ZAMBÉZIA(INHAMINGA)

 

Inhaminga, a vila da madeira, é uma povoação bi-partida. Principiada num lu­gar, mesmo à beira da via-férrea — con­tinua a crescer noutro, mais acima, des­viado do primeiro, cerca de dois quilóme­tros. Estas duas faces pertencem às épocas respectivas, em baixo um casario do velho e feio estilo português, mal semeado e mal cuidado, mostrando claramente a idade e o espírito, ainda aventuroso, dos constru­tores; em cima as construções modernas, sem estilo definido mas arrebicadas e lim­pas, muito enfeitadas de buganvílias — estas pertença do Estado. Ruas, avenidas enormes, mas já decididas a darem ar ao futuro burgo, esperam enchimento e confiam no

futuro. Cheringoma é circunscrição que promete: além das madeiras, que lhe dão o melhor e mais intenso, da sua vida e animação, tem pedreiras, que fornecem muita cal, e cultiva em escala crescente o algodão e variados

produtos alimentares.  Está convencida de que dará um dia petróleo, talvez carvão também — e   ainda,   sabe-se   lá!...   Em Moçambique, nestas paragens, nunca faltou quem sonhasse com o oiro.

O certo é que a vila é bonita e cresce — e que a sua vida lateja visivel­mente.

Ia então inaugurar-se mais um edifício, claro, de grandes janelas hilariantes — que seria uma escola. Constava que viria pô-la em acção o Governador Geral e prepara­vam-se festas. As autoridades andavam porém muito preocupadas, cheias de apreensões.

Faltava apenas colocar na parede das salas de aula — dois grandes compartimen­tos, de onde se vêem o céu azul, o sol e as buganvílias — os retratos de S. Ex.ª o Pre­sidente da República e Presidente do Con­selho. Já lá estava o crucifixo, ao centro—mas os retratos, aliás muito bem emol­durados, ainda estavam, em cima da mesa do professor, por pendurar.

O problema era o seguinte: Quem deve­ria ficar à direita do Santo Cristo? S. Ex.ª o Presidente da República? S. Ex.ª o Presidente do Conselho?

Não havia então problema mais deli­cado para resolver em toda a circunscrição de Cheringoma — porque o protocolo era omisso a respeito deste caso.

A vila da alta, a que pode chamar-se a vila nova, em posição à vila velha do pas­sado, tem ar de estância de veraneio. Sen­te-se que é possível descançar aí de fadigas africanas e que não deve ser desagradável. Talvez esta impressão resulte mais do tamanho aliciante das coisas do que da benignidade do clima.

De Cheringoma passamos a Marromeu, de onde já se vê o Zambeze — e que turisticamente se torna notável pelas suas manadas de búfalos e pelo delta do famoso rio.

Reclama-se aqui o avião para completar o encanto do turista — por mais que o avião nos seja antipático como meio de trans­porte para gozo de quadros naturais.

Mas, na verdade, um delta, sem miradoiros adjacentes, plano como um bilhar — não se vê, em grandeza, do plano em que encontra. Cá de baixo é sempre como qual­quer rio ou canal. Só o avião permite admi­rá-lo no conjunto dos seus braços ou ramos até a orla de espuma do mar. É certo que, lá do alto, parece um tapete felpudo bor­dado com listas de prata — mas que magnífico e esplendoroso tapete!

Perdoemos ao avião, estragador de pai­sagens, pelo encanto e pela graça fantás­tica que descobre em lugares como este. Os braços do delta, com o seu esplendor metá­lico enriquecem a felpa verde do mangai. Decerto nos escapa a sensação aafixiante do trânsito lá em baixo, as suas humidades viscosas, os seus lameiros, o seu encharcamento infernal. Mas tudo que tem de belo se revela, assim gozada a paisagem, lá cima, do espaço azul.

