A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


UM MISSIONÁRIO DA COMPANHIA DE JESUS


HÁ UMA ILHA NAQUELA COSTA AFRICANA...

    Naquela costa Africana da Etiópia oriental, a que com mais individual nome chamam os Geógrafos, a
Costa de Cafraria, vai a mesma costa fazendo uma meia lua com a Terra firme, e na Obra, e entre os
pontos deste semicírculo, está a pequena Ilha de Moçambique em 15 graus para o Sul, comprida uma
meia légua muito escassa, e de brevíssima largura: razão teve o Poeta Português, para dizer, chama-se a
pequena Ilha Moçambique. As Árvores, que tem são só Palmares, no pátio do nosso Claustro, vi
Limoeiros, Laranjeiras e Figueiras, como as do Reino, de que também há quantidade da banda da Terra
firme, como me disseram as mais frutas, são como as do Brasil, Goiabas, Papaios, Batatas, Bananas, etc.
Tem uma fortaleza muito boa com 4 Baluartes, e umas Couraças para o mar, muito boa Artilharia, para
sua defesa; pedirá de guarnição 300 homens; a cada soldado paga el Rei cada mês dois cruzados, e meio,
com duas Pangas e meio de arroz, e cada três meses, se lhes dobra esta paga, e quartel: Panga corresponde
ao nosso alqueire, e segundo ouvi dizer, este soldado era bem pago, ao que eu acrescentei, que também
era bem merecido; tem também um Castelão, que vale o mesmo, que Governador na Jurisdição, que
governa a Praça. Tem uma Alfândega, que renderá 50 mil cruzados (segundo ouvi dizer) cada ano; em
despachos de Marfim de que vi as praias cheias de âmbar e ouro: Tem também um Hospital Real, que
administram os Religiosos de S. João de Deus, assistem nele 7 ou 8 a cada um dos quais dá el Rei 250
reis cada dia, e vestiaria, e para gastos do Hospital 5 mil cruzados, de que o Administrador dá contas, com
seu cirurgião mor, que tem cada dia um cruzado.
    Tem casa de misericórdia, e Igreja Colegiada a que chamam Sé, com seu Prior e vigário geral, e um só
Beneficiado, com alguns Clérigos, mais uma Freguesia de São Sebastião cuja Igreja está no Castelo, uma
formosa Capela de N.a Sra. da Saúde, e outra de S. António, a quem saúdam e salvam as naus da índia;
não me pareceu o clima tão mau como sua fama, porque o visitavam as virações do mar, pela manhã e
tarde, é que me diziam que então era Inverno, sendo Agosto, e por isso parecia favorável ao terreno; é
muito falta de água, esta Ilha, e por isso se usa muito de cisternas.
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ESTA GENTE QUE ME ESPANTA...

    A maior dificuldade, é dar a notícia da gente, assim no número como na qualidade, que habita esta
ilha, porque quando íamos desembarcando, vi tanta diversidade nas praias, que estavam negrejando, e
ainda entre os mesmos Etíopes, tanta diversidade nas modas, que como as não podiam usar nos vestidos,
porque não trazem mais, do que o que serve para reparo da decência, ou que variavam na cabeça, no
diverso modo com que certos guiavam nos pendentes das orelhas, e no furar dos Beiços, em que
enxertaram um fio, com uma conta vermelha, nas manilhas dos braços, que também usavam nos pés,
como se nascessem destinados a Braga, e a Catineiro, e tudo isto confundia à mesma distinção dos
moradores; além destes, que são Cafres, há Mouros, outros há a que chamam Lascares, outros Gentios; os
Portugueses, além dos do presídio, são poucos, alguns Mercadores, e homens de negócio, assaz ricos, e o
seu modo de vestir à Indiática.
    Achei (segundo me informaram) que havia na Ilha 15 Portugueses, moradores fora do castelo, e 17
Canarins homens de negócio, Mouros, e Lascares, que assim são de seita e assim se chamam de nome os
que servem de Pilotos, mestres, Marinheiros, e os gentios, que servem os ofícios mecânicos da República
por descendência, e geração, sem poder passar a outro, 400 Cafres de serviço dentro da ilha, 10 500 além
de outros, que serão outros tantos da banda d'além na Cabaceira, que com alguns 15 Portugueses
compõem a freguesia, que cura o nosso Padre, que lá assiste com nome de vigário; as Embarcações do
Porto são umas canoas muito compridas de um só pau, como as descreve Camões, a que chama,
Armarias, e eles corchos, e Balois. O Dinheiro são cruzados mais grossos, que a nossa moeda de dois
tostões; meios cruzados mais grossos, que o nosso tostão, moeda de prata, e só corre aqui Bacarucos, que
é moeda, que parece de chumbo na cor, mas não na brandura, a que eles chamam de Tutanaga, no valor,
um real, 2; 5; 10; 15; o outro dinheiro são pastas de oiro, que correm por meticais.

Um missionário da Companhia de Jesus

MOÇAMBIQUE EM 1688, escrito por um missionário da Companhia de Jesus. In: Records of...., by
George McCall Theal, vol. IV, 1899



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