
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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INTERIOR DE PENUMBRAS
A casa era um edifício grande, quadrado e de aspecto sólido, com
um tecto plano. Estava rodeada por um muro com 10 ou 12 pés de altura, que delimitava um terreno
com cerca de um acre e dentro do qual havia uma cozinha, anexos para os escravos e um estábulo
onde cabiam três cavalos. As divisões do rés-do--chão eram grandes e altas, mas apenas eram utilizadas
como armazéns. No primeiro andar havia uma grande sala de visitas e mais três divisões e
chegava-se lá, vindo da parte da frente da casa, através de uma porta no rés-do-chão que conduzia
a uma maciça escada de pedra e, pelas traseiras, por uma escada dupla de pedra que partia do
pátio. Os locais das janelas das divisões do rés-do-chão tinham grades de pau-ferro; a porta
da casa era dupla e de dois batentes e todas as ferragens eram pesadas, incómodas e enormes,
tendo como finalidade evidente resistir a qualquer ataque dos nativos. As janelas das divisões do
andar de cima eram constituídas por uma metade em .vidro e uma outra formada por uma porta de madeira,
com dobradiças, que se abria para entrar o ar; a parte de vidro estava provida de uma porta semelhante
para evitar, caso necessário, a luz intensa dessa latitude. A sala encontrava-se mobilada
com dois sofás indianos, leves, que pareciam frescos e convidativos; uma dúzia e meia de cadeiras,
de todos os formatos, provenientes dos quatro cantos do mundo, sendo evidente na sua forma que o
conforto fora a qualidade pretendida; algumas boas gravuras francesas coloridas nas paredes; alguns
livros em inglês, francês, português, espanhol e italiano, tratando vários temas história, arquitectura,
mineração, poesia e belles-lettres espalhados pela sala, mostravam as predilecções do proprietário.
A um canto, havia dois barómetros, um francês e outro inglês, e ao lado, dependurado na parede, via-se
um aneróide. Noutra zona da sala via-se um dos duplidos-cópios de Dent para encontrar o sul por meio
da dupla reflexão do sol do meio-dia em qualquer latitude; a seu lado, um microscópio alemão e um
despertador francês. Entrando na sala ao lado, podiam ver-se uma lanterna mágica, puzzles chineses
talhados em marfim e um aparelho completo para a obtenção de daguerreótipos. Tudo isto evidenciava
os gostos variados do proprietário que costumava gabar-se de que, em casa, tinha tudo; para o provar,
quando visitámos o armazém que ficava por baixo, mostrou-me uma ratoeira enferrujada, uma máquina
americana para separar as sementes de algodão, palmas e agulhas, verniz de goma copal, foguetes,
e, em resumo, fosse o que fosse que eu dissesse, surgia, como por encanto, imediatamente aos meus
olhos. ......................................
VOZES APRISIONADAS
Quando ficámos com
a casa, os escravos, exceptuando um que era carpinteiro e parecia ser um protegido da portuguesa
Rosa, eram, sem excepção, os negros mais miseráveis e de aspecto infeliz que me fora dado ver. Pareciam
ter estado semi-esfomeados durante um longo período e encontravam-se cobertos de cicatrizes e feridas,
resultados evidentes de um tratamento brutal. Uma das pobres criaturas era de tal modo horrível de
se ver, que perguntei ao Sr. Soares se não seria possível fazer alguma coisa para lhe aliviar
os sofrimentos, quando fosse mandado para casa do pai do Sr. Soares para lá ser tratado pelo médico
dos escravos. Pediu-me que não pensasse que os seus escravos se encontravam sempre nesse estado e
atribuiu tal facto à sua ausência de Moçambique, afirmando que, quando regressava após uma ausência
mais ou menos prolongada, tinha a certeza de que descobria que alguns dos seus escravos haviam morrido
e muitos deles haviam fugido para território macua o que, sem dúvida, se devia ao tratamento cruel
por parte daqueles que deixara a tomar conta deles. Acrescentou que se congratulava por agora
ficarem comigo, porque tudo isso iria acabar, pelo menos para os que pertenciam a esta casa. Observei,
quando ele apareceu no meio deles, que batiam palmas, como se se alegrassem com a sua presença, mas
não vi qualquer expressão dessa emoção nos seus semblantes; e em breve fiquei a saber que batiam
as palmas quando me viam, ou a minha mulher, na verdade, a qualquer pessoa de cara branca e que
não era apenas glorioso privilégio seu serem escravos, como tinham de exprimir a sua alegria deste
modo ao contemplarem os seus opressores. Quão abjecta deve ser essa escravatura doméstica que
degrada tão baixo a imagem de Deus! Todavia, começámos a melhorar gradualmente as suas condições.
