados com cestos e catanas para o festim da carne.
Aqui,
por motivos sobrenaturais que não esmiucei, os homens não devem tocar nos
elefantes mortos. Só as mulheres o podem fazer sem risco de graves
complicações. E tão ciosas do privilégio que qualquer exigiria o divórcio se o
seu homem infringisse ou desprezasse a regra. Nem isso seria, aliás caso
virgem.
O
régulo, tão satisfeito com o presente de algumas toneladas de carne, como com o
castigo dos bichos que lhe arrazavam as machambas, tomou posse dos
elefantes para «fazer feitiço» como represália contra os assaltos que haviam
sofrido as suas plantações de mandioca.
Adiante
de Chaulaúa nota-se imediatamente a mudança de meio físico. Já não é a
Zambézia. O cenário mudou.
A
face do Niassa mostra-se nos grandes horizontes. Na paisagem próxima surgem
constantemente os cajueiros ensanguentados. Nos planos distantes erguem-se
enormes morros escalvados, monolitos gigantescos, que se levantam
abruptamente do solo como as ilhas penhascosas se levantam do mar. Mesmo nas
gentes, e apesar das misturas que resultam da facilidade de comunicações, se
observam pequenas notas diferenciais, nos tipos e nos costumes.
Por altura de Namatil o terreno encrespa-se e a estrada
ganha, nas suas ondas, trechos de animação que não são muito vulgares nestas
terras baixas do litoral.
Aproximamo-nos
de Nampula, sede da Província actual, sucessora moderna do burgo gentio de
Macuana, que, de alguma forma deu nome às gentes que, em maior número, povoam
esta face litoral: os macúas.
O
que são porém, na sua verdade etnográfica, todos estes macúas, é ainda muito
difícil dizê-lo. Que não são, no
conjunto que a designação
abrange, uma unidade etnográfica, salta aos olhos do menos advertido.
Distinguem-se diferenças entre
indígenas designados macúas, tão consideráveis como as que
distinguiriam senas e machopes.
Macúa
é apenas uma designação cómoda perante a dificuldade de distinguir, na amalgama
de vários e diferentes povos, a face de cada um.
Macúa
significa homem de tanga. O termo empregou-se inicialmente como uma
espécie de alcunha. Era assim que os indígenas do litoral, assimilados à
religião e costumes árabes, chamavam aos negros do interior. O homem da cabaia,
mais vestido, mais imponente, considerava desdenhosamente o bárbaro quase
nu que apenas usava a tanga de casca de árvore e parecia parente próximo
dos símios. Com o andar dos tempos o termo que foi, de princípio, claramente ofensivo
e cuja aplicação envolvia desafronta como qualquer insulto, tornou-se
extensivo a todos os povos que usavam tanga e, especialmente, aos mais internados
no território ou mais distantes dos costumes do litoral.
Os
achirimas do litoral, já sob a influência dos portugueses, muito dados à invenção
de designações depreciativas, teriam chamado macúas às gentes de
Macuana, que por sua vez usaram a expressão contra outros e outros — até que já
eram tantos os macúas que a designação passou a constituir rótulo de
todos, até dos próprios que já não usam tanga.
Não
há pois um tipo macúa. Há diferentes
tipos de macúas — e, assim,
a expressão é mais cómoda do que rigorosa, pois torneia as dificuldades
que se levantam quando se pretende saber quem são na verdade estes macúas.
O
conjunto, a mistura, englobam uma maioria de indivíduos física e
intelectualmente pouco interessantes — o que não quer dizer que não haja numerosos
macúas de esplêndido tipo físico e notáveis faculdades intelectuais. As
excepções porém não se impõem nem prestigiam a mistura. Os macúas são
considerados inferiores à maioria dos povos da colónia. É possível que, do
sentido pejorativo que inicialmente teve a palavra que hoje os designa como
povo, alguma coisa tivesse ficado que os deslustra no conceito de estranhos —
mas é verdade, no entanto, que, na generalidade, os macúas não desmerecem do
conceito em que são tidos, apesar de nem todos usarem ainda a tanga e muitos
vestirem já a cabaia que os eleva ao plano espiritual dos monhés.
São
macúas estes negros que encontramos do Angoche para cima, até Nampula— a velha
Macuana.
As
mulheres surgem frequentemente com uma máscara hedionda de beleza que faz delas
seres estranhos de um carnaval bárbaro. A exemplo das nossas elegantes civilizadas,
têm em grande conta e cuidado o cetim da pele do rosto. E então besuntam a cara
com uma pasta branca de farinha de mandioca ou de massimbiro que, parece,
amacia a cútis e a defende das primeiras rugas. No fundo fazem a mesma coisa
que as mulheres europeias, algumas das quais também usam mestelas igualmente
hediondas. Simplesmente estas não exibem as máscaras em público, como as
macúas.
Da
antiga Macuana só restam as lembrancas das lutas para a ocupação. Nampula é uma
cidade nova em folha, escarolada e geométrica, conforme os cânones
urbanísticos do nosso tempo — e em que, naturalmente, abundam mais os talhões
vazios e nus do que os edifícios. Assim, não tem encanto, nem graça, como não
têm encanto nem graça os prédios em construção, incompletos. No entanto
promete-se bem e tudo indica que será dentro de breves anos uma cidadesita
agradável. Porém o cenário que a envolve tem, não só o encanto, mas também a
grandiosidade imponente dos grandes cenários africanos. A extensão e o recorte
dos horizontes são os seus elementos de sedução — sobretudo aqueles horizontes
de serrania agreste, levantada como onda gigantesca sobre paisagem extensa e
calma. Os monólitos, habitantes indispensáveis de grandes regiões da Província,
guardam horizontes e caminhos como gigantes lendários.
A
erosão — a grande doença moderna das terras em que o homem procura pão e
riqueza — estava corroendo os arrabaldes da pequena cidade e avançava já com
sanha implacável. À data da minha última passagem por Nampula, a burocracia
andava interessada pelo problema e acompanhava a acção desgastadora das águas
com ofícios suculentos, que, naturalmente, não impediam comedelas erosivas —
mas alimentavam esperanças.
A
população da cidade — a gente branca — como, na generalidade, a população de
todos estes burgos novos, mais prometedores que realizados, é constituída por
funcionários civis e militares e por comerciantes. Os monhés e os negros orientalizados representam,
ao lado desta, a população histórica, mais antiga e perfeitamente instalada nos
costumes que de, alguma forma, criou.
Vamos
directos ao mar, por uma estrada paralela à linha do Caminho de Ferro, que será um dia o Trans-Niassa, e da qual se
contempla, em quadros sucessivos, a fisionomia da Província, nesta zona
litoral.
Ao
cabo da estrada, já na praia, é o Lumbo.
E
defronte, a desgarrar-se para o mar, no caminho da Índia, bóia solenemente a
Ilha de Moçambique — que foi princípio da colónia e berço de quatro séculos e
meio de História.
Não
é sem comoção que se contempla, do Continente, aquela pequena ilha — hoje
ilha-museu, ontem coração da colónia.
Nestas
águas de simples canal, tão estreito que a ideia de uma ligação por ponte já
tem sido aventada e proposta, ou um pouco mais além, a noroeste — fundeou em
1498 a armada de Vasco da Gama, em busca do último lanço do caminho marítimo
para a Índia.
Mandava
na ilha um Sultão que tomou as gentes do Gama por mareantes turcos— e que por
isso recebeu festiva e hospitaleiramente a armada. Mas desfeito o engano, uma
semana mais tarde (salvo erro a 10 de Março de 1498), tornou-se a ilha tão
inhóspita que o Grande Almirante teve de deslocar a esquadra para a beira da
outra pequena ilha (de S. Jorge), onde no dia seguinte foi celebrada a primeira
missa em Moçambique.
Não
terminou este primeiro contacto sem que falassem as bombardas da esquadra —
que só dezanove dias mais tarde teve ensejo de se largar para o termo da
viagem.
A
ilha foi descoberta — mas não foi conquistada então. Só alguns portugueses
saltaram em terra enquanto reinou harmonia com as gentes do Sultão.
E
no regresso do Gama, também só fundearam junto de S. Jorge (l de Fevereiro de
1499) não tendo tomado de Moçambique senão a vista.
A
primeira feitoria, que marca o princípio do estabelecimento dos portugueses em
Moçambique, e havia de conduzir à posse definitiva da ilha, que encabeçaria por
séculos a grande colónia — foi fundada, sim, por Vasco da Gama, mas na sua
segunda viagem à Índia.
A
paisagem, assim, vista do Lumbo sobre a ilha, é um quadro quatro vezes secular
da História de Portugal.
