ZAMBÉZIA

 

De Quelimane, saímos, à sombra de palmares, a caminho da jangada do Rio Licungo que nos deporia em terras de Macanja. Nem incidentes nem mimos de paisagem nos atrazaram. Nicuadala, outra vez — a estrada infil­tra-se através de matas por vezes cerradas, mas  sem  nada  de  impressionantes.   De quando em quando uma calva onde os algo­doeiros mostram casulos já abertos.

Depois Nhamacurra, uma cabra de mato que se misca, bandos de macacos — e alcan­çamos finalmente o rio — outro belo e sereno rio africano, a correr mansamente, e, depois do Zambeze, o mais forte e ana­fado da Província.

Através de paisagem tipicamente zambeziana e por uma estrada agradável vamos ter, passado o rio, à sede da circunscrição. Aguardam-nos, naturalmente, à entrada da povoação, as sonolentas e indispensáveis lojas dos monhés. Só depois se avistam os edifícios do Estado que, com os quase-barracões asiáticos, formam o burgo.

À ocupação comercial da colónia que, como já levemente referimos, é, em mais de dois terços dos estabelecimentos, realizada por asiáticos indo-portugueses e indo-britânicos, parece mais densa nas terras da Zambézia, onde se estabeleceram há mais tempo. O monhé encontra-se em toda a parte, risonho, lento, escuro, fiel aos seus costumes, como uma mancha de gordura que alastrou num tecido de qualidade, nos seus estabelecimentos geralmente sórdidos, com um nível de vida escassamente supe­rior ao do comum do gentio e como elemento excrescente das terras, das gentes e dos costumes — no entanto fortemente enrai­zado.

Não há em Moçambique, colónia de um país sem preconceitos raciais, os conflitos que separam e por vezes têm ensanguen­tado a África do Sul — mas há evidentemente   um   problema   criado pelas organizações comerciais asiá­ticas, digamos pelas instituições desta colónia de monhés, cujo poder moral, económico  e,   indirectamente  político,  se incrusta como o ébano no marfim, na face moral, política e económica de Moçambique.

O reflexo exterior destas coisas nem sempre é justo e inteligente. Umas vezes forma correntes de opinião que desejariam a segregação pura e simples do monhé, outras vezes consente situações que agra­vam os inconvenientes da intromissão asiá­tica e não se entendem, praticamente, perante o sentimento geral.

Desapaixonadamente vista e muito bre­vemente exposta a questão parece ser a seguinte:

Os asiáticos chegaram a Moçambique antes dos portugueses. Não trouxeram con­sigo ideias de conquista nem de domínio político — mas o propósito firme e inflexí­vel de ganharem dinheiro e não se desliga­rem da Mãe Índia. Aceitaram e aceitariam todas as soberanias, a de um génio europeu ou a de um régulo qualquer, uma vez que pudessem prosseguir nos seus propósitos de realizarem lucros e permanecerem índios. E assim se mantiveram em todas as épocas, com o mesmo sorriso blandicioso e a mesma persistência, primeiro entre os indígenas e os seus concorrentes de outras raças, depois entre os indígenas e o colonizador, formal­mente apagados, realmente amarrados aos seus estabelecimentos. Grande parte da costa oriental da África e muitos territórios do interior imediato funcionaram e funcio­nam assim como dependências económicas da Grande índia — quase como uma grande colónia sem o domínio político.

Consigo trouxeram e têm mantido as suas qualidades e os seus defeitos — isto é, o talento mercantil, o sentido da organização comercial, a solidariedade de raça, a sobriedade, o espírito impenetrável de sacrifício e a bran­dura do trato; e também o hábito da miséria, a falta de escrúpulos no negócio, o desinteresse pela terra alheia, a índole parasitária e a incapacidade colonizadora. Quer dizer: vieram com todas as qualida­des e todos os defeitos indispensáveis ao triunfo, sem propósitos de soberania, junto de uma raça facilmente explorável e de outra, que tendo desígnios políticos e obri­gações de soberania os não podia acompa­nhar em qualidades e defeitos tão propí­cios às actividades mercantis. Uma religião mais acessível ao espírito do gentio, ser­vida por agentes mais próximos da sua mentalidade e mais conhecedores dos seus costumes — é uma espécie de lubrificante que assegura ao mecanismo orgânico da sua acção, o silêncio e a facilidade.

O preto faz-se monhé ao mesmo tempo que se faz cliente — reza e compra, reza e vende.

Esta multidão de comerciantes, que se espalhou por todas as regiões da colónia onde se pode comprar ou vender qualquer coisa, sem exigências de conforto, nem de alimentação, risonho e afável para o gen­tio — fixou estabelecimentos, organização, actividade própria, mas não cuida de fixar gente, nem de valorizar o ambiente em que vive.

Explora, suga — e vai-se quando pode. Os seus lucros são transferidos para a Índia há tantos séculos quantos aqueles que os   portugueses   têm   de   soberanos   em Moçambique. E esta sangria de dinheiro tem sido sem dúvida uma das dificuldades seculares da colónia de Moçambique. O melhor dos seus rendimentos em comercio,  escapa-se-lhe  para  um país estrangeiro e tem faltado gravemente às forças e iniciativas que se empenhariam em maior desenvolvimento da colónia.

No entanto, há que reconhecer, em pri­meiro lugar, que não seria fácil nem destituído de perigos, quebrar ou inutilizar esta armadura sem outra que automatica­mente a substituisse, com a mesma expan­são e a mesma capacidade de contacto com o gentio — em segundo lugar que os monhés, com os seus defeitos e as suas qua­lidades, têm de alguma forma servido os interesses dos colonos e dos próprios indí­genas, como elementos reguladores de preços, na concorrência com os comer­ciantes europeus. São eles quem trava a tendência para a especulação desaustinada própria dos europeus no comércio colonial.

Parece pois mais sensato, entre as cor­rentes extremistas que se formaram em volta do problema dos monhés, tomar posi­ção média, isto é, considerar a realidade da sua existência, das suas qualidades, da sua utilidade e dos seus defeitos — e criar-lhes o seu lugar no conjunto; discipliná-los obri­gando-os a participar mais efectivamente na obra de colonização, assimilá-los como agentes de uma civilização de tipo ocidental que não pode nem deve sofrer enfraqueci­mento pela intromissão de influências híbri­das ou de uma espiritualidade anti-europeia, obrigá-los a elevar o seu nível de vida e a ligar os seus interesses aos interesses da colónia em que trabalham e prosperam; enfim, fazer deles colonos onde são apenas elementos parasitários.

