E
chegamos a Tete, a velha e histórica cidade do interior, sucessora de Sena, e
que encabeçou de facto, até ao fim do século passado o domínio das terras
distantes da Alta Zambézia.
Confesso
que as primeiras impressões de Tete não se enraizaram na sua História nem
veneraram os seus cabelos brancos.
Tete
é uma das fornalhas africanas, aonde o calor mais dói e que mais nos desidrata
— uma cidade torrada pelo sol, ressequida e que, mesmo ali, à beira do
Zambeze, parece ter sede. De facto nem o rio, aliás muito belo nesta passagem,
com doces planos de findo e a sua frescura, lhe quebram o desencanto.
Dir-se-ia
uma cidade martirizada, que sentiu e guardou lembrança dos tormentos da
jornada.
São
ásperas e descarnadas as terras em que assenta — e o casario, o velho e o moderno,
pintou-se de amarelo, o amarelo das biliosas, encardido e patinado, que
distingue as velhas construções, e o creme catita, sem o qual se imagina que
não há construções modernas.
É
certo que a actividade construtora dos últimos anos e a nova era que,
finalmente, a cidade principia a conhecer, lhe vão modificando a fisionomia. A
arquitectura dos novos edifícios cobre pouco a pouco a fealdade veneranda dos
antigos. Mas a cidade só se salvará, como burgo, quando grandes cortinas de arvoredo,
renques de flores, água a correr, edifícios álacres, dos que riem, se decidirem
a vencer o seu cariz agressivo e a sua inospitalidade. É, aliás, uma orientação
estética que a beleza do rio exige e aconselha.
Por
enquanto, Tete é uma cidade ardente e feia, onde os corpos e as vistas sofrem.
E isso excede todo o encanto espiritual
que o entusiasmo lusíada lá encontra. Demais, não se
compreende que uma povoação mais de três vezes centenária,
que é capital de distrito e foi cabeça governativa da gloriosa
Zambézia, só tenha para assinalar, em meados
do século XX, a
sua idade e algumas esperanças.
Se
os homens do presente, no Presente, com as ideias, o espírito e as exigências
desta época, correspondessem aos homens do Passado, no quadro das suas ideias,
do seu espírito e das suas exigências — Tete seria hoje, apesar da lomba
desolada em que assenta, uma linda cidade do interior, mais convencida das suas
esperanças. E as suas velharias, religiosamente tratadas e conservadas,
pareceriam, no conjunto moço das coisas modernas, mas respeitáveis e venerandas.
Esperemos que o tal caminho de ferro que vai ter a Muatize, na margem oposta, e
o carvão que a terra guarda nas suas entranhas, façam o milagre em colaboração
com algum bom gosto dos homens.
A
cidade foi, como já brevemente referi, um grande centro de actividades — e especialmente
depois de Sena, ou com Sena, o coração da Grande Aventura que levou os
portugueses a explorarem e a estabelecer-se nas terras do Monomotapa. Por
consequência, viveram-se aqui durante séculos, consumindo sangue e nervos,
gerações sobre gerações, as quimeras do oiro do Monomotapa e da prata da
Chicova. E toda a História de Tete, ou todos os factos da História de Tete, se
encadeiam mais ou menos nesta corrente aventurosa, que procurava metais
preciosos — e inclusivamente os reflexos que aí teve a tentativa fracassada de
conduzir para a agricultura as terras que prometiam oiro e os homens que o
cobiçavam, com a invenção dos Prazos da Zambézia.
Vencida
a febre do oiro, ou talvez apenas atenuada, a cidade que sofrera, estóica e
corajosamente, os revezes dramáticos da aventura, que ora se erguia ora caia,
saboreando vitórias temperadas com esperanças e tragando o fel de derrotas
calamitosas — desanimou. Dir-se-ia que Tete se perdeu no caminho dos seus
destinos e que procura desanimadamente um rumo novo.
Outra
vez o oiro? Outros metais? Outras riquezas do sub-solo?
É
difícil sair de um Passado inteiramente construído pela fé na generosidade das
entranhas da terra — sem guardar, pelo menos, uma esperança em minérios do
futuro.
Porque,
de facto, Tete é uma povoação feita por sonhadores de oiro e prata — os mesmos
que violaram a colónia até ao Zambeze — cujos esforços, persistência, martírios,
e alguns triunfos, foram exclusivamente alimentados pela fama das riquezas do
reino de Monomotapa. E desde um Rei que, em Lisboa, esperava mundos e fundos
das minas de Chicoa, até aos aventureiros que se lançaram arrojadamente na
grande aventura — todos, por si ou por agentes, penaram nestas margens do
Zambeze onde se construiu a vila de Tete.
