MAPUTO

 

Lourenço Marques não seria uma capital se não houvesse criado arredores dependentes — a sua zona de influência directa.

Têm incontestável interesse turístico os arredores de Lourenço Marques — e não só pelo arranjo de alguns, como também pelos caracteres de outros. Marracuene e a Namaacha são estâncias agradáveis, refú­gios contra o bulício citadino; o Maputo é região selvagem, tipicamente africana, aonde facilmente se topam os contrastes que tornam mais intenso o prazer de viajar.

Um europeu, deslocando-se à África pela primeira vez, seguindo a rota dos navios nacionais e instalando-se em Lou­renço Marques, mesmo que aproveite ócios dominicais para passeios a Marracuene e à Namaacha, não receberá, salvo a nota breve surpreendida em S. Tomé, nenhuma impres­são típica de ambiente africano. Terá per­corrido e visto uma África sem carácter, mestiça de Europa, América e Sertão, decerto muito agradável—mas sem ex­pressão africana.

O Maputo—é a África nos arredores de Lourenço Marques. Uma África negra com todas as sugestões e horizontes do ser­tão, histórias de guerras e intrigas do gentio, fauna, recorte — e que, apesar da proximi­dade do burgo civilizado, resiste e perma­nece africana.

Os arredores de Lourenço Marques ofe­recem,   por  consequência,  como  ele­mento atractivo de turismo,  uma variedade que, evidentemente, valoriza a cidade como estância de turismo.     

A Namaacha é um posto de fronteira, a menos de uma centena de quilómetros de Lourenço Marques, que vai crescendo entre matas amaneiradas, em terreno largo de vistas, como refúgio contra a agitação fati­gante da cidade. Aí vão surgindo casas de repouso. Os lourençomarquinos, que não têm casas de campo e que as circunstâncias amarram permanentemente à cidade, vão passear à Namaacha, como os lisboetas vão a Sintra. Talvez por isso, alguém, pouco exigente, lhe chamou «Sintra de África» — pois nada mais tem de comum com a esplen­dorosa vila saloia. Celebriza a Namaacha, certo recanto ensombrado e agradável, onde uma cascata põe uma nota branca e fresca de águas torrenciais. O bairrismo de alguns chama-lhe «as quedas de água da Namaa­cha» em ar de referir grandezas de cata­rata. Mas cascata como é, e só cascata, quando não lhe falta água, e o sol enri­quece as sombras do lugar, merece na ver­dade a fama de aprazível recanto e justi­fica o entusiasmo com que o procuram os que fogem da cidade com um cesto de far­nel e sêde de ar livre.

Marracuene—a actual vila Maria Luisa—a trinta quilómetros da capital, sobre o Incomati, entre duas graciosíssi­mas curvas do rio, lembrança viva e ani­mada de glórias militares recentes, per­tence já a outro estilo. Principiou, de certo bem—mas sofre visivelmente de uma pa­ragem de crescimento, provocada, é bem de ver, pelo desinteresse dos lourençomar­quinos. O rio, em troço preciosamente dese­nhado no tapete verde do vale, a lar­gueza dos horizontes, a luz quente — e o próprio plano da vila, iniciado como miradoiro do vale de Incomati com preocupações estéticas de ajardinamento — dão ao sítio encantos de que ninguém desdenhará. Só para admi­rar e gozar o magnificente massiço de buganvílias e chuva de oiro que forma a peça decorativa central do jardim — vale a pena ir a Marracuene. Encontrei lá uma tarde dois namorados—ele lia versos que ela escutava com enlevo. E por mais que as intimidades dos namorados que se julgam sós, pareça ridícula e suscite o riso—achei bem.

Era, de facto, o lugar ideal para a recitação de versos líricos—e aqueles namorados eram, certamente, pessoas de bom gosto.

No rio, a curta distância da vila — ape­nas a bastante para isolar o cenário típico de notas artificiais de urbanismo—exi­bem-se hipopótamos. Habituaram-se à curiosidade dos turistas, não sofrem agressões — e prestam-se pachorrenta­mente, a servir de motivo de actracção turística.

No entanto, Maria Luisa, com tantas condições para ser por algumas horas o refúgio verde de Lourenço Marques — parou.