E também os búfalos, juntos em formi­dáveis manadas, se prestam à contemplação da aeronave. Não que pareçam búfalos — mas porque as suas correrias, entre nuvens de poeira, enchem os tandos de vida e de movimento, que dão espectáculo a quem se desloca nas alturas. O avião contempla, em geral, quadros estáticos—e não só plani­fica a paisagem mas também a dá parada e morta como os mapas geográficos. Aqueles búfalos, juntos em multidões, correndo a esconder-se nas suas matas,  transformam o mapa,  em quadro animado que revela a Terra viva.

Evidentemente, o melhor será sobrevoar o território a diferentes alturas e descer depois, para navegar nos braços do delta e perseguir búfalos nos tandos.

Há quatro centenas de anos que as gen­tes de Marromeu (achipangas e podzos), conhecem os portugueses. O delta do Zambeze foi sulcado e devassado por navios lusitanos logo nos primeiros tempos do apa­recimento dos portugueses em Moçambique. Por isso somos, aí, desde então, conhecidos sob a designação de inhamitangas, ou seja, aqueles que vieram à vela.

São, por consequência, velhas terras, as desta circunscrição de Marromeu, que deita para o mar e se estende depois ao longo do Zambeze até Sena. Através delas correm ainda outros rios, que talvez expliquem as predilecções da fauna pelo lugar e a exce­lência dos pastos. Presos às suas humidades, que criam nuvens de mosquitos e lhes deram fama de inóspitas, prosperam plantações de cana sacarina, machambas de algodão e de produtos alimentares, farturas de olea­ginosas.

Porém, do ponto de vista turístico. Mar­romeu é tipicamente território para caçar e para excursões no Zambeze.

Este grande, enorme rio, que é dos maiores do mundo, que corre em Angola e atra­vessa quase toda a África, em rotundas e fantasiosas curvas, que foi assunto de pro­blemas históricos e geográficos, que se des­penha apoteòticamente em Victoria Falls; suzerano de centenas de afluentes; e que vem lançar-se no Índico depois de ter per­corrido em Moçambique mais de um milhar de quilómetros—este rio Zambeze é a coluna vertebral da His­tória de Moçambique.

É impossível contemplá-lo, na sua magestade e serena grandeza, sem ver na paisagem física de que o seu curso é prin­cipal motivo de beleza, a paisagem histórica de que faz parte,  o Zambeze da África pura­mente africana, pertença exclusiva do gen­tio, em cujas águas correu sangue de inquie­tos e lendários povos do Monomotapa; o Zambeze dos fenícios e que depois ensinou aos primeiros mercadores do Oriente os caminhos arriscados dos sertões interiores, por fim, o Zambeze, no qual os portugueses conquistaram e ocuparam Moçambique e que permitiu manter em nossas mãos, sujei­tos à nossa soberania, territórios profunda­mente encravados na África interior como Tete e o Zumbo.

Ainda Lourenço Marques era pouco mais do que uma sanzala e mal se sabia o que se passava para além da Matola, ainda a Beira não existia, ainda, enfim, ninguém se tinha aventurado além das terras do litoral, aliás, inseguras em muitos pontos — já a nossa ocupação, graças ao Zambeze, tinha penetrado até ao Zumbo. Foi ele o guia e o feiticeiro das terras do interior, quem aliciou heróis e aventureiros para as grandes emprezas e as grandes aventuras.

Em 1531, por consequência há mais de quatro séculos, e poucos anos decorridos sobre a primeira viagem de Vasco da Gama e o estabelecimento dos portugueses na ilha de Moçambique — já se contava a sorte que haviam tido degredados e aventureiros que, navegando nos rios de Cuama (o Zambeze desse tempo) se internaram em matos dis­tantes da costa.

Karl Ritter, que se deu a investigar esta época, assegura que em 1538 os portugueses expulsaram os árabes que se haviam estabelecido no Zambeze e que, naturalmente, daí tinham enxotado, por sua vez, os fenícios. E desde então não mais deixamos de ser senhores dos mercados do sertão — mesmo quando as coisas correram mal e tudo parecia per­dido.