Devido à comida pobre, e em escassa quantidade, que lhes era servida, o seu sangue encontrava-se
muito enfraquecido, e os seus corpos cobertos de repelentes feridas supurantes; os dedos das mãos
e dos pés de alguns dos escravos mais jovens estavam quase apodrecidos e os seus opressores esperavam
que executassem, neste estado, as suas tarefas diárias. O aspecto de alguns era demasiado horrível
para ser descrito. Mandei que lhes aplicassem enxofre e banha de porco, e eu próprio tive de superintender
ao tratamento porque, de início, não conseguiam convencer os mais velhos a ajudarem os seus companheiros
de infortúnio mais novos. Foram instados a banharem-se em água salgada, de manhã e à noite. De
início, houve algumas dificuldades com o tratamento, mas graças a alguma persuasão os mais velhos
começaram a fazê-lo e, então, não houve dificuldade com os mais novos. A ração alimentar não era,
na verdade, suficiente para manter a vida, consistindo inteiramente numa espécie de cereal chamada
milho. Esta ração era distribuída mais ou menos uma vez por semana; um dia a mais ou a menos não
parecia preocupar ninguém. A comida distribuída deste modo aos pobres negros esfomeados era,
é claro, ingerida com avidez e o que era, presumivelmente, a ração de uma semana raras vezes durava
mais do que dois ou três dias e, ao quarto, estavam todos a gritar por comida. Até ao final da semana
não tinham qualquer hipótese de receber mais dos seus amos; por isso, tinham de os roubar, ou a qualquer
outra pessoa; caso fossem apanhados, eram chicoteados. A fome impelia-os continuamente para o roubo;
o chicote estava sempre pronto e, portanto, as flagelações sucediam-se. Caso sejam encontrados
a roubar cocos nas árvores, é costume em Moçambique autorizar o dono ou o guarda do palmar a abatê-los
a tiro. Não se faz qualquer inquérito à forma como ocorreu a morte do escravo e o corpo é atirado
ao mar. A razão para lhes darem tão pouca comida não é os seus donos serem incapazes de os
alimentarem, mas sim provirem de uma raça temida e ser necessário mante-los subjugados. Os Portugueses
vivem em contínuo terror de que os seus escravos se levan- tem contra eles e, por isso, empregam todo
o seu engenho na criação de meios para os controlarem e dão provas de um alto grau de crueldade que
julgo não existir noutras comunidades esclavagistas. Aqui em Moçambique, onde os escravos são abundantes
e não há dificuldade para os substituir, não são tão valorizados como nas regiões onde um ser
humano corresponde a vários milhares de dólares ou centenas de dobrões. Aqui, um escravo vale apenas
quarenta dólares, mesmo quando os barcos negreiros da Reunião ou de Cuba se encontram no porto. Se
um escravo é refractário e a flagelação apenas o torna pior, o amo prepotente, enraivecido com a
sua contínua desobediência, ordena ao brutal capataz que o açoite até «não precisar mais». O amo
assiste à punição e regozija- se na sua vingança. O escravo morre sob o chicote um punhado de dólares
chega para o substituir. Este é um dos factores que agravam especialmente a escravatura doméstica
em Moçambique, isto é, a facilidade com que o negro é substituído. Para os manter subjugados, aproveitam-se
todas as oportunidades para destruir a compaixão entre eles e a afeição natural. Manda-se o filho
açoitar a mãe e a irmã; o pai chicoteia as filhas e também a mulher que as carregou no ventre para
ele tudo isto por ordem do amo, que pode fazer deles o que quiser.
Lyons McLeod
In:
Travels in Eastern Africa...
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