O
que há porém de verdade no sub-solo desta região? Só uma lenda? Parece realmente
pouco para tanta luta e tanto tempo.
É
certo que a fama do distrito de Tete, sucessora da fama do Monomotapa, como território
de grandes riquezas minerais, vem de mais longe que a própria História, que
ainda se perde na descoberta dos princípios. E essa fama não a corromperam,
durante séculos, nem revezes nem martírios — nem mesmo o desânimo daqueles que
verificaram não haver condições económicas de exploração de prata nem de oiro.
Essa fama resistiu a tudo — e ainda hoje aquece a imaginação de muitos. O que
há de verdade em tanta teimosia?
Numa
espécie de relatório de um antigo governador de Tete, do tempo em que os governadores
ainda sofriam para percorrer e governar os seus distritos, embora decorrido já
neste século, lê-se:
«A
remotíssima tradição das minas de oiro de Sofala (Sofir — a Ofir de Salomão?),
a das minas de prata da Chicoa, muito concorreu também para inflamar o espírito
aventureiro dos nossos sertanejos. Vem de longe, pois, a fama de Tete como país
fortemente mineralizado. Em nossos dias, mineiros do Rand e de Macequece, foram
atraídos para aí e deram em fazer pesquizas frutuosas: Missale, Chifumbare e
Mololela tinham em andamento importantíssimos trabalhos de mineração quando
passei por esses sítios. Viam-se à boca das minas enormes massas de cascalho,
e tive nas mãos pedaços do minério aurífero — de gneiss — do qual era extraído
o precioso metal. Esse minério segundo informação aí colhida, era de teor muito
elevado, e, talvez por isso mesmo, as minas que o davam não tivessem vida para
muito tempo por causa da ameaça que representavam para as do Rand. Problemas de
alta finança, luta de interesses dão lugar a estes paradoxos. Certo é que
quando andei pelo norte do distrito
notei grande entusiasmo e azáfama mineira. Depois veio a guerra de
1914-18 e tudo mudou. Para ela foram chamados a maior parte dos ingleses, donos
dessas minas, senão todos. Pelo que respeita às minas de prata direi apenas que
na primeira viagem que fiz dentro do distrito dirigi-me a Cachoomba, onde havia
milando sério a resolver, e passei por Chicoa (ou Chivoca) mas não me
foi possível demorar-me o tempo bastante para descobrir essas famosas minas
que, há mais de trezentos anos, frei João dos Santos afirmava existirem aí
(Etiópia Oriental, 1609) “Já no oiro
não falo porque há grande cópia dele em todo este território da Fura
(Sofala). Nem mesmo da fina prata de
Chicova onde se sabe que há ricas minas, etc.”. Na viagem que fiz a
Catandica vi como se fazia a lavagem das areias nos rios Luenha e outros — uma
outra modalidade da procura do oiro. Um dos que se entregavam a essa
actividade ofereceu-me até uma pepita de tamanho superior a um grão de
milho...»
O
que haverá de verdade ou de fantasia em toda esta trama de esperanças e lendas,
de factos e histórias, de muita fama e pouco proveito? Há, pelo menos esta verdade,
que ainda não se fez o bastante para apurar a verdade.
Não
está nas intenções desta obra ocupar-se de problemas ou fundos históricos senão
em leves apontamentos emocionais dos ambientes que vamos passando. Não é pois
este o lugar de onde desceria às grandes profundidades da História para daí
subir até ao Século XX.
Contentemo-nos em
assinalar efemérides através
das quais ressalta
a nobreza e
vida da velha
cidade e dos seus sertões — marcos cravados no Tempo,
e que pertencem, ou correspondem, por assim dizer à paisagem
da região.
A
fundação de Tete data de princípios do Século XVI (1531). Já então havia notícia
de aventureiros e degredados, lançados pelo Zambeze acima em cata do Velo
d’0iro. Na véspera de Natal de 1560 D. Gonçalo da Silveira, que partira de
Tete, chega a Charucui.
Em
1563 já havia na povoação uma igreja, doada aos missionários que daí irradiavam
pelo sertão, e, em 1624, um colégio, chamado do Espírito Santo. Um dos padres
da Missão — um pelo menos — Luís Mariano, viajando em andanças do seu ofício,
entrara em contacto com gentes da Marávia, navegara no rio Chire e fôra até ao
lago Niassa. Portanto cerca de duzentos anos antes das viagens de Levingstone.