Tudo tem o ar de coisa paralisada. Pro­curou de certo, ao princípio, um destino que as condições naturais pareciam indi­car-lhe.

Mas deteve-se, à distância, fatigada, quase descuidada, com a sua casita de chá deslavada, as suas ruas trôpegas, à espera de um modismo ou de uma vontade que a ponham de novo em movimento. Por enquanto, além dos namorados que lêem e ouvem versos em molduras de buganvília, poucos mais alimentam e ampa­ram os direitos de Marracuene ao esplendor turístico.

Vamos ao Maputo. Saímos de Lourenço Marques até à África.

Poderia ter atravessado a baía e al­cançado assim, em menos de meia hora, terras de Catembe, incorporadas na cir­cunscrição do Maputo.

É mais longo, mas mais pitoresco o per­curso terrestre. Cem quilómetros de es­trada são necessários para contornar o sis­tema fluvial e marítimo que banha as terras marginais.

Deixamos as últimas casas da cidade — subúrbios diluídos em mato já sacrificado à expansão da capital — passamos a Matola, onde os boémios de Lourenço Mar­ques costumam ir cear frango à cafreal e se amanha para ser, no futuro, uma depen­dência industrial no extremo da cidade. Pouco depois, ainda na estrada civilizada, surgem verduras frescas do Umbeluzi—um vale generoso que já deu, além de pro­dutos de agricultura, contendas, polémicas, lutas de ideias e de interesses, em volta do tema da colonização étnica. Iluminaram-se na minha memória lembranças de campa­nhas jornalísticas e de caudais de palavras, escaldando paixão e entusiasmo, pelo vale do Umbeluzi—que, entretanto só modes­tamente se deu a realizações de colonização rural.

Das sombras que confortam a estrada vêem-se campos rasos, que na verdade pare­cem esperar a ocupação de uma agricultura intensiva — e no ambiente há uma frescura de água que convida à ocupação. Mas dos projectos, das ilusões, das contendas, leva­das decerto por gente ainda fatigada de ter descoberto o caminho marítimo para a Índia, não resultou, por enquanto, o que o Umbeluzi, escassamente ocupado, com o seu recorte paisagístico de lezíria, as suas humidades fecundantes, esperava. Não se vê na verdade, além  dos canteiros e edifícios do estabelecimento oficial de experimentação e de al­guns hectares de terra heroicamente ama­nhados — senão a incapacidade de realiza­ção dos quixotes de Umbeluzi.

Deixamos aqui a estrada asfaltada, atravessamos o rio, calmo e espelhento como quase todos os rios africanos — e não tarda que rodemos em terras africanas, por estrada africana, que não permitiria supor a proximidade de uma capital como Lourenço Marques.

Prosseguimos entre matas sempre iguais, pressentindo solos arenosos e habitat de fauna bravia.

A meio do caminho notam-se na estrada e em pequenos charcos, sinais de passagem de elefantes.

Por entre o capim escapam-se cabras de mato. As galinhas pintadas surgem às vezes nas bermas da estrada. De povoações indí­genas pouco se vê e colhe-se em rápidos pormenores a impressão de escassez de população. Num cruzamento de estradas, ornamentado com despojos de elefante, dorme um acampamento da Comissão de Caça — uma comissão que por falta de fôlego para se exercer mais longe, escolheu este retiro próximo de Lourenço Marques para afirmar a sua existência.

Passadas duas horas de correria, a es­trada,  sempre mais ou menos apertada entre muros verdes de matagal, desemboca numa povoação risonha que tem o nome justo e fresco de Bela Vista — e é a sede de circunscrição administrativa do Maputo. No flanco do alegre povoado corre, entre margens baixas e, por vezes, deliciosamente encabeladas,   farto   de   águas,  o  rio Maputo. A bela vista surpreende-se da margem do rio sobre a grande planura da outra margem, repartindo a contemplação entre a serenidade solene da campina e graça líquida do curso de água.

Andaram estas terras, desde o primeiro estabelecimento de portugueses na baía da Lagoa, intimamente ligadas, como vimos, à história de Lourenço Marques. Formam uma cunha ou enclave, cravado nos territó­rios sul-africanos da Zululândia e Suazilândia — e como marginam o porto, condi­cionam de alguma maneira a posse e inde­pendência deste. Não seria possível domi­nar o porto de Lourenço Marques sem domi­nar as terras de Tembe e do Maputo. Por isso mesmo tanto se interessaram por elas os nossos amigos e aliados.

