
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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QUINZE DIAS NA ILHA DE MOÇAMBIQUE
Durante três semanas trabalhei como biólogo na Ilha de
Moçambique. Enquanto ali estive fui registando notas dispersas no caderno que sempre me acompanha
nas andanças de profissão. Retiro agora algumas dessas dispersas anotações.
Primeiro dia
De Nampula viajamos numa velha carrinha. São ainda visíveis as feridas da guerra. A estrada,
roída pelas minas, ainda não se recompôs. O motorista, falador, vai comentando: — «Esta era zona
cem por cento; aquela era cento e cinquenta por cento». Camiões e autocarros queimados confirmam
as palavras do motorista. Campos de sisal abandonados hasteiam as flores, como bandeiras de solidão.
A terra ficou quase duas dezenas de anos sem cuidados. No meio do nada nos surpreende a obra,
também abandonada, do alemão Wolf. Em pleno mato este europeu plantou não um jardim mas uma floresta.
Wolf construiu casas, vivendas, um pequeno aeroporto. O alemão foi assassinado durante a guerra.
Tudo aquilo está agora deserto, como que guardado por fantasmas. Chegamos à ilha ao fim da
tarde: o Luís Filipe e o Amoor estavam, como prometido, à nossa espera. Eles são da Associação de
Amigos da Ilha. Recebem-nos com antigas simpatias. Logo ali se estabelecem os primeiros contactos
com os chefes religiosos e os notáveis locais. Abrem promessas que, sabemos, serão cumpridas. O meu
colega sorri e aproveita para dar lustro ao lugar comum: «À hospitalidade das ilhas». Me
instalo na única pensão. A noite acordou os seres que partilham, sem que eu suspeitasse, o meu pequeno
quarto. À terceira aranha, venho à janela ver a lua. À décima barata abro as portadas e saio para
o pequeno balcão. Fico ali me varandeando até o sono voltar. Ao sétimo rato, desço as escadas e vou
dormir para a praia.
Segundo dia
No dia seguinte, nos realojámos numa das casas em
Aly. Começava então outra estada, outra ilha. A casa tinha sido reabilitada. Nós éramos os seus estreantes.
A ilha se desacostumara de ver estranhos. Quando passamos nos saúdam. Mas não nos dedicam demasiadas
atenções. Nessa tarde, fui ver o pequeno mangai frente à capitania. Miúdos apanhavam invertebrados.
Me aproximei para que mostrassem o que colectavam. Abriram em concha as mãos. E me exemplificaram
como se preparavam aquelas bichezas. Sugaram, para amostra, logo ali alguns. O meu bloco de apontamentos
tombou no matope. Os meninos se riram. Juntei-me ao riso. No enquanto, eu me espantava: estes meninos
não me pediram dinheiro. Senti, então, um cansaço acumulado de Maputo, cidade doente. Cansado
de haver dinheiro mediando encontro com os outros. Volto a casa pelas ruas estreitas. As paredes
caiadas multiplicam a luz em sóis terrestres. Um homem me aborda, com modos clandestinos. Quer vender
uma pele de jibóia. Pode trazer peles outras, incluindo de leopardo. Explico-lhe a razão da minha
presença. Informo-o sobre as minhas andanças de cuidador dos bichos. A minha missão é pôr cobro
a essas matanças. Faço-o com cuidado para não o intimidar. Terei, porventura, sido cuidadoso demais.
Pois ao vendedor logo lhe ocorre outra via de negócio: — Se calhar o senhor é que me podia abastecer
a mim.
Terceiro dia
Vou para o continente, para a Grande Cabaceira. Aqui a terra
se forra de mangais, essas árvores que bebem nas margens do mar. Com a pequena canoa atravesso uma
infinidade de canais. Tudo em redor é silêncio. Estou como grilo na alface: nem me apetece cantar,
em meio de tanto verde. Aqui o mar não faz ondas. Respeita o espreguiçar do litoral, dilatando
o peito, de bem consigo mesmo. No mangai, o mundo tem saudade da terra? Porque aqui se guardam
os antigamentes, os princípios da vida e suas viagens. Aqui se prossegue a criação dos vivos, o parto
dos mares e das praias. No matope, as garças repentinam suas alvas plumagens, coágulos brancos
em fundo cinza. Ainda o meu barco nem se distingue e o pássaro nos captura em olhar grave, de caçadora
interrompida. Depois, a garça retoma a emboscada. O pescoço e o bico — o arco e a flecha.
