A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


LILIA MOMPLÉ


SUHURA

    A esta hora já o sol penetra à vontade nas ruelas estreitas, onde não existe a sombra de uma única
árvore, e todo o bairro parece arder, imerso em ondas de calor asfixiante. Dos quintais chegam vozes
abafadas de mulheres. Crianças nuas, de ventres inchados, brincam à soleira das portas escancaradas das
palhotas. De vez em quando, uma fila de patos marrecos atravessa as ruelas de repente, deixando atrás de
si um rasto de fezes. E, como há muito não chove, cada passo de Suhura levanta, da areia seca, nuvens de
poeira que se colam ao corpo em camadas finas e cinzentas.
    Seis vezes tem ela que fazer o percurso que separa a sua palhota do fontenário. Só então consegue
armazenar, no velho tambor do quintal, a água suficiente para as necessidades do dia. Deita-se depois,
exausta, no meio do quintal. Não se move, a não ser para de vez em quando enxotar as moscas que
zumbem encarniçadas à sua volta. Espera assim ganhar forças para ir à praia apanhar mariscos para o
almoço.
    As companheiras não tardam a chegar, pois a maré está quase vazia a esta hora. São rapariguinhas do
bairro, pobres como Suhura, que habitualmente a vêm buscar para a apanha de marisco. Munida de alcofa
e facão, Suhura junta-se ao grupo e segue com ele para a praia. Hoje, contrariamente ao que é costume,
mal participa nas conversas e brincadeiras. Não consegue afastar do pensamento a imagem da avó
fitando-a em silêncio e carregando penosamente o quitundo dos mucates. Não sabe definir porque tanto
lhe dói a lembrança daquele olhar embaciado e daquelas costas magras e curvadas. Sabe apenas que a
deixa sem vontade de rir e de brincar.
    As raparigas atravessam rapidamente o Litine, o Esteu e a Marangonha, apanham a Contra-costa e, em
pouco tempo, estão na praia. Como sempre, deixam-se ficar uns momentos a contemplar a paisagem tão
familiar e sempre nova. Até mesmo Suhura não pode ficar indiferente à beleza generosa da natureza que a
rodeia.
    Lá longe a Ilha de Goa e a Ilha das Cobras, pequenas ilhas que um barco a motor alcança em três
quartos de hora, são dois oásis verdes cortando o azul infinito do oceano. Da praia vê-se nitidamente a
torre do Farol na Ilha de Goa. Tudo mais é de um verde suave e, junto ao mar, a areia confunde-se com a
espuma branca das ondas. A Ilha das Cobras, coberta de vegetação mais densa, deve o seu nome ao facto
de, segundo a lenda, ser habitada por estranhas cobras, algumas das quais exibem gordas mamas e óculos
de aros escuros.
    Suhura e as companheiras contemplam as ilhas sonhadoramente. Felizes por se encontrarem aqui,
aspiram com prazer o cheiro intenso a maresia e a brisa suave é uma carícia nos rostos.
    Entretanto a maré acaba de vazar completamente. O oceano recuou para bem longe, deixando
pequeninas ondas de areia, em cujos sulcos se arrastam burriés e agitadas minhantjas correm. As
raparigas precipitam-se então para as poças de água cristalina, onde peixinhos de cores cintilantes
parecem bailar de pura alegria. Há-os vermelhos, brancos com pintas negras, azuis delicadamente
estriados de amarelo ouro, negros com caprichosos motivos vermelhos, verdes parecendo folhas, e ainda
os gordos peixes-gato que se confundem com a areia clara do fundo. Famílias de ouriços aninham-se nos
recantos mais escondidos, e holotúrias cor de coral descansam imóveis no leito de plâncton. Nas poças
mais fundas, com água pela cintura ou pelo peito, Suhura e as companheiras procuram, com os olhos
experientes, algum peixe maior que se tenha descuidado de acompanhar a maré. E quando o descobrem,
apanham-no nas capulanas estendidas que dobram rapidamente, com movimentos silenciosos e coorde-
nados.
    Seguem depois para os bancos de coral onde, com a ponta dos facões, ou mesmo à mão, arrancam da
rocha arenosa e húmida o mexilhão, a amêijoa, a tjaça, o ouriço branco... Tudo o que o generoso mar da
Ilha oferece para conduto do seu caril.
    Aproveitando a mesma oferta, grupos de raparigas, crianças, e até velhas de espinha quebrada
espalham-se pela praia. E tudo gente paupérrima da Ponta da Ilha. Mas procuram o marisco cantando
belas e antigas canções, cuja origem se perde na memória dos avós dos seus avós. De vez em quando
estalam gargalhadas, algumas provocadas pelo simples prazer de desfrutar estes preciosos momentos de
liberdade e gratuita beleza.
    Mais além, ainda mais para além dos bancos de coral, o oceano que recuou, espraia-se em caprichosos
tons de azul e verde. E o seu longínquo marulho é a música de fundo desta paisagem perfeita. Por isso, é
tão difícil a Suhura e às companheiras deixar a praia quando, já com as alcofas cheias de marisco, têm que
regressar às suas palhotas decrépitas e abafadas.

Lília Momplé

In: Ninguém Matou Suhura, por Lilia Momplé.


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