Não
vou, evidentemente, transladar para aqui os factos, aliás muito conhecidos e
divulgados destes quatro séculos e meio — a história da ilha que primitivamente
foi simples porto de comércio e escala, na dependência do Governo da índia; a
história da capital da colónia desde que Moçambique foi separada do Governo
do outro lado do Indico; a história moderna, finalmente, da ilha-museu, que lá
está onde sempre esteve, com as suas lembranças, a sua expressão
portuguesíssima, as suas velharias, o seu bolor e a sua melancolia.
Mas
não passo adiante sem assinalar o caso muito especial que, na ocupação da
África pêlos portugueses, foi a colonização desta ilha antiquíssima.
Não
foram só negros bárbaros, como acontecera em toda a volta da África, desde o
Tenebroso a Moçambique, que encontramos neste pequeno pedaço africano — e nas
terras continentais do litoral, para baixo e para cima. Aqui, encontramos, já
enraizada e poderosamente influente, uma civilização estranha de fartos
caracteres espirituais e sólida estrutura económica. O embate dar-se-ia entre
um povo europeu, intransigentemente católico e ávido de riquezas materiais e
uma população muçulmana, ou fortemente sujeita à influência islamita, e não
menos cobiçosa das riquezas do Oriente. Esta levava a vantagem de uma ocupação
antiquíssima : a sua religião e os seus costumes haviam penetrado já entre os
povos do litoral. Toda a costa de Moçambique, sob a influência da ilha e dos
antigos estabelecimentos muçulmanos instalados para Norte e Sul, acusa ainda
hoje a importância e profundidade da ocupação muçulmana — da ocupação
espiritual e económica — apesar de todas as tentativas e esforços dos
missionários de Cristo no sentido de imporem outra religião e outros costumes.
Desde
Angoche até Kionga, esta é a fatia menos africana e mais oriental da colónia de
Moçambique.
E
contudo nenhuma cidade histórica da nossa África tem feição mais portuguesa do
que a cidade que, durante quatro séculos e meio, nasceu, cresceu e adormeceu,
na ilha solene que se contempla da praia do Lumbo.
De
onde veio, como se formou, esta palavra «Moçambique» que é nome de uma ilha, de
uma cidade, de um concelho e de uma colónia?
O
antigo missionário, Padre Francisco Manuel de Castro, que em 1934 pertencia à
Missão de Santa Bárbara do Mogincual, explica a origem da palavra que hoje
designa a ilha e a colónia, numa tese que enviou em 1934 ao Congresso de
Antropologia realizado no Porto, em coincidência com a Primeira Exposição
Colonial Portuguesa, da seguinte maneira: «Muito antes dos portugueses navegarem no Oceano Índico, um
pescador indígena, chamado MUIPITI,
atraído pela abundância de peixe que havia em volta da ilha (hoje Moçambique,)
foi-se lá instalar e tomou posse dela.
«Os
indígenas do Continente para a distinguirem das outra ilhas que a rodeiam,
começaram a designá-la pelo nome do possuidor, isto é EKISIRUA IA MUIPITI,
ilha de Muipiti. Para abreviar passaram a dizer simplesmente Muipiti, referindo-se à ilha. Este nome
conservou-se, e é por ele que hoje ainda todos os indígenas do distrito e
regiões próximas conhecem a ilha de Moçambique.
«Mais
tarde, a ilha passou à posse de um outro indígena, M’BIKI. A este sucedeu o
filho MUÇA, o qual governava a ilha quando Vasco da Gama nela fundeou.
«Estabelecidas
relações com os habitantes, os portugueses perguntaram-lhes quem mandava na
ilha, ao que responderam:
-Manda
o MUÇA M’BIKI.
«Os
portugueses, de aí em diante, quando se referiam à ilha, diziam «ilha de
Muça M'Biqui, E, aligeirando a pronúncia destes dois nomes, foram dizendo
MUÇAM-BIKI, forma de que proviria o vocábulo actual Moçambique.»
Será
assim?
Não
me consta que haja explicação mais satisfatória que esta.
Actualmente
a cidade — a velha cidade que foi capital da colónia e centro de comando de
quatro séculos de História de Moçambique — é um burgo sonolento, trôpego e,
apesar disso, encantador. A vida que teve está por tal forma impressa nas
coisas materiais e nos costumes das gentes, que se desprende da cidade, como um
perfume, toda a espiritualidade das coisas mortas que muito viveram. Em nenhum
outro lugar histórico de Moçambique a História se torna tão presente e tão viva
como neste povoado insular de velhas fortalezas e velhos palácios, que foi
encruzilhada de caminhos entre a Europa e a Índia, e cujas gentes nos aparecem,
ainda hoje, na expressão fisica e nos costumes, como resíduos de um
cosmopolitismo secular euro-afro-asiático.
Todas
as épocas deixaram sinais impressionantes e muito visíveis — até a actual não
se dispensa de se representar com alguns pudins arquitectónicos cuja mocidade
irreverente grita o seu mau gosto por entre as velharias venerandas.
A
ilha pertence a um pequeno arquipélago de ilhéus — e a sua cidade, que a ocupa
quase inteiramente, parece, de longe, ter surgido assim, tal como a vemos, da
era da formação deste pedaço de mundo, já com a sua fortaleza, os seus bairros
e os seus habitantes. Sobretudo a fortaleza de São Sebastião, com os seus
quatro bastiões de S. João, Nossa Senhora, Santa Bárbara e S. Gabriel, a sua
cor sugada às emanações salinas do mar, às poeiras da terra, ao calor do Sol,
e impregnada durante séculos — mais lembra acidente físico caprichoso do
território do que obra de gentes idas.
O
percurso marítimo até à ilha, em doces manhãs do cacimbo, o céu ainda
doirado de esplendores orientais, as águas esmeraldinas, é magnífico de luz,
de pitoresco e de pura beleza paisagística. E logo aí o contacto com o Oriente se torna
visível. As embarcações portuguesas e africanas — batéis mestiços no
desenhos de cujas linhas colaboraram durante séculos construtores e
mareantes de três partes do mundo — e os paquetes modernos, cruzam
com os pangaios do
Oriente. E estes fazem lembrar as velhas naus e caravelas de que herdaram ou
conservaram qualquer coisa nas suas formas estranhas.
Acreditam
alguns naturais — ou
fazem-no acreditar — que no Palácio de S. Paulo, que foi residência do Governo
e é actualmente pousada eventual de altas
personalidades oficiais em visita,
aparecem a horas mortas, almas
do Outro Mundo. E eu acho bem.
Dos
seus enormes salões, com tectos de urna mortuária e formosíssimas portas,
desapareceu toda a vida. E deste mundo desapareceram as personagens românticas
e os trajes roçagantes, dignos de habitá-los e percorrê-los. E, assim, nada
mais apreciável do que saber o velho, e ainda lindo palácio, habitado pelas
almas daqueles que nele passearam também os seus corpos, quando eram deste
mundo.
O
recheio é pobre, tem sido desfalcado — mas as almas lá residem, e, decerto, não
exigem mais e não pedem à Fazenda reforço de verbas nem dotações especiais para
se rodearem do conforto de que gozam os vivos noutros palácios que as almas
enjeitam.
No regresso ao Continente,
que é, neste caso, um regresso do Passado, vale a pena torcer caminho e
procurar, no cruzamento de Monapo, o caminho de Nacala. As ilhas, em Moçambique
— as do Bazaruto, de Moçambique e Querimba — desde que se tornaram
desnecessárias como refúgios ou redutos, e na medida em que o Tempo vai
destruindo ou afastando dos nossos dias e do novo sentido utilitário das
coisas, o que lá existia, cederam ao Continente todas as atribuições e funções
modernas. No Lumbo, fronteiro à ilha de Moçambique, procura fixar-se um aeroporto
marítimo internacional. Em Nacala promete-se o grande porto desta Província e,
pelas condições naturais, um dos mais belos e melhores portos desta costa oriental. Nacala, a célula moderna da povoação futura, aonde vai ter um
ramal do Caminho de Ferro, fica quase ao fundo de uma linda bolsa marítima —
certamente a mais suave e recolhida de quantas se abrem na costa de Moçambique.
Praticamente,
nem a vila nem o porto existem ainda. Existe o projecto de uma cidade
grandiosa, talhado em gesso, para embasbacar público de exposições e o projecto
não menos grandioso de um porto digno da grande cidade.
Já
é alguma coisa — alguma coisa, que permite ir sonhando... até ao dia em que se
resolva fazer novo estudo e outro projecto, e tantos quantos os necessários
para entreter o tempo e as impaciências. Mas as condições naturais — essas
estão esplendidamente realizadas, e o seu encanto justifica plenamente a grande
volta do porto até à embocadura desta formosa baía de Fernão Veloso.
Toda
a costa da Província do Niassa é preciosamente recortada em baías de grande
beleza, que são excelentes portos — de cabotagem pelo menos: Memba, Porto
Simuco, Lurio, Porto Amélia, Quissanga, Mocimboa, Palma e Kionga. Nenhum outro,
porém, é tão bom e tão belo como esta bolsa de Nacala, verdadeira e sumptuosa
pousada dos caminhos do Mar.