Deve dizer-se que se notam actualmente tendências   para   a   fixação   entre  os monhés. Já alguns são agricultores —e  outros  aproximam-se  pouco a pouco da civilização ocidental. A este movimento não devem ser estranhos nem a internacionalização de certos costumes, observada depois das duas últi­mas guerras e acelerada pela facilidade de comunicações, nem as crises políticas e o vendaval materialista que sopra no mundo. Não são os grandes do comércio monhé, nem as poderosas firmas comerciais de Lourenço Marques e da Beira, que mantêm o carácter e as formas tradicionais da pre­sença asiática em Moçambique. São os monhés mais humildes, os menos poderosos, que vivem no mato e constituem os nós da apertada malha de rede indiana lançada sobre a colónia.

Os monhés ricos, poderosos, que encabe­çam e dirigem as grandes firmas, perdem lentamente alguns caracteres de sempre — desligam-se dos seus costumes, da sua reli­gião, e aproximam-se, por assim dizer surrateiramente, senão do tipo nacional, pelo menos de certo tipo internacional criado em todo o mundo pelas seduções materialis­tas do dinheiro.

Estes porém, embora dirigindo um grande movimento, constituem uma mino­ria. E é do seu interesse, por enquanto, man­terem na maioria dos humildes os caracte­res específicos de que se vão despojando.

São destes monhés, dos verdadeiros, ainda puramente típicos, sem mistura, os que encontramos logo à entrada de Macanja — uma circunscrição rica, de tipo zambeziano, povoada por maganjas e lomués, e ocupada por algumas emprezas, que disfrutam das suas riquezas agrícolas.

O povoado é, por enquanto, como quase todos estes núcleos a que se prende a organização   administrativa — um princípio de burgo. E como em Moçambique se tem cuidado de principiar bem, também este, como tantos outros, se mostra limpo, arejado e agra­dável. Quando amanhã crescer — e é natu­ral que cresça, visto ser sede de uma cir­cunscrição agrícola muito interessante — o seu quadro está constituído e bem tra­çado.

A doze quilómetros de Macanja mais uma jangada de difícil acesso atraza a via­gem — e depois, através de matas fartas mas monótonas, paramos à vista de Mocubela, perante outra jangada que presta os últimos serviços, ao lado de uma ponte que se promete. Numa colina sobranceira ao rio, instalou-se, com habitações anexas, uma fábrica de descaroçamento e prensa­gem de algodão. Ocupa a área de alguns povoados da colónia e tem a frescura clara dos mais viçosos.

Aqui se junta, proveniente de muitas centenas de machambas indígenas, todo ou quase todo o algodão de uma das grandes zonas algodoeiras constituídas na colónia — e aqui é descaroçado e prensado para abastecimento da metrópole.

É curioso este sistema, imaginado no Congo Belga e adaptado em Angola e Moçambique, para elevar e civilizar a pro­dução do algodão. Constituem-se grandes zonas de produção. Concede-se em cada uma, o exclusivo de compra de todo o algo­dão produzido pelos indígenas, a emprezas comerciais e industriais, que assumem o compromisso de comprar, a preços de tabela, todo o algodão oferecido, descaroçá-lo e prensá-lo. O concessionário, assim interes­sado no volume e qualidade da produção, faz a propaganda da cultura entre os indí­genas e presta-lhes, em colaboração com serviços técnicos oficiais, orientadores e fiscalizadores, a necessária assistência técnica. Não deve haver muitos negócios mais seguros em todo o Império.

Os indígenas correm todos os riscos (e não são pequenos) da exploração agrí­cola:   intempéries,   invasão  de  parasitas, insuficiência dos terrenos, etc.

Como o concessionário não é agricultor e apenas compra o algodão que lhe for apre­sentado pelos agricultores, a preço fixo, para o vender também a preço fixo — corre todos  os lucros. Quer dizer a parte arris­cada fica para o indígena, a grande fatia do lucro e da segurança fica para o conces­sionário. Julgo que este sistema tem por fim levar o preto a desejar ser civilizado, para ser também concessionário.

Nestas condições tem de haver algodão onde houver pretos — porque o sistema goza da protecção do Estado e, por conse­quência, do auxílio das autoridades. E haverá algodão mesmo nas areias da praia.

Digamos de passagem que a fase mais bárbara do sistema passou. Se, essencial­mente, as suas linhas não se alteraram, os métodos têm procurado suavizar as suas arestas. E diga-se também que a experiên­cia, apesar de ter produzido muito e bom algodão, tende a condenar o sistema e enca­minhar-se para outro, ou outros, menos — como direi? — menos espertos. E dele ficará, como resultado positivo, o incre­mento da cultura do algodão em Moçam­bique.

A seguir a Mocubela trilhamos uma das melhores estradas da colónia — uma pista fácil, muito cuidada, onde o marcador sobe, com desenvoltura e comodidade, além dos cem quilómetros.

Asseguram-nos que os leões tam­bém utilizam frequentemente a estrada para caçadas nocturnas. Não coincidimos com eles — mas não temos dúvidas acerca da sua presença. As histórias de assaltos sangrentos, de que são vítimas os indígenas, sempre tementes do leão, mas sempre, também, impreviden­tes ou fiados na sua estrela, são constantes. Numa aldeia, a meio do caminho, poucos dias antes, o grande caçador tinha seguido gulosamente uma preta que fora à água— e depois de a ter seguido, na ida e na volta, apanhou-a exactamente quando entrava na sua cubata.

Mas desta vez os nossos faróis não des­cobriram olhos de leão.

E fomos dormir a Pebane — uma praia, sobre o Índico, uma esperança do turismo de Moçambique.

O povoado é, por enquanto, banal e ratão. Calcule-se o que sejam duas dúzias— não serão mais — de edifícios, distribuí­dos em duas porções, ao longo de uma estrada semi-arborizada de três quilómetros de extensão. Faz lembrar uma gengiva de criança com três dentes implantados.

A situação, porém, faz esquecer o que lhe falta em realidade burguesa e o que lhe sobeja em imaginação. Esta estrada, futura rua, desenvolve-se no alto das ribas marítimas e é um miradoiro admirável sobre uma linda baía — sobretudo da parte em que se levanta o farol.

Uma outra estrada encaracolada liga a povoação à praia. E na praia, protegida e amaneirada por uma prometedora e já con­fortável cortina casuarinas, dorme uma outra povoação improvisada, que os pri­meiros turistas de Pebane têm procurado para aí gozarem férias balneares.

É um acampamento sertanejo para gen­tes que amam os sertões simpáticos, e dotado  de  um  mínimo  de conforto.