Habitadas por gentio ronga e tembe — dos melhores da colónia—os seus régulos gozaram durante séculos de poderes magestáticos, apenas deminuidos por precários tratados de vassalagem, alcançados menos pela força do que por arranjos diplomáticos. E se de facto se declararam, desde os pri­meiros tempos, vassalos de Portugal, eram no entanto ciosos da sua independência e prontos em servir-se da força quando os direitos do suzerano pretendiam exceder o Político abstracto e alcançar vantagens no Económico. Destas fragilidades da sobera­nia, que então exerciam os povos civilizados sobre o gentio bárbaro, pretenderam apro­veitar os ingleses, fazendo infiltrar a sua manobra que teve o seu termo com a sen­tença arbitral de Mac-Mahon.

Vencidas aqui as dificuldades seculares, isto é, roto para estas bandas o cerco que durante centenas de anos se opôs à forma­ção e expansão de uma cidade em Lourenço Marques, o Maputo foi administrativa­mente ocupado em 1895. Mudou, natu­ralmente, a sua feição política, o seu ar ainda bravio, a magnificên­cia verde dos seus tandos e pânta­nos, a feição tão africana das suas matas, o tipo das carreteiras, a sua fisionomia de terra distante. A população tem deminuido progressivamente. Atrai-a, como a todas estas gentes do Sul do Save, o explendor económico da África do Sul. Ignoram de­certo - e lamentavelmente - estes povos, ligados a Portugal há três séculos, e que, desde há pouco tempo, se encaminham para a Suazilândia e Transval, quanto a sua sorte tem preocupado os nossos escribas  ofi­ciais. É certo que estão por resolver alguns dos problemas que dependem a sua fixação e abastança na terra em que nasceram—mas quantos relatórios se têm escrito! quan­tas discussões se têm travado! Todas as rea­lizações que faltam no Maputo brilham há muitos anos nessas páginas suculentas. E nenhum sábio propôs ainda que se distri­buíssem pelos indígenas esses relatórios, procurando assim, pela demonstração do cuidado e interesse que nos merecem, des­pertar as suas faculdades sentimentais e prendê-los à terra mãe!

Vamos caçar ao Maputo.

A caça é o mais turístico de todos os desportos e também o que realiza mais completo e profundo contacto entre o obser­vador e as terras que pretende estudar.

Vamos pois caçar ao Maputo.

São afamados, como atracção turística, os elefantes do Maputo.

Desde que os primeiros aviões principia­ram a sulcar o céu de Moçambique são os elefantes do Maputo regularmente visi­tados pelo ar e naturalmente por aqueles que não se atreveriam a admirá-los como os pés assentes no mesmo terreno que eles pisam. A horas matinais, ao entardecer—e mesmo em horas mais quentes—as manadas vão refastelar-se nos pântanos, onde, entre o caniço e capins substanciais, encontram subsistências e frescura. O avião surpreen­de-os, inquieta-os, desorienta-os—e o es­pectáculo goza-se sem outros riscos além daqueles que normalmente corre quem voa.

Houve tempo — muito recente — em que eram os elefantes os habitantes mais livres e considerados do Maputo. Poderiam adoptá-los como símbolo as instituições democráticas. Poderiam imitá-los todas as multidões que reclamam liberdade e não sabem servir-se nem da pouca que às vezes alcançam. Na verdade, os homens respei­tavam e faziam respeitar, quase sem ofen­sas, a gloriosa liberdade dos grandes bichos.

Na margem direita do rio Maputo cons­tituiu-se uma reserva de protecção aos elefantes — que, em parte — protegia de facto as manadas aí existentes e viventes, e em parte protegia os caçadores de categoria social e da Comissão de Caça, que, excep­cionalmente, são admitidos a caçar na reserva.

