
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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O LUPANAR DA HISTÓRIA
A Ilha foi um bordel da história, dos visitantes e dos conquistadores.
Foi uma enorme cela de escravos. Foi o porto fértil, a feira franca da exploração humana. Foi a paragem
obrigatória das rotas mercantilistas e subserviente lupanar dos senhores dominantes. Foi ainda a
prisão para deportados — criminosos de gestos ou de ideias. O povo local foi escravo, a mão-de-obra,
a fonte de riqueza e, ainda, a fonte de prazer entre as coxas gentis de crianças adultas. E de suas
mães. O ĺndico tinha ali o seu oásis. Paragem-zona. Obrigatória. Quando Vasco da Gama
chegou à Ilha, em 1498, encontrou já a roubar a população local, comerciantes árabes. À Ilha
viu toda a espécie de barcos, desde a piroga à caravela: pangaios, escunas, lanchas, chatas, barcas,
galeras, chalupas, paraus, veleiros, fragatas, canoas, palhabotes de velame latino. Viu pretos, indianos,
brancos, amarelos, mistos, rosados. Ladrões. Piratas. Mercantilistas. Colonialistas. Usurpadores.
Viu tangas em corpos nus e dourados em vistosas fardas de simbolismo pomposo. A todos deu comida,
cama e coxas abertas. Em troca deu escravos, ouro e marfim. Recebeu panos, filhos e, por vezes, uma
estranha doença conhecida mais tarde por sífilis.
Álvaro Belo Marques
In: «O barco encalhado»
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