Partimos
de Nampula com destino a Kionga, e à foz do Rovuma, por terras do
litoral.
Em Nampula
— a cidade dos grandes horizontes guardados por grandes morros — ecoa o nome de
um grande sertanejo e puríssimo homem de acção, que foi a figura mais notável
da ocupação do distrito: Neutel de Abreu.
É
um dos valores da época gloriosa de Moçambique, um homem do
nosso tempo com fibra dos homens de Seiscentos e todas as virtudes e
desinteresse dos humildes de todos os tempos.
Numa
época em que a glória já se comprava e se obtinha, por vezes a baixo preço, na
Praça do Comércio em Lisboa — Neutel conquistou-a, florão por florão, suando
sangue e suor e dando por ela o melhor e mais puro da sua alma e dos seus
nervos de português. Não era um herói romântico, de golpes espectaculares,
desses a quem a imprensa e as galerias seguem entre aplausos — mas foi como
poucos o herói útil, consciente e o idealista de uma tarefa superior. Político
e guerreiro, sertanejo dos mais talhados para a vida dura do mato, no tempo em
que o mato era duro, o Neutel realizou uma obra de ocupação modelar, muito
menos pela força do que pelo espírito. E como vencedor e primeira figura que
foi da ocupação deste dificílimo distrito, submeteu sem crueldade, fez-se
admirar sem jactância e deixou, entre os indígenas, um nome que ainda hoje
lembram com respeito e cândida admiração: o Mah-hong, «mais forte que o
leão».
Nampula
deu o seu nome a uma avenida — mas confundiu esse nome e o de alguns da mesma
igualha, com outros que de certa forma os embaciam e pertencem já ao período
moderno das homenagens subservientes.
O
herói morreu pobre e quase esquecido — o que possívelmente não acontecerá a
alguns titulares modernos de outras ruas de Nampula.
Com
passagem por terras de Muecate, Nacaroa e Namapa e, quase sempre, perante
vastos horizontes, vamos ter ao posto de Chiure.
Acompanham-nos
cajueiros ensanguentados, já a prometerem frutos maduros — e
formam-se cada vez mais as notas de orientalismo do território.
A
dezasseis quilómetros do porto do Chiure, o rio Lurio, ferve uma cascata aliciante.
Um governador de bom gosto — Abel Moutinho — assinalou o lugar como merecedor
de contemplação especial e esboçou aí, com materiais improvisados e inspiração
gentílica, a ideia de uma pousada de turismo.
Lá
dormimos, depois de namorar e percorrer a cascata, as suas plumas de espuma
enfeitando os penedos de onde as águas se precipitam, as suas piscinas naturais
de águas claras e muito vivas, os seus arbustos torturados — e algumas árvores
imponentes que a emolduram.
Infelizmente
esta cascata do Lurio está muito desviada e muito distante dos caminhos e
centros de turismo para ter algum futuro, mesmo com a sua pousada e os seus
encantos. Mas que regala e contenta quem a vê — não há dúvida. Sobretudo de
manhã, quando a luz é mais vibrante e as águas se empoam ainda das neblinas que
lá dormiram durante a noite.
Depois
do Chiure, aproximamo-nos do mar.
Mantêm-se as
características solenes da
paisagem e as várias faces das gentes macúas. Cajueiros, mangueiras em flor e
imbondeiros, abundam entre as espécies
arbóreas. Os indígenas festejam a passagem do carro — eles alegres e vivos,
rindo por todos os dentes, elas quase tímidas, muitas com as máscaras(de
beleza, fazendo reverências como os europeu já fizeram no século XVIII. Depois,
com o Índico à vista, é Mecufi; e entramos na orla marítima, até Porto Amélia,
sede do distrito, bordejamos o mar — um mar esplêndido de verdes fantásticos,
que parece mostrar ao sol todas as riquezas de cor que guarda nos fundos, e
que nos distrai do percurso terrestre, sujo e encardido. A estrada, ora sobe
a pequenas colinas onde o arvoredo se pega, ora desce a baixos enlameados onde
o mar, surrateiramente, se infiltra. Sucedem-se os pântanos e grandes calvas
vazias e salgadas. As árvores que se desgarram da floresta e descem têm
atitudes angustiosas de sofrimento. As queimadas passaram e enegrecem mais os
quadros, expulsaram o verde da paisagem.
E
por fim surge uma grande, imponente, baía, que vamos bordejando e faz esquecer
as fealdades da terra. Percorremos toda a orla de mais um grande porto, onde
se pensa que caberiam todas as esquadras do Mundo — mas onde só raros e
esforçados paquetes entram. Uma grande baía solitária, vazia.
E
numa prega desta orla, que o mar enriquece, a subir para a encosta breve,
enraizou-se uma das cidades mais feias e mais tristes de Moçambique — Porto
Amélia.
Até 1929
sofreram estes territórios do
Niassa e administração magestática de uma Companhia de ruim memória — a
negregada Companhia do Niassa. Da sua acção todos se recordam sem
saudades — e não vale a pena repetir aqui o que foi a sua obra.
Chamava-se
então ao distrito de Porto Amélia, criado, e assim nomeado em 1935, o distrito
de Cabo Delgado. Sobre os seus territórios havia caído, à data da passagem da
administração para o Estado, uma série de desastres demolidores
em que está toda a História de Porto Amélia, das terras que a vila-sede domina
e até de vastos territórios que se estendem até ao Lago — desastres em parte
provocados pela administração da
Companhia, em parte pelas
condições dificílimas em que se realizou a ocupação desta parte da colónia.
Para além do Rovuma, que define a fronteira Norte da Província e da colónia,
era o Sultanato de Zanzibar — e, depois, o
protectorado alemão exercido
sobre grande parte dos territórios deste sultanato, isto é, a Tanganika.
Má
visinhança.
Enquanto
foi apenas o Sultanato, o pior mal que sofreram as regiões que nos pertenciam
foi o avanço ou a sustentação da penetração islamita — avanço ainda hoje
enraizado e triunfante, com condições excepcionais de resistência à expansão
do Cristianismo. Com os alemães foram a perda de Kionga e, depois, os passos
desoladores da guerra de 1914-18.
Não
falamos desta campanha, cujos heróis (que os teve de primeira água) não
conseguiram limpar as vergonhas da desorganização política e dos comandos. E
não nomeemos ninguém para que possamos continuar a esquecer esses comandantes
políticos.
Quer
dizer: Porto Amélia, a cidade, é, de
alguma forma, na
sua pobreza e melancolia, a vítima de um passado triste
e melancólico. Naquele quadro grandioso
da Natureza e a embocar uma região rica de grande valor económico — não parece
que perca tão cedo o seu ar triste, de burgo que sofreu e que nem sequer pode
ter o orgulho do seu sofrimento.
Na
linha de penetração que parte de Porto Amélia para o interior, encontramos uma
circunscrição impressionante de mocidade e de possibilidades: Montepuez.
É
uma região essencialmente agrícola, como tantas outras da colónia — mas mais
produtiva que a maioria. Circunstâncias especiais da forma da ocupação e da
índole das gentes, permitiriam que este bocado de terra se desafogasse e seja,
no conjunto, um valor aparte, mais elevado, mais progressivo.
A
povoação sede, sem antiguidade, sem história, nasceu e cresce limpa e risonha,
amanhada em largueza e bom gosto.
Encontro
aqui um médico apaixonado pela sua função. E o encontro torna-se tanto mais
impressionante quanto a sua mocidade e o seu tipo físico lhe permitiam seguir
alegremente os trilhos fáceis, que procuram os rapazes da sua geração e e
semelhantes. Podia ser um cantador de tangos, um actor de cinema, profissões
que dão fortuna e celebridade — e parece contente de ser apenas um médico em
Montepuez. Pertence ao número, cada vez mais reduzido, daqueles que, na
verdade, aguentam o Império — e, assim, risonhos e bem dispostos, nestes
lugares onde ninguém os vê.
Luta
para conseguir o isolamento dos leprosos — acredita, como
eu, aliás, na sua vitória — e procura
afincadamente salvar a vitória já
alcançada sobre as parturientes indígenas.
Estas já se desprendem dos seus costumes
bárbaros, vão parir à maternidade de Montepuez e acreditam nos brancos — como
parteiros pelo menos. Salvam-se assim muitas dezenas de crianças e matam-se lentamente
velhas práticas de barbárie. O valor desta vitória só o entende quem algum dia
a tentou. O problema dos leprosos também se encaminha para soluções menos
românticas e improvisadas do que as que adoptaram certas almas cristãs — mas só
cristãs — de Nampula, cuidando que acudiam à desgraça dando aos doentes um
subsídio. O subsídio, a esmola, seja qual for a forma que revista, nunca é
solução em matéria social. Aos generosos beneficentes de Nampula aconteceu pura
e simplesmente o seguinte: resultados contraproducentes. Como os leprosos
recebiam subsídio e não pagavam imposto... as mulheres preferiam-nos para
maridos. O subsídio funcionou assim como prémio matrimonial e fabricou decerto
mais algumas leprosas. Creio que à data em que escrevo — cerca de três anos
passados sobre a viagem — já não há subsídios e funciona a leprosaria.
