Entre
Sena e Tete, um longo percurso fluvial, o Zambeze, procurando escolher caminho,
envereda
por terrenos difíceis e muda, pouco a pouco, a sua feição calma e espraiada —
até se meter na famosa garganta da Lupata.
E
esta é, de certo ponto de vista, a mais bela e apaixonante passagem do percurso
do
grande
rio até Tete — uma espécie de apoteose, pois, desde Sena, o rio embeleza-se, à
custa da animação dos territórios que atravessa, e ganha todo o esplendor
cenográficoo que, pouco a pouco se prometia, no estreito da Lupata.
Depois
de uma estrada líquida em que nadam algumas ilhas, alcançam-se paragens onde
imperaram Inhaúdes e Bongas (margem esquerda) e se celebrizou o Manuel António
(margem direita), e que recordam o período nocturno da História de Moçambique.
Compreende-se quanto a natureza do terreno favoreceu estes rebeldes — terreno
outrora belicoso, propício a ciladas, naturalmente defendido, e agora
simplesmente belo na sua selvagem e movimentada animação.
Entretanto
as margens apertam cada vez mais o curso da água. A certa altura não se
compreende muito bem onde encontrará saída tanta água que já corre apressada e
resmungona. Parece que
uma grande muralha se lhe opõe. Por fim surge o imponente pórtico da garganta: na margem direita,
talhada em penedias abruptas, que sobem desde o nível das águas até
alturas sinistras, abre-se uma fenda que dá passagem a um afluente apressado.
Os montes marginais revestem-se de densos matagais, ora fartos como tapetes
felpudos, ora ressequidos como lenha, conforme a estação. À beira-rio o debrum
verde é eterno e compacto. Na margem esquerda adormece, indiferente às ondas
do terreno e antecedendo a garganta, uma planura agradável (Bandase e Maiembe)
onde outrora se juntavam, como em parada, os homens de armas dos Bongas. O
pórtico é constituído por altos e magníficos penedos — maciços, brutos,
marcados pelo Tempo, que reduzem a largura da passagem a uns escassos cincoenta
metros. Olha-se para a entrada imponente e pensa-se imediatamente nos trabalhos
que sofreram os antigos transitários do Zambeze, nas suas embarcações frágeis,
movidas à força de braços. Parece uma brecha violentamente aberta no terreno
penhascoso pela força indómita do rio.
Nas
fendas das rochas, como elementos decorativos ajustados, escolhidos a dizer,
pegaram e crescem euforbias carnudas e disformes, figueiras brancas de
recorte bravio e arbustos selvagens. Aonde puderam vingaram imbondeiros.
As
águas correm apressadas e grazinentas, com rumor fabril.
As
variantes de luz durante as horas do dia e da noite dão ao quadro aspectos também
muito variados. Pode parecer, em noites de tormenta vergastadas por faíscas, a
porta do Inferno, é de um romantismo, ao mesmo tempo severo e doce, em noites
de luar, é simplesmente imponente na sua grandiosidade selvagem às horas cruas
do meio dia.
Transposto
o portal, o estreito corredor faz esquecer por completo o Zambeze espraiado que
se vence desde o Chinde. Dir-se-ia que o rio luta ainda pela conquista da
brecha que abriu. Logo a poucas centenas de metros, vêem-se dois montes — o
Muendonangoma na margem direita e o Kassisi, menos encorpado, na margem
esquerda — que nos dão a impressão de serem duas partes do mesmo cabeço que o
rio cortou na sua passagem.
Escondiam-se
aqui, para surpreenderem e assaltarem as lanchas de comércio, os salteadores
dos Bongas.
Dos
perigos da navegação nestas paragens, outrora, quando todas as relações
comerciais entre Tete e o litoral se praticavam pela via do Zambeze, avalia-se
bem. Muitas vidas e fazenda por aqui se perderam, além das que a pirataria
ceifou. Ainda hoje se ouvem nomes de certos passos difíceis com que os
indígenas desse tempo os assinalaram e que não se tentavam sem primeiro
subornar os espíritos com presentes de tabaco, carne, farinha, etc. Kapimem e
Chifura ficaram nas lembranças do gentio como passagens de grande perigo.
As
grandes paredes cedem lugar, de longe em longe, a vales frescos, com desenho e
cores de encantamento - verdadeiros refúgios das coisas doces e belas — mas o
cenário temeroso de rochas e flora áspera, logo se recompõe, irando o rio e
mantendo a fisionomia típica do lugar. No auge da estação seca quando as
queimadas esbrazeiam os matos e se acendem nestas paragens, o espectáculo sobe
até ao fantástico — e só quem alguma vez o presenciou, em noites densamente
escuras da Lua Nova, o pode imaginar.
A
seguir à passagem arriscada de Chifura, que atrás já referimos, há um vale,
onde por volta da última década do século passado um missionário húngaro em
viagem para Tete, surpreendeu. Mas deixemos falar o padre, reproduzindo as
palavras do seu diário:
«Logo
que passamos o perigoso lugar denominado Chifura vimos num vale largo um
objecto estranho. Um grande mutondo tinha suspenso num dos seus ramos um boneco
fantástico de um metro de altura. A figura branca com a boca e os olhos pintados
a preto, e bem assim a circunstância de ter sido enfiado pelo pescoço e num
sítio que dava muito nas vistas, mostrava claramente qual a sorte que os
indígenas desejavam a cada branco. Dada a conduta dos marinheiros convenci-me de que isto não significava
outra coisa. Faziam de conta que não viam o boneco e deitavam-me olhares
furtivos. Compreende-se muito bem esta inocente demonstração no velho país dos
membros da família revoltada no território dos muzungos pretos, que são os maiores inimigos dos
brancos».
Não
pode dizer-se que os pretos da Lupata, em 1890, não fossem muito semelhantes a
certos brancos da Europa, do séc. XX.
Passado
o estreito ou garganta da Lupata, o Zambeze, à medida que o terreno vai
cedendo, torna a espraiar-se, a descer com dengosos vagares no seu leito amplo,
por entre os seus arquipélagos de areia e caniço.