Em 1629 o Monomotapa entrega à
soberania portuguesa, mediante tratado lavrado e assinado, grandes retalhos dos
sertões de Tete — e compromete-se ele próprio como vassalo de Portugal. Em 1761
chamam-se vilas e como tal são reconhecidas. Moçambique, Tete, Quelimane,
Inhambane, Sofala, Sena, Zumbo, Manica e Ibo. De 1806 assinala-se um relatório
do Governador Vilas Boas Truão, referindo-se às riquezas do sub-solo de Tete.
Este Governador, foi aquele que no ano seguinte sofreu, com a sua coluna,
horrível massacre, ao defrontar-se com o José Vicente da Cruz. Em 1810 havia
no distrito de Tete quarenta e oito «prazos».
Tem
de reconhecer-se através destes breves apontamentos de factos escalonados no
Tempo, que a vida de Tete — já foi mais viva, mais nobre, mais extensa e mais profunda, do
que é actualmente, apesar dos seus edifícios catitas e dos seus funcionários
bem fardados.
Com
as ardências do seu clima, a sua tradição de Distância e de sofrimento, o seu
cenário de ilusões desfeitas, Tete mantem-se ainda cidade de gentes volantes.
Salvo raras excepções, nenhum europeu vive em Tete, fixado. É uma cidade onde
se vai pelo mínimo de tempo — e mesmo aqueles que lá se demoram, como os
funcionários e agentes de comércio, pensam entusiasticamente no dia da
retirada. Digamos, é uma cidade de trânsito onde se passa por um dia ou um ano
— mas onde apenas se passa.
E
contudo aqui ficaram marcados, em lembranças, todos os tipos de carácter das
gentes desejáveis e indesejáveis que têm colonizado ou ajudado a colonizar
Moçambique. Guerreiros, grandes viajantes e exploradores, propagandistas da
Fé, administradores, heróis, facínoras—e, naturalmente, burocratas também.
Todos se queimaram sob este sol escaldante e amargaram as dificuldades da
região. E seguindo cada um seu fito, construíram também o povoado moral.
A
psicologia das gentes que viveram e vivem em Tete sofria e sofre naturalmente
destemperos e alterações, relativamente a uma psicologia colonial, já de si
desviada de uma maneira de ser metropolitana ou europeia. Os indivíduos reagem
aqui por nervos e miolos aquecidos, com a distância a pesar-lhe nas almas — por
vezes, sob as formas mais desconcertantes. Umas vezes o pessimismo doentio,
negro que se intromete não só nas relações sociais como também na apreciação
dos problemas — outras vezes, o humorismo irreverente, imbuido de indiferença pelas consequências,
cáustico e azedo.
Um
alto funcionário judicial colocado em Tete, e que por aí passou com
demora de quase dois anos, julgava-se com direito a umas ajudas de custo por
serviço prestado anteriormente fora da comarca. A Fazenda porém não julgava a mesma coisa e informara
sempre contra o desejo do funcionário os numerosos requerimentos que este já
fizera, reclamando as ajudas de custo.
Tendo
sido nomeado e empossado um novo director, entendeu que se realizava mais uma
oportunidade de fazer valer os seus direitos, e requereu novamente.
Encheu
uma folha de papel selado com as suas razões de Direito, e, expostas estas,
concluiu assim o requerimento:
«Deve
o requerente esclarecer V. Ex.ª que já requereu o pagamento das referidas
ajudas de custo por diferentes vezes. A primeira vez era mui digno director
dos Serviços o Exm.° Sr. Fulano, que informou contra o requerente. O sr.
Fulano faleceu, se V. Ex.ª bem se recorda, algum tempo depois. A segunda vez
era não menos digno director de Fazenda o Exm.º Sr. Beltrano, que também,
infelizmente, informou mal o requerimento reclamando estas ajudas de custo. S.
Ex.ª sofreu então um grave desastre de automóvel de que resultou a amputação de
uma perna. Requereu terceira vez sendo, também mui digno director de Fazenda, o
Exm.º Sr. Cicrano. Este Exm.º Sr.,
tendo informado contra o requerente, foi mais tarde, por motivos que não
importa referir, reformado compulsivamente. Espera o requerente que o mui digno
director de Fazenda a quem competir informar agora o presente requerimento
tenha em conta os desígnios da Providência exercidos sobre aqueles seus colegas
que justiça lhe negaram».
Um
outro caso que é de referir como exemplo de produto psicológico sasonado pelo
clima, ou, antes pelo ambiente colonial, não o recolhi dos arquivos de Tete,
mas de Lourenço Marques. Trata-se também de um requerimento de um colono rude,
de letras gordas — e que reproduzo na íntegra, apenas expurgado de algumas
palavras que a decência não permite conservar, nem para a História.
