
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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PARA UMA NOVA CIDADE
O aumento desta Conquista pende muito da edificação desta cidade,
a qual se deve edificar na outra banda, fronteira à Ilha de Moçambique, em lugar mais proporcionado.
Concorrendo os moradores da dita vila se pode facilmente erigir desta sorte. Cada pessoa estabelecida
em Moçambique pode pôr vinte escravos prontos, e estes para que não fujam se prenderão como os forçados
das galés, e com cada dez andará um soldado municiado, primeiro para algum insulto ou fuga que eles
queiram fazer, como para com mais diligência trabalharem. (...) O dinheiro que deve
correr há-de ser do nosso Reino, e nem eles poderão levar mais pelas suas obras, que no reino recebem.
Os barcos que do Reino, América, Goa, e Norte vierem para estes portos, serão obrigados a trazer
por lastro tantas mil pedras de cal, as quais depois em manchuas de Goa e nos mais barcos de contrato,
se podem conduzir aos portos de Quelimane, e de Luabo, e de lá levarem-se, aonde a necessidade o
pedir. Dará brado grande isto tudo nos corações ociosos dos moradores, e nacionais habitantes,
porém entretanto que dão exercício a pena e língua, se livrarão de maiores ofensas de Deus.
Darão alguns por desculpa dos assistentes de Moçambique que tem a sua escravatura determinada,
neste e naquele serviço, porém todos são em contratos ilícitos, porque em um alqueire de trigo, que
lhe custa muitas vezes dois cruzados, fazem neles dez e doze, e às vezes mais nas munições do Reino,
e assim no mais, servindo-lhe a escravatura com algum súbdito, fiel na sua inteligência, (que não
passa de natural de Goa) a irem em embarcações a terra firme de Macuana a introduzir a venenosa espécie
de pólvora, e armas como já relatei, para seguir com este seu interesse o maior dano, e gravíssimo
prejuízo além de que em geral, é só cuidar na sua própria utilidade, e jamais olham para o bem
e aumento da Conquista. Evita-se também a frequência dos barcos estrangeiros que das Maurícias vêm
à vila de Moçambique a contratar em escravatura, mas a isso não vêm eles sós, pois juntamente como
ardilosos observam a disciplina militar, o reglado da fortaleza, para poderem, em a ocasião o pedindo,
darem os seus ataques a salvo. Concluída a cidade por este modo se fortificará com bombardas
e mais apetrechos de guerra, nela se porão duas companhias, uma de artilharia, e outra de cavalaria,
para o que irão as manchuas a Zanzibar, e Mombaça e outros lugares, adonde há quadrúpedes buscá-los,
levando para isso os géneros em que lá se faz o negócio. Depois disto pela mesma ordem se farão
de légua, ou dois os fortes necessários, e neles se porão em cada dez soldados de cavalo, os quais
serão casados, e se lhes consignará a cada um terra suficiente para fabricá-la como na Europa. Nos
lugares que forem convenientes se farão freguesias para o povo ouvir missa, e em outros se estabelecerão
vilas, aldeias, castelos, até chegar a Quelimane, pelo direito de marcação da agulha. Porém se os
moradores de Moçambique não estiverem pelo que exponho melhor se pode fazer, e com mais lucro: far-se-á
em Moçambique um armazém capaz e fortíssimo, deixar-se-ão vir negociar aí embarcações que quiserem,
e todas as fazendas se tomarão para o armazém por conta da Sua Magestade, dali irá para os portos
que em todos devem haver os mesmos armazéns, e se venderá com dinheiro, marfim, e escravos, estes
por taxa à vista, e dentro em dez anos com o negócio vedado aos mercadores para nada ser por sua
conta, mais que pela do Rei, com o tal tempo passado, se achará suficiente quantia para a nova edificação
das cidades. Entretanto os moradores todos darão seus escravos, e escravas a rol, e consignar-se-á
a cada um tantos; e que nunca jamais excedam; e os mais comprá-los por taxa para o serviço da
Conquista. Os mantimentos todos se guardarão em celeiros, e deles vender-se-ão taxados. Os escravos
que se comprarem, debaixo de custódia e prisão, se farão trabalhar o já exposto. Nos lugares determinados,
para estaleiros, fabricar-se-ão barquinhas, e manchuas, umas para conduzirem pedra e cal, e outras
madeiras, e isto de negócio.
António Pinto Miranda
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