Avançamos até Quissanga,
miradoiro sumptuoso sobre as ilhas de Querimba e outro lugar histórico da mais
antiga história da colónia.
Alcançamos
a sede da circunscrição, sempre na vizinhança do mar, ora atravessando
plantações de sisal, ora calcurreando estrada trepidante de barros negros,
endurecidos pelo sol.
A
Quissanga é actualmente uma circunscrição
bravia, esquecida, e cuja beleza natural, enfeitada por montes
e rios caprichosos, tem o ar bárbaro das terras rebarbativas. Andam por lá os
elefantes e os leões a guerrear os pretos — aqueles destruindo os seus bens,
estes devorando as suas pessoas. Antes da nossa passagem, dias atrás, de três
pretos assaltados pelas feras, um pôde escapulir-se para o alto de uma árvore,
de onde assistiu, com natural pavor, à morte e deglutição dos companheiros. É
uma região curiosa, quase apaixonante, esta da Quissanga, muito histórica,
muito africana, com os seus cabelos brancos e o seu cariz selvagem.
A
sede da circunscrição instalou-se num velho fortim que, depois de albergar
guerreiros, dá pousada a burocratas. A papelada ocupou o lugar da pólvora e na
sua porta afixam-se editais.
Os
indígenas, netos de outros que empunhavam armas, chamam-lhe ainda a Praça — mas
só lá vão pagar o imposto e contar os seus milandos.
E
este fortim, juntamente com algumas ruínas de antigas habitações de negreiros,
é tudo que resta da Quissanga de outrora.
Daqui
partiu, no entanto, séculos atrás a ocupação para o interior. E este fortim era
a defesa da terra firme de que a gente instalada, com mais segurança nas
ilhas, fazia base de operações de penetração.
A
história da Quissanga — capítulo mais vivo da História da
Escravatura do que da História de
Moçambique — não é famosa. Teve
decerto os seus heróis —mas foi com a escravatura que
se fez e prosperou, como foi a abolição da escravatura
e, depois, a sua repressão, que lhe
cavaram
a decadência.
É
justamente famoso porém o seu prestígio de miradoiro do Indico. Do Alto da Quissanga — o alto de uma
onda de terreno que, aliás, pouco se eleva sobre o mar — contempla-se um dos
mais belos quadros do litoral moçambicano, inclusivamente desta costa, tão
recortada e rica em golfos, baías e promontórios pitorescos.
Em
frente uma linda baía, uma linda meia lua, com duas pontas (Arimba e
Paquissanga) fendendo profundamente o mar. E na linha que uniria as duas
pontas, se Deus a houvesse traçado, nadam seis ilhas do grupo das de Querimba —
e, entre estas, a do Ibo, que foi sede da «Capitania das ilhas», do «Comando
das Ilhas e da Terra firme», ou seja, que foi um dos mais antigos postos de
comando da conquista e ocupação de Moçambique.
Do
Alto de Quissanga, de onde se enxergam horizontes físicos de meia centena de
quilómetros, contemplam-se também horizontes históricos de quatro centenas de
anos.
Chamam-se
ilhas de Querimba, ou arquipélago de Cabo Delgado, ao grupo de vinte e oito
pequenas ilhas e ilhéus que bóiam nestas águas da costa, a tão curta distância
de terra que as mais próximas se alcançam, às vezes, a pé enxuto e as mais
distantes não se afastam além de quinze a dezoito quilómetros. A maior (Amiza),
não mede mais de vinte e quatro quilómetros quadrados. São elas: Quipace,
Quiziba, Amiza, Calaluia, Fumbe, Querimba, Samucar, Ibo, Matomo, Rolas, Inhate,
Melandulo, Macabué, Zanga, Xanga, Mastros, Minhuge, Timbuza, Namege, Zune, Mistense, Lumbamba, Numbe, Quia, Cuiamimo, Ticoma,
Cunge e Lenga — mas só Querimba, Ibo, Matomo e Fumbe, têm sido constantemente
habitadas.
A
sua disposição, ao longo da costa, já de si precisamente recortada, dá a
este pedaço de mar encantos estranhos de paisagens lacustres. Por vezes, parece
cenário de histórias aventurosas de piratas, com os seus refúgios de águas
calmas e os seus mangais plenos de mistérios.
As
ilhas foram, nos primeiros tempos da descoberta e conquista, fortalezas naturais,
bases de segurança — e exerceram, sobretudo, funções de estação na rota das índias. Em breve teriam de ser também os trampolins
para o grande salto sobre o Continente.
Por
aqui devia ter passado o Gama em 1498 — e depois dele todos os mais que, na sua
esteira foram à Índia. Daqui se estabeleceram certamente os primeiros contactos
com o Continente.
As
ilhas de Querimba passaram no entanto à História, especialmente, como centros
de escravatura e das mercadorias que, acessoriamente, acudiam ao litoral, de
mistura com os escravos. A posição era ideal. As fugas da costa com os seus mangais,
as ilhas na sua quantidade e disposição, ofereciam asilo e esconderijos seguríssimos.
E mesmo quando mais tarde se estabeleceu em Querimba a sede da «Capitania das
Ilhas» e o «Comando da Terra firme» — ainda os negreiros, perseguidos,
conseguem manter-se e fazer prosseguir o negócio.
Vamos ao Ibo. A quatro
quilómetros do fortim espera-nos uma «casquinha» — única embarcação que
consegue aproximar-se de terra e nos leva ao gazolina, que teve de ficar ao
largo. Só barcos com dois ou três palmos de calado podem navegar na baía em que
dificilmente embarcamos. Estas dificuldades fizeram a fortuna do Ibo, onde os pangaios
e outros navios de grande porte encontravam os fundos precisos.
A
baía de embarque, um grande corredor em que a água mal cobre o fundo
aço-readíssimo, é magnífico de tranquilidade e esplendor lacustre. Franja-a o
mangal impenetrável, de raízes ao leo, enlameadas, que parece querer arancar-se
do lodo e salvar de sujidades o verde das folhas.
Depois
o gazolina, safo da baía, procura rumo caprichoso entre bancos de areia e
vai-nos conduzindo por entre um cenário paradisíaco até à ponte-cais do Ibo — a
primeira ruína que se topa nesta ilha de ruínas.
Temos a impressão
de desembarcar numa necrópole abandonada. O Ibo é um cadáver em decomposição —
e as suas ruínas, a sua tristeza, o seu desarrumo, são tudo que resta da antiga
capital de distrito, entreposto de escravos, porto marítimo de terras
continentais fronteiriças e estação do Caminho para a índia. Nas ruas cresce o
capim — e parecem arruamentos de cemitério, com as suas casas abandonadas,
algumas esventradas. Havia, à data em que percorri a vila, 98 casas habitadas e
92 abandonadas — e pareciam 98 casas moribundas e 92 mortas. E toda esta
tristeza mortuária parece mais triste, mais profunda, porque ressalta de um
antigo esplendor, de uma riqueza que se exibiu e caiu, decerto de uma alegria
que gelou. É a tristeza da prosperidade perdida, das peças de luxo
esfrangalhadas, das casacas que vão ter ao corpo dos mendigos. As próprias árvores,
algumas muito belas, têm o ar recolhido e melancólico da viuvez.
No
entanto, nas ruínas do Ibo ainda se lê, como em folhas de velho a vida
do Ibo de outrora.
Era
uma vila do Oriente em África. As casas, as ruas, foram transplantadas da índia
— dir-se-ia arrancadas de lá e colocadas na ilha. Entre elas, os edifícios
portugueses não conseguem, como na ilha de Moçambique, marcar uma expressão de
influência superior. O número e o espírito tem o cunho “monhé”. E isto não
impede que a mistura revele todos os contactos e intimidades raciais
estabelecidos ao longo de quatro séculos, entre mareantes, negreiros, escravos
e tropas de três continentes. As casas do tipo indiano formando ruas inteiras;
palácios de negreiros com as suas portas embutidas, janelas arrebicadas e
salas faustosas no piso de cima, e os armazéns ou jaulas de escravos no piso de
baixo; casas mestiças com linhas europeias e janelas alpendradas; palhotas de
negros e mulatos, etc. — reflectem os tipos que lá viveram.
Na
praia, em baixa-mar, as velhas barcaças — também de linhas mestiças —
encalhadas na vasa, parecem outros cadáveres, de bichos marinhos.