É
relativamene recente, pois tem menos de vinte anos o processo de onde foi
copiado:
“Exm.º
Sr. Juiz dos Crimes de Lourenço Marques.
«Manuel
da Silva, mais conhecido pelo SILVA DOS CAIXÕES, funcionário público reformado
e com estabelecimento de cantina com comidas e bebidas, tendo no quarto da
cantina agência de caixões, de idade de 49 anos e três meses e tal, amigado com
uma senhora branca e natural dos arredores de Vila Franca de Xira, declara
pela sua honra dizer a verdade.
«O
queixoso, que sou eu, nunca fui réu, tendo apenas sido multado algumas vezes
por vender vinho fora de horas e aos domingos. Eu venho-me queixar do
seguinte: — o meu compadre Hermenegildo que é guarda de polícia e está amigado
com uma preta chamada Rosa, bateu à porta da cantina às quatro horas da manhã.
Eu não abri a porta julgando que os pretos queriam pinga, mas quando ouvi a voz
do meu compadre polícia eu disse à minha amiga para abrir a porta. Eu estava
com fevre quando o meu compadre
disse:
olha mataram o comissário da polícia sr. Henrique de Sousa. Eu embora com fevre
pensei logo fornecer o caixão para ganhar algum dinheiro porque só a
cantina não deixa nada e fui logo tratar do caso. Fui ao Quartel General e lá
deram-me ordem para fabricar um caixão de luxo de preço de £ 25. Depois de o
referido caixão estar pronto eu levei o dito caixão para o Quartel General e
pedi o dinheirinho. Um oficial disse que não tivesse medo que eu havia de
receber o dinheiro. Quando voltei para a cantina encontrei-me com o meu compadre
Hermenegildo que estava a matar o bicho mais a preta Eosa com quem está amigado
e o meu compadre também me disse que eu havia de receber as massas, mas como eu
estou escaldado não fiquei satisfeito. No dia do funeral eu estava resolvido a
não deixar sair o enterro da Cambra Municipal sem primeiro pagarem o
caixão, mas vi tanta gente com espada e galões que tive medo de fazer zaragata.
Dois dias depois quando o meu rico caixão já estava debaixo da terra fui ao
Quartel General e lá disseram-me que não tivesse pressa que nada estava
resolvido. Eu esperei mais uns dias e fui novamente saber quando me pagavam o
caixão e lá disseram-me que o enterro foi por conta do Goberno que a Secretaria Geral é que me
pagaria. Toca a andar até à Secretaria Geral e lá só agora é que acharam muito
caro o caixão. Eu disse que o caixão era de luxo em forma de ataúde e só depois
disseram-me que estava bem mas que não podiam ainda dizer-me qual a repartição
que me pagaria o caixão. Voltei para a cantina furioso e esperei
uns dias. Depois de alguns dias
voltei à Secretaria e lá disseram-me
que fosse saber na Fazenda que lá é que me informariam. Lá vou eu como um
s... (Sr. Juiz desculpe-me o termo mas
eu estou furioso) até à Fazenda e lá um empregado todo cheio de pamporra me
disse que o Município é que me pagaria o caixão. Eu fiquei três dias à procura
do Município julgando que fosse uma repartição nova mas me compadre
Hermenegildo disse que o Município é a Cambra Municipal.
«Então,
sr. Juiz, um empregado da Fazenda que lida com canetas não podia dizer logo que
era Cambra Municipal e chama à Cambra Município?
«E
são estes burros que o Goberno tem nas repartições. Eu sempre ouvi dizer
que as licenças eram pagas na Cambra e não no Município. O Tribunal do
sr. Juiz é na Cambra e não no Município. Eu fui para a Cambra a
pedir o dinheiro do caixão, mas lá deram-me uma corrida e chamaram-me nomes.
«Novamente
voltei para a cantina pior do que um urso e com os c... a arder de zangado
(novamente desculpe eu falar assim sr. Juiz). Agora que me vejo sem caixão e
sem dinheiro venho pedir a V. Ex.ª para mandar abrir uma subscrição entre o
Comissariado, Fazenda, Quartel General e Secretaria Geral, a £ 5, que faz £ 25
e liquidar assim o caixão ou então vejo-me na necessidade de apelar à Relação,
dizendo, que nem V. Ex.ª ligou nenhuma. Pede deferimento».
O
Manuel da Silva, mais conhecido pelo SILVA DOS CAIXÕES, já morreu. Ignoro se o
requerimento teve a virtude de excitar a Repartição liquidatária do seu «rico
caixão», e, portanto, se as suas queixas e argumentos convenceram os devedores
oficiais.