
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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INDICA MISSANGA SOBRE O TEU CORPO
Agora percorro-te pelas artérias de poeira e branco encardido.
Pedra obsessiva, vazia, petrificando o tempo. Pedra de mulher mítica, olhando-me. Mulher onde eram
as ondas e os pássaros e os barcos elementares. E agora fotografo-te em ritmo de coda, em
variações batidas pelas veias abertas do teu segredo violado. Usurpado. Acrescentado. Agora, sobre
os dias de tédio martelados a luz, de partos povoando-se, da epiderme em grito contra a pedra. Naufrágio
de colmo guerrilhando-te os afectos, os amantes em rotação de geografias, o íman das coifas e das
desembainhadas, tesas baionetas. Agora possuo-te. Perco-te. A minha boca em Macua perguntando-te
como se diz «bom dia», neste articulado silêncio de arquitecturas que em quotidiano caminhar cruzo,
tu cruzas, entre levas de intestino e fome. Como um distúrbio da grandeza maior que te cobre.
Agora eu, moçambicana concha, madeirame de açoitada nau escorando-me os músculos, indica missanga
perdida, sobre o teu corpo, minha mulher, minha irmã, minha mãe, percorro-te. Sou.
EIS AS CASAS
Eis as casas. Grutas de sal a céu onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua
e sonha, vento marítimo que me leva às praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe,
memória, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde escuro açoitado
de desejo. O bosque. Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagem de despudor
sem mini. Porque aqui me esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas
paredes que respiram! Arfam? Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me,
brincando, obsessivo gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando
me distraio, viandante de mim nos alvéolos iluminados do tempo.
CORPO NOSTÁLGICO Adufe,
tufo persa, arábia das noites à deriva, memória do sal, langor plasmando-se em marítimas vozes sensuais,
agudas — tantos continente na iridiscente indica vulva ancorados! Espírito do som, nós te convocamos.
Vem de onde o homem se angustia e solitário de si se esquece. Vem do interior da sibilante terra
à monotonia magnífica que nos entontece as cabeças, que põe desertos de espuma com barcos sobre os
ombros e peixes atónitos no olhar. Vem com o impudor de teus ritmos transparentes. Vem à grande festa
nocturna deste corpo nostálgico, n'sope que só quer brincar, afugentar as sinuosas narrativas que
mal me disseram, confundiram. Em meus silêncios me canto e em batuque me faço. Raiva de não engolir
o mundo entonteço a Ilha, grávida das minhas bebedeiras na noite esquecida.
Luís Carlos Patraquim
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