Nada ainda que, em organização, recursos e movimento se compare com os “compounds” do Kruger-Park e outras sanzalas elegantemente turísti­cas da África do Sul — mas um princípio do mesmo género e no mesmo estilo. O certo é que já se passam umas férias agradáveis nesta magnífica praia — se aos turistas bastarem o seu amor e uma cabana.

A praia de Pebane tornou-se conhecida na Rodésia e no Niassaland, donde vieram, em anos sucessivos, algumas famílias, ansio­sas de repouso e de mar. Mas outras estân­cias destas colónias, essas lacustres e não marítimas, recearam a concorrência e fize­ram acreditar aos veraneantes de Pebane, e a outros que desejariam experimentar, que havia perigo nestas férias à beira-mar — uma epidemia ou endemia tornaria a estância indesejável. E a verdade é que a corrente esboçada no sentido de Pebane esmoreceu consideràvelmente.

Se porém houvesse turismo organizado em Moçambique, Pebane não teria dificul­dade em ressurgir como praia e estância de repouso.

Um salto de Pebane a Mualama — a caminho de Naburi.

Mais uma jangada, mais um rio agra­dável e mais um posto garrido. Estas sedes administrativas da Zambézia, postos e cir­cunscrições, são, em geral, muito simpá­ticos. Procuram ser confortáveis e belos e, de facto, enfeitam, por vezes, como canteiros floridos, as lapelas africanas de certas encostas e colinas — e constituem justa­mente um motivo de orgulho para a admi­nistração de Moçambique.

Mualama — a região — figura nas minhas notas de viajante como caverna de antropófagos. Foi por aqui que me encontrei com os primeiros de que tive   notícia   segura   em   Moçambique.

Já algures o escrevi, a antropofagia em África é costume quase extinto. Surge, porém, em pequenos focos eruptivos, espo­rádicos, atiçados por sobrevivências de velhos costumes e formas vivazes de feiti­çaria — geralmente no seio de seitas secre­tas, para a formação das quais houve sem­pre grande tendência entre os negros.

Hoje, que sabemos de casos de antropo­fagia na Rússia, e, por ventura, de outros que a fome explicou, durante a guerra mundial — torna-se menos arripiante o conhecimento da antropofagia sobrevivente entre os povos bárbaros.

Estes antropófagos de Mualama perten­cem decerto à última fase, pois nem sequer estavam já organizados em seita.

Narremos porém os factos, sem mais cuidados, pois não é este o lugar para des­cermos às profundidades sobre a antropo­fagia.

Esta região de Mualama — e por aí fora, para todos os lados — é uma das mui­tas de Moçambique em que os leões se habi­tuaram a devorar homens. Falaremos destes antropófagos de juba mais longe, nestas páginas. Os assaltos dos leões ofereceram a alguns antropófagos a oportunidade de lhes fazerem concorrência na caça ao preto — e lançarem depois as responsabilidades sobre as feras.

Ora, apareceram na região de Mualama, entre os indígenas massacrados, que se dizia terem sido vítimas do leão, alguns cujos feri­mentos e amputações se tornaram suspeitos.

As investigações conduziram à desco­berta de dois pequenos grupos de antropófagos — um constituído por três mulheres e dois homens, o outro só por três mulheres. Nada permite crer que estivessem organizados em seita — mas apenas agrupados supersticiosamente por qualquer velho, restante da antiga seita, que os houvesse induzido, iniciado e ligado ao costume. Pelo facto de terem um dia comido carne humana julgavam-se feiticeiros — e obrigados por consequência a persistir na qualidade contraída.

É verdade que estes grupos, embora tão pouco numerosos, procuravam ou aceita­vam adeptos — aliás dificilmente, porque o costume repugna já à maioria dos negros e, especialmente, aos das novas gerações. Mas não havia entre eles espírito de seita, nem cerimónias especiais, nem, enfim, o ritual e as regras que as organizações sectá­rias não dispensam. Havia sim, uma espé­cie de iniciação, que resultava automatica­mente do facto de se comer carne humana—e fazia do iniciado, por esse facto, um devedor de carne. Quer dizer: os convivas do banquete e, com mais razão, o conviva que o era pela primeira vez, obrigava-se a pagar, a retribuir a gentileza. E pagava, tendo para isso que cometer um crime, ou era comido. Quer dizer os grupos seguiam aproximadamente os passos das organiza­ções de antropófagos em toda a África, onde a antropofagia se praticou e ainda pra­tica — mas só aproximadamente. Eram, na verdade, representantes de um costume, envelhecido, gasto, extinto por assim dizer. Para não repetir nem alongar histórias, entre si muito semelhantes, limitar-nos-emos a contar a mais curiosa, entre as que se produziram no seio destes antropófagos de Mualama.

No grupo menos numeroso dos que referimos atrás, e era, antes da nossa passagem por Mualama, constituído por três mulheres e um homem, este, de nome Morrilha, funcionava como uma espécie de chefe. Não que houvesse chefes designados ou eleitos, mas porque, tacita­mente, reconheciam como tal o que entre eles se distinguia por maior número de cri­mes praticados.

O Morrilha há muito tempo que devia carne a uma mulher do grupo chamada Muhiroâ. Quer dizer comera carne humana morta e oferecida por aquela — e ainda não retribuirá a refeição. Como entre antropó­fagos esta falta de cortesia se chama uma dívida — o Morrilha devia.

Como boa e consciente credora, que certamente já se vira em situação devedora idêntica, Muhiroâ insistia frequentemente pelo pagamento da dívida. Que o Morrilha lhe pagasse em carne a carne que lhe devia!

Não era fácil — mas o devedor era honrado.

Tão solicitado e perseguido se viu pela credora, que a convocou para a sua palhota juntamente com as restantes componentes do grupo — a Quuiniquelane e a Vancela — com mira numa concordata. Uma vez reu­nidos, expôs o Morrilha as dificuldades com que lutava a autoridade administrativa já dera com os primeiros delinquentes, trazia-o debaixo de olho, e deitar-lhe-ia decerto a mão, imediatamente, se ele matasse alguém para pagar a dívida. E não era só ele que estava ameaçado — eram também os pró­prios objectivos do grupo, cujas actividades canibalescas tinham de cessar, perante o chefe de posto já advertido e determinado a persegui-los implacàvelmente.

A credora porém não desistia. Queria a carne  que  lhe era  devida;  não eram explicações que satisfariam os seus apetites.