A
população, agora, muito reduzida naturalmente (27 europeus, 144 mestiços e 14
índios, além dos indígenas africanos) é o resíduo etnográfico de uma miscelânia
longamente agitada, que produziu tipos especiais, indefinidos, no entanto curiosos.
Primeiro, o contacto entre árabes e negros, que se funde numa língua mestiça
(o quimuané! dá um tipo suave de que desapareceram os traços grosseiros
do bantu e a crueza do oriental — tipo que constituirá por séculos o elemento
de predominância. Depois são os quimuanes e ainda os seus progenitores, que se amalgamam com portugueses, franceses, índios e toda a malta que
frequenta aventurosamente aqueles mares.
O
Ibo morreu — e só ressurgirá, se ressurgir, como coisa modesta de uma economia
pobre — mas os seus tipos, as suas gentes levarão ainda muitos anos a
desaparecer no cadinho desta costa ainda tão oriental como africana.
Regressamos
ao Continente com maré alta. E isso basta para elevar a níveis de puro encanto
o percurso no canal. Desapareceram as franjas de lama que, na maré baixa, se
interpõem entre a praia e o mar e tanto sujam aquelas velharias inglórias. Só a
praia, o mar e a carapinha do mangal intervém no magnífico quadro. Na ilha
ficam a despedir-se alguns coqueiros desplumados, melancólicos, plangentes.
Seguimos agora, seguros contra os encalhes, bordejando os mangais muito
frizados, cujas raízes tentaculares as águas cobrem, e que só mostram as copas
espessas, muito verdes e encarapinhadas, ajardinando o mar. E gretas muito brancas,
pousadas nos ramos, como roupa ao sol, esperam a vazante em sonos estatuários.
Depois,
no Continente, é outra vez a estrada negra, gretada pela ardência do sol. Não
tarda que melhore. Um administrador de bom gosto, logo que a viu safa dos
barros teimosos e dos horizontes nus, deu-se a enfeitá-la. E percorremos
quilómetros agradáveis entre orlas de jardim.
Passamos
o Mucojo e Quiterajo, em corrida. O Índico mostra-se de quando em quando—e a
Índia mostra-se onde quer que aparece o homem. A cabaia e a tanga misturam-se nos caminhos e nas sanzalas. Os cajueiros, alguns lindos e anafados,
predominam sobre todas as árvores. Não tarda que os frutos maduros despertem
Baco e que Mahomet não consiga impedir a existência de outros paraísos
temporários, mais alegres e ruidosos.
Entre
o Mocojo e Quiterajo os elefantes deixaram sinais de passagens recentes.
E
surge outra vila de raízes orientais, a que a administração moderna procura dar
feição mais europeia — Mocimboa da Praia. Uma baía pequena, recolhida, que
seria deliciosa para abrigar navios de turismo e desporto, e que o monhé
explora. Numa ilha central, vivem como degredados alguns ibondeiros. Em volta
da praia persiste a povoação comercial — daqueles comerciantes asiáticos que
exploram e não constróem, que aguardam o regresso à índia — e que tem o ar de
feira armada em ruas sujas e tristes. Ao cimo principia a tomar forma, em
grandes ruas largas como avenidas, a povoação residencial e administrativa.
Mais
uma arrancada e chegamos a Palma — outro povoado bonito mas triste, de
isolamento, a dominar dois mares: o mar dos coqueiros e, mais para além, o
oceano.
Estamos
quase no extremo Norte da colónia — e têm qualquer coisa de fim longínquo,
difícil de alcançar, estas terras quase virgens e estes povoados de gentes
distantes, que sofrem a distância e o isolamento. O ponto final está impresso
em Kionga — um nome que o primeiro atrito
com os alemães,
e depois a primeira guerra mundial, celebrizaram. É um recanto de belas
sombras, copiosamente banhado pelo Rovuma — e triste também, martirizado pela
Distância.
Lembro-me
que há em Lisboa uma Avenida dos Heróis de Kionga. Aqui nunca houve outros
heróis senão os que lutaram e lutam contra o isolamento. Heróis de Kionga só há
em Lisboa, na indicatória de uma artéria. E não devem procurar-se aqui, pois a
mexer no assunto bem podíamos levantar miasmas de uma campanha moderna que o
nosso orgulho manda esquecer e cuja história está feita apodrecida e enterrada.
Entre
Palma e Kionga, mesmo à beira da estrada e junto a uma sanzala de
indígenas-monhés, dorme uma pequena e bela lagoa em que a toda a hora se vêem
hipopótamos. A carne de hipopótamo é tabu para os pretos da região.
Mahomet não consente que a comam. E os grandes bichos, por isso, têm o privilégio
de viver — salvos um ou outro visitados por cristãos.
Vamos
entrar numa das regiões mais pitorescas da colónia — a circunscrição dos
Macondes, e, em especial, o planalto onde se instalou a sede do departamento
administrativo e vive grande parte da sua população.
Alcança-se
Mueda, povoação-sede, partindo de Palma por Nangade, ao longo do Rovuma, e
obliquando depois para sudoeste até ao planalto — ou largando de Mocímboa da
Praia, em estrada mais directa, fácil e trilhada.
Aconselharia
ambos aos espíritos turísticos. O
primeiro é o percurso mais selvagem, sujeito a todas as tropelias das estradas
africanas, pouco povoado por homens e povoadíssimo por elefantes, leões,
búfalos e... moscas do sono. Para evitar estas e arriscar encontros com
aqueles, recomenda-se a viagem nocturna, de preferência ao luar. A paisagem da
travessia veste bem o luar, nas suas matas, ora cobertas, ora cerradas na
multiplicidade dos quadros e em alguns espelhos de água que se prestam a servir
estrelas e outras belezas do céu. E o encontro com os elefantes é muito provável.
Di-lo constantemente a estrada cheia de excrementos e ramos estilhaçados. O
segundo itinerário (Mocimboa-Diaca-Mueda) reclama as horas das manhãs
luminosas. É uma subida no caminho do céu, durante a qual se entregam, pasmados
de solenidade, horizontes magnificentes.
A
oitocentos metros de altitude, erguidas sobre terras baixas como uma ilha sobre
o mar, descança a grande planície do alto — o planalto dos Macondes, em
que vive um povo curioso de artistas natos, escultores e músicos notáveis, que
tende nitidamente para a extinção.
Outros
povos habitam a circunscrição: ajaúas, macúas e angones — mas são os macondes,
pelo número e pelo carácter, o elemento populacional predominante, nesta região
planáltica.
As
terras do grande patamar, onde vive o maior número de macondes, são férteis.
Dão de comer e sobras para exportar — mas não dão de beber. São enxutas como o
deserto. Só vêem a água que cai do céu— quando
cai. E então
as gentes que vivem em cima têm de descer
diàriamente até às fontes das terras baixas
para se
abastecerem. E fazem-no tão resignada e
habitualmente que parece não darem pelo incómodo — apesar da viagem pela água
custar, para aqueles que habitam mais longe da orla da altitude, seis horas de
caminho a mais.
Não
há como os pretos para desprezarem tempo e distância. Os macondes, talvez
pelo isolamento em que viveram nas alturas do seu planalto, decerto também por
índole especial, têm mantido, como nenhum outro povo da colónia, os seus
caracteres escapos a deformações por contactos e influências estranhas.
Durante
muito tempo, de outros tempos, não admitiriam entre eles mais estranhos que
não fossem os escravos que aprisionavam nas razias que faziam às populações
de fora. Tinham o orgulho da sua raça — e desprezavam um pouco todos mais.
Fisicamente
distinguem-se à primeira vista pelo estilo e profusão das tatuagens com que
enfeitam o corpo — especialmente a face e o tronco — e nas quais figuram as
marcas do clã totémico a que pertencem. As mulheres adornam-se com a rodela (dona)
no lábio superior — adorno que outrora também era usado pelos homens e que
hoje só alguns velhos sobreviventes a esse costume exibem ainda.
Os
seus usos e costumes não diferem essencialmente do comum entre os povos bantus.
Apenas algumas particularidades ou formas exteriores, dão maior relevo a certos
usos. Por exemplo: são rigorosíssimos contra a endogamia; só admitem o
casamento com mulher de outro clã. Apreciam as armas de fogo mais que quaisquer
outros indígenas do Norte da colónia: a espingarda e a mulher constituem quase
uma razão de viver.
As
mulheres macondes mudam de marido como nós mudamos de peúgas — o que torna o
caso mais extraordinário é serem os macondes, a este respeito, os menos
complacentes dos pretos. Ao contrário do que geralmente se verifica, é aceso
nos ciúmes e vai às do cabo como os brancos... que também vão. Diz-se que
metade dos macondes procuram as suas mulheres, enquanto a outra metade espera
que elas sejam encontradas para ir procurar também as mulheres que lhe pertencem.
