
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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SUHURA
A esta hora já o sol penetra à vontade nas ruelas estreitas, onde não existe a sombra
de uma única árvore, e todo o bairro parece arder, imerso em ondas de calor asfixiante. Dos quintais
chegam vozes abafadas de mulheres. Crianças nuas, de ventres inchados, brincam à soleira das portas
escancaradas das palhotas. De vez em quando, uma fila de patos marrecos atravessa as ruelas de repente,
deixando atrás de si um rasto de fezes. E, como há muito não chove, cada passo de Suhura levanta,
da areia seca, nuvens de poeira que se colam ao corpo em camadas finas e cinzentas. Seis
vezes tem ela que fazer o percurso que separa a sua palhota do fontenário. Só então consegue armazenar,
no velho tambor do quintal, a água suficiente para as necessidades do dia. Deita-se depois, exausta,
no meio do quintal. Não se move, a não ser para de vez em quando enxotar as moscas que zumbem encarniçadas
à sua volta. Espera assim ganhar forças para ir à praia apanhar mariscos para o almoço. As
companheiras não tardam a chegar, pois a maré está quase vazia a esta hora. São rapariguinhas do bairro,
pobres como Suhura, que habitualmente a vêm buscar para a apanha de marisco. Munida de alcofa e facão,
Suhura junta-se ao grupo e segue com ele para a praia. Hoje, contrariamente ao que é costume, mal
participa nas conversas e brincadeiras. Não consegue afastar do pensamento a imagem da avó fitando-a
em silêncio e carregando penosamente o quitundo dos mucates. Não sabe definir porque tanto lhe dói
a lembrança daquele olhar embaciado e daquelas costas magras e curvadas. Sabe apenas que a deixa
sem vontade de rir e de brincar. As raparigas atravessam rapidamente o Litine, o Esteu e a Marangonha,
apanham a Contra-costa e, em pouco tempo, estão na praia. Como sempre, deixam-se ficar uns momentos
a contemplar a paisagem tão familiar e sempre nova. Até mesmo Suhura não pode ficar indiferente à
beleza generosa da natureza que a rodeia. Lá longe a Ilha de Goa e a Ilha das Cobras, pequenas
ilhas que um barco a motor alcança em três quartos de hora, são dois oásis verdes cortando o azul
infinito do oceano. Da praia vê-se nitidamente a torre do Farol na Ilha de Goa. Tudo mais é de um
verde suave e, junto ao mar, a areia confunde-se com a espuma branca das ondas. A Ilha das Cobras,
coberta de vegetação mais densa, deve o seu nome ao facto de, segundo a lenda, ser habitada por estranhas
cobras, algumas das quais exibem gordas mamas e óculos de aros escuros. Suhura e as companheiras
contemplam as ilhas sonhadoramente. Felizes por se encontrarem aqui, aspiram com prazer o cheiro
intenso a maresia e a brisa suave é uma carícia nos rostos. Entretanto a maré acaba de vazar
completamente. O oceano recuou para bem longe, deixando pequeninas ondas de areia, em cujos sulcos
se arrastam burriés e agitadas minhantjas correm. As raparigas precipitam-se então para as poças
de água cristalina, onde peixinhos de cores cintilantes parecem bailar de pura alegria. Há-os vermelhos,
brancos com pintas negras, azuis delicadamente estriados de amarelo ouro, negros com caprichosos
motivos vermelhos, verdes parecendo folhas, e ainda os gordos peixes-gato que se confundem com a
areia clara do fundo. Famílias de ouriços aninham-se nos recantos mais escondidos, e holotúrias cor
de coral descansam imóveis no leito de plâncton. Nas poças mais fundas, com água pela cintura ou
pelo peito, Suhura e as companheiras procuram, com os olhos experientes, algum peixe maior que se
tenha descuidado de acompanhar a maré. E quando o descobrem, apanham-no nas capulanas estendidas
que dobram rapidamente, com movimentos silenciosos e coorde- nados. Seguem depois para os
bancos de coral onde, com a ponta dos facões, ou mesmo à mão, arrancam da rocha arenosa e húmida
o mexilhão, a amêijoa, a tjaça, o ouriço branco... Tudo o que o generoso mar da Ilha oferece para
conduto do seu caril. Aproveitando a mesma oferta, grupos de raparigas, crianças, e até velhas
de espinha quebrada espalham-se pela praia. E tudo gente paupérrima da Ponta da Ilha. Mas procuram
o marisco cantando belas e antigas canções, cuja origem se perde na memória dos avós dos seus avós.
De vez em quando estalam gargalhadas, algumas provocadas pelo simples prazer de desfrutar estes preciosos
momentos de liberdade e gratuita beleza. Mais além, ainda mais para além dos bancos de coral,
o oceano que recuou, espraia-se em caprichosos tons de azul e verde. E o seu longínquo marulho é
a música de fundo desta paisagem perfeita. Por isso, é tão difícil a Suhura e às companheiras deixar
a praia quando, já com as alcofas cheias de marisco, têm que regressar às suas palhotas decrépitas
e abafadas.
Lília Momplé
In: Ninguém Matou Suhura, por Lilia Momplé.
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