Então o Morilha, escravo da sua palavra, honradíssimo devedor, reco­nheceu que tinha de pagar. Se matasse alguém para cumprir seria preso. E como para ele, já velho, não havia grande dife­rença entre a prisão e a morte — propunha sacrificar-se, dar a sua própria carne. E o festim em que fosse devorado seria, ao mesmo tempo, o acto da liquidação do grupo — isto é o Morrilha seria comido e o grupo dissolver-se-ia.

A proposta foi aceite com a maior sim­plicidade.

Separaram-se para se encontrarem à tarde na machamba do Morrilha.

Nenhum faltou — nem o próprio.

Não houve dificuldades, nem cerimó­nias, nem palavras inúteis. Estavam todos de acordo e todos sabiam o que queriam. A Muhiroâ aproximou-se do Morrilha que, impassível, recebeu as duas facas que ela lhe cravou no peito. Ao mesmo tempo a Quiquelane trespassava-o com um estilete afiado. A Vancela, simples principiante, que no seu activo de canibal apenas contava a morte de dois filhos de poucos meses, que matara e comera, apenas assistiu à agres­são e morte do Morrilha.

Ali mesmo, no local do crime, comeram uma parte da barriga, dos intestinos e das costas do cadáver. A Vancela lambeu-lhe o sangue e foi contemplada com uma posta do lombo.

Terminada esta refeição, crua natu­ralmente e destemperada, retiraram-se, levando a Muhiroâ e a Quiniquelane uma perna cada uma. Os restos foram abando­nados — e quando, depois da confissão a autoridade os encontrou, viu-se que corres­pondiam perfeitamente à narrativa feita pêlos criminosos.

A investigação realizada sobre este e outros casos que levaram à prisão e deportação os antropófagos de Mualama, mostrou, além da decadên­cia do costume, desacompanhado das ceri­mónias e ritos de outrora, da intensidade perdida e do espírito de seita esfrangalhado — também que as causas e os processos não diferiam essencialmente dos observados em toda a África. Os homens-leopardos, eram aqui homens-leões, as formas de matar eram semelhantes, o conhecimento dos fac­tos era cuidadosamente ocultado pelas famí­lias e amigos das próprias vítimas.

Como manifestação de decadência notou-se que não só a superstição, as cren­ças tradicionais, a feitiçaria, enfim, mas também o banditismo puro figurava entre as causas determinantes da acção destes antropófagos.

A fatalidade, a vingança, o pantagruelismo — e, também, o assassinato por dinheiro, a soldo de terceiros — fizeram numerosas vítimas em Mualama.

Um conflito com qualquer dos membros da seita suscitava a vingança do grupo. O interessado no conflito dava parte aos cole­gas e eles resolviam imediatamente solidariesarem-se com ele — que deveria ser o executor e, por isso, dono da carne. A soli­dariedade, no fundo, consistia em comerem juntos a vítima. O assassino tinha direito à parte inferior do corpo, da cintura para baixo, o coração e a cabeça pertenciam sem­pre ao que reconheciam como chefe; os outros repartiam o que restava — tronco e membros superiores.

Um dos antropófagos preso em Mua­lama  (o Maico) confessou que resolvera desfazer-se de um tio, para se vingar por ele lhe ter roubado uma camisa.

Tinha planeado o assassinato para certo dia em que, acompanhado da Quiquelane, atrás referida, seguia com o tio pelo mato fora. Mas teve pena do parente e não o matou — o que natural­mente desagradou à companheira que já contava com a sua parte de carne. E para não desiludir esta atacou o primeiro que encontrou — uma tal João Manhula— que só escapou por ter conseguido fugir.

O pantagruelismo revelou-se também nas confissões de outros. Alguns declara­vam que caçavam o homem como outros caçavam os bichos e porque a carne humana lhes agradava mais que a dos antílopes. A Vancela e outra que usava o nome de Fátima, especifcaram que até o excremento das vítimas humanas é mais saboroso do que a carne de qualquer animal selvagem, e mais salgado!

Ao mesmo tempo — vá lá entendê-los um bestunto de branco! — intervinham na bárbara tragédia sentimentos que pareciam e parecem absurdos.

Por exemplo:

Aquela Vancela, que referimos, que assistiu ao assassinato do Morilha e lam­beu sangue do seu cadáver, que de acordo com os companheiros do grupo matara e comera dois filhos de tenra idade — trazia às costas, quando foi presa, um outro filho de seis meses. Como a criança parecesse doente — apenas um farrapito vivo de carne, tão definhada se encontrava — foi mandada entregar aos cuidados do Posto Sanitário e, naturalmente, separada da mãe. Pois não se imagina a aflição, a dor comovente, as súplicas da megera para que não lhe tirassem o filho. E não podia duvidar-se de que a sua dor fosse pro­funda e sincera.

Naburi, mais adiante, é a sede de um outro posto que procurava então embelezar-se.

A uma dezena de quilómetros do posto vive, às vezes, o grande caçador Teodósio Cabral — grande caçador e grande serta­nejo — com uma filha, e um filho já caça­dor também.

A nossa amizade de vinte anos obriga­va-me e pedia-me que fizesse de Naburi, da sua casa e das suas terras bravias, a minha primeira e única estância de repouso destas viagens em Moçambique. Cinco dias, que foram a magra compensação de todos os domingos e feriados que vivi trabalhando — e durante os quais não fui senão o antigo caçador e sertanejo de outros tempos.

Teodósio Cabral é o mais civilizado de todos os grandes sertanejos que conheço. Anos seguidos de isolamento no sertão, dispendendo as suas formidáveis energias físi­cas e morais, não conseguiriam deformar nem diminuir — ao contrário — a sua alma e o seu espírito de gentleman. O mato preservou-o da intoxicação lenta das socie­dades civilizadas do seu tempo — e ficou, por assim dizer, cristalizado nos usos que já não se usam e nos costumes que passa­ram de moda, leal, bravo, sincero, generoso e romântico, à velha maneira é claro. É possível que imagine o mundo europeu de que se afastou e destingue nas cidades afri­canas que pouco frequenta, como era no seu tempo de estudante, antes de conhecer o sertão. Essa será a sua doce ilusão. Mas é certo que já não conseguirá adaptar-se ao clima moral e social das nossas cidades.

Ninguém   suporta   o   isolamento,   a fadiga, as emoções, a própria doença, como ele — que não se  realiza, que não cede ao bárbaro uma migalha da sua per­sonalidade de civilizado, que, enfim, ao cabo de mais de trinta anos, quase consecutivos, de sertão é apenas um tipo estranho, original. E talvez porque se limitou a permanecer fiel ao que era.

