
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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OS LUGARES DO AMOR(1999) ............................................................................................
Amor 3 - Ilha de Moçambique
Nem todos nós já vimos um nascer do sol sobre o mar.
A geografia conta e portanto a maior parte dos gregos e dos argentinos já, mas não dos portugueses. Ver
um nascer do sol sobre o mar era para mim uma vontade pueril, não realizada ainda mas querida, eu que
me habituara a ver tantos pôr do sol sobre o mar, centenas senão mais. Ainda antes de germinar em mim
o poeta cuja semente eu era, já descobrira que o mar rima com amar, embora o amor não rime com sol; mas
entre o mar e o sol há - como entre amar e o amor - uma história transparente. Ela repele-se duas vezes
por dia, quando ele nasce e quando finda. Ele, sol. Ele, mar, é mais possessivo e assegura a sua presença
mesmo quando a noite faz do sol o esquecimento. Eu ambicionava desde há tanto ver um nascer do sol sobre
o mar. Cada um tem a sua ambição particular, na realidade várias, mas uma mais ambicionável que as outras,
não é segredo para ninguém, salvo os que não têm (já? ) ambições. Cada vez que via um pôr do sol sobre
o mar, ou seja muitos, à alegria estética do acto juntava-se sempre, inexoravelmente, o desconforto (
a angústia, sim ) de que o sonho ainda por viver de ver um nascer do sol sobre o mar não era mais que
sonho, invenção de sonho, isso sim. Invenção do apetecível, qualquer coisa no interior da fronteira do
desejo. Ah! o desejo, esse dragão que desconfio, tenho a certeza, nunca quererei matar - decerto quando
o matar, matar-me-ei a mim mesmo. Tu achaste curiosa a comparação com o dragão; mal sabias - se é que
sabias, mas decerto não sabias - que nesse instante estavas a criar um dragão entre nós, só para nós,
um dragão que ia precisar de algum tempo de gestação, mas não muito, um dragão de desejo que ia crescer,
crescer, crescer e nós nunca haveríamos de querer, muito menos de crer, que deixasse de crescer. Não
deixou. O dragão do nosso desejo alimenta-se de tudo o que aparece, um olhar, seja ele cúmplice ou ingénuo,
um sorriso, seja ele breve ou prolongado, um mão na mão natural mas intenso, um pôr-te a mão no ombro,
ou algures, um beijo intemporal ( sim, os nossos beijos são sempre intemporais, porque não há medida
de tempo que os meça ). O dragão do nosso desejo alimenta-se de nós próprios e nunca haverá um São Jorge
que o abata, a lenda não é possível, viável, na nossa história, que é a história do amor que existe uma
vez única na História. O dragão do nosso desejo é selvagem e determinado e implacável - e assim é que
está certo, porque os dragões não foram inventados para serem convencionais. Um nascer do sol sobre o
mar seria, será, a realidade do sonho, disse-te igualmente - e tu sorriste, mas não compreendi se pelo
sonho, se pela realidade. Que importa, sorriste e isso era tudo. Havia como que um nascer do sol sobre
o mar no teu sorriso, certeza, não hipótese, e isso era garantia que um dia havíamos de ver juntos um
nascer do sol sobre o mar, juntos e cúmplices, juntos e serenos, com a serenidade da primeira madrugada
do primeiro dia do mundo. Havíamos de ver e, como se fora um dever, fartamos amor com a cumplicidade
serena da primeira vez, mesmo que, muito provavelmente, ela não fosse nem serena nem a primeira vez.
É que o dragão do nosso desejo está cada vez mais selvagem e imprevisto e indomável - e assim é que está
certo, porque isso nos faz felizes. A felicidade é a única palavra que conta, ou seja, não é a palavra
mas o que ela quer dizer, a felicidade é aquilo que chega por acréscimo quando já se tem tudo o que parece
natural ter, é como o mais leve que a água que vem sempre, inexoravelmente, à superfície, mesmo contra
a vontade dos ímpios. O nascer do sol sobre o mar estava nos teus lábios e, assim, eu beijei-o pela primeira
vez antes de o ver, estava no teu seio e, assim, eu acariciei-o pela primeira vez antes de o ver. De
facto, havia um nascer do sol sobre o mar no teu corpo, ou seria talvez que eu seja o sol e tu o mar?
Ah!, como tem imaginação fecunda o desmedido dragão do nosso desejo - e assim é que está certo, porque
a imaginação é o verdadeiro oxigénio do amor e só o amor que respira consegue gerar mais amor ( ainda
). O amor que respira - eis uma ideia viva, ou seja, não é a ideia mas o que ela quer dizer, o amor que
respira é aquele que floresce, que porfia e confia que o amanhã se deve de ser, por vocação, melhor que
o hoje. Tudo em ti me sabia a um nascer do sol sobre o mar, por isso, chegou enfim o dia da minha vontade
pueril. Foi de mãos dadas que as primeiras claridades do dia nos apanharam, na calma ancestral e silente
da ilha de Moçambique. O dragão tinha-se saciado, o nosso, de noite. Só os pássaros, atarefados, faziam
barulho, eles que não têm dia de descanso. A claridade foi aumentando, ao ritmo do trópico africano e
nós ali estávamos à espera. Também para ti aquele seria o primeiro nascer do sol sobre o mar da tua vida.
Enfim, um ponto vermelho saiu da linha marinha do horizonte e foi-se expandindo. Em breve o disco vermelho
estava completo e triunfante, contraponto ao azul do espaço. Estava ganho para nós o primeiro nascer
do sol sobre o mar das nossas vidas. Mas qual é, afinal, o valor disso, quando ao mesmo tempo o dragão,
o nosso, acorda de novo e reclama a sua pitança? Não nos resta senão servi-lo! ........................................................................................................
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