Acodem
constantemente à Secretaria da Circunscrição com demandas (milandos) — e
em noventa por cento dos casos o motivo é o adultério da mulher. Esta alega
sempre que foi seduzida, que... o homem intrujou — e volta imediatamente
a procurar outro homem que a seduza e intruje. O maconde, no entanto,
não se conforma. Vai à procura da mulher como outros só iriam à procura da sua
vaca — e, frequentemente, esgotada a paciência, resolve o caso em sangueira. Os
homicídios são vulgares e constituem preocupação constante da administração,
nas suas andanças pela política indígena.
São,
como disse, escultores e músicos — alguns muito notáveis. Sobretudo escultores
em madeira (fundi). Trabalham o pau-preto admiravelmente.
Apesar
da firmeza de carácter e costumes, a que não coresponde, aliás, valor físico,
pois são fracos e pouco alentados — os macondes vão perdendo também a
personalidade original. A ocupação, favorecendo os contactos que antes
evitavam, destruindo as suas instituições, sujeitando-os em parte a outros
usos e costumes, tem distinguido o carácter maconde. E este povo original tende
a desaparecer — pela redução do número e perda dos caracteres.
Aos
macondes dirigimo-nos outra vez ao Rovuma — ao fim de Moçambique e ao encontro
das «Terras do Fim do Mundo» nesta colónia. Vamos para o território dos
grandes, enormes isolamentos — tão grandes, tão enormes que, em parte dele, nem
brancos nem negros o suportam.
Os
automóveis poderão ser levados ainda até Negomano, sobre o Rovuma. Mas daí por
diante só a pé poderemos seguir o itinerário que marcamos — a travessia do Alto
Niassa ao longo do rio Luhenda e no vasto espaço entre este rio o Rovuma.
A
estrada até Negomano, raríssimas vezes transitada por transportes motorizados,
esquecera. Volvia lentamente ao mato primitivo — apagava-se dia a dia. As
primeiras dezenas de quilómetros mostram-se relativamente fáceis e agradáveis.
É a descida do Planalto, entre matas verdes, curveleando encostas, até às primeiras
linhas de água.
Um
trecho aparatoso da descida — a rampa de Chemba. O carro desce com prudência e
dificuldade, mas a paisagem é bela — e na contemplação da paisagem esqueço as
vergonhas militares que ficaram ligadas a este nome de Chemba e a figura do
general-político que lançou a nódoa.
Depois,
nas terras baixas, cessam todos os encantos. As queimadas devastaram as matas.
Ficaram apenas de pé, erguidos sobre cadáveres dos troncos vencidos, os fustes
mais novos e robustos que hão-de reverdecer e vestir-se no fim do ano — alguns que se exibem com uma brancura metálica de
prata e que lhes ficou das labaredas das chamas. Dir-se-ia que a floresta foi
bombardeada e que atravessamos o cenário trágico e martirizado de um campo de
batalha. A mata ganhou em profundidade o que perdeu em beleza. Os grandes
troncos, ainda assombrados, são os únicos obstáculos que se opõem à visão das
distâncias. Por vezes, pasmadas entre as ruínas ou, em fuga preciosa, topam-se
manadas de zebras e alguns antílopes. E a sua vida, dinâmica e nervosa, tem
qualquer coisa de estranho no cenário morto embalsamado pelo fogo.
O
percurso torna-se mais e mais difícil. Dos rios enxutos ou quase secos desapareceram
as pontes improvisadas. Levou-as também a queimada ou apodreceram. Temos de
construir trabalhosamente passadeiras de pedra solta e ramos secos e dar aos
taludes a inclinação necessária à passagem. Depois, onde a queimada não chegou
e se mantiveram grandes e emaranhadas manchas verdes, a estrada quase
desaparece. Em certos pontos apaga-se; em outros foram os elefantes que a atravancaram
de ramos e troncos que, por completo, impedem o trânsito. E os carros vão
avançando à velocidade com que se abre caminho, a pé, ora cortando lianas, ora
desobstruindo os restos da estrada. Parecem infinitamente mais longos estes
quilómetros. O marcador adormece e gasta horas a contar algumas dezenas. Um
leão pachorrentamente deitado na berma da estrada levanta-se sem pressa e
desaparece no mato desarrumado.
No
silêncio ouvem-se galopes de zebras.
Já
noite fechada, depois de rodarmos o dia inteiro neste percurso de escassos
cento e sessenta quilómetros, desembarcamos numa grande clareira, espécie de
parada militar, perdida dentro da qual vimos uma casa que mais parecia uma
caixa branca de cartão jogada fora por gigante apressado.
Estávamos
na sede do posto de Negomano — um posto que é aquela casa e aquela clareira...
e mais nada. A casa, quente e desguarnecida como um forno, gritando o seu
abandono, construiu-se para um funcionário que, no orçamento da colónia, seria
o chefe do posto. Mas, até então, ainda não se encontrara funcionário para a
casa. Todos os atributos da soberania repousavam nas mãos engelhadas de um
velho indígena, que vivia a uma centena de metros com as suas mulheres, as suas
galinhas e os seus porcos.
Nesta
clareira principia o Fim do Mundo.
Ali,
à beira, dá-se a confluência do Rovuma e do Luhenda. E os dois rios abraçam
numa agulha de terra esplendidamente revestida e encontram-se em magnífico
cenário africano.
Aqui
ouve-se o Silêncio, presente, apático, e, escorrendo sobre ele, só o rumor
triste das águas lentas e sopros de hipopótamos.
Nestes
lugares de ocupação fictícia, onde a velha África se mantém e resiste, sente-se
toda a profundidade da Distância. Parece o limiar de outro mundo.
Interrompemos
aqui a utilização dos carros. Estes regressarão aos Macondes, de onde irão
esperar-nos a Marrupa, termo de uma marcha ao longo do Luhenda.
A
abalada dos carros faz mais sensíveis a Distância e o Isolamento. Eles eram uma espécie de istmo a ligar-nos ao
mundo. Partiram — e a península fez-se ilha.
Em
Negomano estão concentrados e contratados, para nos acompanharem, como
carregadores da bagagem e da própria alimentação, e como machileiros para
estropiados — cento e vinte indígenas macondes e ajaúas. A maioria é
constituída por macondes. São, na generalidade, pequenos e fracos, apesar de
seleccionados entre os melhores que se ofereceram. Tenho saudades dos meus
companheiros do Sul de Angola, magníficos, alegres, incansáveis. A melhor
unidade da comitiva é um cabo de cipaios, maconde, pequeno mas atarracado, a
face golpeada como os da sua raça, cheio de brio e aprumo militar, que julga
sinceramente que a sua missão superior consiste em tomar conta da minha
pessoa. E segue-me como uma sombra mal me afasto. Os seus olhos namoram as
minhas espingardas e creio que daria dois ou três dentes pelo prazer de atirar
com elas. Fala um português de que aprendeu com especial facilidade as
palavras de calão — e toma a sério tudo que faz. Içado às alturas de comandante
de toda aquela tropa miúda, fica radiante.
Consumiram-se
dois dias em preparativos: distribuição das cargas, aprovisionamento de carne
para os primeiros dias, estudo de itinerários, informações, etc. Os ajaúas não
comem carne de elefante nem de hipopótamo. São alimentos vedados pela ética dos
seus clãs. Os macondes comem tudo — até ratos — mas têm medo da água, aflige-os
a passagem dos vaus. A presença de
algumas mulheres acendem alguns
milandos. Uma caiu em pecado de adultério,
tentada por um naco de tabaco gentio; o proprietário exige compensações.
Procuro
no rio os hipopótamos. Encontro-os a menos de dois quilómetros, em grandes
varas, povoando um fundão, vasto, lacustre, que os penedos da margem, as
árvores e as areias embelezam. A facilidade desinteressaria qualquer caçador.
Os animais expõem-se como os bichos dos parques zoológicos perante visitantes
inofensivos. Só os mais cautelosos, se afastam e se escondem. Mas não
estava ali um caçador. As circunstâncias obrigam-me a ser simples carniceiro.
Podia abater vinte. Limito-me a matar os dois que o estômago dos macondes
reclama.
O
estrondo dos tiros arripiou a própria paisagem. Dir-se-ia que o silêncio
ferido, gemia. Agitam-se as águas, rumorejaram folhas à passagem de corpos
preocupados, rufiaram asas — e ficou outro silêncio menos profundo, por assim
dizer, crispado.
artimos
ao romper do sol, vadeando o Luhenda, e entramos, por trilhos de bichos, na
grande mata marginal. Desapareceram os caminhos, as possibilidades de
comunicação — e até a sensação da presença do homem. Do outro lado do Rovuma é
a Tanganika, a ex-colónia alemã, agora sob mandato, para onde quase toda a população
do território que vamos atravessar, se deslocou.
No
primeiro dia de marcha surpreendemos ainda uma caravana emigratória que vem de
muito longe — últimas gotas de uma população que se escoa.