Construiu as suas casas de mato — casas de pau-a-pique, mas confortáveis, ale­gres e hospitaleiras — longe de toda a con­vivência com os homens, e em tão estreita intimidade com os bichos que já as feras lhe têm rondado a porta. A essas casas vão ter, pela rádio, algumas coisas belas do outro mundo que não é o seu, como a música e a literatura — e também revistas, livros, jornais. E além destes elementos de espí­rito — apenas os seus amigos e quem ele consente que vá.

Já mais que um chefe de posto, grato à sua convivência e experiência, devedor de conselhos e amparo, lhe tem oferecido abrir caminho carrossável para algumas destas suas casas perdidas em profundidades do mato — e ele recusa, recusa nervosamente:

—Se fazem a estrada mudo-me.

Têm qualquer coisa de paradisíaco esta e outras moradias de Teodósio Cabral — agora também cultivador, organizador e industrial de caça. Um paraíso real, possí­vel uma vez que haja para o habitar um espírito como o seu, capaz de amar e viver a sua vida, sem saudades de outra que já não lhe pertence.

Nas lides fortes do mato encontra os prazeres viris que o seu corpo e o seu espí­rito de homem de acção reclamam — e vive-os superiormente porque os vive compreensivamente. Nas suas casas, em família, o repouso tem para ele um sabor diferente do que têm para nós, fatigados das cidades, os nossos tristes e agitados descansos.

Não trocaria estes cinco dias de férias por trinta dias de licença em Paris.

Teodósio Cabral, que me esperava há um mês, tinha guardados para mim, como pastor que houvesse guardado os seus rebanhos, uma manada de elefantes e, em outro lugar diferente, um magnífico búfalo solitário. Os seus “pisteiros”, espe­cialmente encarregados de seguirem os movimentos dos bichos, traziam-no dia a dia informado acerca da posição em que se encontravam. E os pretos da região, rigo­rosamente instruídos, faziam o necessário para não os afugentar.

Uma queimada inevitável, ocorrida na véspera da minha chegada, pôs os elefantes fora do nosso alcance. Tão bem guardados! Teodósio Cabral não se conformava.

E fomos ao encontro do búfalo.

Uma longa, longa e agradável cami­nhada, como em outros tempos, para além das estradas e dos caminhos, aonde só vão os sertanejos e aonde a África conserva ainda os encantos da sua solenidade miste­riosa. Matas em que tudo nos desprende do outro mundo e aonde a Distância e o Isola­mento são personagens de ambiente. Hori­zontes sempre novos, sempre diferentes de um mundo que parece inviolado.

Fomos ter a uma machamba de indíge­nas, aberta na encosta doce de um vale lento e suave — uma machamba colhida, decerto recentemente, pois ainda se viam nela os restos de troncos amputados pelo desbrave da floresta.

Era por ali que andava o búfalo.

Um dos pretos encarregados de vigiar-lhe os passos veio logo dizer-nos que sim, que ainda lá estava. Passara de manhã cedo na machamba, pastara ali, demorara-se acolá — e estava agora a dormir entre o capim, num ponto que indicava, já dentro da mata e à beira de um riacho muito encabelado de ramos.

Teodósio  Cabral  mostrava-se satisfeito como proprietário bem infor­mado acerca do seu gado.

Mais dois quilómetros. E num lugar onde o terreno descia, suavemente, em mata mais aberta e espaçosa até à linha de água, o preto apontou:

— Ali!...

Supúnhamo-lo deitado, afogado no capim — e que iria levantar-se à nossa aproximação. Mas não se levantou. O búfalo não estava. O preto comprometido olhava-nos como se o tivessem roubado. Mas não podia estar longe. Deslocara-se durante o afastamento do pisteiro. Este foi ver, deu com a cama, seguiu o rasto — e atravessou o rio. Perdemo-lo de vista. Ficamos, aguar­dando informações. Mas não decorrera um quarto de hora quando ouvimos duas vozes que nos arripiaram um berro de fúria gol­fado pelo búfalo — um berro muito nosso conhecido — e um grito de preto.

Tudo se passava para além das cortinas espessas do arvoredo que bebia no riacho — mas não eram possíveis grandes dúvidas: o preto fora decerto surpreendido pelo búfalo que se lançara sobre ele e, natural­mente, colhido. Corremos quanto podíamos, mas o rio, com mais água do que imagi­návamos e menos propício à nossa passa­gem do que fora à passagem do pisteiro, fez-nos perder tempo. E tanto, que antes de toparmos lugar para a travessia, vimos o búfalo correndo na outra margem em direc­ção à machamba. Como então nos preo­cupasse mais o preto, não pensámos em ati­rar-lhe nem em persegui-lo — mas apenas em encontrar o pisteiro e acudir-lhe... se chegássemos a tempo.

O negro,  porém,  tinha escapado incólume. Quando o búfalo o acometeu fugiu quanto pôde — mas como não lhe chegassem as pernas para cor­rer o necessário, jogou-se para o chão, sobre um tufo mais espesso de capim que o escondeu. A fera excitada pelo ódio mas advertida também da nossa presença pelo ruído que fizemos correndo e falando — não insistiu no ataque e preferiu pôr-se a bom recato.

Não é muito vulgar um búfalo solitário desistir desta forma, uma vez decidido a atacar — mas a verdade é que a excepção salvou o preto e tranquilizou-nos.

Voltámos à machamba — e, enquanto almoçávamos, foram os pisteiros tentar descobrir o bicho pelo rasto pois prevíamos que, àquela hora do dia, já bastante soa­lheira, não se tivesse afastado para muito longe.

Uma hora mais tarde, os pretos regres­saram ofegantes. Tinham dado com o búfalo; ficara lá um a vigiá-lo.

E, assim, também nós fomos dar com ele, em mata aberta, imponente, as pernas mergulhadas em capim, o grande tronco e a cabeça armada como uma fortaleza, pare­cendo flutuar na seara.

Dir-se-ia que nos esperava.

Olhava-nos de frente.

O Teodósio Cabral, naturalmente, pôs-se de lado. Eu era o convidado. O bicho per­tencia-me.

Depois, a luta foi breve.

Os pretos comeram à noite carne de búfalo.

Junto à casa do caçador, e de sua conta, funciona   quase   permanentemente   uma pequena oficina de torneiros — dos afama­dos torneiros da Zambézia. E só vendo se acredita como com tais instrumentos de ofício — tornos e formões dos que usou o Pai Adão —um  preto consegue  fabricar essas pequenas maravilhas de marfim, ébano, corno de búfalo e unicórnio, que os torna­ram famosos na Zambézia e para além da Zambézia.

