GORONGOZA

 

Vamos pela Gorongoza, Cheringoma e Marromeu, à procura de S. M. o Zambeze.

Gorongoza!  Este nome forte e sonoro é famoso em toda a colónia — e sê-lo-á um dia, para além das fronteiras de Moçambi­que, senão com fama igual à que alcançou no mundo o Kruger Park, pelo menos com melhores razões para se impor à curiosi­dade apaixonada dos turistas.

A Gorongoza tem certamente algumas possibilidades económicas interessantes. Poderia ser, por exemplo, um dos distritos algodoeiros mais ricos de Moçambique. Mas nenhuma riqueza da terra a celebrizará como a abundância e variedade espantosas da sua fauna. É, em Moçambique, o grande Santuário das espécies.

E será, na África, se as realizações que se planearam e prometem exe­cutar-se, a favorecerem, o mais interes­sante de todos os «parques nacionais» ou reservas de protecção à fauna. A perfeita combinação das diferentes formas do solo, na mesma região — o solo nu dos tandos sem fim, o solo encabelado das florestas, o solo alteroso da montanha, o solo húmido das lezírias — criou condições ideais para antílopes, nos tandos em que correm e a vigilância é mais fácil; matas e bebedoiros como os elefantes mais apetecem; esconde­rijos para carnívoros; margens lodosas para búfalos; rios para os hipopótamos e crocodilos — até bravezas de espinheiras para os rinocerontes.

Nos tandos pastam constantemente, em especial durante as horas frescas da manhã e do entardecer, todas as espécies de antílo­pes, desde o Pacala até aos mais peque­nos cabritos do mato. Abundam, mais que quaisquer outros, as zebras, os gnus e inhacoses. Juntam-se em manadas de milha­res que enchem de vida e de beleza tandos que parecem não ter fim, de aspecto oceâ­nico. O espectáculo que proporcionam as multidões de búfalos é inesquecível. Bandos de macacos, espécies de toda a caça miúda saltam como pulgas nos tapetes verdes. Em certo lugar do rio concentram-se centenas de hipopótamos. Durante as horas ardentes do dia os tandos, quase desertos torram ao sol — mas nem então se despovoam por completo. Junto das manchas verdes e húmi­das que se mantêm no grande tapete requeimado, permanecem animais sonolentos, vagarosos.

Nos maciços de caniço e capim descançam ou espreitam os felinos; nas matas abundam elefantes e dormem sestas os búfalos.

Os automóveis podem percorrer os tandos em todas as direcções, bordejar certas matas e penetrar em outras, abeirar-se dos rios e rolar sobre os capinzais — e, em todos os percursos admirar as multidões de antí­lopes em corrida ou em alertas estatuários, as manadas portentosas de búfalos, as fugas destrambelhadas dos macacos, as galopadas das zebras — e, com frequência, levantar leões das suas camas, surpreender leopardos, ouvir os elefantes na sua faina de lenhadores e ver os hipopótamos em con­centração que é decerto a mais densa e numerosa do mundo.

A grande, incontestável superioridade da Gorongoza sobre o Kruger Park, como zona reservada de protecção às espécies e parque de turismo mundial, reside, por um lado na variedade e hospitalidade de habitat e em território de área muito menos extensa — por outro lado nas facilidades, digamos, superiormente espectaculares que o terreno oferece à curiosidade dos visitan­tes. Enquanto o Kruger-Park (e referimo-nos naturalmente à zona sul, melhor ape­trechada e mais procurada pelo turismo internacional) é um parque quase sem hori­zontes — a Gorongoza reúne no seu con­junto geográfico, com pitoresco inexcedível, o tando, o rio e a mata. Nunca seria possí­vel admirar no Kruger-Park o espectáculo, vulgar na Gorongoza, das manadas de cen­tenas e milhares de cabeças, nem o quadro incomparável de dezenas de manadas pastando e retouçando no mesmo espaço visível.

No Kruger-Park escapam à vista dos visitantes todos os animais internados nas matas, além de cem ou duzentos metros das estradas de turismo. Na Gonrogoza o espectáculo é permanente.

Os tandos permitem o trânsito dos carros em todas as direcções e, sempre, perante horizontes profundos e espaços povoados de bichos.

A grande inferioridade, também incon­testável, da Gorongoza, relativamente ao Kruger-Park, está na organização da re­serva. Enquanto neste tudo é quase impecá­vel, deduzido para prazer e estudo, de um conhecimento profundo dos bichos e dos homens que viajam — na Gorongoza tudo - se encontra, mais ou menos, ao Deus dará. Só há poucos anos foi aí restabelecido rigorosamente o defeso da caça. E além disso pouco mais se fez. Contentaram-se os responsáveis em mandar construir no grande tando cinco pequenas casas desengraçadas e desprovidas de tudo, entregues à guarda e conservação de dois cipaios, que as põem à disposição de quem chega. E nada mais: nem vias de comunicação acei­táveis, nem guias, nem recursos alimenta­res, nem indicações — e, também não, uma organização de estudo e observação ten­dente a manter e valorizar permanente­mente tamanha riqueza natural.

