A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


ANTÓNIO PINTO MIRANDA


PARA UMA NOVA CIDADE

    O aumento desta Conquista pende muito da edificação desta cidade, a qual se deve
edificar na outra banda, fronteira à Ilha de Moçambique, em lugar mais proporcionado.
Concorrendo os moradores da dita vila se pode facilmente erigir desta sorte. Cada
pessoa estabelecida em Moçambique pode pôr vinte escravos prontos, e estes para que
não fujam se prenderão como os forçados das galés, e com cada dez andará um soldado
municiado, primeiro para algum insulto ou fuga que eles queiram fazer, como para com
mais diligência trabalharem.
    (...)
    O dinheiro que deve correr há-de ser do nosso Reino, e nem eles poderão levar mais
pelas suas obras, que no reino recebem. Os barcos que do Reino, América, Goa, e Norte
vierem para estes portos, serão obrigados a trazer por lastro tantas mil pedras de cal, as
quais depois em manchuas de Goa e nos mais barcos de contrato, se podem conduzir
aos portos de Quelimane, e de Luabo, e de lá levarem-se, aonde a necessidade o pedir.
    Dará brado grande isto tudo nos corações ociosos dos moradores, e nacionais
habitantes, porém entretanto que dão exercício a pena e língua, se livrarão de maiores
ofensas de Deus.
    Darão alguns por desculpa dos assistentes de Moçambique que tem a sua escravatura
determinada, neste e naquele serviço, porém todos são em contratos ilícitos, porque em
um alqueire de trigo, que lhe custa muitas vezes dois cruzados, fazem neles dez e doze,
e às vezes mais nas munições do Reino, e assim no mais, servindo-lhe a escravatura
com algum súbdito, fiel na sua inteligência, (que não passa de natural de Goa) a irem
em embarcações a terra firme de Macuana a introduzir a venenosa espécie de pólvora, e
armas como já relatei, para seguir com este seu interesse o maior dano, e gravíssimo
prejuízo além de que em geral, é só cuidar na sua própria utilidade, e jamais olham para
o bem e aumento da Conquista. Evita-se também a frequência dos barcos estrangeiros
que das Maurícias vêm à vila de Moçambique a contratar em escravatura, mas a isso
não vêm eles sós, pois juntamente como ardilosos observam a disciplina militar, o
reglado da fortaleza, para poderem, em a ocasião o pedindo, darem os seus ataques a
salvo.
    Concluída a cidade por este modo se fortificará com bombardas e mais apetrechos de
guerra, nela se porão duas companhias, uma de artilharia, e outra de cavalaria, para o
que irão as manchuas a Zanzibar, e Mombaça e outros lugares, adonde há quadrúpedes
buscá-los, levando para isso os géneros em que lá se faz o negócio.
    Depois disto pela mesma ordem se farão de légua, ou dois os fortes necessários, e
neles se porão em cada dez soldados de cavalo, os quais serão casados, e se lhes
consignará a cada um terra suficiente para fabricá-la como na Europa. Nos lugares que
forem convenientes se farão freguesias para o povo ouvir missa, e em outros se
estabelecerão vilas, aldeias, castelos, até chegar a Quelimane, pelo direito de marcação
da agulha. Porém se os moradores de Moçambique não estiverem pelo que exponho
melhor se pode fazer, e com mais lucro: far-se-á em Moçambique um armazém capaz e
fortíssimo, deixar-se-ão vir negociar aí embarcações que quiserem, e todas as fazendas
se tomarão para o armazém por conta da Sua Magestade, dali irá para os portos que em
todos devem haver os mesmos armazéns, e se venderá com dinheiro, marfim, e
escravos, estes por taxa à vista, e dentro em dez anos com o negócio vedado aos
mercadores para nada ser por sua conta, mais que pela do Rei, com o tal tempo passado,
se achará suficiente quantia para a nova edificação das cidades.
    Entretanto os moradores todos darão seus escravos, e escravas a rol, e consignar-se-á
a cada um tantos; e que nunca jamais excedam; e os mais comprá-los por taxa para o
serviço da Conquista.
    Os mantimentos todos se guardarão em celeiros, e deles vender-se-ão taxados. Os
escravos que se comprarem, debaixo de custódia e prisão, se farão trabalhar o já
exposto. Nos lugares determinados, para estaleiros, fabricar-se-ão barquinhas, e
manchuas, umas para conduzirem pedra e cal, e outras madeiras, e isto de negócio.

António Pinto Miranda


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