São menos artistas que artífices — ao contrário de tantos escultores e gravadores que criaram e enriqueceram uma Arte Indí­gena africana — estes torneiros, e os entalhadores e ourives da Zambézia. Mas que extraordinários artífices! As peças que saem das suas mãos, embora menos criadas do que copiadas e, geralmente, apenas copia­das — nada devem em perfeição, acaba­mento e elegância, a peças idênticas traba­lhadas pelos melhores artífices europeus. Trabalham o marfim, o ébano, o unicórnio, a prata e diversas espécies de madeiras pre­ciosas, de forma inacreditável e com a mais espantosa das facilidades. E se não falta bom gosto a quem os dirige ou lhes encomenda trabalhos, as suas produ­ções tornam-se impecavelmente admiráveis. Infelizmente a sua clientela raras vezes os merece. É frequente ver sair das suas mãos varinas esculpidas em marfim e ébano, cin­zeiros copiados dos modelos mais horríveis da Europa, navios de guerra talhados em madeira com chaminés de unicórnio — e outras monstruosidades idênticas. Eles exe­cutam o que lhes pedem ou mandam — e seriam espantosos se lhes pedissem bem e se os mandassem com apuro.

De casa de um grande caçador como Teodósio Cabral traz-se sempre o bornal recheado de histórias de caça. O caçador fala pouco, não gosta de contar histórias nem de se deixar fotografar — mas eu gozo de privilégios especiais. Sou dos raros que o encontram sempre falador e comunicativo. Dois dias antes da minha chegada à sua casa de Naburi tinha havido história grossa — uma his­tória de leão.

Esta casa — a única acessível de todas as suas casas do mato — fica à beira da estrada, numa encruzilhada de caminhos, ao meio de uma clareira aberta na floresta, onde só as grandes e belas árvores foram poupadas. Em volta da habitação, forte­mente defendida por alta palissada — um telheiro-oficina e, um pouco arredado, o acampamento dos pretos que o servem.

Estes e outros, dos arredores, juntam-se, por vezes, ao anoitecer, defronte da casa.

O caçador tinha ido ao posto — e espe­rava-se o seu regresso a todo o instante. Eram nove horas da noite. Um grupo de pretos, alguns com suas mulheres e filhos, conversavam no lugar habitual. Em casa cumpria-se a faina costumada daquela hora. A noite calhara escura, sem luar.

Aproveitando a negrura da hora e a dis­tracção dos negros, um leão, despontado da orla da mata, certamente depois de ter estudado com cautelas e sabedoria de leão, todas as condições, caiu, de repente, sobre o grupo e filou uma velha.

O pânico, o alarido, o movimento, explo­diram do pequeno ajuntamento. Cada um fugia para seu lado, tropeçavam, caiam, gritavam — e entre os seus gritos impunha-se o ronco tonitruante do leão, tentando arrastar a presa para a mata.

Nesse momento preciso chegava Teodósio Cabral, com os seus carregadores.

Não precisou de muito tempo para se informar do que se passava. O leão ainda estava na clareira, resolvido a não abando­nar a presa. A gritaria dos negros era cada vez maior e mais nervosa. O caçador correu a casa pela espingarda e despendurou um lampião, que entre­gou a um dos seus pretos caçadores, para se alumiar. Não havia tempo para melhores preparativos. O leão continuava a dar sinal de si — mas mal se via o seu vulto, embuçado na escuridão da noite, de volta com o corpo da velha. E o lampião, em lugar de resolver o problema da visibilidade — complicou-o. Encandeava o caçador sem mostrar a fera. E o caçador, a dez metros do bicho, ouvia-o, mas não conseguia lobri­gá-lo.

A situação tornava-se perigosíssima. E dela só se sairia ou pelo assalto do leão, exasperado, sobre o caçador, cego pela luz, — ou pela fuga da fera.

As angústias destes momentos não são longas.

O leão, também atemorizado pela luz e pela gritaria, decidiu-se pela fuga.

E deixou o cadáver da velha horrível­mente mutilado.

Teodósio Cabral, cujo cuidado perma­nente pela segurança dos seus pretos é um exemplo notável para caçadores africanos, não se conformava. Tinha sido atacado no seu reduto de grande senhor do sertão por outro grande como ele — e perdera a pobre velha. Nem todos os leões que matara, e aqueles que mataria ainda, seriam bastante para pagar a afronta.

Esta pequena história ilustra tudo que na região se diz — se diz e ocorre — com os leões que devoram gente. São desafora­dos por aqui, como aliás em muitas outras regiões da Zambézia e do Niassa. E esta fera que não mata por prazer nem por sim­ples impulso de ferocidade natural, mas para viver, e que, por consequência usa de todas as cautelas nas suas andanças de caçador, arrisca-se, para caçar o homem, menos do que se arrisca para abater certos grandes brutos do mato. Ou assalta fulminantemente as próprias sanzalas, embora mediante estudo prévio e consciencioso das condições, ou caça, «de salto» como nós caçamos coe­lhos ou perdizes, ao longo das estradas e caminhos, em grandes, longos e persistentes passeios nocturnos. E há constantemente pretos que, apesar do risco que correm tran­sitando de noite por estas regiões infesta­das, que se deixam apanhar. O número de negros trucidados anualmente pelo leão, em Moçambique, excede um milhar. E o único grande inimigo da fera, nestes caminhos onde se habitua a caçar gente, é o automó­vel, que surge inesperadamente, com os seus olhos fascinantes e o descobre — quando no automóvel viajam espingardas prontas e certeiras. É nestes encontros que morrem a maior parte dos leões que se caçam em Moçambique e em outras colónias africanas.

Adiante de Naburi, no caminho para Moma, nota-se, como ilustração aliciante dos quilómetros que se vão vencendo, um dos palmares da Companhia do Boror — a empreza que explora os mais vastos e belos palmares desta colónia de grandes pal­mares.

Não são, embora mais extensos, mais belos que tantos outros, porque todos os grandes palmares, limpos e organizados, são lugares de encantamento quase místico.

Linhas e luz de fantásticas catedrais, com as suas enormes naves, as suas esguias colunas, as suas   imensas  abóbodas.   De manhã,  fendidos por lanças irisadas de sol,  durante o dia com as suas luzes macias, à tarde em penumbras aveludadas — mesmo sob a chuva — os grandes palmares são florestas de recolhimento e contemplação. E tanto se prestam aos interesses dos homens que neles procuram riqueza, como se pres­tariam à vida de frades em busca dos cami­nhos do céu.