Já depois da minha última visita ao Kruger-Park ouvi dizer, ou li, que a orga­nização da reserva ia ser praticamente con­siderada com mais largo e interessado espírito.

Não quero duvidar que assim seja. Pre­firo acreditar e desejar que as boas inten­ções, assim apregoadas, vão finalmente ao destino que marcaram.

Tentemos mostrar, mais precisamente o parque da Gorongoza, anotando os factos de uma visita, realizada nas condições actuais e que, com mais ou menos incidentes, me mostrou o que qualquer visitante poderá admirar, no mesmo itinerário que percorri.

Recordo os passos da última visita que fiz à reserva — apressada, rápida, sem qualquer ideia de explorar turisticamente as suas riquezas — visita de quem já vira na Goronzoga tudo, ou quase tudo que os mais afortunados podem ver.

Entramos na reserva durante a noite, pela jangada de um dos rios que a delimita. Noite escura, de névoas bolorentas sobre o rio. Ali, a duzentos ou trezentos metros — dizem os pretos da jangada — vêem os búfalos beber todas as noites. Teríamos que esperar cerca de meia hora. Não me seduz a espera; vamos andando. Durante a tra­vessia, o farolim acende nas águas vagaro­sas olhos metálicos de jacarés; um, enorme, passa, surrateiramente junto à jangada.

Separam-nos do acampamento do tando onde vamos pernoitar cerca de quinze quiló­metros. Ninguém dará por eles, apesar dos «saltos» do caminho, se acender o farolim e moderar a marcha do carro até andamen­tos de passeio desenfastiado. Nas matas que vestem mais de dois terços do caminho, umas vezes cruzando a estrada, outras vezes apenas surpreendidos pelos golpes luminosos do farolim, as aparições são cons­tantes. Numa baixa arborizada pastavam inhacoses;  mais além perpassam gazelas em fugas magníficas;  um búfalo solitário, enlameado e pesadão, esquiva-se da luz e mergulha em sombras; numa volta do cami­nho esperam as zebras. Os quadros repe­tem-se — especialmente os de pequenos antílopes, inhacoses, gnus e javalis.

Pouco depois rompemos a orla da mata e entramos no tando. Sob a neblina leve da noite cacimbosa, tem-se a impressão de navegar num grande lago. Um céu baixo, sem estrelas, todo empoado, tapa a enorme planície. Os antílopes surgem com formas imprecisas, embu­çados na bruma.

Chegamos finalmente ao acampamento.

Parece que uma grande, infinita paz paira sobre o tando, que se adivinha enorme e profundo como a escuridão. E contudo sabemos da tragédia que este sossego apa­rente esconde — a tragédia contínua, inter­minável do sertão; o Amor que eterniza a Vida, a Vida que precisa matar para viver, a Morte que mantém a Vida, juntos no mesmo espaço e no mesmo tempo.

Como me sinto confortado com a serena magestade do tando nocturno, só muito tarde me deito e adormeço. Surpreendo então as vozes do silêncio — umas vezes pontas quase apagadas de som, que não se sabe de onde vêm, outras vezes uma voz lancinante de agonia que trespassa o silên­cio como flecha sonora.

Cerca da uma hora da noite passam a poucas dezenas de metros da casa em que estou, cinco elefantes. Vão apressados, decerto com sede — mas não fazem bulha. Parecem grandes sombras. Julgo ver, emba­ciado pela bruma um quadro da pré-História.

Adormeço a ouvir risadas de hienas e raposas, rasgando o silêncio da noite.

A madrugada no tando é um deslum­bramento originalíssimo, só comparado, com vantagem para a Gorongoza, ao de cer­tos quadros animados que, às vezes, se sur­preendem no deserto de Moçâmedes.

A enorme planície — enorme a perder de vista, como um panorama oceânico — inundada de luz matinal, ainda levemente empoada de névoas, acorda cheia de vida e movimento. A duzentos, a cem metros, pastam ou desentorpecem-se os primeiros grupos de animais. E, até aonde os olhos enxergam, as zebras, os gnus, os inhacoses, cabras, macacos e javalis, dão-lhe a graça do movimento e da vida animal. Não tarda que a vista desar­mada exija mais. É preciso um binóculo. E são multidões de manadas que se deslo­cam no tando e parecem, assim de muito longe, manchas animadas no tapete ama­relo.

Cobre o tando uma felpa rasa de capins queimados. O sol bebe as últimas névoas e alarga horizontes.

Aproximamo-nos dos primeiros grupos. Não fogem. Afastam-se apenas, cuidando de manter inalterável a distância que nos separa. Apenas as mães se mostram mais esquivas e atentas.

Tomamos o matabicho na varanda, perante o espectáculo magnífico — mas dis­tante.