E uma espécie de tapada oficial que, ao mesmo tempo, defende os animais da per­seguição sistemática e contínua que conduz à extinção — e permite oferecer a hóspedes ilustres, com o mesmo conforto das caçadas aos faisões em Fontainebleau, a mais tra­balhosa e fatigante das caçadas. A reserva do Maputo é assim um verdadeiro mimo cinegético, muito raro, senão único no mundo, pois não pertence, na verdade, pràticamente, a nenhum dos tipos de reservas  africanas de protecção à fauna.

Na margem esquerda a caça ao elefante é livre nos termos da lei.

A abundância de elefantes e de antílo­pes, as facilidades de acesso à região, o entusiasmo desportivo dos caçadores lourençomarquinos — e o hábito tradicional de resolver os problemas do Maputo em relatórios e informações, estudos e reconhe­cimentos (as diferentes formas da mesma espécie verbalista) levaram a considerar este território, essencialmente, como o lu­gar onde se ia à caça. E todos os interesses da região tiveram de se subordinar, mais ou menos, aos altos desígnios de uma Comis­são de Caça. Entretanto, os indígenas, me­nos protegidos que os bichos, viam as suas culturas alimentares destruídas pelos elefantes — e não podiam, tão livremente como outrora, alimentar-se com carne de caça. Eram obrigados a licenças que não tinham. E depois da perseguição dos elefantes, que lhes destruíam as lavras, sofriam a perse­guição dos fiscais da Comissão de Caça, que lhes apreendiam as armas e algum bi­cho, ainda quente, acabado de abater.

Muitos aprenderam assim os caminhos que conduzem à Suazilândia e ao Transval.

Ao mesmo tempo notava-se que a mosca de sono aparecia nas margens do rio, sugando sangue de hipopótamo, enquanto não descobria outro.

Foi então resolvido exterminar os ele­fantes da margem esquerda — cerca de três centenas — e manter a reserva da margem direita até se concluírem sobre o problema os relatórios necessários. Esperava-se evi­dentemente que a mosca do sono continuasse a não exigir mais do que sangue de hipopótamo.

Mataram-se cerca de trezentos ele­fantes.

Um botânico estudou, profundamente, durante vinte e quatro horas, os pastos de Maputo.

O sol continuou a nascer todos os dias da banda do Índico e a morrer todas as tard­es, em agonias magníficas, por trás das matas do Sabié.

 

Atravessamos o rio numa jangada em Salamanca—onde se amanhou como porto fluvial o troço da margem em que se embarcam os grandes troncos de uma empresa de corte e serração de madeiras.

Encontro-me com um sábio que regressa às intimidades do Maputo, onde estudara desvendara todos os segredos florestais, o percorrera durante vinte e quatro horas, incluidas as que consumiu a jantar, almoçar

e em sono reparador, os caminhos do mato. Vinha limpo, correcto, passado a ferro, magistral. Enquanto conversava com ele não pude furtar-me a um sentimento inferior de inveja, por aquele homem que descobriu em 24 horas matéria para escrever centenas de páginas e ao qual o mato poupava o fato e a pele. Grande coisa ser sábio!

Ao lado no topo contrário da ilustração científica, umas dezenas de negros deslocavam, cantando, um grande tronco. Por cada arremetida, acompanhada da cantilena bárbara, o tronco avançava cinco centímetros. E descançavam. Precisariam de 24 horas para deslocar o tronco até à margem.

E, involuntàriamente, puz-me a compa­rar as vinte e quatro horas do sábio e as vinte e quatro horas dos pretos — na­turalmente a favor do sábio.

Entranhamo-nos então em terras bravas, por caminhos arenosos, onde os carros patinam e os motores gemem desesperados. Um carro Jeep resolve as dificuldades, embora em prejuízo dos rins dos passageiros. Deixamos a estrada e enve­redamos por onde mais nos calha, abrimos nós outras estradas. E assim entramos na intimidade da paisagem destas bandas mais litorais do Maputo, logradoiro de ele­fantes e mostruário de possibilidades agro-pecuárias. Grandes planuras verdes, húmi­das, que parecem enormes searas: umas secas, mas sempre verdes, nesta época do ano, outras ainda alagadas, umas e outras solenes e impressionantes na sua magnífica serenidade. Aonde o terreno se eleva ligei­ramente, orlam estas planuras trechos com­pactos de mata, que o machado madeireiro vai despojando dos melhores exemplares, mas que conservam ainda as linhas e feição originais.