Os coqueiros são árvores consagradas dos trópicos e do Equador, com o valor plás­tico de símbolos africanos. Numerosos poe­tas os têm cantado e muitos pintores e decoradores procuraram com eles — por vezes só com eles — representar a África.

Na verdade, não é mais africana que tantas outras árvores, nem na África o coqueiro se pode apresentar como espécie típica da flora autóctone — mas é, de facto, a mais impressionante pela sua generosi­dade, pelo seu carácter, pela sua expressão sentimental. Um coqueiro, meia dúzia de coqueiros, porém, raras vezes são belos. São tristes, rescendem poesia tropical mas não são belos. Os palmares, os grandes e mís­ticos palmares, onde convivem muitas deze­nas de milhar de coqueiros — esses sim, que são de apaixonante beleza, apesar de menos cantados pelos poetas.

Passámos o grande palmar, até à orla do rio — e ao longo das grandes naves só se ouvia o ruido do motor, como uma sujidade de som na superfície imaculada de um silêncio místico.

Não fujamos porém tão depressa da Zambézia. Vamos do mesmo posto do Naburi, para longe do mar, para as terras do interior, onde se mostram outras faces da maravilhosa província.

Em Mualama, o posto garrido de beira-rio, onde me encontrei com antropófa­gos, posso escolher dois caminhos de expressões diferentes.

Um conduz-me ao Gilé, mais um paraíso moçambicano de espécies cine­géticas e, por consequência, território bravio em cujas florestas, por vezes densas, vivem grandes manadas de elefantes e, mais ou menos, todos os famosos representantes da fauna africana. A viagem é agradável, levada à luz do dia ou prosseguida durante a noite. A vida animal, agitada e permanen­temente inquieta, é o elemento de atracção turística, embora certas movimentações de terreno que culminam no Monte Gilé, sobranceiro pela esquerda ao rio Molocué, e o recorte severo de matas frondosas lhe emprestem outros encantos.

Pertence o Gilé (região do Gilé, posto do Gilé) à circunscrição do Alto Molocué que, todavia, se recomenda por outras razões. A mitologia do oiro, sempre pronta a despertar em Moçambique, encontrou motivos de reincidência no Alto Ligonha, outra região, outro posto do Alto Molocué.

Será assim? Será agora?

Em todas as épocas se acreditou que era, assim, que era agora — e, naturalmente, os homens de hoje, demais ajudados pela téc­nica e pela ciência, também acreditam: é agora.

Que o demónio, que mais do que Deus, rege estas coisas do oiro, os não desajude.

O resto, certo, que convém assinalar mesmo aqueles que nestas páginas não pro­curam senão o que pretendemos dar-lhe — uma visão turística da colónia — é que o Alto Ligonha principia a ser falado e as suas terras a serem auscultadas. Não é só na península de Tete que as entranhas da terra prometem ovos de oiro.

Por enquanto quem, saindo de Mualama,  fôr até ao Alto Ligonha, não trará senão o oiro que levar — mas encontrará, nas seduções da fauna, da paisagem e da etnografia, razões de sobra para não se arrepender do esforço.

Trava-se por aí contacto — os pri­meiros contactos — com uma tribo curiosa por certas dissemelhanças do comum e que em Moçambique habita, mais ou menos, entre os rios Luenda (ler Lu'henda) e Monapo: a tríbu Achirima, de que fazem parte amoles, meroles, mirupales, lapones, mirasses, cheleges, malôas, mulimas, lugasses e mucovos e que nesta circunscrição do Alto Molocué ocupam, de sociedade com os lomués, todo o território.

Sobre a forrmação desta tríbu, de carac­teres, aliás, já destinguidos como os de tan­tas outras, conta-se uma lenda saborosa. Como não a colhi de indígenas nem de serta­nejos, que apenas m'a confirmaram, reproduzo-a integralmente da fonte em que a bebi — um ensaio etnográfico muito bem exposto e conduzido pelo sr. Soares de Cas­tro C):

«Os picos Namuli, compreendidos na cadeia vulcânica que se estende do Mar Ver­melho ao Cabo e à qual pertencem também os Picos da Abissínia e Quilimanjaro, mar­cam o começo do Planalto Central Africano. Com uma altitude de 2700 metros encon­tram-se rodeados de outros tais, como M'ruli, M’rai e Muácua, de altitude variando entre 2500 e 2000 metros. A sua vegetação é luxuriante, o clima temperado e salubre.

«Foi nesta região altaneira que, segundo a lenda, apareceu o primeiro homem achirima.

«Um abalo sísmico, que se prolongou durante anos consecutivos, aproximou, um dia, M'ruli de M’rai. M’ruli, encantado com os dotes de beleza natural que emoldura­vam M'rai, deu de andar-lhe no encalço dia e noite, mortinho pela posse.

Namuli, senhor das terras — soba muito amado e temido — acalentando de há muito uma teimosa paixão pela sua súbdita, ao surpreender o namoro, seu pres­tígio e autoridade empregou para que não fosse mais por diante. Armaram-se redes de intriga em volta dos amantes, move­ram-se perseguições, e nada conseguiu pro­duzir os efeitos desejados. M'rubi e M'rai amavam-se cada vez mais doidamente e dizia-se até, à boca pequena, que, a ocultas, pela calada de uma noite negra, já tinham noivado. O portentoso Namuli, sabedor do acontecido, fremente de oiro, à sua pre­sença mandou chamar o desobediente namo­rado e rival, a quem submeteu a longo e pormenorizado interrogatório sobre os amo­res proibidos em que andava enredado. Tro­peça aqui, levanta acolá, M'ruli veio a con­fessar o crime que havia perpetrado, o que lhe valeu imediata decapitação.

«Orgulhoso, ufano de si e do seu triunfo, rapa-pé teceu em volta da inconsolável viuva que se, até aí, por ele havia nutrido o respeito e consideração devidos a seu alto cargo, de então para cá passou a cortar cerce todas as esperanças de um entendi­mento amoroso, menosprezando-o e repelin­do-o publicamente com um nojo de muita virtude e dignidade.

«Mês desanda sobre mês — as coisas neste pé — Namuli cada dia mais preso aos encantos dela — a distância a que se encon­trava aumentava-os mais e mais — deci­diu-se a despojar as vestes dignitárias e a descer até ela, na humílima condição de simples mortal enamorado. E foi e disse-lhe quanto a amava e de quanto era capaz para se tornar digno dela. Baldados esforços!

