
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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FREI BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES
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UM ROTEIRO DE NAVEGAÇÃO
A pequena e quase insignificante Ilha de Moçambique seria de muito pouca,
ou de nenhuma importância vista a conhecida intempérie do seu pestífero clima, a esterilidade do
seu terreno, e a absoluta falta de água se não fosse enriquecida duma espaçosa enseada e um porto,
que é sem contradição, o melhor, o mais seguro e mais cómodo, que se acha em toda esta dilatada costa,
se não quisermos exceptuar a Baía de Lourenço Marques em Cabo das Correntes, como em seu lugar demonstrarei:
É formada, esta grande enseada por uma espécie de semicírculo muito imperfeito, que entra para dentro
das terras entre a ponta da Bajona ao S.O. e a ponta da Cabaceira ao N.E. passando a sua diagonal
perto de duas ilhotas desertas, a que chamam Ilha de Sena, e Ilha de Goa, e por isso oferece três
entradas para dentro do porto, com diferentes fundos, e larguras, a primeira da banda sul entre
a dita ponta da Bajona, e Ilha de Sena, é muito larga, mas uma continuada restinga, e muitas coroas
quase à flor da água desde a mencionada ilha até terra, apenas permitem passagem a pequenas canoas,
ou embarcações de semelhante natureza; a segunda, entre as duas sobreditas ilhas é mais estreita,
e podem navegar por ela navios pequenos, que demandem p.çuco fundo; a terceira entre a Ilha de Goa,
e a ponta da Cabaceira, é propriamente a barra de Moçambique, que admite toda qualidade de navios,
até mesmo grandes fragatas. O canal desta barra é estreito, e flanqueado das restingas que saem tanto
da ilha, como da ponta da Cabaceira, por cujo motivo não entram nem saem navios, sem que tenham
a seu bordo o patrão-mor, que é o prático da barra. Os navios são obrigados a passar muito perto,
e quase junto à fortaleza de S. Sebastião, que pela sua bem escolhida posição local na entrada, e
boca do porto, o põem a coberto de qualquer insulto hostil. Fica o dito porto junto à cidade pela
banda do norte correndo paralelo com toda a ilha no espaço de mais de meia légua: acham-se nele os
navios ancorados com toda a segurança, livres dos insultos, ou ataques, que possa haver dos inimigos,
mas não isentos dos furiosos e horríveis tufões, que nestas terras chamam monomócaia, que já por
vezes têm causado grandes danos, perdas e destroços: quer Deus, que estas medonhas catástrofes sucedem
raras vezes, e se passam muitos anos sem que elas apareçam. .............................
UM
CAMINHAR NA CIDADE DE PEDRA E CAL
Na ponta N.E. da ilha está situada a bela e linda cidade
de Moçambique servindo-lhe como de coroa a grande e magnífica fortaleza de S. Sebastião, que pela
sua celebridade nos merece uma descrição particular, e adiante descreveremos. Saindo da dita fortaleza,
e passado um pequeno, mas vistoso campo todo limpo plano, e com vistas ao mar pelo sul, e pelo norte
aonde a tropa faz as suas evoluções, e exercícios militares; que serve como de passeio público à
cidade, e aos mouros de lugar destinado para fazerem amarras, viradores, e cordas de cairo, entra-se
na mesma cidade por duas ruas, além de outra que corre junto da praia pela parte do sul. Estende-se
a povoação por todo o comprimento da ilha até mais de dois terços da sua extensão, ocupando de mar
a mar todo o terreno intermédio. As ditas ruas e outras mais que tem a cidade bem podiam ser tiradas
todas em linhas rectas, paralelas, e cortadas igualmente em ângulos rectos, segundo inculca a natureza
do terreno; mas infelizmente quase todas são irregulares, tortas sem alguma uniformidade. São contudo
limpas, e asseadas, planas e algumas das principais argamassadas de tal forma, que causa gosto andar
por elas. Há em todas casas nobres e são algumas tão vastas e bem construídas, que podem entrar em
competência com os bons palácios das grandes cidades. São as casas e igrejas todas cobertas de terraços,
talvez mais pesados e mais fortes que as abóbadas de tijolo: Servem-se deles os moradores, não só
para os seus divertimentos, e passseios da tarde, mas principalmente para aproveitarem as águas da chuva
(únicas que se bebem em toda a cidade) em grandes cisternas, que junto das mesmas casas têm construídas.
....................... A NAVE DO ESPĺRITO
A igreja da Sé Matriz dedicada a Nossa Senhora da
Purificação com o título do Livramento, fica quase a meio da cidade junto ao mar pela parte do norte:
é templo grande, majestoso, bem construído de uma só nave, muito forte, e seguro coberto de terraço:
mas a capela-mor, que por fora mostra figura oval bem elegante, é toda fechada de abóbada de pedra,
da mesma forma terraçada: tem três altares, além de uma capela funda do Santíssimo Sacramento. Tem
uma pequena, e pouco decente sacristia, muito pobre, tanto no material, como no formal [...] ...........................
UMA PRESENÇA DIMINUTA
Não consta que tenham vindo para esta colónia casais destinados à sua
população, a não serem algumas mulheres criminosas, que por corrupção têm vindo degradadas, e se
têm casado já ou casam depois com homens da mesma qualidade, pois que não existe actualmente em Moçambique
uma só família que seja fruto destes colonos. Não obstante o que acabo de dizer, há na capital de
Moçambique algumas famílias brancas, as quais são descendentes de portugueses, que vindo militar
nesta colónia com as vistas de fazerem melhor fortuna nas graduações, e nos bens, vieram acompanhados
de suas mulheres, e filhas as quais casando-se aqui com outros militares da mesma natureza se têm
estabelecido no país e têm tido essa pouca descendência, que actualmente existe. Destes apenas haverá
hoje 6 famílias. .................... Frei Bartolomeu dos Mártires In: Memória chorográfica...,
por Fr. Bartolomeu dos Mártires.
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