E é assim toda a região: séries de matas e tandos ou pântanos: dois tons de verde que se alternam.

Percorremos os tandos, na orla das matas, batidos em cheio pelo sol — e enfronhamo-nos, por vezes, nas matas ensombra­das, onde o sol só entra esfrangalhado em pequenos retalhos de luz. O ruido do motor é o único som sobreposto ao silêncio ambiente.

De repente alguém exclama:

— Lá estão os elefantes!

A cerca de quatrocentos metros flutua­vam , à superfície do caniço que atapeta o pântano, os dorsos de uma dezena de ele­fantes. Dir-se-iam caudas escuras vogando num lago verde, em plena calmaria. Só olhos advertidos distinguiriam nos vultos escuros, abaulados, sobressaindo da verdura, partes de elefantes.

Os bichos pareciam parados. Pasta­vam sonolentamente nos próprios vege­tais em que mergulhavam — e, só depois de observados com atenção, se descobria que se iam deslocando como as canoas à deriva em brandas correntes lacustres.

Não é possível aproximarmo-nos mais. O terreno em que se encontram os elefantes está alagado. Eles próprios devem estar en­terrados no lodo até ao ventre. Alguém mais inexperiente duvida ainda que sejam ele­fantes os vultos que apontamos. Mas logo a dúvida se desfaz. Levanta-se do grupo uma tromba inquieta que procura, que investiga. Depois outra e outras. Todas as trombas estão no ar — e voltadas para o mesmo lado. Verificamos então que o vento corre do lado em que nos encontramos para o refúgio dos bichos. E na brisa leve, quase imperceptível, daquele dia quente e aparentemente esta­gnado, vai a denúncia da nossa presença. Fomos surpreendidos. Os bichos mostram-se visivelmente inquietos. As próprias trombas parecem pontos de interrogação erguidas sobre o capim. Que maravilhoso sentido aquele, que surpreende, diluído na brisa leve de um dia escaldante, o odor que se exala de uns homens brancos, lavados e escanhoados, que se encontram, ocultos, a quatrocentos metros de distância!  Há nesta agudeza de percepção qualquer coisa da mesma ordem das transcendentes subtilezas que o desenvolvimento da radioelectricidade nos revelou.

Por fim os elefantes compreendem. E deslocam-se rapidamente, para mais longe. Não procuram refugiar-se nas matas, onde sabem que seriam descobertos, apesar de todos os esconderijos que as matas ofere­cem. Dir-se-ia que sabem do alcance das nossas armas. E afastam-se, no pântano, onde não poderemos persegui-los, para além de qualquer possibilidade de agressão. A sua marcha naquele terreno mole de pântano, que cede ao peso enorme dos bichos, dá aos seus dorsos movimentos de canoa em águas agi­tadas — porque, de facto, parecem sempre canoas flutuando no caniço.

Mais longe vemos novas manadas — uma enorme, com mais de cem cabeças. Mas à distância a que nos encontramos e apesar do auxílio de binóculos, o espectáculo perde rapidamente o valor emocional. Na verdade vemos vultos de elefantes — mas não vemos elefantes. Estamos em desvantagem relati­vamente aos curiosos que vão visitá-los de avião e conseguem aproximar-se dos bichos muito mais do que nós.

Prosseguimos.

O jeep vai vencendo surpreendentemente todos os caminhos que lhe impomos—até encostas de areia quase solta. Alagamos os olhos de paisagem ondulada e hilariante. O sol voga em triunfo num céu azul, em­poado de neblinas leves.

Procuramos na mata uma sombra fresca onde aguardamos horas do entarde­cer, quando um preto de olhos gulosos de carne, excitado, nos vem dar notícia de um elefante que se encontra próximo, na orla da mata.

Cinco minutos de marcha estugada. Contornamos a mata, tropeçamos em reta­lhos de pântano — e damos com ele, entre­tido com um arbusto exilado da floresta, já à sombra, mas ainda no descampado. Não é um bicho enorme—mas é elefante; dos médios adultos. A mata está na sua frente, emaranhada e compacta, como uma grande parede.