A
mosca do sono e os animais bravios são os grandes agentes do despovoamento.
As
moscas perseguem-nos constantemente. São habitantes das grandes sombras —
activas durante o dia — e também implacáveis. Como me interesso por elas, o
cabo de cipaios que percebe, apanha quantas pode e aprisiona-as nos frascos
que reservara para esse fim.
Dos
animais bravios surpreendemos rastos por toda a parte — e, em especial os
sinais da presença de elefantes e búfalos.
Passados
os primeiros quilómetros a nossa caravana organiza-se. Somos um miriapodo de
mais de quinhentos metros de extensão, serpenteando pelos trilhos da mata, ora
à beira-rio, ora mais internados. De quando em quando é preciso parar para não
perdermos o contacto com os retardatários.
Surgem,
por vezes, cicatrizes de povoações: clareiras em que ainda se conservam cinzas
e restos de palhotas, terrenos em que houve machambas. Estas cicatrizes
vão-nos contando que o território já foi, senão muito povoado, pelo menos,
bastante povoado.
Os
habitantes resistiram durante muito tempo à guerra das moscas. Isso estava, de
resto, nas tradições da raça: suportar os flagelos que arrazam a saúde. Em
todos os tempos e todos os lugares os negros têm sido cruelmente dizimados por
doenças espantosas, bárbaras.
Mas
vieram também os elefantes e os búfalos destruir as suas culturas e anular
praticamente todas as possibilidades alimentares. Na Tanganika organizaram-se
sistematicamente grandes e operosas bati- das de caça, destinadas a proteger as
plantações e lavras dos indígenas — e também (dizem) para privar de sangue as moscas esfomeadas. E os elefantes e búfalos da Tanganika,
acossados constantemente, procuraram este paraíso
moçambicano onde ninguém, ou quase ninguém, os incomodava e vieram juntar-se às
manadas que já havia — e fartamente — nestas lonjuras do Niassa.
Os
pretos que sabiam resistir, conformados, às hecatombes provocadas pelas
doenças — não sabem, nem se resignam, a morrer de fome.
E o
êxodo começou — continuou, e continua por feridas abertas na fronteira, das
quais escorre esta enorme, depauperante, hemorragia.
Acampamos
à tarde, cansados, mordidos, sujos, mas bem dispostos. Armam-se rapidamente as
barracas em que dormimos, os pretos fazem cama e fogueira em volta, prepara-se o
jantar, tratam-se os feridos e estropiados, tomam-se notas — e pensa-se no
lanço do dia seguinte.
Os
macondes comem desalmadamente as grandes postas de carne de hipopótamo com
grandes quantidades de mapira; os ajáuas não comem a carne do
bicho defeso— mas não lhes ficam atrás. Lamentam-se. Quereriam também outra
carne — dos antílopes que podem comer.
À
noite, no centro de um círculo de fogueiras, que sangram maravilhosamente no
fundo negro da mata, adormeço a ouvir canções macondes.
Depois,
os dias sucedem-se, sempre iguais e sempre diferentes. Com as primeiras luzes
da alvorada o acampamento agita-se, o miriapodo refaz-se — e a longa marcha
continua. Por vezes anda-se menos durante o dia. Descansa-se durante as horas
cálidas e compensa-se a perda largando à meia-noite, alumiados pelo luar e
pelas estrelas. São as grandes marchas mudas, de sombras mal destacadas da
grande sombra, em que o ruído dos passos têm sonoridades cavas. Mas os macondes
têm medo de viajar de noite. Receiam assaltos do leão, alguns têm medo de cair
em armadilhas para búfalos, que, em certos lugares, encontramos.
À
medida que avançamos a presença de multidões de animais selvagens é
constantemente assinalada. E compreendem-se os prejuízos sofridos pelos pretos.
Durante dias inteiros cruzamos regiões onde não se bispa espaço de dez metros
quadrados sobre o qual não esteja impressa uma pegada de elefante.
Nas
raras e distantes aldeias, de população reduzida a velhos, mulheres e crianças,
que encontramos à beira do rio — geralmente moradias de velhos e esquecidos
régulos — os habitantes queixam-se amargamente. Demais, os bichos habituaram-se
aos métodos usados pelos indígenas para os afugentar — fogo, ruídos metálicos,
etc.— e investem por vezes contra os defensores da machamba.
Durante
o dia não se vêem com a frequência que seria de supor perante tantos sinais de
presença. Uns dormem em sombras fofas, talvez muito perto dos trilhos que
pisamos, outros surpreendem-nos a tempo pelo olfacto e miscam-se.
A
paisagem, a princípio muito igual, transforma-se logo que deixamos as grandes
matas. Demais, as queimadas deixaram enormes manchas ardidas de esqueletos
vegetais carbonizados, de onde a frescura verde dos ramos desapareceu.
Por
vezes parece que viajamos em territórios bombardeados que ainda sofrem de uma
guerra que passou. E o cenário, assim desolado, com ares de natureza morta, sob
a sensação da Distância e do Isolamento, faz-nos pensar em outro planeta — e
lembra-nos vagamente as fantasias de Júlio Verne.
À
beira dos rios persistem porém, incólumes, as grandes árvores. Há sempre aí um
friso imponente de verdura — mesmo junto dos leitos de onde toda a água se
sumiu.
São
os lugares que preferimos para acampar — quando é possível evidentemente.
Armam-se as barracas no próprio leito do rio, sob magníficas sombras — naquele
leito macio de areias tristes que, sem o marulhar das águas, nu e exposto,
também é um elemento do silêncio sertanejo. O areal está cheio de pequenas
banheiras cavadas pêlos elefantes. Vêm de noite e abrem, com as patas e a
tromba, cacimbas que, por fim, lhes matam a sede. Nós imitamo-los — e assim
encontramos também a água que bebemos e que nos banha.
O
Luhenda é, em grandes troços, apenas um rio de areia. Os seus afluentes estão
todos enxutos como o deserto. Mas os pegos e fundões do grande rio e as águas
do sub-solo, a pouco mais de meio metro de profundidade, mantêm a vida ao longo
dos seus cursos.
O
itinerário marcado obriga-nos por vezes a afastar-nos do itinerário caprichoso do rio. E então a sensação do isolamento
e a ideia de que viajamos em outro planeta, tornam-se mais vivos e
causticantes. Os próprios pretos o sentem. A comitiva avança silenciosamente,
como dominada pela solenidade profunda do Silêncio ambiente. Ah! O Silêncio, o
Silêncio — é a grande personagem, quase o fantasma destas regiões solitárias e
longínquas. O Silêncio que se percebe
como uma superfície lisa e rígida, onde os sons deslizam como água em vidros
polidos.
O
problema dos abastecimentos põe-se continuamente. Os nossos pretos devoram as
rações calculadas, aliás largamente. Muitos vieram só pelo prazer de obterem
carne com fartura. Quereríamos, por motivos elementares de higiene, que
comessem menos. Mas eles não compreendem que o «branco grande» limite os seus
apetites.
Ao
cabo dos primeiros quatro dias de marcha tinham comido a carne de cinco
hipopótamos. E é precisa mais carne. Eles dizem que já não a têm.
Felizmente
as nossas manadas não são difíceis de alcançar. Num dia abato um elefante.
Outro dia abato dois. O acampamento transforma-se em açougue.
Felizmente
estas caçadas não obrigam a perder tempo nem a grandes trabalhos. Mais horas se
consomem a esquartejar os animais e preparar a carne do que a persegui-los e
abatê-los. Há sempre elefantes e búfalos, onde quer que acampemos — e sempre a
distâncias que se vencem com vinte minutos de marcha.
Durante
a noite ouvimo-los nas imediações. Uma noite passaram a cem metros do
acampamento em manada de mais de um cento de cabeças. Quando nos perceberam
abalaram como um temporal.
Como
era de esperar a abundância de carne e o pantagruelismo dos negros surtiram os
seus efeitos. As doenças intestinais venceram alguns. Queixavam-se de cólicas,
de diarreias — e apareciam, desolados, a pedir «um quinino». À hora da partida
muitos só a custo se levantavam.
O
cabo de cipaios, superior, indiferente, explicava, no seu português pitoresco,
o mal da sua tropa:
— É
alifante que está a chatear no barriga deles!
A
nossa farmácia acudia todas as manhãs a um número cada vez maior de doentes.
Mas estes mesmos não queriam desistir da parte que lhes cabia na carne dos
animais que se iam abatendo.
As
estações da nossa viagem são as residências dos régulos que ainda mantêm as
suas posições, porque, em grande parte do território, só os régulos, suas famílias
e aderentes, ficaram e resistem ainda ao movimento do êxodo. São, na sua
maioria, velhos, sem presença nem prestígio.
Todos
se queixam das razias e assaltos de animais selvagens.