O remo na água assusta-a. Lança o voo lento sobre as copas. A garça vai descascando as nuvens. Agora,
o céu segura as suas asas. Encostamos a canoa numa margem. A paisagem em volta é feita de raízes
entrelaçadas que mergulham nas águas. Estamos cercados por esse misterioso cenário. Meus companheiros
se interrogam: «m que nenhum lugar estamos? O Ricardo se lança na água. Mas não se entrega a nadar.
Lhe apetece ser barco, flutuando, inerte e silente. Eu saio e me encaminho terra adentro. Minhas
pernas se afundam no lodo. Nenhum chão é tão movediço. Mas eu devo andar e surpreender os caranguejos
para saber da sua identidade. Apanho uns quantos. E olhando os bichos debatendo-se em meus dedos
os vejos subitamente aparentado aos gananciosos. É que o caranguejo tendo tanta perna só anda
para trás.
Quarto dia
Vamos para as outras ilhas vizinhas. Primeiro, à Ilha das Cobras.
O mar tem aqui um jogo: entra por baixo, esgravata o ventre das rochas. Pelo centro dela reemerge
para respirar. A ilha sorri com cócegas no umbigo. Um lago interior se escava na margem pétrea.
A ilha não tem humano habitante. E por ali se espalham vestígios da presença de efémeros pescadores.
Faz pena ver as gigantes carapaças das tartarugas. Ali, debaixo do sol, se cometeu um crime. As tartarugas
marinhas, em vias de extinção, deram repasto aos pescadores. Em simultâneo, serviram de refeição
e de panela. Os velhos répteis são punidos pela sua lealdade ao lugar onde nascem. Retornam,
anos feitos, à mesma praia onde nasceram. E ali, nas praias do continente, residem seus maternais
leitos: areias brancas que cegam o sol. Em redor da ilha, os fulgurantes corais. Vaidosos estão
em exibição de suas próprias cores. Meu desajeito me desaconselha natações. Mesmo assim, em balanço
no barco, tudo me é visível. O mar com seus fundos. Mas belezas nem sempre são riquezas. Estas águas
tão límpidas são águas pobres. E os pescadores já se queixam: diversidade conforta os olhos mas não
alimenta. Ilha de Goa: o barco que me leva volta a partir logo a seguir. Fico só, percorro segredos
e recantos de vegetação que nunca vai além do arbusto. Os ventos castigam as folhas com invisíveis
sais. Nenhuma planta ultrapassa o porte de arbusto. Neste lugar, vale a sentença: toda a altura será
castigada. Dou a volta à pequena ilha. Cinturinha que se alcança em menos de duas horas. Visito
o faroleiro. Ele me abre a estreita porta de sua fortaleza. Penetro no farol como se entrasse pelas
entranhas de uma girafa marinha. O faroleiro me convida para almoçar. Partilhamos um caril de peixe
seco. Na sombra anoto estórias, as lendas das baleias que se chegam às praias para aliviar carências
dos homens. As baleias são raras por ali. Mas existem dugoungues. Ainda sobrevivem estes mamíferos
que deram origem às lendas das sereias. Os tímidos comedores de ervas marinhas, como as tartarugas,
não estão aptos a sobrevivências.
Quinto dia
Volto aos mangais da Cabeceira. Os ilhéus
vêm aqui cortar lenha. Devemos contabilizar a taxa de corte para averiguar da sustentabilidade do
recurso. De novo nos embrulha essa paz de Adão sem Eva. Ou de Eva e mais ninguém. O Sol vai
enchendo de meio-dia o mundo. E as sombras, sempre inacabadas, parecem súbitos desmaios da luz.
Flutuando sobre as águas claras a garça preta se enrodilha, cabeça oculta no redondo das asas. A
ave imita um sombreiro, fabricado-rã de sombras. Aquelas
são mortíferas penumbras. A garça espreita, no fundo, a inadvertência de um peixe. Deflagra o pescoço,
súbito chicote. E exibe a presa, às pratas.
Sétimo dia
Os flamingos nas salinas. Róseas
pinceladas, sujando o lodo de fascínio. De repente, um miúdo surge correndo. Afogueado nos avisa:
— Fujam, estão a vir pessoas para vos matar! Olho os meus companheiros. Todos estão atónitos.
Não queremos acreditar no moço. Como é possível? Se até ali tudo foram simpatias e acolhimentos.
Mas, um grupo de jovens, munidos de paus e pedras, confirma o alerta. E colocamos em fuga. No cami-
nho, enquanto nos escondem em suas casas, os chefes religiosos nos explicam: — Circula por aí
que vocês são chupa-sangue. O termos andado a mergulhar com garrafas de oxigénio fez reacender
o velho boato do fantasma que sorve sangue humano durante a noite. Os Ches nos pedem que fiquemos
escondidos em suas casa até que tudo se esclareça. — Vai levar tempo, nos advertem.