M'rai repeliu-o com injuriosa afronta, alegando que preferia a decapitação a tolerar, por mais tempo, aquele martírio a que a submetia, pedindo-lhe, exi­gindo-lhe quase, o que ela nunca poderia dar-lhe.

«Então, Namuli, os nervos entumescidos, o sangue a escachoar-lhe o âmago, doido de dor, doido de despeito, num ímpeto leviano, arrojou-se a ela, lutou e lutou, dominou, mas não venceu. Ferido, a condi­ção a exigir-lhe vingança imediata, ripou de uma catana e decepou-lhe a cabeça sem mais nem menos.

«Nem gota de sangue borbotou. Gélida, petrificada, M'rai abandonara-se pacifica­mente à sorte de morte inglória.

«Ele, instintivamente, recuou uns pas­sos, tomou seu lugar a distância e quedou-se meditabundo e triste como monge santo. A noite vinha de adensar-se numa língua de crepes.

«Súbito, como milagre novo, o corpo virginal de M'rai estremeceu em convulsão de vida impetuosa e, de seu tronco robusto, onde a morte trovara elegias, surgiu, triunfante a primeira vida negra.

«Crescendo, desenvolvendo-se, naquelas solidões rochosas, o homem veio a experi­mentar a acerba nostalgia do isolamento. De uma vez, saltitando por ali lépido coelhito e com ele entabulando conversação, veio a saber que não era o único ser vivente sobre a terra, pois, em baixo, na planície, existiam outros animais bem curiosos, entre eles uma espécie muito semelhante à sua.

«Logo o homem deu mostras de muito contentamento e ao coelho pediu que à sua presença levasse um representante de espé­cie tal. Assim aconteceu de facto, passa­dos alguns dias. O audacioso leporídeo apresentou-se ao achirima na companhia de avantajado macaco, velho e trôpego, a quem foi prodigalizado hospitaleiro acolhimento. Fosse pela extenuante caminhada a que se submetera, ou por outra razão ainda não averiguada, o certo é que o ancião caiu gravemente doente e que tantos foram os carinhos empregados pelo homem para lhe restabe­lecer a saúde que o macaco, ao recuperar forças, solenemente prometeu ao benfeitor, dar-lhe, como recompensa, uma das suas filhas mais bonitas. E não faltou ao pro­metido, que lá palavra tinham nesse tempo, os primatas incorruptos.

«Ao cabo de morosa convalescença, o macaco efectivou a descenção para a planí­cie e, tendo determinado suas diligências diplomáticas junto da numerosa família, voltou ao maciço rochoso em companhia da prometida noiva. Esta esquivou-se, porém, a celebrar contrato nupcial com o desconhe­cido, mal o notou dissemelhante daqueles que irmãs suas coabitavam.

«Depois de expor seus escrúpulos e receios ao velho e ao moço; depois de, os, três, haverem concordado sobre a desigual­dade da união, pai e filha abandonaram o sítio em direitura ao povoado, deixando o atribulado jovem na vastidão do ermo. Aconteceu que novo sismo, por espaço de horas, abalou o Mundo e que os caminhei­ros tiveram de regressar ao ponto de par­tida : o ancião quebrado por fadiga, a moça ferida de morte por espinho maligno que lhe tinha atravessado o pé direito. Ambos, moles de fadiga, foram pedir guarida ao solitário achirima que os recebeu e tratou com desvelos de muita amizade e carinho.

«Entrementes o lépido coelhito voltou a aparecer e fazendo-se passar por enviado feiticeiro,   prognosticou  a  morte  do velho  primata e o casamento  do achirima com a gentil macaquinha. Volvidos escassos meses, a inicial profecia tinha-se realizado;  quanto à segunda existia ainda uma certa relutância que não fazia prever melhores dias. A noiva piorava mais hoje, mais amanhã, e maneira não havia de a levantar daquele chão onde se estorcia com aflitivas dores.

«O homem velava num mixto de compai­xão, esperança e desalento. Ambas as vidas por um fio, de novo o providencial coelho apareceu a aclarar situações. O destino — falava em nome de um destino — fizera-o mensageiro para anunciar ao Mundo que, dos dois doentes, havia de partir uma nova era para esse mesmo Mundo. Não morre­riam! Não morreriam! Unidos haviam de encetar a vida de felicidade — que felici­dade era também para todo o ser vivo, o aparecimento de uma nova espécie amiga que, com as restantes, compartilharia, irmãmente, as delícias terrenas. De resto, em nome do destino, seu senhor e amigo, declarava que anunciado de há séculos se achava o aparecimento da grei que o “Madeimonho” crestara em seus fornos e soltava agora para glorificação de mágicas virtudes. Não tinha a terra ardente, a rocha adusta, parido aquele formoso ser, que era toda uma apologia da noite, toda a pro­messa de um resplandecente dia? E não tinha ele, por seus fados, mensageiro de um destino que a bem dizer não conhecia e de que ideia nítida não formava, conduzido até ali a fêmea infecunda que a lua aben­çoava em obediência ao Sol? Ah! tinha bem segura a palavra de Deus! O homem que nasce e vive eternamente, ofusca-se hoje para volver amanhã; volve amanhã para se ofuscar depois.

«Porque esperavam então os dois inconscientes animais que lhe dirigiam olhares basbaques em interrogações idiotas?

 — Levantai-vos, ide criar sonhos, vidas, ambientes terrenos, erguer bem alto o des­tino que o comum caminho vos topou!

«Noite alta, imperceptïvelmente, o coe­lho desapareceu.

«Ambos os doentes sentiram envolvê-los mistério pesado, indecifrável. Depois, inexplicavelmente, misterioso alento como que os integrou na vida, como que os enfei­tiçou e impeliu, de salto, para a vertigem da matéria. Dias a dobarem meses, meses a dobarem anos, os achirimas nasceram, cres­ceram e multiplicaram-se nas vertentes de Namuli, de onde foram mais tarde acossa­dos e dispersos por hordas mucuanganas (homens que vestiam peles), vindos do Norte, em busca de marfim e escravos para o comércio zanzibariano”.

 

Uma amostra da poética achirima:

 

Ki ia épottha iá iòvira

Miò ohala ióthumia ni ólumuiêngu

 

O que significa na tradução portuguesa do citado Sr. Soares de Castro:

 

Sou de escravos oriundo

Estou vendido a este mundo

 

Othumira m’tiana ni èkótho

Féntu n’gua ohumira o étháia

 

Na mesma tradução:

 

Gozar mulheres e guerra

Como o sol goza a terra

 

A tradução não desvia o sentido nem a inspiração  poética  da  forma  serta­neja.