O tando atrai-nos como o mar. É impos­sível despegar os olhos da sua imensidade e escapar à sedução de o trilhar, em corrida, com a brisa matinal a refrescar-nos.

Lançamos o automóvel por trilhos que um preto dali vai indicando. De outra forma perder-nos-iamos como uma embarcação desgovernada se pode perder no mar alto. À aproximação do carro as manadas galo­pam, ligeiras, em formações cerradas, e exi­bem-se em plena praça dos seus movimen­tos. Felizmente é proibido, rigorosamente proibido, caçar na reserva. Só nos é permi­tido contemplar miragens da vida animada — e, mesmo um caçador, compreende que o espectáculo da morte ofenderia a beleza dos quadros. Os bichos fogem, correm, ape­nas para se exibirem — e, porque, enfim, somos homens, portanto piores e menos de fiar de que os carnívoros seus inimigos.

À medida que o carro avança, mudando constantemente de direcção, vão-se descobrindo mais, muitas mais manadas. Quando perdemos de vista o acampamento e nos encontramos no tando como barco no oceano — ao centro de um grande círculo de horizontes — a enorme, enormíssima arena oferece-nos um dos mais impressionantes espectáculos da natureza. Dir-se-ia que estamos em outro mundo e que o próprio céu está mais perto.

Depois de muito divagarmos e de por­mos o tando em bulício, aproximamo-nos outra vez da orla das matas. Uma grande mancha verde denuncia húmidades perma­nentes. Sobre ela uma grande mancha negra: são os búfalos, em multidão.

Aguardam-nos durante algum tempo, todos de cornos no ar, meio estasiados, meio suspeitosos. E de repente toda a manada se agita, como se fora um corpo só. Primeiro uma espécie de estremecimento que sacode os corpos e põe em movimento uma floresta de cornos. Depois a abalada, a galope, enro­lada numa nuvem de poeira, em direcção à mata.

Num lugar capinoso que a queimada poupou, levantam-se dois leões que descançavam, bem ocultos, das trabalheiras da noite. Tentamos persegui-los mas depressa os perdemos entre os tufos altos do capim.

Aproximámo-nos do rio.

Procurando pisos enxutos conseguimos chegar quase à margem, onde se nos oferece o espectáculo portentoso de algumas cen­tenas de hipopótamos em sociedade. «Há mais hipopótamos do que água» diria, em exclamação, o entusiasmo de um dos nossos companheiros. E, de facto, parece que são mais os hipopótamos, do que a água.

Rolam pesadamente para o rio, grunhindo, levantando ondas e remoínhos, os bichos que se encontravam n margem. Alguns mais afastados, sentin­do-se protegidos pela distância, não se movem das camas de lodo em que se refas­telam. Concentram-se ali, não só centenas de corpos, como também todos os espectá­culos que os hipopótamos podem oferecer aos olhos curiosos dos homens: hipopótamos deitados como suinos no chiqueiro, atascados em lama, que dão uma impressão repug­nante da felicidade física dos gordos; hipo­pótamos de pé, parados, monstruosos e cheios; hipopótamos em marcha e em cor­rida exibindo a sua inadaptação ao meio terrestre; hipopótamos nadando, volumo­sos e deslizantes como canoas; hipopótamos que mergulham e espreitam, não deixando ver à superfície mais do que as suas cabe­ças curiosas de cavalos; hipopótamos que não se vêem mas se adivinham, deslocando-se no fundo das águas; mães com os seus miú­dos rosados, acavalados no dorso, nave­gando ; machos excitados que lutam — todas as cenas, enfim, da vida destes bichos, se desenrolam e agitam na mesma página documentária deste livro da Natureza.

O tempo desliza sem se fazer notado.

Cerca das onze horas, com o sol quase a prumo, o tando parece uma grande forna­lha. Ainda se topam, em escassa densidade, manchas de manadas — agora lentas, vaga­rosas. O automóvel obriga a levantar ani­mais que se tinham deitado, vencidos pela quentura da hora.

Aproximámo-nos da mata e prossegui­mos em caminhos de sombra. De repente ouvimos um ruido explosivo de ramos esti­lhaçados — e surgem imediatamente, a menos de cem metros, em corrida, qua­tro elefantes que a nossa aproximação excitou. Perdem-se ao longe na profundidade da floresta. Encontramos a estrada. E mal tínhamos trilhado nela meia dúzia de quilómetros, deparamos com um búfalo que parece espe­rar-nos. Postou-se a meio do caminho, firme, a olhar para o carro. Como não se desloca — paramos nós. Investirá? Não investirá? A sua atitude é a de um guarda a defender a passagem. Dura cerca de um quarto de hora este “frente-a-frente.

Por fim, o bicho, desdenhoso e maçado, entra vagarosamente no mato e vai ao seu destino.

E assim se ilustraram quatro a cinco horas de passeio no tando da Gorongoza.

Quando resolverão os homens responsá­veis fazer entrar esta portentosa reserva em competição com o Kruger-Park — e ganhar, justamente, mais fama?