A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


LUIS CARLOS PATRAQUIM

INDICA MISSANGA SOBRE O TEU CORPO

    Agora percorro-te pelas artérias de poeira e branco encardido. Pedra obsessiva, vazia, petrificando o
tempo. Pedra de mulher mítica, olhando-me. Mulher onde eram as ondas e os pássaros e os barcos
elementares.
    E agora fotografo-te em ritmo de coda, em variações batidas pelas veias abertas do teu segredo
violado. Usurpado. Acrescentado. Agora, sobre os dias de tédio martelados a luz, de partos povoando-se,
da epiderme em grito contra a pedra. Naufrágio de colmo guerrilhando-te os afectos, os amantes em
rotação de geografias, o íman das coifas e das desembainhadas, tesas baionetas.
     Agora possuo-te. Perco-te. A minha boca em Macua perguntando-te como se diz «bom dia», neste
articulado silêncio de arquitecturas
que em quotidiano caminhar cruzo, tu cruzas, entre levas de intestino
e fome. Como um distúrbio da grandeza maior que te cobre.
     Agora eu, moçambicana concha, madeirame de açoitada nau escorando-me os músculos, indica
missanga perdida, sobre o teu corpo, minha mulher, minha irmã, minha mãe, percorro-te. Sou.

EIS AS CASAS
     Eis as casas. Grutas de sal a céu onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua e
sonha, vento marítimo que me leva às praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe,
memória, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde escuro açoitado

de desejo. O bosque.
    Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagem de despudor sem mini. Porque aqui me
esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam?
Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo
gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando me distraio, viandante
de mim nos alvéolos iluminados do tempo.

CORPO NOSTÁLGICO
    Adufe, tufo persa, arábia das noites à deriva, memória do sal, langor plasmando-se em marítimas
vozes sensuais, agudas — tantos continente na iridiscente indica vulva ancorados!

Espírito do som, nós te convocamos. Vem de onde o homem se angustia e solitário de si se esquece. Vem
do interior da sibilante terra à monotonia magnífica que nos entontece as cabeças, que põe desertos de
espuma com barcos sobre os ombros e peixes atónitos no olhar. Vem com o impudor de teus ritmos
transparentes. Vem à grande festa nocturna deste corpo nostálgico, n'sope que só quer brincar, afugentar
as sinuosas narrativas que mal me disseram, confundiram. Em meus silêncios me canto e em batuque me
faço. Raiva de não engolir o mundo entonteço a Ilha, grávida das minhas bebedeiras na noite esquecida.

Luís Carlos Patraquim



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