A
maioria dos indígenas usa ainda os panos fabricados com casca de árvore. Não
têm onde vender os produtos que cultivam — e não têm, por consequência,
dinheiro para comprar tecidos. Nem os comerciantes, os indispensáveis monhés,
que vão a toda a parte onde gira uma moeda, se aventuraram até aqui.
No
regulado de Nantuego encontramos rapazes que nunca tinham visto brancos. Como
em Angola, no Guando, olham para nós com pasmo e desconfiança.
E
não sabemos que impressões lhes teremos merecido — nós, aqueles seres quase
demoníacos dos quais decerto já muito teriam ouvido dizer.
A
vida nestas sanzalas parece ter desmaiado. Sente-se a apagada e vil tristeza e
experimenta-se um sabor vago de nostalgia.
Mais
adiante a paisagem enfeita-se de verduras. Continuamos a encontrar cicatrizes
de antigas povoações. De algumas ficaram mangueiras, cajueiros e mamoeiros
solitários — que têm o ar de entes perdidos em más companhias.
O
rio Lubanga, também seco, com as águas que lhe restam sumidas no areal,
alberga-nos durante uma noite, em certo passo atravancado de penedias. É um
cenário estranho. Aqui onde as águas, durante a estação pluviosa, decerto
correm com as pedras, levantando espuma e rumores de fervura, está tudo parado,
suspenso — e tudo tem o ar de ter parado de repente como as máquinas sujeitas a
uma alavanca de comando. No leito, entre as pedras enraizadas e outras soltas,
que foram detidas em viagem, jazem os cadáveres das enxurradas, apodrecendo:
troncos, ramos, peças de esqueletos — à espera das águas de Novembro e
Dezembro.
Em
Pancanga, já nas proximidades da Serra Mecula, a vida anima-se um pouco. É
ainda a Distância, é ainda o Isolamento — mas aparece mais gente e as manchas
verdes do cenário são mais extensas.
Chegamos
ao povoado, de surpresa. Apanhamo-lo em naturalidade. Um catequista monhé oficia
perante todos os habitantes da sanzala. Os ritos cumprem-se no largo do
povoado, ao ar livre. Tábuas com inscrições de passagens do Alcorão servem para
ensinar a ler e escrever as crianças — porque os adultos já escrevem, e bem,
correntemente, o árabe.
O
conjunto desmancha-se à nossa chegada — mas peco-lhes que continuem. E
continuam, apenas distraídos pela nossa presença. Os velhos e o catequista não
procuram furtar-se a dar informações. E explicam-me a organização e funcionamento
de verdadeiros serviços de instrução, superiormente comandados de Zanzibar, e
cuja eficiência, zelo e resultados, excedem grandemente o dos serviços da
colónia para a instrução de indígenas.
Estes
catequistas são destacados de Zanzibar e espalham-se por todos os povoados,
propagando a religião do Islam e ensinando a ler e escrever.
E,
assim, estas gentes continuam impenetráveis ao cristianismo — cujas armas e
métodos as não atraem nem convencem.
Recusam-se
a vender-me o exemplar do Alcorão de que se servem, mas cedem-me sem
dificuldades uma das suas tábuas pedagógicas.
Lembro-me
com melancolia da máquina oficial, com os seus burocratas, os seus professores
— e a sua incompreensão dos únicos processos aplicáveis à instrução dos
indígenas. Lembro-me de algumas fichas de régulos que nas administrações são
referidos como iletrados porque não escrevem nem falam o português. E, contudo,
a maioria fala e escreve a língua do Alcorão.
Há, possivelmente, por aqui, menos analfabetos absolutos do que
em muitas aldeias de Portugal.
E tudo isto é orientado, comandado, fiscalizado por sacerdotes de Zanzibar.
Em
Mupapa encontramos, como uma parede verde, a Serra Mecula. Ergue-se bruscamente
na planície, sem ondas de transição que a prometam. É uma corcunda arborizada,
de sombras e mistérios, no alto da qual se estabeleceu, decerto mais por
considerações de ordem poética do que por motivos práticos, um posto civil.
Consumimos
dez horas, dez longas e fatigantes horas, a subir, sempre a subir, por veredas
quase imperceptíveis do gentio, a serra de Mecula. E se durante a trepação
algum deu ao demo a ideia de lhe chegar ao topo — ninguém deu por mal empregado
o esforço, quando se viu no magnífico mirante, daqueles de que se pode dizer
que são mirantes sobre o mundo.
Tudo
nesta serra recatada e perdida em lonjuras do Niassa se junta para a tornar
encantadora: o isolamento quase insular, a deliciosa movimentação do seu
relevo, os seus silêncios profundos, uma espécie de virgindade selvagem,
difícil, ainda quase inacessível — e, ao mesmo . tempo, os seus quadros
frescos, os seus recantos de paraíso europeu, onde não se estranharia
encontrar, de repente, uma estrada e automóveis de luxo a rolarem.
A
subida é naturalmente difícil. Nada se construiu ou preparou para a facilitar.
Há passagens em que temos de servir-nos dos quatro membros, como os bichos. Mas
todos os esforços e fadigas são constantemente suavisados pelo encanto do
cenário — os vales atulhados de folhas e sombras, janelas entre ramos sobre
horizontes azuis, fios de água cantando no silêncio, solenidade de penumbras,
visões graciosas de antílopes, etc.
O calor
é intenso, mesmo
sob as ramadas que encobrem o
sol por completo
— mas a frescura das cores e das penumbras entra pelos olhos e suavisa os
ardores da fornalha.
Chegamos
ao pico cujo patamar o posto escolheu para sede, às quatro horas da tarde.
Marchávamos depois das seis da manhã — isto é, trepávamos, engatinhávamos.
E
lá no alto — que maravilha... e que desolação!
Que
maravilha a dos horizontes!
Tem-se
a impressão de que se vê dali uma parte do planeta como se veria do espaço
celeste, a milhares de metros da Terra. Uma grande, infinita, planície que se
nos afigura lisa como bandeja. E, nessa bandeja os montes dispostos e situados
como coisas estranhas, móveis, apenas arrumadas para se deslocarem para outros
lugares. Não há entre eles vales, nem ondas de terreno. Estão ali, puseram-nos
ali, como se põem montes de areia ou cascalho num eirado.
Que
desolação a presença do homem representante da soberania! Uma casa sórdida, de
pau a pique, quase sem cobertura — e três quase-palhotas igualmente sórdidas,
a olharem, pasmadas, para um pau de bandeira nu e torto. Eram a única nota
feia, rebarbativa, naquele cabeço de onde se contemplavam maravilhas.
O
funcionário que aí presidia — santo homem de cabelos brancos e alma friorenta
—
era, desde há dezassete anos, o único habitante branco da Serra Mecula. E durante
os dezassete anos descera três vezes a povoados de outros brancos. Durante os
dezassete anos apenas cinco vezes, incluindo aquela que eu forneci, haviam
passado, de fugida, pelo posto, criaturas da sua raça. Não parecia infeliz — mas era evidente que
se tinha adaptado à condição de solitário e, por consequência, deixara de amar o
convívio dos homens. Sentia-se mais perto das estrelas que dos seus semelhantes
— e não se queixava — talvez as preferisse. Constava no mundo dos homens que
não estava em perfeito juízo — e que, lá no alto, no seu ninho de águias,
falava com os astros. Com quem havia de falar? E não é tão natural que se entendesse
muito melhor com eles do que com as gentes? Não tenho nenhuma razão objectiva
para concluir ou supor que fosse um desiquilibrado. Ao contrário. Apenas
verifiquei que era diferente de todos nós — e não para pior.
No
Natal anterior o Governador do Niassa, impressionado com a situação deste
homem, fizera-o ir à cidade. Recebeu-o carinhosamente, introduziu-o na
sociedade festiva que a quadra amorável reunira, obrigou-a a ver o riso dos
homens e a ouvir palavras doces. Mas ele sentiu-se aí mais solitário e
desacompanhado do que nos altos da Serra Mecula — e tão deslocado que a meio
da festa desapareceu. E não parou senão no seu buraco sórdido, no alto de onde
se olha para o mundo.
Talvez
o seu caso seja muito mais simples do que se julga. Por mim acho natural que
uma pessoa simples, de bom gosto, sem tendências mórbidas nem vícios de
espírito, prefira contemplar as belas coisas que se vêem do alto da Serra
Mecula, a ser espectador ou comparsa nas comédias dos seus semelhantes, em
outros tablados sem cobertura de estrelas nem seduções de horizontes.
Quando
lhe perguntei como fora ali ter, respondeu-me simplesmente:— Mandaram-me.
- E
porque tem permanecido durante tanto tempo?
- Ninguém pediu para vir para
aqui e eu nunca pedi para me ir embora.
Não me atrevi a perguntar-lhe
o que sabia da vida e dos costumes das estrelas.