É impressionante evocar estas lembran­ças em cada um dos milhares de quadros que se oferecem à vista de quem viaja no Zambeze — e pensar que há muitos séculos e por muitos séculos ainda, entre estas mesmas margens, correm, infatigáveis e serenas, as águas do grande rio. E quantos quilómetros e léguas se juntam num rosá­rio de dias, em que nada se alterou. Quan­tos troços eram assim mesmo, quando pas­saram os primeiros aventureiros, quando passaram expedições, quando passaram hordas—e agora que passam viajantes descuidados!

Por aqui navegou até Sena em 1571 a gente de Francisco Barreto. E por aqui se foi depois até Tete, por aí fora, até para além do Zumbo.

O rio, mesmo aparte a sua fama, as suas glórias e o seu lugar magestoso na História — isto é, como simples elemento físico do território — é admirável: um viajante caprichoso e encantado que, escolhendo os seus caminhos, cuidou da sua beleza. É belo, logo à saída do mar em todo o sistema vas­cular das artérias que formam o complica­díssimo delta, é belo entre as margens bai­xas por onde se espraia e preguiça,  é belo em vales de serrania como a garganta da Lupata, onde se apressa e às vezes res­munga, é belo na estiagem com os seus arquipélagos de areia; é belo na estação calmosa com os seus caudais fartos; é belo ao romper do dia com as suas neblinas que esfumam a paisagem; e é belo, romanticamente belo, nas noites maravilhosas de pleno luar africano, todo marchetado de luzes de estre­las e em frémitos metálicos. Vogam nele, cumprindo várias fainas, almadias de gen­tio, embarcações mestiças e vapores de fundo chato. Nestes, que vão em certas épo­cas do ano até Tete, a viagem pelo Zambeze é dos mais apetitosos cruzeiros de turismo que podem fazer-se em Moçambique. Dir-se-ia que se surpreende então toda a alma e toda a beleza física da colónia no seu qua­dro tipicamente africano. A variedade das formas e da cor, no leito e nas margens; o pitoresco de alguns representantes da fauna, desde as aves ribeirinhas até aos hipopótamos; as recordações históricas; as aldeias do gentio, as notas românticas que dão certas embarcações solitárias — contri­buem constantemente para que a viagem não pareça longa e nunca seja monótona.

Só não entendo que este rio, que foi o princípio e que tanto contribuiu para que Moçambique seja actualmente uma colónia portuguesa, não interesse os portugueses de hoje como interessou os de ontem.

De facto o Zambeze está reduzido a pouco mais do que uma recordação histó­rica. Com o argumento das dificuldades de navegação durante o período de estiagem—desiste-se praticamente de toda a nave­gação no Zambeze ao longo do qual se construiu um caminho de ferro. Repito: já me explicaram isto e, decerto muito bem— mas não entendi.

Outrora havia só o Zambeze, caminho das caravanas fluviais entre Tete e Quelimane, uma espécie de deus pagão da Zambézia, que nos levou às terras do interior e foi, para as conservarmos, o mais fiel e valoroso aliado — quase divino. Ora para baixo, ora para cima levou etrouxe durante séculos, aventureiros, oiro, marfim, heróis, santos, ban-panos, tabaco, missanga etc. Con­sumiam-se longos e trabalhosos dias na aventura de o cruzar: ora a pobreza das suas águas, entre Julho e Outubro, torna­vam difícil a navegação, ora a abundância e vigor dos caudais a faziam perigosa em certos troços. Mas era então a via única - e não havia que escolher.

Vieram depois as estradas e os trans­portes mecânicos, veio o comboio — criações da mesma engenharia que também regula­riza rios e constrói embarcações de todos os tipos. Compreendia-se que o Zambeze, mais lento, cedesse aos meios rápidos, mas geral­mente caros, parte dos seus atributos de transportador — mas já não se entende que fosse abandonado, mesmo por aqueles pro­dutos que podem lutar com as demoras e dificilmente se aguentam com as tarifas dos transportes rápidos.

Antes só o Zambeze servia. Hoje tudo serve — menos o Zambeze.