Aproximamo-nos a cerca de trinta metros. A brisa corre dele para nós. Não nos pressente. Preferia não atirar e deixar-me estar quanto tempo o bicho consentisse, a admirá-lo. Mas acompanham-me matadores nervosos, im­pacientes. A sua emoção é quase dolorosa — e o seu instinto pede ponto final. Aponto ao coração e o tiro parte. Vejo bater a bala; levanta-se no ponto de choque uma poeira leve de lamas secas. O animal encrespa-se, parece-se que vai cair — mas toda a sua dor se resolve em fúria e medo, e parte. Entra na mata como em estrada larga — em linha recta. Árvores e arbustos estilhaçados ce­dem à investida do enorme corpo. Levan­tam-se no silêncio ambiente rumores de vendaval. E tudo se passa tão fulgurantemente que não há tempo para disparar, em condições aceitáveis, novo tiro. Não temos dúvidas, porém. Leva a morte com ele. É um vencido que não quer entregar-se. Va­mos no seu encalço pelo largo trilho que vai abrindo e atrás do rumor que se afasta...

Só ao entardecer, quase à noite, depois de termos desistido da perseguição, o viría­mos encontrar, meio afundado num pân­tano.

Depois da sesta descobrimos, pelo rasto, em profundidades da mata, um grande soli­tário, que tombou, a quinze metros, no pró­prio local onde foi atingido — entre a teia cinzenta dos ramos e lianas.

Quando recolhíamos, ao entardecer, de­pois de avistarmos, muito longe, no pân­tano, mais algumas manadas numerosas, encontrámos também na orla da mata, com os dorsos flutuando acima do caniço, como os primeiros que topáramos — três grandes machos. Pastavam em terreno impossível, encharcado, mas não se encontravam a mais de cincoenta metros do terreno firme.  Aproximamo-nos tanto quanto pudemos — e, aí, gozámos o espectáculo daquela refeição confiada, sem pressas nem nervosismo. Vimo-nos perante um quadro expressivo de abastança e felici­dade material. Pois será possível, para brutos comilões e exigentes quanto a quan­tidades, como para a maioria dos homens, quadro mais completo de felicidade física, do que estar afogado até aos lombos nas pró­prias subsistências, a estar horas calmas e suaves do entardecer, sem conflitos nem inquietações?

Não saberia defender-me do pecado de ter perturbado esta doce bem-aventurança. Confesso que disparei a arma que levava nas mãos—e com intenção de matar. A surpresa dos bichos foi naturalmente ener­vante. E como as grandes surpresas vio­lentas, geralmente, determinam o pânico — ei-los em fuga desabalada. Mas o terreno era mole e difícil. Os grandes corpos er­guiam-se e afundavam-se como batéis em mar alto—perseguidos pelo tiroteio. Cui­davam, visivelmente, de alcançar a mata, mais adiante, na mesma margem em que nos encontrávamos. Mas o que fora alvejado ao primeiro tiro principiou a naufragar. Parou — ensaiou um movimento furioso de represália, mas faltaram-lhe as forças e afundou-se, golfando rumores estertorosos de agonia, enquanto os companheiros, um dos quais moribundo também, investiam contra a mata e desapareciam.

E asim se concluía, sem glória nem be­leza desportiva — pela minha parte descon­tente comigo próprio — uma caçada — tipo do Maputo.

Regressámos sob um poente baço, sem esplendor. Foram ainda as linhas do cená­rio, os contrastes de traçado e de cor entre as manchas escuras da mata e os verdes húmidos das planuras, que mais uma vez nos seduziram. Moçambique é a colónia dos nascentes gloriosos, como Angola é a colónia dos poentes fantásticos. Regressámos à hora pobre de Moçam­bique.

E não eram os elefantes nem as emoções desportivas que a região proporciona que tinha gravado nos nossos espíritos lembran­ças inapagáveis do Maputo.

Espero viver ainda os anos bastantes para voltar ao Maputo — com ou sem ele­fantes - e ver as suas planícies povoadas de manadas de bovinos; as suas gentes amarradas à terra pela paixão típica do agricultor; os grandes arrozais—enfim, a peça, os figurantes e os intérpretes daquele cenário magnífico que tem de lezíria e de montado, que encanta a vista e promete fartura.