Décimo
dia
Foram precisos três dias para poder voltar sair. A manhã parece ainda mais saborosa
depois do forçado retiro na sombra. Volto a passear entre as ruínas da ilha. E penso: todas as ruínas
do mundo pesam sobre nós. Como se a nossa alma fosse o chão de toda a humana obra. Mas estas ruínas
são diferentes das outras, as das cidades que se esboroam. Aqui as casas murcham. A maresia é o musgo
branco que o tempo semeia. O tempo quer tudo em chão, no liso da superfície. O ar salgado é um carcomedor
de edi- fícios. Como que a provar que o mar não acaba na água.
Décimo primeiro dia
A nossa casa não dispõe de geleira. Necessitamos apoio para congelar peixe. Me sugerem pedir
ao Padre Lopes. Dirijo-me a sua casa e surpreendo-o orando no terraço. Assim, em contra-luz, mais
parece um muçulmano em flagrante reza. Influência de um lugar em que a maioria é islâmica? O padre
desce a escada, como se orar o tivesse cansado profundamente. É um homem baixo, tisnado e barbudo.
Me aperta a mão. Ainda eu não disse nada já ele pede que eu fale mais alto. O padre é quase surdo.
Conversamos e ele se vai revelando um persongem rico, capaz de entreter histórias de mil vidas.
Enquanto falamos eu noto um ruído estranho. Parece um rádio mal sintonizado. O barulho é a pontos
de interferir na minha capacidade de ouvir. Chamo a atenção do padre e ele ri-se. Retira do ouvido
um minúsculo aparelho auditivo e diz-me: -O barulho, meu amigo, vem daqui desta porcaria deste
aparelho.
Décimo segundo
As ruínas das casas ocupam só a parte de cimento. No resto, o
bairro de caniço não levou sobressalto, aos tropeços com a História. Mas os escombros das velhas
casas não carregam apenas o selo da ausência. Há habitantes que ocuparam os escombros. São refugiados
da guerra. Um dia, diz-se, regressarão ao continente. E há outros, mais subtis residentes. Há a figueira
da índia que aspira a serpente argoleando entre as fendas das paredes. Nas ilhas sempre eu
procurei o fascínio da viagem por fazer. Na ilha de Moçambique encontro a desordem quieta, o caos
sentado, em fleuma, na varanda. Ali tudo espera um reprincípio.
Décimo terceiro dia
Me deleita esta maneira macua de falar português. Não há, em todo o Moçambique, modo mais feminino
de namorar com o idioma luso. Esse idioma que, fazendo Moçambique, se fez moçambicano. No falar dos
macuas se indistintam África e Portu- gal. Ou são mestiçagens que vem de mais longe? Com o
velho Che Amur me divirto a inventar palavra, selvagiando prosa. Abrimos a porta dessa gaiola que
é a gramática. Esperamos que a palavra deflagre suas casas. Afinal, a ave nunca esteve lá. O espaço
é que saiu como voando. Amur me contou uma história que, depois, em minha reinvenção se mudou
no conto «A Praça dos Deuses» que eu registei em Estarias Abensonhadas. Tempos de riquezas em
que as casas rivalizavam os corais. Vizinha do ĺndico, noiva do passado, a Ilha ainda está cheia
alma. As raças aqui se misturaram até perderem seu nomes de origem. Ilha do meu país, cadinho de
sangues, hemomagma de onde o território partiu em viagem para a nação moçambicana. Em tempos
o futuro tomou posse nesta ilha. Agora, o porvir adoeceu. Quem sabe de vez?
Décimo quarto dia
Esta noite ventaneou muito. Aqui são poucos os coqueiros. As ilhas não se medem às palmeiras?
São as casuarinas imitando o zangado marulhar. Obsolento, o muro de protecção se quebrou um pouco
mais. Amanhã temos o serviço de medir o quanto da erosão, a fome do mar em desnamoro com a rocha.
Décimo quinto dia
As mulheres dançando o tufo lembram o mar e os marinheiros árabes.
O inglês do grupo se apaixonou por Raífa, a dançarina principal. Os dois conversam-se, depois
do espectáculo, nas varandas do velho palácio colonial. Não sei o que falaram, mas Raífa, depois
de John se retirar, se deixa ficar em solitário abandono. Volto atrás a oferecer-lhe boleia. Então,
noto que limpa apressa- damente as lágrimas. Sorri, em disfarce. E me pergunta: — Um palácio não
é sítio bom para chorar?
Mia Couto
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